As musas não se apresentam

Imagem do filme “Il Sorpasso”, de Dino Risi - um dos filmes mencionados no texto abaixo.

Imagem do filme “Il Sorpasso”, de Dino Risi - um dos filmes mencionados no texto abaixo.

Porto, 30 de Agosto de 2020

meu querido amigo,

Como nós os dois gostamos de coisas vagamente deslocadas, não teria outra forma de estar na apresentação do teu livro senão assim, com um texto que fique só aqui entre nós. Nem se esperaria outra coisa de um evento como este, cheio de gente que tem demasiada paciência para ouvir. Há que abusar dela. Pouco ainda se ouvem os poetas, especialmente os que estão vivos, o que parece ser cada vez mais um inconveniente. Ficam aqui entre nós, portanto, estas linhas, e por amizade. Começo, pois, por pensar sobre o título Merda para as musas, que não está na capa, mas no início do terceiro poema da terceira parte do teu livro (e se foi por acaso este movimento do número três, ainda melhor – o três é um número importante para quem gosta de solenidades). Chamaste-o, a esse poema, Merda para as musas.

Merda para as musas
enchem-nos a cabeça de nuvens
e o estômago de sol
e quando nos abandonam
deixam no seu lugar
um cão raivoso acorrentado
um gato no cio
que não cessa de miar
a auto-mutilação é inútil pois
elas voltam com diferentes caras e
diferentes vozes e diferentes canções e
tudo germina e cresce
outra vez
outra primavera
merda para as musas


Disseste que as Musas “enchem-nos a cabeça de nuvens / e o estômago de sol”, e talvez noutro século as celebrássemos como justas deusas; hoje sobra-nos, a nós que as conhecemos desses calhamaços que fingimos que já lemos ou naqueles que lemos e nos pesaram demasiado, a sua experiência fingida, a bazófia da sua inspiração. Como disseste em “um buda feroz” (embora fucked up Christian também pudesse servir como título), “carrego sempre um pequeno monte / de livros quando vou para a cama (...) agradeço-lhes o frete”. Partilho também eu esse teu heróico terror perante a angústia do que deveríamos ler e nunca pudemos, especialmente se a causa é uma preguiça cristalina. Talvez por isso suspiremos e insultemos agora as musas, múltiplas e todas, e fiquemos como “gatos com cio”, tal como escreveste, perante a volúpia de uma grande e inacessível biblioteca. Reparei que a frase merda para as musas figura três vezes: no título do poema, no primeiro verso e no último, uma espécie de cápsula sagrada – como em algumas religiões se faz – para tornar sagrado o que queres revelar. És talvez um poeta mais lírico do que queres fazer acreditar, talvez porque ainda insultas as musas. Sabes, também eu acredito nelas, e sou estúpido o suficiente para saber que sou apenas mais um aglomerado de sangue e nervos: conheço os nossos erros porque partilho grande parte do universo que colocas em verso. Nunca poderia escrever como tu, mas leio muita coisa como tu. Não nos camalhaços do nosso “buda feroz”, mas apesar deles, como tu bem sabes.

Volto à primeira parte do teu livro. Chama-se “perguntem ao whiskey”. E logo no primeiro poema, “o buraco da cozinha”, assumes uma voz masculina, vagamente boémia, e reclamas “não escolhas uma mulher que tenha tido muitos homens / não escolhas uma mulher que tenha tido poucos homens”. Há neste poema uma certeza do feminino – que ao contrário do que se pensa, pode ser muito saudável – ou pelo menos do amor entre um homem e uma mulher – a consciência de que este não é salvação nenhuma, apenas um encontro de paranóias. E de facto, no teu pequeno livro, não se sobrevive a nenhuma. Não sei se é verdade o que João Bosco afirma no posfácio do teu livro, onde atesta que és o Bukowski português. Como teu amigo, não te desejo nada disso, seria aliás cruel da minha parte. O risco biográfico de Bukoswki é demasiado, e embora me ria muito com as suas mulheres, tenho por ele uma espécie de piedade deslocada, que não quero sentir por ti. Quanto à segunda parte, Bukowski português, então não te desejo de todo seres português, é demasiado pouco. Podes até ter duas personagens nos teus poemas profundamente portugueses, o puto da Bica, um bêbado com a proverbial bazófia de quem não é incapaz nem capaz, mas capaz de tudo, e um bulldog inglês, que “arrumava carros e motas / e insultava quem não lhe dava moeda / por apontar com o dedo certeiro / o lugar vago para estacionamento”. Mas a sua portugalidade esboroa-se na tua frieza capital, de quem conhece outras europas e outros mundos, e vê uma cidade que nunca será sua – nem Lisboa, nem Porto, nem Veneza, nem nada – contaminada por essas surdas hordas de turistas que agora desapareceram, mas não tardarão a voltar com as suas máscaras cada vez mais elaboradas. É isso que se conclui no final do teu “puto da Bica” – a ironia dos poetas da nossa geração, que cada vez mais abominam a ausência dos versos nas suas ruas, e que têm de os encontrar no sítios mais ausentes:


