Cartas de amor entre Simone de Beauvoir e Albert Camus

Traduzimos (Victor Gonçalves) duas cartas inéditas de Simone de Beauvoir e Albert Camus publicadas no dia 1 de abril de 2023 na revista francesa Philosophie magazine. Em breve farão parte de um livro.

Dão-nos a saber que Beauvoir e Camus mantinham uma relação amorosa secreta, ou clandestina. A receção ficou surpreendida, um pouco como eles, com o arrebatamento, mais dionisíaco em Beauvoir, do amor-paixão que os prendeu. várias vezes, de um e do outro lado, sentimos que receiam sucumbir à torrente da paixão. Vemos também como Beauvoir é bastante mais sensualista do que Camus, que, aliás, a trata na terceira pessoa. Fazendo jus a um feminismo assente na liberdade e responsabilidade individuais em vez de em dispositivos institucionais, é Beauvoir quem mais arrisca nesta troca epistolar, nas palavras e julgamos que nos atos, perante o homem e perante as convenções. Beauvoir publicou O Segundo Sexo em 1949 e dois anos antes Para uma Moral da Ambiguidade, é também um pouco destes livros que vislumbramos nas entrelinhas da sua carta. Do primeiro, emerge a crítica às assimetrias homem-mulher (invertidas, aqui) e, entre outros, a superação (contradição?) da sua visão negativa do amor-paixão. Do segundo, a insistência na conquista permanente da liberdade, até contra a alienação amorosa. Com refere nesse livro, «A liberdade é a fonte a partir da qual surgem todos os significados e todos os valores; é a condição originária de qualquer justificação da existência; o homem que procura justificar a sua vida deve acima de tudo e absolutamente querer a própria liberdade: ao mesmo tempo que exige a realização de fins concretos, de projetos singulares, exige-se universalmente». Mas reconhecendo, na linguagem das entranhas mais do que na da metafísica, que a «liberdade nunca será dada, terá sempre de ser conquistada». É esta conquista que talvez se possa ler na decisão de tratar Camus por tu.

Sabendo do pacto de sinceridade firmado entre Simone Beauvoir e Jean-Paul Sartre, é plausível que este estivesse a par da paixão de Beauvoir, compreendida e absolvida pelo contrato de poliamor que os unia. Mas a querela que surgiu em 1947 entre Sartre e Camus (afirmava que os gulags eram uma versão dos campos de concentração nazis, enquanto Sartre tomava o partido da União Soviética, desculpando-lhe as imperfeições) intensificou-se nesta época. Alguns dirão que foi o resultado da publicação de O Homem Revoltado (1951). Recordamos que Camus propõe aí, contra a categoria política do homem revolucionário e a sua vontade de «mudar o mundo» (Marx), a do homem revoltado e a de «mudar a vida» (Rimbaud). E talvez isso tenha guiado a crítica de Francis Jeanson em Les temps modernes, a revista de Jean-Paul Sartre, à falta de materialismo de O Homem Revoltado. Incitando Camus a escrever uma carta de dezassete páginas ao seu amigo Sartre, onde diz, entre outras coisas, que está farto de receber lições, recusando que lhe digam o que deve escrever, sobretudo se forem intelectuais revolucionários imersos no conforto burguês, noutros termos, prosélitos da violência política revolucionária do comunismo enquanto vivem protegidos numa democracia que acusam de ser um sistema social fundado na desigualdade. Perante as injustiças, é preciso revoltar-se, mesmo que se isso se faça na incerteza. Que, aliás, Camus preza muito mais do que o dogma.

Sartre respondeu-lhe de forma assassina, criticando-o por interpretar as objeções ao O Homem Revoltado como uma blasfémia. Questionou também as suas competências filosóficas e disse-lhe que fazia opções incorretas e injustas entre quem oprime e quem é oprimido, que era um reacionário da revolução (soviética) que conduzirá à libertação dos povos.

A troca epistolar completa entre os dois intelectuais, sem dúvida dos mais relevantes da época, foi publicada em Les temps modernes. No imediato, Sartre ganhou a batalha das ideias. Muitos franceses suspeitaram que Camus era ingénuo e se inclinava para a direita. Ulteriormente, porém, o dogmatismo e a cegueira de Sartre e dos seus acólitos perante os horrores do estalinismo contribuíram para uma plena recuperação do poder da moderação camusiana.

