2018: “Um quarto em Atenas” e “Fuck the Polis”


“Memória é ter sede
e todo o futuro é sempre possível”

Tatiana Faia

“Espaço
que guarda a história de si mesmo e
também a do outro”

João Miguel Fernandes Jorge

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Os grandes poetas têm sempre a capacidade de ver além do seu tempo. Quando todos rumam à direita, eles rumam à esquerda ou, simplesmente, param. Param, não no sentido de ficarem imóveis ou desistirem, param porque são capazes de sentir o seu tempo, de vê-lo sem qualquer distúrbio ou filtro social imposto. Param e conseguem entender que só regressando, dando uns passos atrás, podem continuar e avançar em frente. São herdeiros, ou filhos diretos, da Capacidade Humana de regenerar-se, de ultrapassar dificuldades, vencer. Dirão e bem: “Mas a poesia não muda nada!”. Será? Tenho sérias dúvidas! Claro que um poema não pode resolver a dívida “soberana” de um povo, mas ela lança a semente nos corações dos homens. Uma aqui, outra ali… e, talvez, indiretamente, algo se modifica, mesmo que para isso demore anos e anos. Novalis diria: “Alguns grãos poderão ser estéreis – mas basta que uns quantos germinem”. É preciso muito tempo para se ser qualquer coisa interessante! Tempo, aquilo que ninguém diz ter e, talvez, seja preciso estar-se morto para se viver realmente, pois, estar morto como diz Sloterdjik, na fieira de Platão, é condição para o pensamento, criação. É preciso estar-se longe, estar-se fora da cidade, fora da pátria, para se criar aquilo que é mais inovador e imponentemente belo.

Tudo isso vem a propósito de dois livros, publicados neste ano de 2018, um no seu início “Um quarto em Atenas” (Janeiro) de Tatiana Faia e outro no seu fim “Fuck the Polis” (Novembro) de João Miguel Fernandes Jorge. Ambos parecem ir ao encontro do mesmo objetivo: revisitar, repensar, reescrever e, até, desacelerar. Esse desacelerar do Tempo é o encontrar-se, renovadamente, perante a rica tradição clássica, do objeto artístico mais convencional (pintura/escultura/arquitetura), sem esquecer um certo olhar político: a defesa dos “oprimidos”, da simplicidade da natureza e do sossego longe da azáfama da cidade.

O retorno, o eterno retorno, do ambiente da cultura greco-romana não é um maneirismo tosco, mas um indício de que a salvação ainda é possível, a salvação pessoal e coletiva. Divago, bem sei. Mas, não se trata, aqui, de fazer crítica literária. Deixo tal pretensão para outros académicos. Interessa-me apenas apontar algumas impressões de dois livros por mim lidos e amados, neste ano que, lentamente, termina.

Desde “A terceira Miséria” de Hélia Correia (2012), que não lia um livro de poesia portuguesa contemporânea em que a Grécia Antiga /Moderna fosse pano de fundo. Para quem leu, na adolescência, intensamente Sophia e Kavafis, e na idade adulta Homero, nas fabulosas edições Cotovia, não poderia ficar indiferente a esses dois livros, de dois fabulosos poetas. Diferentes entre si, a começar pela idade/geração, mas tão parecidos e que marcam a sua geração com uma força difícil de apontar em palavras. Dois poetas (e não digo “Poetisa” em relação à Tatiana) de primeira categoria que, queiramos ou não, são pilares, cada um à sua maneira, das respetivas gerações. Dirão: “Que exagero!”. Há exagero no Amor, na Amizade, mas Não na capacidade de devido Reconhecimento.

As diferenças são facilmente notórias, os poemas longos da Tatiana contrastam com os poemas, relativamente, curtos de João Miguel Fernandes Jorge. Mas o que me interessa são os pontos de contacto entre ambos, que poderemos sintetizar: a) o fascínio pela arte grega, b) a evocação de personagens literárias e mitológicas gregas e c) o caráter declaradamente político dos dois. O último aspeto é o que me fascina particularmente. O poema “O retorno: 2016” de Tatiana Faia, dedicado ao poeta “exilado” na Finlândia - João Bosco, é o mais duro retrato de uma geração apanhada nas teias de uma grave crise económica, uma geração que se vê obrigada a emigrar, a sujeitar-se a trabalhos precários e que vê os seus sonhos defraudados. Um poema que nos diz: “não acredito que o país do puro pássaro seja possível”. É talvez o poema mais doloroso de “Um quarto em Atenas”, onde se sobressai nas entrelinhas/linhas um olhar crítico ao presente, a um presente ceifado, amputado.

