Encruzilhada política, entre progressismo e conservadorismo

A crítica da razão cínica.jpeg

“Estou armado com uma couraça feita apenas de defeitos.”
Pierre Reverdy

Há uns tempos, Peter Sloterdijk, conhecida a sua terrível inclinação para a irrisão (daí denunciar tão bem os mecanismos cínicos que fazem parte do Ocidente na Crítica da Razão Cínica, 1983), afirmava que era um “conservador vanguardista”, jogando com uma aparente contradição mais apropriada à realidade do que a sua antiga auto-designação “nietzschiano de esquerda”. A tensão entre os termos conservação e vanguarda aviva a confrontação entre passado e futuro, mas sobretudo a oposição entre concentração identitária vs. dispersão identitária. Em Sloterdijk aquele centauro parece funcionar bem, em primeiro lugar porque projecta forças provocatórias com que o filósofo alemão da desconstrução (talvez não queira ser chamado assim) alimenta a sua veia polemista; em segundo lugar porque ele próprio, nascido na Alemanha de Leste (dita “Democrática”), desconfia da bondade intrínseca do chavão progressista que anuncia um homem novo e esplendoroso todos os dias, quando afinal só consegue alterações de cosmética para que tudo fique na mesma. E esta conservação faz-se pela desigualdade económica e uma “ininteligibilidade calculada” que, à semelhança da arte contemporânea, mantém os mortais afastados de uma complexidade só deslindável por meia-dúzia de especialistas ou, pior, de produções e funcionamentos arbitrários e desconcertantes (das emissões dos motores a diesel às dívidas soberanas). Talvez, refere o autor, nos estejam sempre a oferecer “bombons envenenados”.

Mas o que oleia a máquina sloterdijkiana pode fazer derrapar o homem médio que trabalha, consome e paga impostos (também se diverte e pensa, mas num grau inferior). E talvez seja por isso que a direita reaccionária (atenção que a esquerda anquilosada nas trevas estalinistas também não quer que a história avance, o reaccionarismo é um fenómeno multipolar) vai emergindo no mundo tradicionalmente inovador ocidental. O trumpismo, o putinismo e outros ismos conservadores, nacionalistas, culturalistas (costumo ser parcimonioso no uso do termo “racismo”, biologicamente infundado), elitistas... que apareceram impulsionados por uma plêiada de preconceitos e um politicamente correcto extremamente redutor, assinalam o mal-estar num Ocidente que durante séculos quase monopolizou os discursos sobre “avanços civilizacionais”, que mesmo quando redundavam em retrocessos passavam facilmente por virtuosos.

Este toque dos sinos a finados lembra-nos que não pensar nos problemas para não os revelar ou amplificar é geralmente uma má opção. Sobretudo porque, como dizem agora muitos comentadores que julgam curto-circuitar o senso comum, as causas que originam os problemas não desaparecem sob o silêncio poderoso da elite discursiva. Há visões do mundo, tricotadas com fios linguísticos toscos, que se propagam tão rapidamente como os melhores artigos de opinião de estetas e argumentadores profissionais, bem-pensantes e bem-falantes que, porém, não conseguem conceber o modo de funcionamento dos milhões de energúmenos que votam no Ocidente (às vezes bem, diga-se), nem tão pouco a mesquinhez calculista que passa rapidamente da frustração económica para as teses políticas proteccionistas mais elementares. Noutros termos, a globalização económica e cultural desbaratou o capital identitário que durante séculos firmou um contrato de sentido marcando facilmente as fronteiras que separavam o “nós” dos “outros”. Agora, tudo é vago, indistinto, mesmo o preço dos gadgets flutua animadamente ao sabor das deslocalizações industriais, das imitações e das desvalorizações monetárias. Há uma irracionalidade aparente que desintegra a identidade, há uma concorrência pelos talentos e pelos investimentos que mina o statu quo ocidental ou dentro dele de um ou outro país mais narcisista, há uma abertura tecnológica que desafia a supremacia da inteligência humana, desenvolvendo ou a angústia de outra queda icariana ou a perda da centralidade da espécie humana. Em resumo, vão-se erodindo algumas das certezas que costuravam o nosso eu, que mesmo sendo um patchwork (não nos iludamos) assegurava com eficácia um nível suficiente de identidade a cada indivíduo, permitindo até, como refere Nietzsche, matar Deus (sem que depois, como temia Dostoiévski, tudo se equivalesse, isto é, houvesse permissões sem freios no agir e no julgar, apesar das apocalipses do século XX).

