Páris

ao António Alves Vieira


Quando se sentou no sofá
à luz hemisférica da mesinha
consegui perceber-lhe
a fenda helénica do queixo
os lábios sempre húmidos
e os caracóis dele
da mesma aveia dos olhos
que cumpriam uma constante algébrica qualquer

“- Então fazes mais televisão ou teatro?”

tiniu o balanço do candeeiro
e o olhar dele
que mesmo destriunfado
com toda a força das pálpebras
me despia

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Perséfone nos Infernos


Comeu pois Perséfone as seis sementes
porque percebeu que ao ter sido colhida pela morte
seria para sempre flor da morte naquele palácio de xisto
Ela que dantes colhia gerânios, se lambuzava em mel
ferrava-se toda a ela e às irmãs, sansânica em cabelo
tirava-lhes dos rabos nus a rir os espigões
És tão bonita e tão tontinha, respondiam-lhe elas
já não a vêem há duas semanas e nem um telefonema
não deve andar a comer nada, e se definha
Viu Perséfone a coroa da morte e comeu pois as seis sementes
porque já não se imagina na luz fúlvida a ser rainha
Agora sim, coroados de negro negros os lindos olhos
colhe vida aos mortos, colhe da morte os vivos
ama sôfrega as flúvias cinzentas do marido
(e este outra ninfa à entrada dos xistos, junto às heras)
E uma a uma as seis sementes deglutidas
puseram os olhos mais que negros negros de Perséfone
a quererem mais que cegar, olhar para dentro

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