Do mesmo modo, ainda que talvez mais subtilmente, o poema de João Miguel Fernandes Jorge “De um homem, a vida” mostra-nos uma vítima das crises económicas: a visão de um pedinte em “súplica” e a entrega “sobre a palma da sua mão direita” de uma pequena moeda, uma “envergonhada moeda”. A defesa dos mais frágeis, o olhar para a realidade crua do mundo que os rodeia: eis o que liga esses dois poetas. [E aqui tenho de fazer um parênteses para evocar um outro livro “político” de 2018: “A Foz em Delta” de Manuel Gusmão, com um caráter ainda mais fortemente político, longe de João Miguel Fernandes Jorge ou Tatiana Faia, é certo: “Em Portugal, 51% dos jovens/ licenciados estão no desemprego. É/ uma violência que lhes é feita, assim/ como ao país que se vê por essa via/ impedido de utilizar o seu trabalho/ qualificado.” (“Baile Mandado”).]

O caráter político dos dois livros, de Um quarto em Atenas e Fuck the Polis, sobressai durante toda a sua leitura. O “Fuck the Polis”, de João Miguel Fernandes Jorge, já no seu título aponta para esse aspeto iminentemente político, esse graffiti escrito na rua dedicada a El Greco (“Rua Doménikos Theotokopoulos”), parece em “última análise” ser a resposta dos poetas expulsos da cidade ideal de Platão. Na epígrafe, retirada de Pausânias, é evocada Nemésis (“a mais implacável entre os deuses”), é assim apresentado, desse modo ao leitor, “a nota” de que o livro foi escrito sobre o ímpeto da indignação, a mesma indignação “política” que aqui e ali parece surgir em “O Bosque” (livro-diário escrito nos anos de 2012, ano do auge da crise económica em Portugal). Assim se compreende o aparecimento, no livro de João Miguel Fernandes Jorge, de “mortos vivos”, “mendigos”, “operários” ou, ainda, homens em desespero no metro.

Para além do caráter político do livro, há a grande entrega aos poemas sobre obras-primas da Arte Grega. Os corpos criados pelos “nossos escultores favoritos” da Tatiana Faia (“Café Drama”) estão todos em “Fuck the Polis”: Policleto (“Na estela, o Doryphoros” e “Diadoumenos de delos”); Crítios (“Agôn”); Fídias (“A descalçar uma sandália”); Praxíteles (“De um homem, a vida”) e ainda os escultores das métopas de Olímpia (“Leva-te o arco de Adriano”). Se em “Um Quarto de Atenas” encontramos evocados Caravaggio, Brueghel e Manet; em “Fuck the Polis” temos, também evocados, Malevitch (“Hieratic Cross”) e El Greco (Rua Doménikos Theotokopoulos”): nos dois a mesma pincelada da pintura. Se em Tatiana Faia há um “jardim fechado no meio do nada”, em João Miguel Fernandes Jorge há um “Jardim perdido”, um poema que fala de um eco de cavalgada, o mesmo “eco” tão presente em Fernandes Jorge. Há vários pontos de contacto entre as duas obras e, como é óbvio, diferenças consideráveis, mas isso exige releitura, sensibilidade e Tempo. O já evocado Tempo.