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Neste caldo cultural que deixa medrar os oportunistas e os medíocres, com argumentos básicos vindos tanto da velhíssima estratégia do bode expiatório quanto da inflação balofa do vetusto conceito de “soberania nacional” (o soberanismo é uma reminiscência do Ancien Régime ou, na melhor das hipóteses, a recuperação de nacionalismos camuflados por detrás da ideia da auto-determinação geográfica e cultural; em boa verdade tudo influi em tudo, não há, pois, soberanidade, sem que isto inviabilize certos níveis de autonomia), cresce a desconfiança acerca do multiculturalismo (que, aliás, sempre foi mais tolerado do que valorizado) e percebe-se o regresso de grelhas dicotómicas baseadas na inclusão/exclusão. No meio disto, aparecem, pela primeira vez há muito tempo, novas racionalidades que estão entre a abertura e o fechamento cultural, entre o desaparecimento do humanismo eurocêntrico e a refundação das nações em torno dos valores tradicionais da comunidade dominante, entre o “vale tudo” e o “só vale aquilo que é nosso”. Ilustradas, por exemplo, pela voz de Philippe Bénéton no seu mais recente livro, Le dérèglement moral de l’Occident (A Desregulamentação Moral do Ocidente, ainda sem tradução portuguesa). Nesta obra define o Ocidente como o mundo das aparências, onde o indivíduo é, de direito, rei, mas, de facto, não possui uma real autonomia. Aparentemente super-livre, o indivíduo da “modernidade tardia” está sujeito a inúmeros constrangimentos, visto que, como refere uma nota do editor, “A grande arte do nosso tempo é a de dar ao conformismo o nome de liberdade, à desregulamentação moral o nome de emancipação.” Para o autor esta dissonância resulta e amplifica a crise moral do Ocidente, uma crise profunda, nutrida, por um lado, pelo cinismo, a paródia e a negação, e, por outro, por moralismos culturalistas ou multiculturalistas.

A propósito do livro, Bénéton deu uma entrevista ao jornal Le Figaro onde refere que a origem da desregulamentação moral do Ocidente está num pensamento que só concebe duas categorias legítimas de seres humanos: a humanidade e o indivíduo. É daqui que vem o discurso hegemónico sobre as virtudes da diversidade, percebendo-se mal que quando se amplia a diversidade se valoriza o indivíduo em detrimento da humanidade, desvalorizando cada vez mais as poucas coisas comuns entre essas partículas egológicas sobre-aquecidas e mimadas da espécie humana. No limite, só se partilha uma liberdade igual, estabelecendo somente um conjunto de “regras sensatas” necessárias a estar de vez em quando com os outros. Por isso, “A democracia liberal toma um novo sentido, ele advém de uma simples mecânica, definindo-se unicamente pelos procedimentos [que realiza]. O multiculturalismo supõe que toda a gente se pode entender com toda a gente, bastando um acordo sobre as regras do jogo.” Mas, cético, Bénéton alerta-nos para essas convivências falhadas que são as relações entre sérvios e croatas, gregos e turcos, hindus e muçulmanos, flamengos e valões... Apesar disto, a Europa persiste no discurso de uma “Europa dos indivíduos”, aberta a todas as perspectivas e modos de vida, sendo os Direitos Humanos o único constrangimento válido. Isto aprofunda o relativismo moral, presente nos meios de comunicação, na economia, nas ciências ou nas relações quotidianas. Mas esta indigência moral, dobrada sobre si mesma, dá nascimento a uma nova “moral de contrabando”, que o autor define assim: “por um lado a nossa modernidade tardia assume uma libertação moral: a cada um os seus valores, cada indivíduo é soberano, viva a liberdade, abaixo o velho orgulho moral! Mas por outro lado, são definidas a boa e a má maneira de viver e de pensar.” O “Mal” não desapareceu, alojou-se em qualquer crítica ou acção contra a liberdade, o pecado está agora nas formas, por mínimas que sejam, de descriminação ou de intolerância, incarnado nas palavras, muitas vezes auto-referenciais, “racismo”, “sexismo”, “elitismo”, “xenofobia” ou “homofobia”. Isto aponta para uma nova divisão moral da humanidade: “de um lado, os representantes do novo mundo, os heróis de uma sociedade aberta ou avançada, os progressistas, os modernos, os feministas..., do outro lado os retrógrados do velho mundo, os defensores de uma sociedade fechada ou tribal, os detentores da velha ordem moral, os conservadores ou ultra-conservadores, os reaccionários, os populistas, os xenófobos […], em resumo uma divisão entre amigos e inimigos da humanidade.” Recuperação de um maniqueísmo primário (haverá outro?) que, afinal, e contra o que parece dizer, não é muito favorável à discussão livre. Aposta-se no politicamente correcto (a que Bénéton chama “opinião dominante”, sempre super-conveniente, tanto que não precisa de ser justificada), diz-se o que a nova moral preconiza, o que todos acham oportuno, vence o anódino que permite o unanimismo. Esta retórica tem um poder imenso, “ela bloqueia, intimida, tende a reduzir os adversários ou os reticentes ao silêncio.” E assim quebra-se o círculo virtuoso da discussão, da confrontação, do agon grego. Mas há também as formas de ataque pela irrisão, em vez de se discutirem ideias usa-se a caricatura, a paródia, o ridículo. É mais fácil satirizar do que argumentar. A nova casta, inimputável, é constituída pelos “filósofo radical, o sociólogo crítico, o activista dos direitos humanos, o feminista militante, o jornalista bem-pensante”. São uma “casta” porque formam algo semelhante a “um ‘partido’ informal. Um ‘partido’ poderoso que nos diz como devemos pensar, sob pena de acabarmos na categoria dos maus.”

