A solução para os fracos

mad-men-in-care-of00142.png

Peçonhento, manhoso e tantos outros piropos de cariz luminoso regurgitou Camilo aquando da apoteótica entrada pela microscópica porta da tasca de seu proscrito amigo Zacarias, o mais conceituado e consistente distribuidor de prazer sexual por entre o mulherio casado do município. Matilde, madame de respeito e virtude, caíra no engodo de requerer os préstimos de Zacarias, sem prestar atenção ao detalhe, para todos irrelevante menos para o marido, de ser casada com Camilo, dono de napoleónica figura, pelo menos em termos de calvície, volume da barriga e estatura. 

Não obstante os três pares de estalos, o divórcio e o processo em tribunal exigindo exílio em África para a traidora e decapitação para o patifório amigo, a desonra viera para ocupar, quase por inteiro, o espaço mental de Camilo, o pobre de espírito, que da traição em diante daria em bêbedo de aguardente e fumador daqueles de acender o cigarro no cigarro acabado de chupar. Idas ao médico, recomendações de exercício, visitas a prostíbulos, miminhos sexuais da dona Rute, prostituta reformada para quem a tristeza dos outros se curava a partir de coito não remunerado. Nada removia o encornado do limbo. Camilo não esquecia, não perdoava o amigo Zacarias — já Matilde lhe sobressaltava menos a mente. Zacarias pedia perdão, quinhentas vezes de joelhos, de rojo, murmurando por favor, meu amigo, olvida meu pecado. Não, exclamava Camilo, às vezes encolerizado, outras vezes, muito por causa da bagaceira, mais pacificado. 

Camilo pedia punição terrena para o ex-amigo, mas o dia do julgamento final, da sentença máxima, do desterro, dos trabalhos forçados, da chacota pública, tardava como os milhões de dólares a entrarem na conta bancária do pobre. A justiça atingiria Zacarias no preciso dia em que traidor e traído se avistaram na tasca. Camilo sugava seu cigarro, ao mesmo tempo que com a língua raspava os restos de cera depositados no dedo mindinho, soprava adjetivação contra o inimigo, como se a palavra o fosse tombar ou enfraquecer, quando, quase do nada, um homem enegrecido, gigantesco, poderoso e medonho acariciou a nuca de Zacarias com um murro que lhe furou o osso e o matou logo ali. Eunuco, eis o nome desse bisonte de dois metros de altura que, também ele ferido na sua honra de marido, viera em busca do malandro para lhe entregar o poder da lei. Zacarias morto. Camilo vingado. A nossa história termina aqui, mas o suplício de Camilo estender-se-ia até ao túmulo: não há solução para os fracos. 

 

A Celeste do sétimo ano

Summer Evening by Edward Hopper.jpg

Não tem dentes na boca, a galdéria, nem um, apresenta a cremalheira partida, uma boquinha de bebé com as gengivas rosáceas. Os primeiros dentes tombaram à força dos estouros do Zé, o chulo. Os outros apodreceram de apodrecimento natural, e também porque a droga, quando mamada em abundância, é material que perdoa pouco. Coitada, ofertando felácio na esquina, pobre, logo a Celeste que era tão boa em termos de feições e beijocava de uma maneira que...ora bem, para descrever seus beijos teria de consultar enciclopédia e explicar o fenómeno das estrelas cadentes e da invasão de Marte por Arnold Schwarzenegger naquele esquecido filme de domingo. A língua de Celeste, bicho húmido, chupa-chupa, pirolito, metia ao barulho matemática, pintura, ciência, química e aromas. Celeste, desfigurada. E eu que a pedi em casamento no sétimo ano, na aula de inglês, perante o mumificado Luís Pedro, a melhor fotografia viva de pôr na campa que conheci. Luís Pedro, cábulas de plantão, empenhado em fazer voar a ponta do giz até à nuca do professor. A propósito de professor, isto de lecionar em Massamá esfalfa um santo. Ontem, de alma mirrada, buscava conforto nos beiços de uma menina de rua, e quem encontro, Celeste, a mesma do sétimo ano, agora na pocilga. Gorda, quiçá, mãe de três potros, casada com um devorador de feijoadas ou pedreiro ou jardineiro ou calceteiro ou canalizador, imaginava-a a fazer qualquer coisa menos associada a um gandulo agarrado à heroína, acometido por recorrentes impulsos de arrancar dentes ao soco. Celeste, debruçada sobre o carro, cuspia que o serviço me custaria dez biscas - pagas cinco no imediato, dez no fim, com gorjeta e taxa de juro, que isto é como nos bancos, pagas em cómodas modalidades, mas a dobrar. De modos que a Celeste, desdentada, me desabotoou as calças de ganga da Levi’s que a minha mãe comprou nos saldos. E não tardou a matar-me a saudade daquela vivacidade que só ela tem. Retomei o amor, pedi-a em casamento, ela aceitou, amanhã compraremos as anilhas de ouro e já planeamos fugir para o Brasil, uma vez que de má reputação estamos cheios até ao pescoço.