Nestes apontamentos de hoje, quero ainda referir que no livro “Fuck the Polis”, João Miguel Fernandes Jorge escreve poemas extraordinários que nos parecem muito próximos da “narratividade fluida” de Tatiana Faia, é o caso de “Com a beleza cerâmica de uma pyxis”, “Pensei que era Fedra” (ver “Aula de Natação para Fedra” de Tatiana Faia) e “Cândia”. Ao dizer tal afirmação, procuro chamar à atenção para a juvenilidade da poesia de João Miguel Fernandes Jorge neste último livro. Apesar da diferença de idades, experiências e geração, há um encontro entre os dois poetas, ambos conhecedores da Grécia física e literária; ambos parecem encontrar-se em forma, em expressividade e em temática. Sendo eu, leitor de um e de outro, não pude deixar de reconhecer diferenças e semelhanças; impressões que precisam ser mais trabalhadas com o tempo.

João Miguel Fernandes Jorge atinge com “Fuck the Polis” um grau de beleza e pureza próximo de “À beira do mar de junho”. Aqui, neste livro, estão alguns dos mais belos poemas, alguma vez criados, em língua portuguesa dedicados à escultura clássica grega, colocando definitivamente João Miguel no mesmo patamar de Sena e Sophia, só para citar os mais óbvios. Há poemas mais complexos, mas, igualmente, poemas de uma subtileza, leveza extraordinária. É o caso por exemplo de “Cadeira”, “Os gansos brancos” (que me fez pensar no “Cantus Arcticus” de Rautavaara) e “Os incorpóreos sentidos”.

É com “Cadeira” que vos deixo: “de espaldar azul/ assento de palha// perde-se / na parede branca / a sombra”, e somos levados à tranquilidade de uma qualquer ilha grega, longe das grandes cidades, uma, porventura, silenciosa ilha onde o Tempo para. Não sendo este texto crítica literária, podemos perguntar: O que diriam os poetas expulsos da cidade de Platão? Simples: Fuck the Polis! Frase esta, eventualmente, também repetida algures por Tatiana. “Que se lixe a cidade!” E dizer “cidade”/”Polis” será dizer: exposição pública, fama, progresso desenfreado, etc. Ou talvez queira, simplesmente, dizer: “Deixem-nos (aos poetas) em sossego perante a natureza e a arte.

Camões vende legumes na praça

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“Must I write? Dig deep into yourself for a true answer.”

Rilke, Letters to a Young Poet

Pensar em escrever, desejar escrever, sonhar com escrever, palrar na esplanada sobre escrever, nada disso é escrever. 

“Deixa esmagar o cigarro e já componho a versão melhorada da Montanha Mágica. Mais uma cigarrada. Lá para a primavera. Aguardem-me.”

Escrever ocorre no presente, agora. O verbo implica acção, furiosa, intensa e imediata actividade. Tinta no papel. Rugas a mirrar os olhos. Folhas rasgadas, espalhadas pelas mesas, pelo chão. A escrita, como os humanos, como o mundo, é imperfeita. 

“Logo agora que comprei caderno forrado a pele de crocodilo, trinta euros investidos, vou conspurcá-lo-lo com frases da minha autoria, ai Cervantes…”.

Quando não está a escrever, ocorre ao escritor pensar que viver é outra coisa, que passou ao lado do destino. 

“Os meus conhecidos são todos estrelas de cinema e eu ando na mercearia a gastar dinheiro em pão.”

Em vez de escrever, Camões vai vender legumes na praça.

Os amigos peroram acerca de tópicos fundamentais para o futuro da ciência e do universo, mas o escritor, engolido pela própria voz, cerzindo diálogos interiores, ignora o que não inclua falhar, falhar com estrondo na página. Falta-lhe aquele agir, aquele gesto de deslizar a caneta entre os dedos, de cofiar o queixo à conta de frase desprovida de ritmo, de bater com a ponta dos dedos no teclado do computador, de levar a caneca do café aos lábios, até no estômago não caber mais café, aquela forma de viver que para o comum mortal é uma espécie de morte. Afinal, é para poucos, isto de o sujeito somente se sentir bem virado para uma parede branca, buscando cinzelar com toque artístico as palavras, matando o tempo naquele vazio, perdendo horas para arrancar ao tédio o vocábulo preciso.

“Um soldado perdeu o isqueiro que lhe fora oferecido pelo pai e degolou três companheiros com uma faca de mato. Esta é a história que me preparava para escrever quando o telefone tocou, quando o carteiro me bateu à porta, quando chegou a hora de jantar, de ir para a cama.”