“isto é que é uma maravilha” disse o puto da Bica
olhando embasbacado para as estrangeiras que desciam do ascensor
com o copo inclinado em ameaça de
verter o vinho a qualquer instante
é um talento raro equilibrar ao mesmo tempo
a embriaguez e a volúpia
sem fraquejar
e nós cedemos sempre

Estas são, de facto, umas musas de merda. Não deixam, porém, de nos convocar para a tragédia da sua épica deslocada. Como nesses filmes de Hollywood de que te queixas no segundo poema do teu livro, em que o sujeito lírico “bate uma” (não sabes como estive à espera toda uma vida académica para poder dizer algo como isto – o sujeito lírico “bate uma”, e repara no pormenor das aspas) à espera de melhores filmes, enquanto no seu íntimo assoma já o segundo andamento da sétima sinfonia de Beethoven – aquele mesmo andamento que já iluminou tantas películas, como o absurdo início do The Tree of Life do Malick. Esta sinfonia é precisamente a banda sonora do teu terceiro poema, abafada pelo olhar incómodo de uma mulher e pelo ruído branco de uma máquina de lavar – 1400 rotações por minuto, 1400 ruídos que atrapalham as nossas musas de merda, a angústia de sentirmos o que quer que seja, uma angústia que não é só de Bukowski, mas do nosso mundo moderno. “Que queres tu?” perguntas duas vezes nesse poema e concluis, sarcástico como sempre, que “basta de falar de amor por hoje”.

Talvez não saibas, porque me conheceste numa aula de literatura, onde eu a contragosto me irritava com a minha voz professoral de vão de escada, prometendo saber coisas que não sabia (como gosto tanto mais de ensinar línguas mortas!), mas também eu tenho um terror religioso por musas, especialmente as de sarjeta. Almornos foi a minha pátria; uma improvável aldeia de Sintra que nos anos oitenta tinha os jovens da minha idade amarrados à heroína – não uma Fedra ou uma Cleópatra – mas à droga, pura e dura. Não conheci os vizinhos por um medo instintivo de pais refugiados. E depois veio a vida de subúrbio, sempre contaminada pela distância, Caneças, Odivelas, estertores de cidade, e eu sempre fugido para Lisboa nos autocarros da Rodoviária Nacional. Ao menos tu encontraste as musas certas em Foros de Amora, invejo-te por isso. Soubeste no teu poema sinfonia em ré menor – o som dos rateres das motas de fim-de-semana – ter como musa uma vizinha de cima, que queria fugir de casa e acabou coxa, engolida pela violência e pela polícia. E embora a tua visão seja ainda de fora, como qualquer céptico que se preze, sente-se aquele lirismo de que nunca te conseguirás libertar, espero eu, e que faz de ti um poeta que nunca terá os 27 anos que afirmas ter no teu livro – uma tensão a que nunca resistes, embora tanto tentes, e a que sucumbes de vez em quando, como no teu poema “vamos provar o sol” ou na tua “lareira”:


o cheiro de um novo amor
é como o cheiro
de lenha a queimar na lareira
entranha-se na roupa
na pele
nos lençóis
e permanece
e perdura
até que precisemos de novo
à noite
de acender outro fogo


