Crónica Minolta

misteriosamente feliz descia as ramblas
com um joan margarit em mãos pra te oferecer
não foi por falta de aviso não mas o meu peito
erguia-se estreito, justo à chama acesa
da minha camisa e eu sabia que
contra todos os oráculos
ao fundo estaria o teu abraço, o hálito a fideuà, 
um perfume amadeirado, alguma sugestão
modesta das nossas férias em Abu Dhabi.
com cuidado detive-me em pormenores
que a poucos interessariam, por exemplo, 
os enleios de flores nos teus dedos tingidos
de café e melados de donuts do dunkin’ coffee.
seguiam-se as minhas orelhas mareadas
pela caruma do frio, o meu cabelo oleoso de dias
de viagem, de horas dissipadas em aeroportos
com uma única certeza:
eu vim da califórnia pra te ver, 
do pacífico pra te beijar no mar de las baleares.

O poeta no supermercado

para o Fernando Assis Pacheco

 

 

repara bem, não foi a promoção
da beringela
que me trouxe até aqui
muito menos
a alface da manhã

 

confesso, eu vim pra te ver
e comprar muesli foi
o pretexto mais credível
que encontrei até hoje

 

apaixonar-me é o meu signo diário.
exato, fechar janelas, abrir portas
ao destino e pressagiar o amor:       
essa forte probabilidade
de um dia o preço combinar
com o meu sorriso amarelo
e dar-te o meu número num talão

ENSAIO SOBRE ELE

we must love one another or die

w. h. auden

so only one life can't be enough
para esperar o teu regresso
(qual penélope, qual quê)

numa casa sem telhado
pergunto-me o que fazer com o frasco
de nescafé, a tua caneta da sorte, 
os teus dentes de leite, o teu postal
dos jardins de butchart, do katmandu,
o teu petit larousse, 
                        os teus óculos

dói-me o corpo todo e esta cidade
nada mais me trouxe do que uma dúzia
de charros numa noite perdida:
i should learn to look at
an empty sky and feel its total
dark sublime, though this might
take me a little time

não há muito a fazer, my dear.
aguardar é tudo por agora
tecer, adiar um dia de desordem
e acreditar que a vista para o pátio
é o teu tapete de chegada

no princípio era o verbo

no princípio era o verbo
breathe it in and breathe it out
todos os distritos em alerta amarelo
e os teus joelhos eram a minha casa
esse era o tempo em que o teu cabelo
fixava o ralo do chuveiro
e eu reclamava        a mãe não pode ver cabelos no ralo

no princípio era o medo
de amar-te por inteiro
sem esquecer-te na metade
todas as manhãs esperava-te à janela
e repetia, como te quero mais
cedo entendi que o medo por prisão
era a certeza dos nossos flancos
tu sabias como me convencer
e trazias sempre um livro para dois
quantos poemas te escrevi
uma tarde, recordo-me agora, perguntaste
se a minha poesia mudaria o mundo
é claro que não

no princípio era a poesia
em cada casaco achava um isqueiro teu
em cada café o teu sabor
num maço de marlboro os dias mais ásperos.

 

HEARTQUAKE

a esta hora mais coisa menos coisa
estarás a jantar em Heimlicher Strasse 
a cozinha italiana é o teu calcanhar de aquiles
(e eu só gosto de bruschetta)
é mais que certo: vista para o Weser e café
no fim da noite poesia & currywurst 
nas escadas de Böttcherstraße

a esta hora mais coisa menos coisa
espero-te no café ceuta
(o sol de setembro não te traz na nuvem
mais próxima)
há tempos ouvia-te nesta mesa
a falar dos nibelungos
do norte de Niflheim
dos burgundos 
das ramphastidæ da América

é domingo e eu imagino-te longe
entre os meus lábios e o copo de café
procurando-te em todas as canções do vh1
resignando-me sempre com um cisco no olho
a esta hora
mais coisa menos coisa