Mas o que nos importa aqui é o encantamento Beauvoir-Camus, e também o medo de ousarem para lá da sua condição de intelectuais, deixando que as emoções toldassem o seu discernimento mais cartesiano. E porventura os ciúmes que a celebração de uma vida plena terá provocado em Jean-Paul Sartre.

Paris, 12 de outubro de 1951
«Minha querida Sissi,
Sabeis que não sou um homem para grandes entusiasmos. Meyrink disse: “É pelo sentimentalismo que se reconhece um patife”, e desconfio igualmente das exaltações demasiado demonstrativas. No entanto, cada um dos nossos encontros provoca em mim um lirismo que tento insensatamente reprimir. Bem sabeis também que só há salvação na arte e na ação. Bem — para mim, conjugais as duas. Que mais haverá para sonhar num encontro entre dois seres? Sois a minha música, a minha alma, a minha pintura, a minha … [palavra ilegível], simultaneamente a Graça e a Providência, em suma uma camarada como eu já não pensava poder conhecer, na solidão desta via que ambos escolhemos (se não foi ela que nos elegeu). Um artista sem musa não é muita coisa. Este lugar-comum, desculpar-me-á, é provavelmente válido para todos os homens. Ação, então! Aqui, mais uma vez, dais-me tanto. Seria quase suficiente para uma existência completa: uma luz para a noite do quotidiano, e os vossos “tentáculos das trevas” (uma expressão enfeitiçante na vossa boca), quando a necessidade de nos afastarmos é demasiado premente diante de toda a agitação do mundo. Que melhor coro, como diziam os gregos, do que os vossos braços? Tenho agora a sensação de ter vivido antes de vós o sacerdócio de um vigarista. Ora, a verdade, quando assoma, é a coisa mais brilhante e mais nua que existe. É provavelmente por isso que todos passamos as nossas vidas na penumbra; mas é apenas uma semi-obscuridade, já que o outro lado é tão brilhante que temos de nos proteger como se fechássemos persianas. Não estou a divagar — o que procuro desajeitadamente exprimir é que já não me posso cegar com esse orgulho irrisório que os homens obtêm pela independência, seja ela material, social ou emocional: amo-vos, minha Sissi. Peso as palavras, acerca das quais se queixa normalmente de que sou demasiado parcimonioso. Também sei o que elas significam na nossa situação. Finalmente, sim, amo-vos. E isso faz-me feliz. Porquê, então, privarmo-nos da felicidade quando ela surge? Vivamos!

P.S.: Vireis à Rua de Bellechasse na próxima semana? René deu-me a entender isso ontem. Espero que sim.
Albert»[1]

[Não datada]
«Caro velho puma,
Que prazer em te ler novamente. Cada uma das tuas cartas encanta-me e acorda-me do meu torpor seco. Se me visses de manhã, a vigiar atrás da janela as idas e vindas do carteiro como uma menina apaixonada, rir-te-ias certamente de mim. Sei que és galanteador, mas mesmo assim há aqueles momentos em que, por mais determinada que esteja em manter-se dona do seu destino e dos seus desejos, uma mulher só pode render-se às inclinações surdas do seu sexo. A ternura por si só não é suficiente, requer outros prazeres; só tu sabes apaziguar este desejo que me consome. Ou melhor, atiçá-lo, infernal deleite celestial.

Ouço o que dizes. Também eu me entrego sem reservas. Sabes muito bem (e nisto admito-o tanto para mim como para ti) que só posso realmente encontrar nos teus braços o conforto pelo qual anseio tanto. Depois de tantas noites perdidas, para não falar dessas tardes insípidas em que ele [muito provavelmente Jean-Paul Sartre] mal se digna a falar comigo, ocupado a perseguir as saias de não sei que ingénua fascinada perante as suas tiradas, a tua humanidade, a amável receção do teu ouvido às minhas mudanças de humor, as tuas atenções mais ínfimas até, fazem-me um bem soberano. Dou por mim a falar-te de sede saciada, apetite satisfeito, sensualidade despertada... Também eu me sinto quase estúpida por formulá-lo desta forma. Assim seja: aqui estamos nós, os dois, espantados com a ingenuidade dos nossos corpos. Não será esta a definição de inocência?