É assim a segunda parte do teu livro, “afogado em chamas”; se bem li, estas chamas vieram da “alvura das chamas do tecto” do teu “buda feroz” – o poema que poderia servir como pivot do teu livro. Gostas de repetir versos que dão ritmo, e um em especial se destaca neste poema: “alguém que nos proteja dos nossos demónios” – um demónio bem pariensiense que se espalha por cinco poemas em chamas. “Estou fodido” é talvez o título que melhor suplica a empatia com um leitor solidário, que estuda nos teus versos a verdade ou a ficção da escrita, um leitor homem, preso ao corpo da mulher, que se tenta libertar também ele de uma femme fatale cujo ridículo conhece melhor do que ninguém:


toda a graça e mágoa
de uma diva de cinema se reuniam naquela mulher
era uma mulher de alfazema na mão
ou de bâton-rouge em riste


Nesta segunda parte ouve-se muita música, Haendel, Ray Charles, até entrar por lá uma musiquinha absurda de Vivaldi; só quem escreve em música sabe o quanto o som errado pode estragar uma musa, nem que seja uma musa fingida, como é o caso.

Ainda bem que há livros de juventude – e este teu livro é, sem dúvida, um livro de juventude, e talvez o venhas a escrever mais vezes, se a merda das musas o permitirem. Mas devo-te confessar uma coisa, que talvez diga mais sobre mim do que sobre ti, caindo aqui no ridículo daqueles que apresentam os livros dos outros sempre com um enorme espelho na audiência. A tua juventude faz-me lembrar aqueles filmes jovens dos anos 60, a preto e branco. Fazem-me lembrar o Roberto de Il Sorpasso – talvez o mesmo Roberto por quem os sinos já tinham dobrado em Hemingway. Dino Risi faz da juventude uma coisa antiga, repetida, violenta, que se vai rindo até morrer num desastre de automóvel, excitada pela velocidade, como Alexis na Phaedra de Jules Dassin. Os jovens ficaram sempre presos nos livros e nos filmes, tal como Anthony Perkins e Jean-Louis Trintignant ficaram. Uma coisa difere, porém, e que me faz respeitar-te talvez mais, ou pelo menos rir-me mais contigo; enquanto estes dois morrem em carros de alta cilindrada, excitados pela vertigem da velocidade e das rotações de um motor que excedia largamente as tuas 1400 rpm, o jovem do teu livro continuará sempre sentado na sua Vespa em vertigem de amizade, bêbeda, cantando Carosone, um Sarraccino tão napolitano como a merda das musas:


vertigem
é estar montado numa Vespa
enquanto o teu amigo guia
(os dois bêbedos)
cantam o “Sarraccino” de Carosone
e a “Malafemmena” de Murolo
e tu te apoias no assento
com a mão esquerda
e falas com o teu amor ao telefone
com a mão direita