Felizmente, acredita Bénéton, este pensamento único já não é hegemónico, embora ainda seja dominante. Continua, pois, a ser preciso compor um debate leal que conteste as estratégias sofísticas que condenam logo à partida os discursos pelas suas intenções. Bénéton deplora (talvez exageradamente, mas enfim dispõe-se à discussão) que muitos jovens andem hoje à procura deles mesmos. À pergunta “quem és tu?”, responde-se por um evanescente “eu sou... eu!”, um ser auto-produzido, sem heranças. Mas este “eu” evapora-se facilmente, órfão de referências estruturantes (família, país, religião), não aguenta um pequeno ataque de dúvida metódica. Parece que nada vale o suficiente para ser investido com um compromisso sólido, capaz, em retorno, de trazer um sentimento forte de pertença. Reina a “grosseria e a vulgaridade”, a desilusão, o niilismo axiológico; isto permite aos fanáticos islâmicos ou evangélicos denunciarem a nossa fraqueza endémica: vamos ufanos desnudar-nos ou embebedar-nos, somos carreiristas e consumistas (Gottfried Benn dizia: “Ser estúpido e ter trabalho, eis a felicidade.”), mas não vemos nada onde valha a pena arriscar a vida (forma última de avaliarmos o que somos). Depois disto, o entrevistador pergunta-lhe se não será Bénéton um nostálgico do Ancien Régime e do poder da Igreja. A resposta é “não”. Considera-se uma “liberal-conservador”, no sentido de Tocqueville, liberal porque ligado aos princípios modernos (igualdade de direitos, liberdades públicas), conservador porque preocupado em preservar o enraizamento e o compromisso, as qualidades morais e espirituais. Em resumo, o ideal liberal-conservador é o da “liberdade com bons valores”. Nada fácil. E se quisermos acabar em modo ainda mais pessimista podemos socorrer-nos novamente de Peter Sloterdijk: “Não somos suficientemente loucos na nossa vida de todos os dias para discernir correctamente a loucura que passou a ser o estado normal da nossa vida corrente e da nossa história.” (Crítica da Razão Cínica, 1983/2011, p. 489).

A importância do não-dito

 Hölderlin concluiu a sua obra aos 30 anos

Hölderlin concluiu a sua obra aos 30 anos

Há um artigo/ensaio de Steiner que acho delicioso (delícia de ideias, como temos as delícias do mar), na tradução portuguesa (Miguel Serras Pereira) chama-se “O silêncio e o poeta” e pode ser lido em George Steiner. Linguagem e Silêncio, Ensaios Sobre a Literatura, a Linguagem e o Inumano (Gradiva, 2014).

Confesso uma admiração sem condições pela escrita de Steiner, recai-a sobre mim, pois, a suspeição de um aficionado embasbacado pelo que o entusiasma. Contudo, sou também um veterano da leitura (como do ténis), e pouco dado a fixações. Se gosto de Steiner é muito mais pelas suas qualidades intrínsecas do que por um capricho subjectivo (haverá caprichos objectivos?).