 Escrever sem razão, por prazer ou vício, devido a uma inadequação a situações que requerem executar tarefas que excluem a escrita. Entre o escrever e o estar vivo intrometem-se infindos trabalhos secundários, escritor, professor, canalizador, calceteiro, camionista, trabalhos padrastos que forçam o escriba a privar-se de si próprio, a ser quem não é durante muitas horas. Escrever, sim, mas antes disso vem a sobrevivência, o cheque para a mercearia, para os lençóis lavados, para a água do banho. 

“Kafka trabalhou num escritório. Herberto Helder descascou batatas em França.”

Uma viagem de carro para a Carolina do Norte

Ouvi, certa vez, de professor algo irrelevante no que diz respeito ao meu desenvolvimento intelectual – não é mentira que não me recordo da aparência física ou do nome deste professor, mas também não é mentira que estar sentado na sala de aula, naquelas bafientas salas de aula lisboetas em que não se punha em causa a sapiência ou a autoridade, em que nos sentávamos a fingir respeito extremo por aqueles intocáveis intelectuais, era razão para ler os romances que não lia na rua-, que qualquer trabalho académico começa com questões. Não sei ainda se esse questionar académico tem relação com a vida prática, uma vez que me parece incompatível atingir paz de espírito e, ao mesmo tempo, procurar respostas e sentidos para uma vida pouco atreita a racionalizações. Porém, quando, há duas ou três semanas, decidir mudar de posto de trabalho e, por conseguinte, de casa, de cidade e de Estado, uma primeira pergunta me aguçou a curiosidade: como seria viajar de carro de Newark para Chapel Hill, na Carolina do Norte?

Dir-me-ia o tal professor, sulfatador de banalidades, que procuramos fontes para responder a interrogações. Quiçá viver consista, entre outra coisas vãs, em procurar razões que anulem a vontade de responder a tão essencial pergunta: que faço aqui nesta terra, neste planeta? Instalado em faustosa moradia de quatro metros quadrados situada no Ironbound, zona antigamente portuguesa, agora hispano-americana, inquiri os meus vizinhos, a maior parte falante (unicamente) de português e amante das tradições lusitanas (rancho, fado, vinho, maledicência), sobre as dificuldades de tal empreitada. “Não custa nada”, assegurou-me vizinho experimentado nas lides da vida, não sem a bazófia alfacinha, típica de quem não sente dor alguma, mesmo que lhe espetem uma faca no braço. É bom avisar que o motivo pelo qual o vizinho não sente dores, nem mesmo se lhe cravarmos punhal na carne, prende-se ao facto de ter passado a vida a mover o braço para actividades como levar o cigarro à boca ou procurar o comando da televisão enterrado no sofá. “São oito horas a conduzir, tomas um par de cafés e estás lá”, sentenciou outro vizinho, nortenho, pintor de interiores de apartamentos e vítima de fenómeno estranho, caracterizável por temporárias manifestações de raiva quando, nos intervalos do trabalho, se cruza com a própria esposa. No geral optimistas, as sugestões tendiam para a abundante toma de café e para a prática de rituais que reforçassem o foco do condutor, como misturar coca-cola com uns comprimidos energéticos (talvez Viagra). Somente um vizinho, por todos recomendado como aquele que, por ter trabalhado nas obras na Flórida, sabia um mundo sobre viajar e conduzir, me preveniu com sageza curta mas esclarecedora: “Cuidado.”

O heroísmo latente da vizinhança encorajou-me a enfiar no interior de um Honda Accord toda a mobília, livros, roupa e tralha que encontrei no apartamento. Ainda que não me tenha sido possível acartar mais do que roupa, uma torradeira e uma máquina de café, sobrou-me espaço na viatura para uma mulher a rondar o metro e sessenta de altura e uma criança de três anos e um mês. Como não me restava mais espaço, e porque meu coração já ardia de saudade e nostalgia de Newark, de Nova Iorque, e até de coisas surreais como a padaria portuguesa da esquina, arranquei num domingo à noite, convicto de que oito horas de viagem se fariam como uma ida à praia.