sem capacete

porque a verdadeira vertigem
é essa voz que
te sussurra ao ouvido

Pedro Braga Falcão

Querido trágico

Querido trágico,

   por alguma razão a ópera morreu. Não que estivesses fechado dentro dela, os monstros agora já não estão vazios, decorrem. Há algum tempo dir-te-ia que nunca poderias proibir Turandot de gritar, mas agora não estou securo, sabes, perdi as tuas coisas. Tinha-as demasiado perto e gritavas, casa com a mãe, casa com a mãe, pobre rapaz, tinha pena de ti, as tuas histórias vinham sempre uma oitava acima e tinham ritmo por trás. Escrevo-te por uma razão. Tenho sempre uma razão, nem que seja porque aranha e razão partilham diversas letras. Vivo neste mundo pós-mundo, sabes, a religião agora não tem crucifixos nem ateus, fica parada, estamos todos tão presos, sabes, derramam as letras e elas formam-se em forma de crucifixo. E pensas: lá do oriente, lá do oriente, mas os antropólogos deram cabo disto tudo, sabes, sei que sabes muitas coisas, querido trágico, ficas aí tão no teu milénio, mas eu tenho modernices, sabes, posso “telefonar-te”, e depois tens de me pedir desculpa e dizer: “continua lá a falar do teu trágico”, e eu digo “qual trágico?”, e tu respondes: “não somos todos uma tragédia, meu querido?”, e eu penso, querias que casasse com a mãe, não era, seu porco, mas não, não, nunca matei nenhum pai, quer dizer, matei já trinta ou quarenta, mas nunca um, e tu perguntas, “confessas?” e eu: “confesso o quê?” e tu continuas-me a tratar-me por “trágico” e eu fico confuso, afinal que carta era esta, ouvida ao som de Turandot, eu fico a pensar, querido trágico, nervos e pele, pele e ossos, ossos e pó, pó e nada, nem sombra, sombras-me, e penso, “tragédia, meu querido?”, tragédia nunca vem do oriente, é sempre mais modesta, não tem escalas pentatónicas, nem hexatónicas, queria que criassem escalas sem notas, isto é, vicissitudes de som, desafinadas, queria que criassem, espero que leias estas notas em voz alta, soa sempre melhor, as pessoas lêem demasiado baixo, queria que os comboios se enchessem de pessoas a ler alto, Shakespeare de um lado, A Bola de outro, o Segredo dos Trinta e Sete de um lado, a Jóia de Peterson de outro e mais cinco mil livros que nunca existiram e no fundo o revisor seria verdadeiramente um revisor diria: “ponto e vírgula, senhor”, e outro responderia: “não aceito”, e tu, querido trágico, farias a tua fulgurante intervenção: “o senhor é pai deste senhor?”, e eu, eu seria forçado a dizer, enquanto lia, ou melhor leria do meu livro: “é sobre mim que fala, senhor?”, e o outro senhor ficaria na esquina, isto é, se os comboios tivessem esquinas, faria um leve diminuendo, e diria “Deus, que fazes?”, e outro responderia, “não sabes? sofro, sofro” e tu dirias: “mas vocês sofriam muito no século XIX” e tu dirias “no século xis i xis?” e tu pensarias: “que coisa esta, Turandot, Turandot, Turandoooooot?”. É claro, tens cinco tons. Não te cales por enquanto, estamos dentro da cena. “Deixa-me passar”. Deixa-me passar, não dividas atenções.

 

Com os melhores cumprimentos, e aguardando resposta,

 

Pedro Braga Falcão

Carta do Grande Maestro Adolph

Caríssimo Senhor,

    provavelmente não me conhecerá, mas por razões bastante recentes fiquei incapaz de me dar a conhecer senão por carta. Fará tudo isto parte do rumo natural dos acontecimentos e de uma certa e continuada estratégia, que logo me dirá se será a mais acertada. Além disso, tornei-me verdadeiramente incapaz de prever o futuro, se é que alguma vez fui, a partir daquele dia em que, como lhe explicarei, a minha vida se tornou assim como que compacta.

    Os factos, que poderão parecer à primeira vista um pouco corriqueiros, ou até monótonos ou aleatórios, revelar-se-ão de uma importância capital, pelo menos no que diz respeito à minha pessoa.

    Mas para que saiba quem lhe escreve, apresento-me com a humildade possível dado o presente transe em que me encontro: sou Adolph Schindler, outrora braçudo e façanhudo contabilista das Indústrias Palhod, que, embora parecendo um anagrama demasiado óbvio, corresponde inteiramente à verdade do seu nome (das Indústrias, não do meu nem do seu, bem entendido), fábrica essa que se dedica à construção de térmitas, um processo que eu próprio nunca entendi muito bem; confesso-lhe que com insectos, tirando um ou outro por quem me encantei na juventude (quem não o poderá dizer?), nunca estabeleci a mais flébil relação.

   Não querendo tomar demasiado o seu tempo, até porque adivinho a enormidade e velocidade das constantes solicitações a que vossa eminência altíssima seguramente estará sujeito, exponho-lhe muito sucintamente as razões desta minha carta. Aspiro, fundamentalmente, a uma posição semelhante à de vossa senhoria numa firma análoga à de vossa mercê, e nesse sentido, e para me preparar para um tal caminho, venho procurar junto de si conselhos acerca de uma linha de acção que me permita vir a exercer funções pelo menos aproximadas daquelas que vossa reverência executa no seu dia-a-dia. Mas antes de avançar, perguntar-se-á seguramente porque lhe escreve um contabilista, cujo ofício de números tão pouco se irmana com o seu, e porque procura uma carreira semelhante à sua?... O que a seguir lhe historio tornará a questão mais evidente. Deixe-me, pois, que lhe narre o momento da minha vida em que tudo se arrevesou, os factos a que me referia ainda há poucas linhas, e que predicava de aparentemente banais. Tentarei ser breve.