 A centralidade do texto trata das virtudes do não-dito, o palavroso ou cai na banalidade ou num excesso de tipo fáustico. Para chegar aí, Steiner assegura que desde o romantismo alemão, a palavra se foi submetendo à música. Wagner e Nietzsche, cada um à sua maneira, encarnam o ideal da supremacia musical. Revogada em parte a utopia da totalidade musical wagneriana, mantém-se, porém, “a ideia de que a música é mais profunda, mais inclusiva, do que a linguagem, de que irrompe imediatamente das nascentes da nossa existência”. A tese de Lévi-Strauss segundo a qual o compositor é um ser idêntico aos deuses (“un être pareil aux dieux”) prolonga Nietzsche (“A vida sem a música seria um erro”), o sucesso incomensurável de grupos musicais como The Rolling Stones, o tempo imenso que os adolescentes dedicam à música… Isto e pelo menos outro tanto demonstra o declínio da palavra.

Chegado a este ponto, Steiner muda ligeiramente de linha para, declaradamente, criticar o dizer excessivo, como se acusasse o uso pletórico da palavra de, entre outras coisas, ter aberto portas ao domínio da linguagem musical. A estratégia é destacar os autores que se silenciaram no momento certo, que não disseram mais do que deviam, e podiam. Hölderlin deu à língua alemã “uma densidade, uma pureza e uma plenitude de articulação formal inexcedíveis”. E tudo isto foi conseguido até aos trinta anos. Rimbaud escreveu Une Saison en enfer aos dezoito anos, e foi negociar armas para África, de onde enviou um “dilúvio de cartas”, mas sem uma linha que fosse de poesia. Neste caso, diz Steiner, o poeta abdicou porque julgou a acção acima da palavra. Kafka, por seu turno, que desejou explicitamente ver queimados os seus escritos não publicados (continuamos a felicitar Max Brod por ter sido infiel ao testamento do amigo), parece, refere Steiner, que deu ao seu estilo uma vitalidade onde “não há uma só sílaba antecipadamente garantida.” Este vitalismo obriga a palavra a seguir as leis da sobrevivência, banindo qualquer rodriguinho linguístico.

Estes exemplos supremos (Steiner faz alguma batota ao confrontar os mortais com os imortais) levam à conclusão de que as grandes obras têm pelo menos tanto de dito como de não-dito. Ora, já em 1966 Steiner achava que havia uma “massa de textos impressos, por entre os quais temos dificuldades em abrir caminho, desorientados”. E que “Uma civilização de palavras é uma civilização doentia.” A pressão para se produzirem obras-primas sobre obras-primas, “A proliferação da verborreia na investigação humanística”, a coscuvilhice, o “turbilhão de palavreado oco”, o excesso linguístico faz-nos suplicar pelo silêncio (forma, sem que Steiner o diga, de combater a efervescência musical): “O silêncio é uma alternativa. Quando a pólis transborda de palavras cheias de ferocidade e de mentira, não há ressonância mais intensa do que a do poema não escrito.” Era também o silêncio a arma mais temível das sereias, superior ao seu cântico, como nos relembrou Kafka.

É tempo, pois, de parar, peguem nisto à vossa maneira, eu vou abraçar uma árvore. Apesar de ter uma fé absoluta nas palavras.

Philip Roth, para uma oração fúnebre

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Multiplicam-se os obituários sobre Philip Roth, dos parágrafos singelos, mas quase sempre trivialmente verídicos, no facebook, às orações maiores dos mandarins da hermenêutica cultural, instalados nos melhores púlpitos da comunicação (esses a que chamamos de “referência” porque sacodem um depósito de ideias e palavras adultas, quase velhas, tudo definido a priori na cartilha do “bom gosto” dominante). Na verdade, Roth já tinha deixado de escrever há quase uma década, inexoravelmente, como em quase tudo o que fez ou não fez. Mas mesmo estas duas mortes não afectarão a vida dos seus livros, aliás, agora estão, creio, mais livres e vitais. Neste sentido, Roth não morreu. Mesmo se em 1990 pensava que dos 15 000 leitores que achava ter, passaria a 7 500 em dez anos, 2 000 em vinte e cinco anos e quase nada depois disso: “É o fim. Somos os últimos escritores...” (Libération)