Caracterizada por árvores, motéis, restaurantes de fast-food e infinita estrada plana, a paisagem torna algo monótona a travessia dos Estados Unidos através de autoestrada. Quando, depois de mais ou menos quarenta e cinco minutos a conduzir, o GPS indica que estou perto de Filadélfia, fico com a sensação de me terem mentido, que chegar à Carolina do Norte será fácil. De Delaware retenho uma longa ponte vazia, pelo carro atravessada a uma velocidade bastante superior à permitida por lei. Às vezes chove, chove muito, ao ponto de não ver dois palmos à frente. Outras vezes faz um calor húmido, e sempre o carro rasga a autoestrada como um míssil destinado a só parar no destino final. A criança dorme durante as primeiras três horas e meia de viagem, e a mulher, preocupada com a segurança de todos, vai perguntando se não será tempo de parar. “Só mais vinte milhas, só mais trinta milhas”, vou dizendo, concentrado na música e armado em John Wayne, como se fizesse ideia do que estou a fazer.

Passamos por Maryland. A noite escura pouco permite vislumbrar para além de prédios longínquos. Ao volante vêm-me memórias de Stringer Bell e outras personagens de The Wire, e com essa imagem de droga e corrupção deixo Baltimore adormecida. De repente, contrastando com o deserto contínuo, surge Washington. Embora já passe da meia-noite, e o cansaço me impeça de prestar real atenção ao que me rodeia, sinto que a capital americana surpreende pela imponência e modernidade. “Olha, o Capitólio”, ouço, mas mal tenho tempo de virar a cabeça, pois meti na cabeça que, se não abrandar o ritmo, chegarei depressa ao destino. Com a imponência de Washington para trás, outra vez abafado pelas árvores e pela solitária estrada, paramos na Virgínia, não para o par de cafés recomendado pelo vizinho, mas para dormir num motel, que isto de trazer bebés num carro tem a sua ciência. Após breve duche da praxe, que serve essencialmente para dar uso aos sabões e ao resto a que o cliente tem direito num estabelecimento do género, medito sobre a arte de viajar de carro. Nunca antes me passara pela cabeça que conduzir durante tantas horas pudesse ser viciante, que atravessar tantas cidades e Estados me pudesse estimular como um videojogo. Adormeço a assistir ao preço certo americano.

Tomamos o pequeno almoço e, porque o Estado é vasto, almoçamos na Virgínia. Os habitantes locais observam-nos como se fossemos extraterrestres. Também eles, vindos de um filme barato, fardados com botas de cowboy, apetrechados de bigodaça, cabeleiras fartas e vestes de trabalhador rural, nos surgem como figuras exóticas. Demoramos cerca de três horas a chegar à Carolina do Norte. Felizmente, em certas estradas é possível conduzir a setenta milhas por hora, o que para um português ciente do cumprimento das regras, equivale a oitenta e cinco milhas por hora. Incorporando na figura de Michael Knight, evito pensar que a Virgínia me aborrece. Mas agora, à distância de uma semana, aquilo que era uma impressão ficou em mim cravado quase como certeza: eu e a Virgínia não fomos feitos um para o outro.  

Antigamente, julgava que guiar um carro não era para mim. Agora pago um carro a prestações, aprecio guiar a velocidades imoderadas, palmilho estrada de olhos fechados, como se o volante me soprasse ao ouvido para onde ir. Ensinam os budistas que estamos em constante mudança, que nem sequer existe um eu, que somos um rio em movimento. A minha vida melhorou desde que aceitei fazer parte desse rio, ou melhor, desde que deixei de resistir à mudança e parei de acreditar que a minha personalidade era x e nunca assim deixaria de ser (se era teimoso, achava que não poderia deixar de ser teimoso). A história não se repete, a minha personalidade adapta-se ao tempo e ao espaço, deixo-me ir, o que faz com que mudar de cidade, de casa, deixar para trás centenas de livros, conhecer novas pessoas ou adaptar-me a novas realidades, não seja difícil, porque fácil, difícil, entre outros adjectivos ou formas de categorização, abandonaram o meu jogo.