No passado mês, estando eu intestinamente agastado, “afrontado” seria talvez melhor palavra, depois de uma refeição particularmente opípara e volumosa, dei por mim a dar um longo passeio a ver se tais tormentos amainavam; quis o destino, porém, que, ao passear pela Rua dos Parênteses, abundante, como de certeza não ignora, nas mais variadíssimas lojas de antiguidades, entrasse num estabelecimento comercial que se dedica àquilo que com certeza será a sua única paixão, a música.

   Na verdade, andava já bastante agoniado com a minha situação “de baixo-ventre”, chamemos-lhe assim, e anelava, qual salmão contra a corrente lutando para cumprir a sua natureza, por um espaço onde pudesse dar alívio a esse meu tormento, preferencialmente num espaço com recato acústico. Pareceu-me, então, divisar através da montra ornamentada com uns quantos instrumentos musicais, uma pequena porta que parecia revelar a da almejada salvação. Nunca fui particularmente arrojado ou fértil em metáforas ou comparações, mas deixe-me que lhe diga que tamanha provação, tamanha aflição nem mesmo o nosso primeiro ministro experimentou quando foi acusado de exercer política. Uma loja de música pareceu-me também conveniente, uma vez que o silêncio, pelo menos do ponto de vista teórico, não parecia fazer grande sentido num espaço como esse, isto considerando o único desenlace possível de uma circunstância tal como a que vivia no meu interior. Depois de olhar apressadamente à minha volta, em suores frios e sem grande atenção ao que quer que fosse, após um período de tempo socialmente aceitável, pedi licença de utilizar o quarto de banho, que me foi gentilmente cedida. Perdoe-me que lhe narre tais sórdidos pormenores, mas como verá em breve eles assumirão uma importância fulcral. Bom, após bastante tempo, pude sair daqueles preparos e respirar de alívio; eis se não quando me deu no entendimento observar com mais atenção o sítio onde estava, a loja de música, bem entendido, não a latrina, que entretanto dela tinha já saído.

    Como poderei descrever-lhe por palavras ou grunhidos a maravilhosa e extraordinária panóplia de instrumentos que o ser humano criou na sua arte e engenho musicais? Com certeza a sua vocação e o facto de todos os dias contactar com tal extraordinário portento de criatividade não lhe hão-de fanar o quotidiano espanto perante uma tal diversidade de feitios, formas e cores. Conquanto desconheça de todo como soa ou mesmo o timbre particular e característico que cada um destes lagares de Apolo decerto terá, não consegui deixar de suspeitar de que o som desses instrumentos extraordinários e inimaginavelmente compridos ou tortos seria melífluo, bondoso, ou mesmo pastoso ou gelatinoso. Gelatinoso, perguntará? Eu também me pergunto, mas não para o pôr numa posição triste ou difícil, apenas para chegar àquilo a que quero chegar desde o início desta carta, que infelizmente vejo agora que já vai longa demais para um formato moderno, digamos assim. Espero que tenha paciência de me ler um pouco mais; creio que valerá a pena.

   Enfim, perante uma tal maravilha, que nem Pânfilo teve perante o ocaso do Pigmalião dourado de Dublin, que nem os heróis terão perante as portas escancaradas de Valhala, que nem as Valquírias terão perante os cruzamentos da Via Ápia, perguntei-me: “Meu caro Adolph Schindler, não terá você passado ao lado da sua verdadeira vocação?”. Poderá estranhar porque não me tuteio na minha intimidade, excesso de zelo, pensará Vossa Excelência, não será tanto quanto uma espécie de reverência a que me forçou aquilo que a seguir lhe narro. Experimentando um ou outro instrumento com afinco e muito zelo, um violino, um clarinete, um saxofone e uma harpa (repito-lhe os nomes que o lojista me ia sussurrando), fiquei rapidamente frustrado, dada a complexidade e dificuldade no manejamento de tais organelos. O violino parecia que gemia em agonias de cabrito recentemente privado de sua terna mãe, num pasto recentemente abrasado pela Canícula, o clarinete e o saxofone insistiam num silêncio agoniante perante o carácter óbvio da sua instrumentalidade e o esforço do meu sopro; de todas aquelas ferramentas, foi a harpa a que mais me seduziu, mas cedo constatei que as suas possibilidades e recursos eram limitados àquilo que, segundo me explicou o lojista, eram meros glisssandi, ou seja, a passagem afectuosa do dedo pelas cordas para cima e para baixo, o que embora esteticamente viável, não é propriamente a única coisa de que se está à espera num instrumento, pelo menos não eu, ainda que, reitero, nunca tenha ouvido muita música na minha vida, se mesmo alguma.