Os clichés mais frequentes orbitam em torno do seu judaísmo e anti-semitismo (o uso da contradição é um sinal de inteligência, dizia Nietzsche), anti-americanismo lúcido (desmistificador do sonho americano), mas oportunista (foi a auto-irrisão americana, a mais vigorosa de todas, que o autorizou, e inspirou, à crítica da sua cultura), pornografia decadente (opondo-se à jubilatória de Sade ou Henry Miller, talvez também, de um certo modo, à de Nabokov em Lolita), amoralismo moral (novamente a contradição, neste caso parece-me que Roth ao deixar resvalar algumas das personagens para o imoralismo ainda quer realçar a moral abraâmico-burguesa, apesar de escrever que “Literature isn’t a moral beauty contest”), busca do estrato humano quase pré-cultural, talvez o Id freudiano e auto-escrutino (o bairro judeu de classe média de Weequahic, Newark,  alimentou muita da sua ficção autobiográfica). Tudo cosido por um fatalismo trágico, condensado na sua última obra, Nemesis (2010), não fosse ele um herdeiro voluntário de Dostoievski e de Kafka.

Mas dizem-se mais coisas sobre Roth, essas que compõem as vaidades, quase sempre feridas, e os ataques, tanto fingidos quanto aduladores, ao centro do mundo literário; lugar intangível onde se decidem as primeiras etapas da genialidade (creio que a seguir a corrida entra na alta montanha e a arbitragem passa para os leitores, que, diga-se, também se enganam). Repete-se, por exemplo, que mais uma vez “A Academia Sueca não soube estar à altura do romancista genial” (El Pais) Dos outros esquecidos, os meus preferidos são Proust (mas bem, morreu cedo) Italo Calvino e Jorge Luis Borges. Fala-se ainda, quase em uníssono, que Roth vivia para a escrita, “movido por um imperativo categórico”. (Idem) Esta abnegação conjuga uma ética do trabalho neo-protestante com o sacrifício último do génio romântico, mas em Roth tratava-se porventura de uma perpétua e obsessiva auto-análise, de se querer conhecer na íntegra. Ele usa a linguagem para exorcizar o seu inferno interior.

Por isso, interessa muito o que ele referiu sobre a tarefa (imensa, total, imperativa, escrava) de escrever. O de ser tão esgotante que não a aconselhava a ninguém. Em 1990 ao Libération: “Há trinta e cinco anos que estou sentado numa cadeira, em face de uma folha de papel que escrevo. Sete dias por semana. Começar um novo livro é um pesadelo.” Uma loucura vivida em profunda solidão. Os breves encontros com outros autores reforçavam a sua angústia, definida quase como uma síndroma de escritor. E mesmo a estranha relação que manteve com o seu alter-ego mais consistente, Nathan Zuckerman (narrador/autor de nove romances), muito mais do que um pseudónimo, talvez outra coisa que um heterónimo (The New York Times, 22/05/2018, refere que Roth construiu “mainly versions of himself”), revela que nunca, mesmo cinicamente, esteve apaziguado. Em The Facts: A Novelist’s Autobiography, o diálogo tenso entre Roth e Zuckerman mostra como o autor, prolífico e heteróclito, perdeu muito cedo (logo depois do sucesso vibrante de Portnoy’s Complaint, 1969), uma inocência que lhe permitisse acolher a beleza e a bondade que, apesar de tudo, percorre a vida. Veja-se também Operation Shylock: A Confession, 1993, onde em epígrafe coloca estas palavras de Kierkegaard: “Todo o meu ser grita em contradição consigo si mesmo. / A existência é, seguramente, uma escolha.”

Depois, sempre inscreveu sistematicamente a realidade na ficção e, num certo sentido, vice-versa, um vaivém difícil de decifrar, quase orgânico. Fazer entrar brutalmente a realidade na ficção para revelar o esplendor pífio do quotidiano, jornalista das misérias diárias, acrescentando depois um pouco de filosofia para discutir, em solilóquio, o que poderá distorcer tanto a interpretação para que o humano (uma mancha do divino?) se desvie de um campo de flores para espreitar um acidente com estropiados.