Consolo na miséria

6a00e54fcf73858834017ee9c3070d970d.jpg

Quatro meses e meio a limar bruxuleante prosa, cento e vinte maços de tabaco esventrados, três quilos de café conferindo tons acastanhados à dentadura, iracundas jornadas de bulha com a esposa, tudo em vão, suspirava o vencido Quirino. Ainda que soubesse das virtudes da paciência, não podia mais dar de caras com a repugnância ou, ainda pior, com o desinteresse de editores impreparados para literatura como a sua, por si próprio apontada como avant la lettre. Que país, declamava ao vento, que não premiava os melhores, que secava à fome merencório artista de dimensão planetária, que nem permitia que relevantíssimo artigo, dedicado ao tema da deglutição de nozes no tempo do rei D. Carlos, tivesse direito a publicação em revista de modesta circulação.

Jacinta, hirsuta e escravizada esposa do escriba, digeria com cada vez maior desgosto uma realidade confirmada pela natureza como facto científico: além de não contribuir com tostão para as despesas domésticas ou de não se envolver, por questões éticas, religiosas e sabia-se lá mais o quê, com tarefas profissionais relacionadas com dinheiro, a patética figura do marido não era abastecida de talento que lhe valesse aquele inane quotidiano de inactividade. Aquando de particularmente intensa explosão emocional de Quirino, que meteu lágrimas, berros, pratos partidos e patadas nos móveis, consequência directa da rejeição editorial do tal pedaço de arte que lhe custara quatro meses e picos a redigir, a senhora, imbuída de espírito heróico, decretou a seguinte sentença: a partir do dia de hoje, pagas o que comes, os banhos que tomas, o detergente gasto na lavagem dessa tua encardida roupa e, todos os meses, pouco antes do dia quatro, pousas cem notas na mesa de jantar, de maneira a que a renda seja paga sem meu prejuízo. Trespassado pelas mortíferas palavras da mulher, Quirino torceu o lábio, enrugou a testa, ajoelhou-se, como que prenunciando enfarte, embora de enfarte nem sinal, rebolou copiosamente na carpete, na esperança de que Nosso Senhor ou mesmo Jacinta se apiedassem de seus padecimentos, e clamou que a arte lhe consumia os nervos, que o problema no joelho lhe tolhia o andar, que um início de demência lhe subtraía expectativas, e que a mera hipótese de se imiscuir no mercado de trabalho, assim do nada, com trinta e oito anos no corpo, lhe metia medo, tanto medo que preferia permanecer como estava, apático, na dependência de uma limpadeira, preso ao ordenado mínimo de terceiros. Outra vez de coração amolecido, Jacinta calou a boca, afagou o cabelo do marido e, num meigo tom de voz, trouxe paz à casa: Meu chocolate branco, que culpa tens tu de ter nascido estúpido como uma porta?

 Possivelmente por causa dos eclipses solares, pela astrologia considerados causadores dos mais fantásticos eventos, as semanas, caracterizadas por mudanças bruscas, tiveram pedido de divórcio, cabeçadas, narizes partidos, cadernos ardidos, paredes borradas de sangue e visitas aos serviços de urgência do hospital. Afastado do amor da sua vida, daquele matagal de pêlos que à noite o consolava, o homem buscou sossego nos braços de outra fêmea, Cidália, cega, surda, muda e morta, tão morta que todos, menos o entontecido Quirino, sempre em busca da frase perfeita, a tinham por fantasma.

 

O mundo a nosso favor

Fahrenheit-451.png

Primeiramente visto por amigos e familiares como escriba promissor (uma década encavalitou-se noutra e de obra da sua autoria não se vislumbrou página), mais tarde, com o crânio ornamentado com farta cabeleira branca, descrito como estrela atormentada por sombras da infância que tardava em se afirmar e, num ponto mais avançado da carreira artística, como ocasional consumidor de aguardente, comentador desportivo na tasca do Eustáquio e adepto de estilo de vida baseado na estupidez, Jordão lacerava os céus de Lisboa com luminosidade de pedinte.

O astro literário reservava os fins de tarde para a partilha de saberes com Ramiro, discípulo, admirador e mamífero que, na ânsia de aprender cada vez mais, esbardalhava a reforma da tia a alimentar e embebedar o mentor. Em parte por ter lido Platão e admirar a figura de Sócrates, em parte pelo trauma de nunca ter conseguido transpor mais do que quatro frases da sua lavra para o papel, Jordão ensinava de cabeça, gabava-se de rasgar livros, de cuspir na poesia, de não abrir as cartas que lhe enviavam, inclusive as que continham contas por pagar, de possuir uma inteligência que dispensava leituras e memorizações, gozava com académicos e com críticos literários, por si apodados de tarefeiros. A aversão de Jordão à escrita - uma descomunal aversão entrelaçada com paranóia e impulsivas vontades de deitar fogo a tudo o que fosse papel – descomprometia-o de atitudes racionais. Jornal da bola dobrado em cima de mesa de café propiciava-lhe uma raiva que ascendia do estômago para os braços e punhos, e não havia quem lhe travasse o movimento dos dedos e dos dentes na altura de rasgar e de morder o periódico diário. Ramiro, o escolhido pelo mortal deus para eternizar um legado de idiotice, era quem mais lidava com esta falta de pensar: Jordão eriçava-se, ameaçava interromper as lições se descobrisse punhalada na relação, ou seja, se intuísse que o protegido se entregava a leituras, mesmo que essas leituras contemplassem a mera bula de medicamento. Modesto em termos de pensar, inibido no que tocava à busca de fonte de alimento intelectual, Ramiro seguia tão à risca as instruções do mestre que, gradualmente, até de saber ler se esqueceu.