   Veio então o momento que, assim o espero, me transformou para sempre; “para toda a eternidade”, seria talvez melhor expressão que o descrevesse, considerado o caminho que encetei a partir desse auspicioso momento. Atrás de uma flauta, escondido, quase envergonhado, estava um pauzinho, um pauzinho pequenino e desamparado, tal como nunca vira, com uma espécie de rolha de cortiça arredondada na parte inferior, digno, delgado e cândido no restante corpo. Chamei-lhe “pauzinho”, mas o senhor da loja prontamente me corrigiu; chamou-lhe “batuta”, e peço aliás que confirme se é assim que se chama, pois por vezes somos enganados, vendendo-nos gato por lebre, mesmo que seja somente em palavras e não em coisas, como é o caso. “Que som faz?”, perguntei-lhe, ingénuo, inocente. “Nenhum”, respondeu-me com a bonomia de quem reconhece no outro a indiscutível e imediata centelha do talento. “Mas isso é o ideal...”, respondi prontamente, sem querer entrar em grandes pormenores, até porque neles não poderia entrar. “E como chamam ao ‘batutista’, à falta de melhor expressão?”. “Maestro”, foi a resposta, grandiosa, infinita, gulosa.

   Eu que, embora sendo contabilista sempre soube reconhecer a excelência, não pude deixar de constatar que ali estava um cargo invejável. E logo ali tratei de fazer tudo para me tornar também eu um maestro, começando exactamente por comprar a batuta. Dir-me-á: um passo pequeno. Sim, reconheço, mas também enorme naquilo que representa para mim, e por inerência, para o mundo. E é precisamente nesse sentido que lhe escrevo, rogando os seus conselhos, decerto avisados. Pois quem melhor do que o artesão para explicar o seu próprio ofício? Pergunto-lhe, portanto, por onde devo começar para me tornar o maestro de uma dessas firmas como a que o senhor dirige? Agora que já tenho a batuta, como aprofundo o meu ofício? Fiz bem em abandonar a minha carreira com efeitos imediatos e não retroactivos?

Já agora, tendo estudado um (muito) pouco sobre o assunto, veio-me à mente, enquanto escrevia, um outro tipo de perguntas sobre as quais, se tiver a bondade, poder-me-á elucidar. O que é uma colcheia? Porque há tantos instrumentos? Porque é que não se escreve música como se fossem letras? Porquê aquelas cinco linhas? Quanto à géstica em si, devo-lhe dizer que tenho feito grandes progressos; havia vossa excelência de me ver manejando a batuta com bravura e galhardia, a forma como desenho agitados e grandiloquentes círculos no ar, e como eles se abafam no infinito do chão, como se todo o mundo se prostrasse à magnificência e potestade do meu gesto, com que honestidade a ponta do madeiro se eleva nos ares para logo grácil de deslocar ora para a esquerda, ora para a direita, e sinistra e dextra, assim por diante, até tudo culminar num único gesto resoluto e convicto, que tudo faz cessar.