Philip Roth em Newark, 2003.png

Descobri Roth bastante tarde, um colega de trabalho lia-o, mas não o tinha literariamente muito em conta. Um dia, comprei numa feira a Pastoral Americana, e foi amor à primeira leitura. Não é tanto a intriga, a estética romanesca ou outro elemento formal qualquer que me seduz, nele admiro a frase, a depuração extraordinária de cada frase e a persistência com que decapa a carapaça do ser humano à procura de qualquer coisa que me escapa, mas neste processo de perfuração revela estratos primitivos que nos compõem, da preservação egoísta do eu até às pulsões libidinosas mais elementares (“o sexo ultrapassa-nos”), para lá de qualquer bem e mal ou dos jogos eróticos consagrados. E tudo servido numa presença densa, magnética, quando escreve sobre a banalidade desoladora e desastrosa, mas nunca asséptica, ou usa a sua magia literária tóxica (é difícil, como em Coetzee ou Céline, apanharmos linhas de redenção), sobretudo ao desmascarar, através de uma incrível energia da observação, o autocontentamento da classe média americana, principalmente a judaica. Também critica a compulsão para a ordem e a superioridade teológica (aqui, judeus e não judeus), quando, finalmente, diz, é a “roda da fortuna que manda”. Revejo-me ainda no ataque ao puritanismo, construído à custa da repressão das forças mais vitais e inventivas. E talvez seja esta denúncia a obrigá-lo a sexualizar pletoricamente os seus escritos, quase como se quisesse enfeitar com obscenidades todas as formas de catequese. Pois bem, por isto, dito de maneira vergonhosamente atabalhoada, e porque me inclino sempre para gostar do autobiográfico (em Roth o escritor não conta histórias, conta-se nelas. A si e ao mundo no qual vive), aconselho a leitura dos seus livros, com traduções competentes para português. Creio que não nos fará mal nenhum ter um Complexo Roth para juntar ao Complexo Kafka.

Fernando Pessoa no Rainha Sofia

 Exposição de Pessoa no   Rainha Sofia

Exposição de Pessoa no Rainha Sofia

Dois dos maiores agrimensores dos limites do humano. Limites que se encontram no centro e nas margens, os limites não são o excepcional, são o curto-circuito do banal. E foi isso que eles fizeram (um ainda faz), coleccionaram os gestos do quotidiano e enxertaram-nos com um pouco de metafísica e de utopia para os sacudir. Questão de verem cair na lama o pechisbeque que há séculos enfeita a ortodoxia. 

A história verdadeira por detrás das recentes e violentas colecções de cromos distribuídas gratuitamente nos supermercados

O Supermercado Dois Paus decidiu um dia ter uma reunião alargada. Era uma sexta-feira à noite, e como todos os agentes envolvidos tinham família e filhos, decidiu-se que a reunião deveria manter-se à noite para fomentar os laços entre avós e netos.

O objectivo poderia ser simples, mas cedo se revelou extenso demais para tais mentes ávidas de criatividade: fazer mais dinheiro, isto é, causar uma subida no registo das coisas de dez numa folha oficial sobre o quanto determinada coisa tem, o que, perante a diversidade das coisas, é equivalente a dizer registo “do número de olhos de borboletas no mundo” ou registo “das vezes em que a humanidade foi à casa-de-banho”.

Um senhor, que tinha um fato bonito e era muito jovem e cheio de ideias jovens, muito, muito fora da caixa, teve uma ideia simples:

— Vamos mentir!

Um silêncio incomodado tomou conta da sala; o chefe, de ar não assim tão jovem, embora a camisa justa permitisse adivinhar os músculos definidos e a cintura elegante, e igualmente o nome do ginásio em que passou a manhã, fez-lhe um olhar que só poderia ter uma única interpretação numa reunião de publicitários: “já foi feito”. O jovem foi imediatamente despedido. O pânico instalou-se. Ser despedido era como estar fora de uma coisa em que antes se estava dentro, e isso não é bom, em nenhuma circunstância, embora as coisas por vezes sejam relativas, não todas, o sexo ou o tempo, por exemplo. Ao fim de alguns instantes, mais precisamente três segundos que custaram vinte milhões de coisas de dez (time is money, time is money), alguém arriscou:

— Vamos enganar!

Ninguém parecia acreditar no que estava a ouvir. Uma tal calamidade só acontecera há cerca de uma semana, quando o Silva foi despedido por ter sugerido que se deveria pensar a sério sobre o que é isto da publicidade. O chefe de abdominais definidos e dentes impecáveis nem precisou de dizer nada. O artista levantou-se o mais rapidamente que pôde, e saltou para a morte, lançando-se da janela para o passeio, com a devida consciência de que naquele ramo as ideias já tentadas são ainda piores do que as más ideias. Foi este, aliás, o seu último pensamento.