O que pensas que é válido para os homens, como dizes, é bom para o resto de nós, meu caro; no entanto, porquê abafar o fogo que finalmente triunfa sobre o Inverno? O amor é uma criança sem vergonha, glorioso e impúdico. E todos os nossos sentimentos, mesmo proibidos (quem o decretou?) serão sempre mil vezes mais nobres, bonitos e vivos, do que esta situação pela qual ele me faz sofrer, e que se está a tornar francamente ridícula. De resto, não sei que tipo de mulher seria eu a denegrir o amor. Eis a inelegância que ele me arranca: estou restringida, suprema indignidade, a queixar-me a um terceiro. A ti, de quem sinto tanta falta, Albert. A tua voz penetrante, o teu sorriso felino, a tua respiração quente no meu pescoço solitário. A ti, meu oásis no deserto. Os meus pensamentos acompanham-te sempre, não duvides. Mal posso esperar para te ver no sábado. Farei todos os possíveis para vir mal termine o jantar.

Amoroso,
A tua»[2]

 


[1] Paris, le 12 octobre 1951
« Ma tendre Sissi,

Vous savez que je ne suis pas un homme de grandes effusions. “C’est au sentimentalisme qu’on reconnaît la canaille”, écrivait Meyrink, et de même, je me méfie des épanchements trop démonstratifs. Pourtant, chacune de nos rencontres fait naître en moi un lyrisme que je cherche sottement à réprimer. Vous savez bien, vous aussi, qu’il n’y a de salut que dans l’art et dans l’action. Eh bien – vous conjuguez pour moi les deux. Que rêver de plus, dans la rencontre entre deux êtres ? Vous êtes ma musique, mon âme, ma peinture, mon [illisible], la Grâce et la Providence tout à la fois, et tout simplement une camarade telle que je ne croyais plus en connaître, dans la solitude de cette voie que l’un comme l’autre nous avons choisie (si ce n’est elle qui nous a élus). Un artiste sans muse n’est que bien peu de chose. Cette platitude, vous m’excuserez, est d’ailleurs valable pour tout homme, probablement. De l’action, donc ! Là encore, vous m’en donnez tant. Cela suffirait presque à une existence complète : une lumière pour la nuit du quotidien, et vos “tentacules de ténèbres” (envoûtante expression dans votre bouche), lorsque le besoin de retrait se fait trop pressant face à toute l’agitation du monde. Quelle meilleure chora, comme disaient les Grecs, que vos bras ? Avant vous, j’ai désormais l’impression d’avoir vécu le sacerdoce d’un escroc. Or, la vérité est la chose la plus brillante et la plus nue qu’il soit lorsqu’elle éclate. Voilà sans doute pourquoi nous passons tous notre vie dans la pénombre ; mais précisément, il ne s’agit que d’une semi-obscurité, puisque l’autre versant est si étincelant que nous devons nous en protéger comme par des jalousies que l’on tire. Je ne digresse pas – ce que je cherche maladroitement à exprimer, c’est que je ne peux plus m’aveugler, de cette fierté dérisoire que tirent les mâles de leur indépendance, qu’elle soit matérielle, sociale ou affective : je vous aime, ma Sissi. Je prends la mesure de ces paroles dont vous vous plaignez que je suis d’ordinaire trop économe. Je sais aussi ce qu’elles signifient dans la situation qui est la nôtre. Enfin, oui, je vous aime. Et cela me rend heureux. Pourquoi donc se priver du bonheur lorsqu’il surgit ? Vivons !


P.S. : Viendrez-vous rue de Bellechasse la semaine prochaine ? René me l’a fait entendre hier. J’en ai l’espoir.

Albert »

[2] [non daté]
« Cher vieux puma,

Quel plaisir de te lire à nouveau. Chacune de tes lettres m’enchante, et me tire de ma torpeur sèche. Si tu me voyais le matin, à guetter derrière la banne les allées et venues du facteur comme une gamine amoureuse, tu rirais sans doute bien de moi. Je te sais flatteur, mais quand bien même, il est de ces instants où toute déterminée qu’elle soit à rester maître de son destin comme de ses attaches, une femme ne peut que s’abandonner aux sourdes inclinations de son sexe. La tendresse seule ne suffit pas, elle exige d’autres plaisirs ; toi seul sais apaiser ce désir qui me consume. Ou plutôt l’attiser, délice infernalement céleste.