    Mas para que saiba que nem tudo em mim é talento ingénito, deixe-me confessar-lhe que estes ensaios que descrevo se baseiam numa admirada contrafacção (não tenho melhor termo) que tenho feito de si, baseada na primeira e única apresentação musical a que tive a honra de assistir, na passada sexta-feira, que a sua firma executou no Grande Auditório; vi-o empoleirado, soberbo, impante como eu desejo ser, cheio de silenciosa verve, cheio de majestade, cheio de presença, hirto, rijo, tonificado embora avantajado pela natureza, alto, e vi o suor escorrer artisticamente do seu rosto, adivinhava a forma como a sua face se iluminava e enrubescia, ou se irritava e agredia, e deixe-me que lhe pergunte, no meu entusiasmo: porque nos mostrou sempre as suas costas, excepto quando o aplaudiam?... Porque não nos deixou ver o seu douto ar seráfico e angélico percorrendo as planuras daquela sala, os eróticos esgares de todas e todos aqueles que o escutavam, porque não nos encarou constantemente com toda a sua magnificente plumagem, com a costura impecável do seu fraque, com a juventude da sua iniciativa privada, o empreendedorismo das suas articulações?... Devo também fazê-lo?... E aquelas pessoas à sua frente, o que faziam?... Porque se esforçavam tanto com os dedinhos para cima e para baixo? Sempre acabei por ouvir, a custo, uma daquelas coisas produzidas pelo que eu reconheci como uma harpa, os tais glissandi, como assim que lhe chamou o lojista; mas diga-me, o salário de um tal intérprete deve ser exíguo, que outras actividades enceta para completar o seu pecúlio?... Bom, mas isso tudo serão pormenores necessariamente acessórios. Os músicos, os instrumentos, serão com certeza fait-divers; a mim o que me preocupa verdadeiramente é isto, resumindo numa só pergunta, ou duas: o que devo fazer agora, que tenho a minha batuta? Que passo seguro me aconselha a dar?

Com os melhores cumprimentos,

Adolph Schindler

A história verdadeira por detrás das recentes e violentas colecções de cromos distribuídas gratuitamente nos supermercados

O Supermercado Dois Paus decidiu um dia ter uma reunião alargada. Era uma sexta-feira à noite, e como todos os agentes envolvidos tinham família e filhos, decidiu-se que a reunião deveria manter-se à noite para fomentar os laços entre avós e netos.

O objectivo poderia ser simples, mas cedo se revelou extenso demais para tais mentes ávidas de criatividade: fazer mais dinheiro, isto é, causar uma subida no registo das coisas de dez numa folha oficial sobre o quanto determinada coisa tem, o que, perante a diversidade das coisas, é equivalente a dizer registo “do número de olhos de borboletas no mundo” ou registo “das vezes em que a humanidade foi à casa-de-banho”.

Um senhor, que tinha um fato bonito e era muito jovem e cheio de ideias jovens, muito, muito fora da caixa, teve uma ideia simples:

— Vamos mentir!

Um silêncio incomodado tomou conta da sala; o chefe, de ar não assim tão jovem, embora a camisa justa permitisse adivinhar os músculos definidos e a cintura elegante, e igualmente o nome do ginásio em que passou a manhã, fez-lhe um olhar que só poderia ter uma única interpretação numa reunião de publicitários: “já foi feito”. O jovem foi imediatamente despedido. O pânico instalou-se. Ser despedido era como estar fora de uma coisa em que antes se estava dentro, e isso não é bom, em nenhuma circunstância, embora as coisas por vezes sejam relativas, não todas, o sexo ou o tempo, por exemplo. Ao fim de alguns instantes, mais precisamente três segundos que custaram vinte milhões de coisas de dez (time is money, time is money), alguém arriscou:

— Vamos enganar!

Ninguém parecia acreditar no que estava a ouvir. Uma tal calamidade só acontecera há cerca de uma semana, quando o Silva foi despedido por ter sugerido que se deveria pensar a sério sobre o que é isto da publicidade. O chefe de abdominais definidos e dentes impecáveis nem precisou de dizer nada. O artista levantou-se o mais rapidamente que pôde, e saltou para a morte, lançando-se da janela para o passeio, com a devida consciência de que naquele ramo as ideias já tentadas são ainda piores do que as más ideias. Foi este, aliás, o seu último pensamento.

— Malta, então, novas ideias! Pensem fora da caixa! Pensem fora da caixa!

A sua capacidade de motivação era extraordinária, e logo todos se puseram a pensar em como deviam ser empreendedores e comprar um carro novo na manhã seguinte. Mas naquele dia, aconteceu que uma mulher, que sofria de hemorragias há já algum tempo, depois de ter parido o segundo filho, aproximou-se do chefe, dizendo:

— As crianças! As crianças!

A ideia era tão clara e nova que todos se admiraram. Numa edição conjunta de mentes, um plano simples foi divisado, eficaz e certeiro: uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Todos gritavam o mantra como se de uma epifania se tratasse, saltando todos os estádios necessários ao nirvana. Mas uma colecção de quê?

