Elegia

 I

Este linho retorcido
Do céu de Novembro.

Na sombra aprumada
Agradeço o muro.

As unhas crescem,
Antigas como vinho.

O pão, por repartir:
O teu corpo intacto.

    Não queiras repetir o coração.

      II

Uma outra escrita,
Qual escuro Escuro risco.

E demorada, como
Fios do teu cabelo,

Esse arame sedoso
Onde abro os pulsos.
    
      Não queiras repetir o coração.

      III
      
Não, não mereço
O teu olhar: os corpos

Despenhados na elegância
Dessas jazidas de vidro,

Frágil amontoado de fósforos.
Vai, parte com a luz.

    Não queiras repetir o coração.

      
      IV

Maré alta na pupila:
Palavras promissoras.

Altos promontórios,
Onde levam as águas,

Se não sei o que vejo
E como te Ver?

    Não queiras repetir o coração.

Confissão De Um Crime

A primeira vez em que não ganhei um prémio de poesia
Foi no meu 6ºano, por altura do São Valentim, fiquei em segundo,
Perdi para o meu melhor amigo, as juízas foram as professoras de EVT,
Uma hippie e uma filha de militar de alta patente, a razão foi
Não ter feito referência a Camões na minha composição poética,
Na verdade foi para dar exemplo, já que eu era um criminoso,
Eu e o resto dos rapazes da turma tínhamos um processo disciplinar,
Todos, menos o vencedor do prémio, que depois da escola
Era levado directamente para casa, consta-se que espancámos violentamente
Uma colega em frente a um café depois da aulas,
Vingança por o seu mau comportamento na aula de português
Ter levado a que uma ficha de preparação se tornasse num teste de avaliação,
Muitas colegas choraram, não tinham estudado, não estavam preparadas,
Lá se fez e correu bem, na verdade eu fui um ladrão que ficou à porta,
Porque tive pena dela, também foi esse o argumento que me ditou a sentença,
O ditado popular, no julgamento, disse que lhe tinha dado um croquete,
Como fazia o professor de português do 5ºano, isto para não ficar fora,
O que fiz foi pousar-lhe a palma da mão na cabeça e ao sentir aquele cabelo
Quente senti uma grande amargura, por todos, pousei a mão como quem
Absolvendo se condena, e fomos condenados a trabalhos forçados,
Abrir buracos para o dia da árvore antes de almoçar, eu tive de abrir dois
Porque o primeiro chegou ao cabo eléctrico de um candeeiro,
No segundo que tive de abrir, todos os criminosos como eu, me ajudaram
E lá fomos comer, cheios de terra, fui destituído da função de chefe de turma,
Fiquei em segundo no prémio de poesia, acabaram por me dar cinco a EVT
E quatro a português, porque fui um ladrão que ficou à porta
E acabou por levar com uma sentença antes dos dez,
Deve ser por isto que até hoje nunca ganhei um prémio de poesia.

Turku

02.01.2017

Ler Friedrich Nietzsche

A obra de Nietzsche não é composta de textos-linha ou textos-superfície, são antes textos-palimpsesto que é preciso explorar a partir de uma multitude de perspectivas, talvez como se explora uma paisagem ao caminhar longamente através dela, abandonados ao acaso (sem que isso defina qualquer incoerência infecunda). No interior de cada texto exigente há deslocamentos de sentido, ambiguidades, ironias, contra-comunicações; uma infinidade de instabilidades, da pluralidade das palavras à pluralidade dos contextos. Aliás, quando um texto se dá à compreensão de uma só vez, não vale qualquer esforço de interpretação.

Mas não se devem abandonar certos protocolos fixados pela linguagem e desmerecer totalmente as indicações filológicas nietzschianas, nomeadamente a de ler lentamente, ruminando. E talvez os textos de Nietzsche já não sejam sequer um tecido verbal, parecem fragmentos cósmicos dispostos numa autoridade grave, vigorosos e implacáveis. É por isso que são dignos de comentários. E num bom comentário haverá uma espécie de fusão de horizontes entre Nietzsche e os seus leitores? Não, ele estimula ao avanço (em modo batalha, temerários), atropelando-o se for necessário (embora as suas resistências sejam proverbiais, mais do que um caiu do céu ao julgar planar por cima da sua obra, ou sofreu de vertigens aterradoras ao perceber que a altitude era excessiva, trágica). E quando isso é feito, quando pelo menos se desenha essa tentativa, então talvez Nietzsche pense em nós, dentro de nós (Claude Lévi-Strauss dizia isso em relação aos mitos, essa vida pensante que sacode todas as grelhas cartesianas, o sujeito é tomado pelo mito e não o contrário). Se assim for, não se esqueçam que terão de pagar um preço elevado pela liberdade de serem aquilo que vos apetece (com a excepção de cruzados de verdades indiscutíveis).