J’entends ce que tu me dis. Je me livre moi aussi sans retenue. Tu sais bien (et en cela je me l’admets autant à moi-même qu’à toi) que je ne trouve véritablement que dans tes bras ce réconfort dont je me languis tant. Après tant de nuits délaissées, sans parler de ces mornes après-midi où Il daigne à peine m’adresser la parole, occupé à courir les jupons de je ne sais quelle ingénue transie devant ses tirades, ton humanité, l’accueil bienveillant de ton oreille à mes humeurs changeantes, tes plus infimes attentions même, me font un bien souverain. Je me surprends à te parler de soif étanchée, d’appétit comblé, de sensualité réveillée… Moi aussi, je me sens presque stupide de le formuler ainsi. Qu’il en soit ainsi : nous voilà deux à être étonnés de la naïveté de nos corps. N’est-ce pas la définition de l’innocence ?

Ce que tu penses valable pour les mâles, comme tu dis, l’est aussi pour nous autres, mon cher ; néanmoins, pourquoi étouffer le feu qui triomphe enfin de l’hiver ? L’amour est un enfant effronté, glorieux et impudique. Et tous nos sentiments, même interdits (qui l’a décrété ?) seront toujours mille fois plus nobles, et beaux, et vivants, que cette situation dont ll me fait souffrir, qui devient franchement ridicule. Du reste, je ne sais quel genre de femme je serais à dénigrer l’amour. Voilà l’inélégance qu’Il m’arrache : j’en suis réduite, suprême indignité, à m’en plaindre à un tiers. À toi qui me manques tant, Albert. Ta voix pénétrante, ton sourire félin, ton souffle chaud sur ma nuque solitaire. Toi, mon oasis dans le désert. Mes pensées t’accompagnent toujours, n’en doute pas. Je ne puis attendre de te voir samedi. Je fais tout mon possible pour venir dès le dîner expédié.

Amoroso,
Ta tienne
 »

Ésquilo, Agamémnon, 123-246

A minha tradução do Agamémnon de Ésquilo sairá com a edição de amanhã do jornal Público. Deixo aqui um dos meus passos preferidos. Tem lugar no párodo (o canto de entrada do Coro); o Coro, um grupo de anciãos, tenta interpretar um sinal que parece anunciar que o exército e o rei Agamémnon regressam triunfantes da guerra. Mas um temor incerto fá-los recordar um episódio que teve lugar dez anos antes, aquando a partida do exército, em que o rei sacrificou a própria filha para apaziguar a cólera de um deus e permitir que a experdição militar possa partir.
O párodo do Agamémnon é a secção lírica mais extensa que nos chegou da tragédia antiga. É também uma das mais belas.


CORO (Cantando e dançando)

Então, o prudente profeta do exército, vendo os dois, distintos em temperamento,
os dois belicosos Atridas, reconheceu nas devoradoras de lebres
os comandantes supremos do exército e assim falou, interpretando o prodígio:   
“Com o tempo esta expedição tomará a cidade de Príamo
e todos os numerosos
rebanhos das gentes[1] acumulados diante das muralhas o Destino saqueará
pela força.
Mas que ressentimento algum vindo dos deuses
obscureça com um golpe antecipado o grande freio de Tróia
pelo exército em formação. Em sua compaixão é aborrecida a casta Ártemis
pelos cães alados de seu pai
que a pobre lebre, antes que desse à luz a sua prole, sacrificaram.[2]
Ela abomina o festim das águias.”
Um triste canto entoai, um triste canto, mas que o bem triunfe!

epod.
“Tão graciosa é Hécate[3]
para com o orvalho indefeso dos feros leões
e para com as crias de leite
de todos os animais selvagens tão amável,
por isso pede que os prodígios se realizem,
a visão favorável, porém reprovável, †das aves†.
Mas suplico ao Péan[4] que acorre aos agudos lamentos
que contra os Dânaos nenhuns ventos adversos, retendo por longo tempo as naus em terra,
ela prepare, precipitando assim um outro sacrifício, sem música e sem festim,            
artífice de discórdias nado e criado na família,
que não teme homem algum[5] – pois permanece pronta a reerguer-se uma temível
e enganadora governanta, a Cólera que não esquece, vingadora dos filhos.”  
Estas palavras Calcas
proferiu, acompanhadas com a promessa de grandes bens,
quando leu no presságio das aves à partida o que estava destinado para a casa real.
Em consonância
um triste canto entoai, um triste canto, mas que o bem triunfe!