— Malta, então, novas ideias! Pensem fora da caixa! Pensem fora da caixa!

A sua capacidade de motivação era extraordinária, e logo todos se puseram a pensar em como deviam ser empreendedores e comprar um carro novo na manhã seguinte. Mas naquele dia, aconteceu que uma mulher, que sofria de hemorragias há já algum tempo, depois de ter parido o segundo filho, aproximou-se do chefe, dizendo:

— As crianças! As crianças!

A ideia era tão clara e nova que todos se admiraram. Numa edição conjunta de mentes, um plano simples foi divisado, eficaz e certeiro: uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Todos gritavam o mantra como se de uma epifania se tratasse, saltando todos os estádios necessários ao nirvana. Mas uma colecção de quê?

— De animais!

— De super-heróis!

— De jogadores de futebol!

— De lesmas!

— De batráquios!

— De dinossauros!

— De ardinas!

— De alentejanos!

— De perfumes!

— De coisas!

O nível erótico da sala era tal que logo ali o chefe engravidou uma colaboradora, depois de devidamente assinados os papéis que permitiram juridicamente o sexo entre os intervenientes, uma vez que sempre foi muito difícil fazer amor sozinho, por mais que os homens continuem a tentar.

A ideia que vingou foi a de “coisas”, por ser menos genérica do que “animais” ou “super-heróis”. A todos veio o famoso verso “tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, pois a música tinha sido recentemente usada para vender sanitas a pessoas com prisão crónica de ventre, esventrando a palavra “sonho” e substituindo-a por “sanita”.

No dia seguinte a campanha foi lançada e foi um imediato sucesso. O Três Pedras e o Cinco Cinco Cinco naturalmente copiaram a ideia, porque quando é fresca uma ideia copiada não é uma ideia copiada, é como se fosse nova.

***

Passados dois dias, na mesma exacta galáxia e no mesmo exacto planeta, um pai zeloso, que com a devida noção do ridículo amava o seu filho de forma bastante lamechas, ansioso por ir para casa com o seu rico menino, depois de um dia de trabalho, tropeça numa birra. Era uma birra feia, não daquelas em que a criança assegura que a sua vontade é superior aos astros e que os pais superam com amor; não, era uma birra que cheirava ao Supermercado Dois Paus, tinha uma cor definida, a cor do plástico, das coisas, cheirava a colecção de cromos de coisas, que alguém enfiara no bolso do filho com a melhor das intenções mas muito a despropósito, quando nem sequer os pais tinham por hábito ir ao Dois Paus, ou ao Cinco Cinco Cinco, ou ainda ao Três Pedras. Era uma birra focada, precisa, determinada: a birra do Dois Paus.

— Mas porque é que não vamos ao Dois Paus?

— Não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê?

— Se continuas a gritar, é que nunca mais vamos...

— Mas então podemos ir?...

— Não agora.

— Mas quando?

— Não sei, não sei...

— Hoje?

— Hoje não.

— Porque não hoje?...

— Porque não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê? Eu queria as cartas!...

— Não temos dinheiro para isso.

— Mas as cartas não se pagam, eles dão, eles dão as cartas com as coisas...

Esse é um argumento de peso, os filhos da puta pensaram em tudo, o chefe da camisa bem justa sabe muito; atacar as crianças, atacar as crianças, e ele bem sabia: uns pais dizem que não e, depois de muitos gritos, tiram as cartas que ninguém pediu para dar, arrancam-nas perante as lágrimas consumistas e consumidas dos filhos, dizem disparates incompreensíveis para uma criança: “eles conseguiram, estás a fazer o que eles querem que tu faças, não vás nisso”, e põem os miúdos de castigo por terem levantado a voz para os pais; ah, mas outros, talvez a maior parte, ah, vira à esquerda e em vez de ir ao Leva Dois Paga Três opta pelo Dois Paus. Afinal, tinha de ir às compras, não era? No banco detrás, a criança sorri, consciente do seu poder sobre as coisas, confiante na sua colecção de coisas. Cinicamente, no ginásio, o chefe observa no espelho a definição quase exemplar dos seus músculos. É um homem, de facto, muito bem sucedido.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Braga Falcão