Áries ascende em Peixes; "Scarface; Um sotaque baiano resolveria quase tudo

Áries ascende em Peixes

Uma delicadeza de repente nasce
vestida pelo suspense de uma guerra,
colhida pela primavera secreta
que só as corujas conhecem. 

É flor, mas pode ser miragem. 
se chover, abriga a humanidade
enquanto desconfia do calendário,
das promessas e do impossível. 

Quer quase tudo, vagueia às vezes
e volta lúcida, tão sabedora de si
que nem parece que dorme. 

Tão brilhante a chama, não se vê
o que só o travesseiro sabe:
se Mulan tiver que se entregar
que seja a um guerreiro. 


“Scarface”


I
Teus olhos precisam de deserto

Tu preferirias tirá-los e finalmente
separar um do outro, deixando o direito
mais confortável pra ensiná-los a justiça ou
deixar o gauche queimar como bruxa ou

Sentindo prazer em enterrá-los vivos
enquanto o resto do corpo cega

Adivinhar que se debatem nos grãos
que arranham sem dó como gatos

mas não 

II
Repousas os olhos na mancha
que me corta o umbigo, sente
que se debatem – pombos
esfomeados – tremelicam de leve e tu ficas
feio, não sou alquimista, tu saltas
no meu corpo e me preenche
de cobertas até que começo
a te ensinar o fogo

Só então tu olhas o Sol
recusas mais uma manhã

Meu corpo te mancha de terra.

III
Teus olhos precisam de um
deserto como a mancha
do meu umbigo precisa
dos teus olhos me molhando

Teus olhos me comem e
me alimentam

Te enraízas cada vez mais

Te afundas

IV
Se eu te desse um deserto
talvez a tua torneira de açúcar
fosse a cereja do bolo 

Não a loucura que respinga
Não a loucura que incomoda

Tu enfim me desertarias

mas não

V
O amor ignora o coração
porque fica preso nos olhos

VI
Manchaste-me.


Um sotaque baiano resolveria quase tudo

O calendário fantasia os inícios
colocando açúcar

são tão estúpidos os feriados:
começam limpos e acabam
com copo de cerveja
na roupa nova

bebo ayuhasca e camomila
em feriados apaixonados
para despertar

ninguém para culpar pelas mãos
geladas ainda
transo com detalhes
sempre fria
 
tenho medo de vomitar o medo

se eu ganhasse o War
dançaria na linha dos trópicos:
ensaio o sotaque baiano

quando acabar o poema
escreverei calmamente:
ter útero dói

não fabrico amor.
como se vomita?

um útero é sempre
um escândalo:
A DANÇARINA DESMEDIDA
CANTA GIL NA LINHA
DO EQUADOR

E ele deixou quem berrava

                    E ele deixou quem berrava                   
queimar em vão & sem combate serem cinzas
enquanto o sol imerge & a noite roda o dia

Assim sem chance de causar mais morte
aos poucos passa a ira as mentes se arrefecem
tal como um peito ferido é mais feroz                           
quando é recente o golpe a dor & o sangue ainda entrega
aos membros movimento & os ossos não repuxam
a pele — mas quando a mão estanca então
o torpor ata as mentes os membros & retira as forças                            
depois que o sangue frio aperta nas feridas

Sedentos primeiro procuram por fontes secretas
cavando terras ribeiras subterrâneas
perfuram chão com enxadas ancinhos
com suas armas & o poço escavado no monte                   
desce ao profundo dos campos irrigados

Mas nem no curso oculto os rios ressoam
nada reflui das pedras abatidas
nas rochas nem orvalho se destila
nem veio emana dos cascalhos
jovens exaustos de suor
são retirados dessas minas
na busca pela água fez-se o calor
intolerável & os corpos fatigados
não se bastam de alimento & abandonando
as mesas assentam sua fome — se um trecho
do chão oferta um solo que se encharque
espremem sob a mão o sumo do charco
se encontram pelos cantos o preto dum limo
soldados se matam por goles & moribundos
matam a sede como vivos não fariam feito feras
secam o gado & quando leite acaba chupam
da teta exausta a borra do sangue então esmagam
ervas caules colhem ramos orvalhados
& apertam toda a seiva dos brotos
até a medula — felizes são os corpos
daqueles mortos pelos inimigos
& que infectam águas de outros rios
enquanto expõem ao dia o pus dixit Lucanus

que beberão homens de César

O fogo abrasa os órgãos a boca seca
a língua escama-se áspera & enrijecida
as veias mirram o pulmão ressequido
encerra seus canais suspiros duros
escavam mais os seus palatos & a boca
se arreganha a sorver o sereno da noite

                        esperam chuvas

que corram onde antes nadavam
o olhar se fixa na secura das nuvens
sedento o exército contempla
ali tão perto os próprios rios