estr. 2
Zeus, seja ele quem for, se por este nome
lhe é caro ser chamado,
por este nome o invoco.
Com nada o posso igualar,
tudo pesando,
senão com o próprio Zeus, se do pensamento esta vã angústia                                   
é necessário realmente expulsar.

ant. 2
Daquele que outrora era grande[6],
transbordante de uma audácia capaz de tudo desafiar,
não se dirá sequer que foi.
E o que se lhe seguiu[7]
logo partiu ao encontrar o vencedor que o derrubou três vezes[8].
Mas aquele que de coração despojado o hino vitorioso de Zeus cantar
alcançará a suma sageza;                                                                                             

estr. 3
pois é Zeus que os mortais na senda do conhecimento
guia, que a aprendizagem por meio do sofrimento
estabeleceu como lei absoluta.
Goteja sobre o coração em lugar do sono
a mágoa que memora a dor. E, ainda que indesejada,
a sabedoria virá.
Onde é a graça dos deuses,
violentamente sentados no augusto assento do timoneiro?

 
ant. 3
E então o mais velho dos comandantes[9]
das naus dos Aqueus,
não recriminando adivinho algum,
conspirou com a sorte que o feria,
enquanto a demora devorava as provisões
e oprimia a multidão aqueia,
acampada defronte de Cálcis[10],
nas costas de Áulis, onde a rebentação ruge continuamente;

estr. 4
os ventos que do Estrímon[11] sopravam
um tédio nefasto, a fome, a má ancoragem,
o desvario dos homens, não poupando naus nem amarras,
tornavam a espera duplamente longa,
com o desgaste consumindo
a flor dos Argivos; e quando um outro
remédio mais pesado
do que a amarga tempestade o adivinho proferiu
aos primeiros do exército,
declarando Ártemis responsável, então, batendo com os ceptros
no solo, os Atridas
não contiveram as lágrimas,

ant. 4
e o mais velho dos chefes ergueu a voz para falar:  
“Sorte pesada é não obedecer,
pesada também se esquartejar a minha filha, jóia do meu lar,
manchando as mãos paternas
na corrente do sangue de uma donzela imolada
junto ao altar. Qual destas está isenta de mal?
Como me hei-de eu tornar um desertor das naus
falhando para com a aliança?
Pois o sacrifício
que acalme os ventos à custa do sangue de uma virgem desejam
com desejo extremo, mas proíbe-o
a Justiça. Oxalá tudo corra pelo melhor!”

estr. 5
Mas quando a si ajustou o jugo da necessidade,
do espírito soprando um vento de mudança ímpio,
impuro, sacrílego, então
mudou o curso do pensamento para a maior das audácias –
pois torna audazes os mortais a de vergonhosos conselhos,
a miserável demência, princípio da desgraça. E assim ousou
tornar-se o sacrificador
da filha como auxílio
para uma guerra vingadora de uma mulher
e sacrifício preliminar[12] à partida das naus.

ant. 5
Das súplicas e apelos ao pai
não fizeram caso, nem da virginal idade,
os juízes enamorados pela guerra.
Aos servos o pai, depois da prece, ordenou
que, como uma cabra, sobre o altar,
a que as vestes do pai com todo o coração abraçava, inclinada para a frente
a erguessem,
e que a bela proa da boca
selassem como vigia
contra alguma palavra de maldição para a casa

estr. 6
por meio da força de um freio e da violência emudecedora.
Quando já o seu vestido tingido de açafrão[13] pendia para o solo,
de seus olhos lançava ainda a cada um dos sacrificadores um dardo
piedoso, destacando-se como numa pintura, desejando
chamá-los pelo nome, pois outrora muitas vezes
nos hospitaleiros banquetes de seu pai
havia para eles cantado, a virgem que com voz pura a libação
terceira[14] do pai
amado com um péan[15] amoravelmente honrava.

[1] Expressão ambígua: significa ao mesmo tempo “rebanhos que pertencem ao povo” (o passado mítico em que a tragédia é projectada não conhecia ainda a cunhagem de moeda, por isso os rebanhos representam a riqueza da cidade), mas também “rebanhos de gente”, “rebanhos constituídos por gente”.