— De animais!

— De super-heróis!

— De jogadores de futebol!

— De lesmas!

— De batráquios!

— De dinossauros!

— De ardinas!

— De alentejanos!

— De perfumes!

— De coisas!

O nível erótico da sala era tal que logo ali o chefe engravidou uma colaboradora, depois de devidamente assinados os papéis que permitiram juridicamente o sexo entre os intervenientes, uma vez que sempre foi muito difícil fazer amor sozinho, por mais que os homens continuem a tentar.

A ideia que vingou foi a de “coisas”, por ser menos genérica do que “animais” ou “super-heróis”. A todos veio o famoso verso “tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, pois a música tinha sido recentemente usada para vender sanitas a pessoas com prisão crónica de ventre, esventrando a palavra “sonho” e substituindo-a por “sanita”.

No dia seguinte a campanha foi lançada e foi um imediato sucesso. O Três Pedras e o Cinco Cinco Cinco naturalmente copiaram a ideia, porque quando é fresca uma ideia copiada não é uma ideia copiada, é como se fosse nova.

***

Passados dois dias, na mesma exacta galáxia e no mesmo exacto planeta, um pai zeloso, que com a devida noção do ridículo amava o seu filho de forma bastante lamechas, ansioso por ir para casa com o seu rico menino, depois de um dia de trabalho, tropeça numa birra. Era uma birra feia, não daquelas em que a criança assegura que a sua vontade é superior aos astros e que os pais superam com amor; não, era uma birra que cheirava ao Supermercado Dois Paus, tinha uma cor definida, a cor do plástico, das coisas, cheirava a colecção de cromos de coisas, que alguém enfiara no bolso do filho com a melhor das intenções mas muito a despropósito, quando nem sequer os pais tinham por hábito ir ao Dois Paus, ou ao Cinco Cinco Cinco, ou ainda ao Três Pedras. Era uma birra focada, precisa, determinada: a birra do Dois Paus.

— Mas porque é que não vamos ao Dois Paus?

— Não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê?

— Se continuas a gritar, é que nunca mais vamos...

— Mas então podemos ir?...

— Não agora.

— Mas quando?

— Não sei, não sei...

— Hoje?

— Hoje não.

— Porque não hoje?...

— Porque não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê? Eu queria as cartas!...

— Não temos dinheiro para isso.

— Mas as cartas não se pagam, eles dão, eles dão as cartas com as coisas...

Esse é um argumento de peso, os filhos da puta pensaram em tudo, o chefe da camisa bem justa sabe muito; atacar as crianças, atacar as crianças, e ele bem sabia: uns pais dizem que não e, depois de muitos gritos, tiram as cartas que ninguém pediu para dar, arrancam-nas perante as lágrimas consumistas e consumidas dos filhos, dizem disparates incompreensíveis para uma criança: “eles conseguiram, estás a fazer o que eles querem que tu faças, não vás nisso”, e põem os miúdos de castigo por terem levantado a voz para os pais; ah, mas outros, talvez a maior parte, ah, vira à esquerda e em vez de ir ao Leva Dois Paga Três opta pelo Dois Paus. Afinal, tinha de ir às compras, não era? No banco detrás, a criança sorri, consciente do seu poder sobre as coisas, confiante na sua colecção de coisas. Cinicamente, no ginásio, o chefe observa no espelho a definição quase exemplar dos seus músculos. É um homem, de facto, muito bem sucedido.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Braga Falcão

Thank you, mother.

You gave me fucking Cohen.
Not the brothers the Leonard.
He was always late in December.
But I’m on Mars
and it has been lonely. It’s dry and arid,
like a Christmas flooding.

That’s why you made me a poet
as you said, for art’s sake,
and it does look like art.
But I see you, mother,
it is not all about being present.
It is about being absent.

In absence,
you can always say you were here,
that poets tend to be alike.
But verses are made of wood,
and like wood is solid, detailed,
so dawn has its darkness.

But, mother, thank you mother,
don’t look at me, you know,
woes are without comfort.
That’s why they do smile,
believe me, they do smile
like aged teen spirit.

(To Tatiana Faia)