Entrei na Carolina do Norte exausto, necessitado de jacuzzi, piscina, praia, massagens, e de tudo o mais que deus permite. A paisagem não me fascinou logo. Parecia-me mais do mesmo.  E a casa alugada só estaria pronta para entrar dois dias depois, catástrofe que me obrigaria a dormir mais duas noites em motéis e a levar a torradeira e a máquina do café para todo o lado. Não ter casa permitiu-me deambular sem destino. Conheci Carrboro, Durham, Chapel Hill e Raleigh. Não descreverei aqui os sítios que agora frequento. Atenho-me à viagem de carro. Como tantos outros portugueses, julguei que os GPS enganavam as pessoas, que induziam em erro, que quando se dizia que ir de Newark a Chapel Hill levaria cerca de oito horas, tal significava que essa viagem demoraria não mais de seis horitas. Mas o GPS não falhou. Demorei o tempo que estava previsto demorar. Não me enganei em nenhuma saída. O GPS falhou-me menos do que qualquer pessoa que tenha conhecido (deixemo-nos de passivo-agressividade). Duvido que repita esta aventura tão cedo. Mais uma vez imbuído de estupidez, imagino que, com o carro menos pesado e sem um bebé a precisar de constante atenção, retiraria duas horas à viagem. Esqueço que não dá para fechar os olhos em Newark e abri-los, cinco minutos depois, com quatrocentas e muitas milhas calcorreadas. Esta foi das mais estimulantes experiências que vivi.

 

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Existe amor em São Paulo

 

Eu sempre disse que meu lar é minha terra natal. Quando penso em lar, me remeto ao aconchego do colo da minha mainha, uma senhorinha de poucas palavras e manifestações tímidas de carinho, sua comida preparada em poucos minutos mas não menos caprichosa, ela cochilando em frente à TV e o verde vivo das plantas que ela espalha pela casa. Pensando em lar, lembro dos olhos azuis da minha cadela sempre me fitando ou de eu me perguntando o que ela sonha quando se sacoleja dormindo. Lembro do meu quarto, e do quanto gosto de lá estar. Do travesseiro onde me encosto, as lágrimas que acolheu, o hálito amargo de álcool e cigarros duma noitada, tardes de amor, o meu abraço entediado em cochilos de domingo... Na minha cidade distingo as ruas empoeiradas, os buracos, os botecos, o vento frio das madrugadas, árvores jovens magricelas, às vezes há galos cantando e uma densa névoa que encobre a cidade ao amanhecer, e quando o sol se despede e a noite começa, uma variedade de cores atravessa o céu, e as pessoas registram em seus smartphones. É o meu lugar.

Eu estou voltando para esse berço, é para onde imagino que sempre voltarei. Mas depois dessa oportunidade levo comigo uma pergunta: – Terei encontrado eu um novo lar? Estranhamente me reconheço no andar apressado das pessoas e nos seus olhares indiferentes. Imagino o que sonham, porque parecem muito ocupadas para isso. Eu me reconheço nas árvores que aqui são robustas, vigorosas, e estão perdidas entre uma imensidão de prédios imponentes. Quando conseguimos avistar o horizonte, nele nuvens e fumaça se confundem. Meio que aguardamos que de lá saiam dementadores a nos sugar a felicidade. Aqui o céu tem um valor diferente, atentamos nele de forma distinta. O sol e a lua se escondem. As pessoas se esquecem de se perguntar se há estrelas, de apontar Vênus no meio do breu. Eu reluto em não fazer o mesmo, mas seria isso possível?

Entre buzinas, sirenes, milhões de vozes abafadas, pessoas muito bem vestidas solitárias em cafés, capas de chuva e garoa, eu encontrei uma família que pudesse zelar por mim (na febre, na diarreia e na tosse). Aqui me oferecem fora do matrimônio, cama, comida, roupa lavada, e um lugar para poder voltar (ainda que eu esqueça de levar as chaves). Encontrei ouvidos atentos às minhas histórias, aos meus dramas, às músicas que escuto e ao meu cantarolar que acompanha essas canções.