[2] Verso ambíguo. Em grego pode também significar: “que a sua própria filha, infeliz e cheia de medo, diante do exército sacrificaram.”

[3] Hécate era originalmente uma divindade infernal, mas como divindade tutelar dos partos e protectora dos recém-nascidos era por vezes confundida com Ártemis.

[4] “O que cura”: epíteto de Apolo, cuja intervenção é aqui implorada também na condição de irmão de Ártemis.

[5] Expressão ambígua: ao mesmo tempo “que não teme homem algum” ou “que não respeita homem algum”, i.e., que desrespeita a vida humana, e “que não teme o marido”.

[6] Úrano.

[7] Cronos, filho de Úrano, que venceu e depôs o pai.

[8] A imagem reporta à luta do pancrácio, onde o lutador que por três vezes derrubasse o adversário vencia o combate. O vencedor é Zeus, filho de Cronos.

[9] Agamémnon.

[10] A expedição grega reuniu-se em Áulis, na costa da Beócia. Diante de Áulis, do outro lado do Euripo, ficava a cidade de Cálcis.

[11] Rio da Trácia.

[12] Ver nota 8. Talvez se trate de uma alusão à variante do mito segundo a qual Ifigénia foi convocada a Áulis sob o pretexto de ser desposada por Aquiles (como na Ifigénia em Áulis de Eurípides).

[13] O vestido tingido de açafrão simbolizava uma transição bem-sucedida da infância para a idade núbil; o facto de Ifigénia o usar pode ser uma outra alusão ao pretexto por meio do qual foi trazida até Áulis.

[14] A terceira libação dos banquetes era em honra de Zeus Sôtêr (Salvador), tratava-se de um ritual com o fim de afastar os males e atrair prosperidade.

[15] Em geral, o péan era um hino em louvor de um deus olímpico (normalmente Apolo).

Poesia e filosofia: Victor Gonçalves e Tatiana Faia em Conversa

Simone de beauvoir em Les deux magots (Robert doisneau, 1944)

No contexto do Café Filosófico organizado mensalmente por Victor Gonçalves e pela livraria Snob os nossos editores Victor Gonçalves e Tatiana Faia encontraram-se para conversar um pouco sobre os elos que aproximam e afastam a poesia e a filosofia.

De Eduardo Lourenço às cartas de amor de Simone de Beauvoir a Albert Camus, parando na edição recente, em tradução de Victor Gonçalves, de Para Uma Moral da Ambiguidade de Simone de Beauvoir. Como escrever poesia e filosofia, o que é um bom poema ou um bom texto filosófico, são algumas das perguntas que pontuam esta conversa onde se perde o fio à meada. Como viver talvez seja a pergunta que junta a filosofia e a poesia.

Victor Gonçalves e Tatiana Faia em Conversa
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Victor Gonçalves e Tatiana Faia em Conversa


Mais 3 sobre pouco ou nada

À Espera no Mecânico

 

Timidamente, com a voz cansada dos últimos anos,

Pergunta se lhe querem também comprar os pneus do carro,

Pois sabe, amanhã acaba a validade da minha carta,

O jovem não percebe à primeira, então num esforço

Ainda maior, repete, que depois de amanhã,

Não poderá conduzir mais, quase humilhado,

Um elefante que caminha em direção ao isolamento

Do cemitério, longe da sociedade activa,

Humilhado pela proximidade da inevitabilidade,

Antes desta se concretizar, um fim anunciado,

Viver além do prazo de vencimento ou da utilidade,

Ao que o jovem responde que não, não se apercebendo

Que o interesse era ele tornar-se testemunha também,

Daquele fim, daquela data que o afastará mais da vida.

 

30.03.2023

Turku

Aquele Bolo com um Compal

 

Não sei medir a felicidade plebeia de atravessar aquela ponte

Sobre altura e nada, em direção a casa dela, a mulher mais exótica

Da vila, modelo na Coreia, meia galega, neta da minha vizinha,

Alta como um sonho quase possível, um bolo e um Compal

Que ela pagou num café quase vazio, que interessa saber tocar

Chopin num desafinado piano herdado dum apelido

Menos comum e um antepassado que em vez de caçador

De javalis e bebedor de vinho xistoso, o descobridor dum calhau

Vazio no meio do medo e da incerteza, viver sem medir apelidos,

Peças de música imortais, todos os clássicos que não se leram,

Um bolo e um Compal depois do trabalho da meia galega,

Antes de nos fecharmos naquele quarto alugado às escuras,

Para cá do Marão, desenrolando suspiros e gemidos,

Desvendando espasmos e dilatações com o espanto da juventude,

Até adormecermos ao som de um cantor Pop, longe das ondas

E deste corpo que hoje arrasta a tinta pela página fora,

Como se fosse tempo, tentando apanhar ao menos

Um momento, uma migalha daquele bolo com um Compal.