Na manhã de 5 de Novembro de 1996, dia em que se comemorava o vigésimo aniversário do último dia em que pela última vez tocara numa caneta, Jordão vestiu-se a rigor, limpou a cera dos ouvidos, perfumou-se, botou gel e after-shave, e compareceu na estação de comboio em que se combinara encontrar com Ramiro para a lição final, ou espécie de graduação, que consistia em raptar, atar a uma árvore e incinerar aquele que para o mestre representava a maior ameaça à paz mundial, Lucrécio, o escritor mais premiado da aldeia. Delgado e nada viçoso, Lucrécio deixou-se iludir pela simpatia da dupla de falsos admiradores e, por isso, nem esboçou tentativa de resistência física. Regado de gasolina e já em chamas, miou que se martirizava pela sobrevivência da literatura. Jordão orgulhava-se do crime praticado, reduzir a cinzas o inimigo era obra maior, feito ao nível de Mozart, e ainda mais se comprazia por ter transmitido ao discípulo o que de mais profundo guardava na alma. “Destrói o sentido dos dias, prescinde da realidade que te ensinaram na escola”, desabafou, espezinhando as cinzas, “e o mundo muda a teu favor.”

O karma branco

giphy.gif

Ambrósio curava-se, havia mais de um milénio, de desgosto da alma, de cratera aberta pelo amor, pela aniquilação do amor às mãos de louca senhora, quando consigo essa mesma louca senhora se cruzou. À custa de intermináveis sonhos e rememorações mantidos vivos, os sentimentos que por ela nutria acudiram-lhe em simultâneo à boca, e por essa razão regurgitou e tombou, desmaiadíssimo, para o lado. Acudido por transeuntes versados na aplicação de palmadas em rosto desfalecido, Ambrósio safou-se de segunda morte causada por furo no peito, reergueu-se das trevas e, vexado, zonzo, cumprimentou a mulher que lhe partira o coração, soprou algo tolo como parabéns por te teres livrado de mim, ou parabéns por teres encontrado nesse gordo feio o amor que comigo não tinhas, ou parabéns por ainda me afogares em lágrimas como no dia em que fugiste. Nisto, o gordo feio, que comunicava com o mundo por via de zurros, zurrou, quiçá manifestando indignação – não se encontrava presente no evento qualquer intérprete de zurros -, e logo a senhora lhe espetou cenoura entre a dentadura, acto que, para surpresa geral, inclusive do zurrador, contribuiu para harmonizar-lhe as ideias. Ambrósio virou-lhes as costas. Por muito que desejasse ou amasse aquela mulher, nada voltaria a ser como fora, ou como imaginara que poderia ter sido, o passado existia porque ele próprio o mantinha aceso, a arder como uma fogueira, mas o passado era essa coisa invisível, uma energia de fogo que lhe consumia o pensamento, que lhe bloqueava o acesso a amigos, a outras mulheres, o passado era Ambrósio escavacado, anti-social, sonâmbulo, patético. “Amo-te sem saber como deixar de te amar”, despediu-se Ambrósio, sem olhar para trás, e caminhou, primeiro lentamente, à espera de ouvir alguma resposta desse irrecuperável passado, depois a ritmo mais acelerado, acatando o silêncio e o desprezo como formas de retribuição,  de não ser amado. Sem se aperceber de que a mulher o perseguia à distância, Ambrósio andava de cabeça pesada, prometia olvidar, virar a página, não perder mais noites de sono a alimentar fantasias, rasgar a imagem da louca, arrancá-la das profundezas do seu ser. Uma mão, a mão dela, pousou-lhe no ombro ao enfiar a chave na porta do prédio, e ele, esgotado, não encontrou palavras que acompanhassem os seus confusos sentimentos, que incluíam raiva, dor, repulsa, saudade, melancolia e desejo. “O que mudaria se te dissesse que continuas a ser o homem da minha vida?”, perguntou-lhe ela, despida de camuflagens, com aqueles lábios vermelhos prontos a engolir as estrelas, com aqueles olhos pretos como a noite mais escura. “O que se alteraria entre nós se te revelasse que nenhuma destas inutilidades com quem durmo e convivo contribuiu para te esquecer?”, voltou ela a perguntar, como se estivesse pronta para não obter resposta de indivíduo habituado mais a sentir do que a agir. Pela primeira vez em muito tempo, Ambrósio tocou na face da mulher, sentiu-lhe o cheiro com as narinas encostadas ao cabelo, deu-lhe a mão e afirmou que mudaria tudo, e ela beijou-o, e nesse momento o gordo feio explodiu num fogo de artifício que maravilhou a população.