Dividimos a rotina, cigarros (muitos), alguma preguiça, angústias, desilusões, desconfianças, mágoas e ressentimentos. Os desencontros, as mentiras (as que contamos e as que nos foram contadas), o autoflagelo, a autossabotagem, o lixo acumulado na varanda, a fuligem que cobre o chão e escurecem nossos pés descalços que outrora caminharam por fios de titânio. Desses fios costuramos a colcha de retalho do nosso ser e nele nos aquecemos em noites frias. Apesar de toda a imundície que por vezes carregamos, nos lavamos em banhos quentes em chuveiros difíceis de temperar a água. Nos perfumamos com a lavanda da disposição de desvendar o mistério do ser. No fundo de nossos olhos cintilam os sonhos. Sonhos de que o amor seja sempre grandioso, vasto, porém tranquilo, e que o esquecimento, se nos atravessar, que seja apenas o sopro que é a vida seguindo o seu curso, como uma brisa que corre para o mar. Sonhamos que quando não houver mais juventude e utilidade, que tenhamos sido tão obstinadamente nós mesmos e cultivado tanto amor, que não sobre outra coisa que não a convicção de sermos pessoas tão boas que nos tornemos um lar, um cantinho de conforto para se aconchegar, um oceano para se mergulhar, a beira da praia pra se sentar.

I wont Say Goodbye. Digo até logo, porque um pedacinho de mim ficou aqui, e um pedacinho daqui levo comigo. Na minha bagagem e na minha sacola de cacarecos carrego páginas escritas: Existe amor em Essipê.

 

 

 

Sobre o amor

Para a Sara

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O meu marido nunca me fará isto, diz ela, a minha mulher nunca me fará aquilo, assegura ele, e no fim, não bem no fim, por não haver fim para as histórias de amor, descobrem que são ambos humanos, que os contos de fadas que lhes haviam contado sobre o casamento não se enquadravam em nada com a natureza humana, ou melhor, que os contos de fada existem mas requerem afinações, exigem a inclusão de drama e dor, e que pouco ou nada se salvará um casal que não se deixe levar pelo sentimento que os une, o amor. El pasado, livro de Alan Pauls, é muito sobre isto de duas pessoas que todos, mas mesmo todos, sabem que se amam muito, quase ao ponto da loucura, perderem anos a destruir-se com acusações, com ódios, com rancores, com ciúmes e vinganças, para depois, exaustos de tanto buscarem alimento para o buraco negro que os consome, acabarem juntos, abraçados na cama, a não desejarem mais nada do que ficar para sempre ali, com o coração de um a fazer respirar o outro. Parte do problema passa por sermos animais idiotas, capazes de ir à lua, de fabricar foguetões, mas tantas vezes inaptos para enxergar o óbvio, o que está à frente dos nossos narizes. O óbvio, por exemplo, é a certeza de que o sentido da vida, ou aquilo que achávamos ser o sentido da vida - aquele sonho grande de ascender a rei e ser adulado por uma legião de fãs - , era um escape, um medo de viver a vida real, de amar o próximo, de ser frágil. O real sentido da existência é a menina que nasceu, o filho por vir, a partilha de um jantar, um sorriso, sentir o abraço daquela mulher ao nosso lado deitada, aquela mesma mulher que nos deu origem aos sonhos e nos fez bem, sem sabermos da existência desse bem. Causamos sofrimento ao outro tantas vezes por amá-lo, por ainda não termos crescido, por não sabermos o que fazer a um sentimento mais forte do que o cérebro, por não sabermos se o sentimento que nutrimos é correspondido, por mil e uma razões que nos desviam desta necessidade vital que é aprender a amar sem mais, com fé, com a certeza de que depois daquilo não haverá mais nada na vida a não ser escuridão. Em vez de raiva pelo mal que a pessoa amada nos causou, a pessoa em sofrimento pode assumir que esse mal foi causado por outro mal, e que esse outro mal causado por outro mal, e isto até ao infinito, até perceber que no peito esventrado circulam um amor e uma bondade superiores ao osso, à carne, ao pêlo, e que não há ego, orgulho, vaidade ou ressentimento que não se consiga vencer, quando dois corpos que deviam ser um só se encontram no mundo e não sabem existir um sem o outro.