 

Turku

27.03.2023

Tons de Branco Sujo

 

Aonde me levam as insónias nesta Primavera

Que não se deixa vir, a caminho de sua casa

Na festa da vila no Verão e as calças brancas

De joelhos na terra no Largo da Feira

E num gorgolejo de cerveja e música pimba,

Venho-me sem glória, com uma pressa de matraquilhos,

Este corpo que agora tão estranho àquele

Que dentro do teu, nesta Primavera coberta

Duma insónia fria e branca como o esquecimento.

 

Turku

29.03.2023

Elogio da gralha

Du côté de chez swann, in à la recherce du temps perdu, corrigido por Proust

As gralhas (acaso) são mal-amadas, até mais do que os erros (ignorância), muitas vezes acompanhados por um código de punição bem estabelecido, permitindo o conjuro para redimir o infrator e, sobretudo, o algoz (a pedagogia parva da palmatória assentava neste princípio). Já as gralhas, fruto do desleixe ou do fortuito, são menos imputáveis, mas mais censuráveis.

As que resultam do desleixe evidenciam o descuido na redação ou na edição. Este défice de brio é pouco desculpável, mesmo nos casos em que ocasiona uma inventividade linguística fértil (foi quase sempre desta forma que as línguas se mantiveram vivas). É comum criticar-se, sem direito a contraditório, a indigência ou a pressa (a aceleração e dispersão da modernidade impedem o escrutínio atento, realizado, em grande medida, depois da primeira revisão, é preciso olhar noutro tempo para o mesmo texto: escrever num dia, rever noutro, e noutro, e noutro...) que originam a falha. Mas uma parte da crioulização do latim para o português teve origem nesta imperfeita economia linguística, simultaneamente corruptora e criadora.

A gralhas fortuitas têm, por seu turno, mais alcance e, por isso, são vitais para que uma língua renove os campos de sentido com enxertos bem mais afastados das guias originárias. Kant, na «Dialéctica Transcendental» da Crítica da Razão Pura desconsidera a inventividade linguística, fixar sentidos (é esse um dos grandes objectivos do livro) supõe fixar a linguagem, daí dizer, com todas as letras, que uma língua morta é preferível a outra cheia de neologismos. Mas Kant quis criar um sistema filosófico, neste caso sobre as possibilidades, todas as possibilidades racionais, do conhecimento.

Sabendo-se hoje que os sistemas podem, e devem, ser curto-circuitados, que as reservas de sentido são infinitas e a racionalidade humana finita, que os limites de uma língua devem ser empurrados além das suas fronteiras para que aquela não estagne e desapareça, ninguém, com um juízo que queiramos frequentar e emular, sonha escrever numa língua morta e ser revisto por pensamentos algorítmicos, humanos ou artificiais, a quem não escapasse qualquer gralha.

Mas nos efeitos práticos, este romantismo da resolução dissolvente, da acção que aceita o imprevisto, mais, que o ama, da escrita jovial que foge aos imperativos do autor, que não se submete imediatamente ao leitor, há consequências que podem destruir um génio juvenil, um escritor promissor. Mantém-se a responsabilidade individual, apesar do muito que ultrapassa o plano traçado por cada indivíduo, e é bom que se mantenha, sem escrutínio e punição (simbólica) não haveria mundo. Mas quem avalia a qualidade de um texto apenas pelas gralhas e erros transforma-se num funcionário da redução, do empobrecimento, da mesquinhez. Não defendo, em contraste, uma tolerância sem freios, mas aponto para a grandeza que julgo existir no passar pelas gralhas, pelos erros (por alguns deles) como por algo de irrelevante para a qualidade, ou falta dela, do que se lê.

Assim, quando virem uma gralha ou um erro que pareçam fatídicos não os deixem ser fatais, ou melhor, não os tornem fatais. Vejam, antes, se têm a força de um vector de transformação da língua e do pensamento.