Os centauros

Viol e Forey são dois reformados que passam a tarde a conversar com uma réplica de um cérebro humano nas mãos. Vão-no dissecando, à medida que conversam sobre cavalos. Têm ambos uma inusitada paixão por estes animais. Nunca montaram, nem pretendem montar (agora já é tarde para todos os triunfos e coragens), nunca tiveram qualquer relação de óbvia proximidade com este ou até com outros animais, mas há algo neles que os leva a pensar insistentemente na figura equina e a discutir, através de uma imensa rede de coincidências declaradas, a razão daquela consanguinidade mental.

O processo repete-se diariamente (ora na casa de Viol, ora na casa de Forey) e a conversa, ainda que parta sempre de ângulos tão digressivos como experimentais, não ilude o destino, nem alivia a incessante constatação do resultado: por volta das cinco da tarde, sempre com a réplica do cérebro na mão, os dois amigos atingem o hipocampo. O hipocampo é o quartel-general da memória, essa delicada zona cerebral que lembra, pelos seus contornos curvos e vagamente sensuais, um cavalo-marinho, um hippocampus. A partir daqui a coisa complica-se. Os dois amigos sofrem subitamente um surto de estranheza galopante, a conversa seca e instala-se um tédio confuso semelhante à bruma da Irlanda. Despedem-se então cordialmente e regressam à sua vida normal.

Sequestro

Um pouco por toda a sala o desejo é o mesmo. Fala-se porque é preciso iludir. Criam-se narrativas atrás de narrativas. Há sempre alguém que recorre às suas habilidades para entreter. E nós precisamos de paliativos sinceros, de gente que suba ao palco e nos conte histórias, porque as histórias são as benzodiazepinas de deus.

Os malditos sequestradores também se divertem. Usam e abusam do seu violento protagonismo. Sobem ao palco e fomentam a indisciplina. Há noites de sexo ao vivo e circo errático e inconsequente com as mais perfeitas esposas do reino. Somos todos obrigados a aplaudir.

Houve quem congeminasse, nos tempos mortos, em segredo, e até preparasse um plano de revolução mais ou menos exequível. Houve quem doasse um braço, um olho, uma vértebra, um pedaço importante do seu pudor e do seu perfil, só para evitar ver o seu filho sofrer.

A verdade é que o tempo passa e os resultados não são visíveis. Fala-se que o próximo passo é tentarmos a amizade com eles. Mas as baixas diárias não deixam sequer o melhor dos nossos actores intervir. Estamos todos intoxicados pela descrença

Correspondências

L. acordou a meio da noite com os tentáculos da finitude à volta do seu pescoço de alabastro. Um pequeno hotel da área metropolitana ficou sem luz a partir das 3:45 da manhã. O gene responsável pela doença de K. subiu ao poder à mesma hora dentro corpo de H.

L. acendeu a luz do quarto. E deu conta da velocidade da sua respiração. Foram feitas 7 chamadas em vão provenientes do Hotel para a companhia de electricidade nacional. O gerente também foi avisado. O gene responsável pela doença de K. decretou a sua primeira resolução: dissolver totalmente o fígado de H. A notícia tinha chegado ao ouvidos do fígado de H. e este começava a ficar alarmado.

L. observou a sonolência de tudo quanto estava no quarto. O mundo era o mesmo de sempre e mantinha-se plano e inevitável. O quarto de L. estava pousado no mesmo lugar. O gerente do hotel tomou um duche à pressa e cortou-se enquanto se barbeava. Depois meteu-se no carro e dirigiu-se a toda a velocidade para o hotel pela grande circular. A chuva caía com indiferença por todo o lado. O sistema imunológico de H reuniu-se de emergência. Em cima da mesa de trabalho havia uma guerra declarada. Os anticorpos vestiram os seus uniformes, carregaram as suas armas.

L. verificou que o tempo também estava pousado no mesmo lugar. Os objectos fingiam adorar a eterna inacção. A casa estava dissolvida no silêncio sujo da cidade. E o marido roncava ao seu lado, perdido na obesidade das suas prostrações habituais. O gerente entrou ofegante pela porta principal do hotel com uma lanterna na mão. Gritou com o funcionário de serviço e com um gesto violento arrancou-lhe o crachá. Dois turistas estrangeiros comiam uma sanduíche de carne assada apeados junto à recepção. Um pequeno gerador iluminava uma grande planta ornamental. Os anticorpos do corpo de H estavam desmotivados. Foram acordados a meio da noite, não tinham grandes reservas, o fígado estava velho e não cooperava, mas ainda assim partiram para a frente de batalha. Quando se aperceberam da dimensão da ameaça muitos deram a volta e foram descansar.

L. apagou a luz e voltou a adormecer. O hotel reencontrou a esperança 5 horas mais tarde. H. faleceu aos 48 anos.