cinco poemas de Lütfiye Güzel

dos livros “herz-terroristin” (2012), “let’s go güzel” (2012), “trist olé!” (2013)
tradução de Rafael Mantovani
foto: Ben Knabe

tenho medo
 

da felicidade
não sou experiente nisso
tenho medo
da infelicidade
não sou experiente nisso
fico longe
da felicidade
fico longe
da infelicidade
& entre as duas
fica a padaria

 

ich fürchte
  

mich vor dem glück
ich bin nicht geübt darin
ich fürchte
mich vor dem unglück
ich bin nicht geübt darin
ich halte mich fern
vom glück
ich halte mich fern
vom unglück
& dazwischen
liegt die bäckerei

 

um navio virá
  

partirá desta terra
não quero ser ingrata
em comparação é seguro
alguma liberdade
ainda
geladeiras & a possibilidade
de abastecê-las
luta nenhuma nas ruas
ainda não
ainda mais surpreendente é o medo
ele gruda com força
na janela do ônibus

 

ein schiff wird kommen
  

raus aus diesem land
will nicht undankbar sein
im vergleich ist es sicher
frei irgendwie
noch
kühlschränke & die möglichkeit
sie zu füllen
keine straßenkämpfe
noch nicht
umso erstaunlicher die angst
sie klebt fest
an der fensterscheibe im bus

a calça
  

como a calça & a camiseta
estendidas no encosto da cadeira
tão sem vida & jogadas
sem utilidade também
& o livro das respostas
pousado nos meus joelhos
enquanto eu trabalho nas perguntas

 

die hose

wie die hose & das t-shirt
über der stuhllehne hängen
so leblos & fallen gelassen
nutzlos auch
& das buch der antworten
es liegt auf meinen knien
während ich an den fragen arbeite

 

de volta ao começo
 

se existe vida
após a morte?
ainda não
cheguei lá
ainda preciso
esclarecer
se existe vida
antes da morte

 

wieder am anfang
 

ob es ein leben
nach dem tod gibt?
soweit bin ich
noch nicht
ich muss noch
klären
ob es ein leben
vor dem tod gibt


amigos para viagem

quem ficou pelo
caminho?
quem foi atropelado?
abandonado
desembarcou?
& quem adormeceu no banco
de trás
& não acordou mais?

  

freunde to go

wer ist auf der strecke
geblieben?
wer wurde überfahren?
ausgesetzt
ist ausgestiegen?
& wer ist auf dem rücksitz
eingeschlafen
& nicht mehr aufgewacht?

Gwendolyn Brooks: "meus sonhos, minha obra, têm que esperar até depois do inferno"

gwendolyn-brooks.jpg

Deixo meu mel e meu pão bem guardados
Em vidrinhos de vontade, no armário certo.
Anoto o que tem dentro, fecho com cuidado
E peço à tampa: Aguenta até eu voltar do inferno.
Estou com muita fome. Estou incompleta.
E sabe-se lá quando vou jantar de novo.
Todos só me dizem a palavra Aguarde,
Que luz mirrada. Fico de olhos vivos,
Esperando que, quando meus dias de cão terminarem,
Deixando o bagaço da dor, e eu voltar
Nas pernas que me restem, com o coração
Que eu ainda possa, e lembrar de ir para casa,
Não terei perdido o meu paladar
Para o mel e o pão que a antiga pureza amava.


my dreams, my works, must wait till after hell

I hold my honey and I store my bread
In little jars and cabinets of my will.
I label clearly, and each latch and lid
I bid, Be firm till I return from hell.
I am very hungry. I am incomplete.
And none can tell when I may dine again.
No man can give me any word but Wait,
The puny light. I keep eyes pointed in;
Hoping that, when the devil days of my hurt
Drag out to their last dregs and I resume
On such legs as are left me, in such heart
As I can manage, remember to go home,
My taste will not have turned insensitive
To honey and bread old purity could love.



Jaime Gil de Biedma — "Durante a invasão"

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Durante a invasão

 

Sobre a toalha, aberto, está o jornal

da manhã. Brilha o sol nos copos.

Almoço no pequeno restaurante,

um dia de trabalho.

 

Calamo-nos quase todos. Alguém fala em voz vaga

— e são conversas com a tristeza especial

das coisas que sempre acontecem

e que não acabam nunca, ou acabam em desgraça.

 

Eu penso que a esta hora amanhece em La Ciénaga,

que tudo está indeciso, que o combate não para,

e procuro nas notícias um pouco de esperança

que não venha de Miami.

 

Ó Cuba no veloz amanhecer do trópico,

quando o sol não esquenta e o ar está claro:

que tua terra dê tanques e que teu céu partido

esteja cinza com as asas dos teus aviões!

 

Contigo está a gente da cana de açúcar,

o homem do bonde, os dos restaurantes,

e todos nós que hoje procuramos no mundo

um pouco de esperança que não venha de Miami.


De Moralidades (1966)



 

Durante la invasión

 

Sobre el mantel, abierto, está el periódico
de la mañana. Brilla el sol en los vasos.
Almuerzo en el pequeño restaurante,
un día de trabajo.

 

Callamos casi todos. Alguien habla en voz vaga
–y son conversaciones con la especial tristeza
de las cosas que siempre suceden
y que no acaban nunca, o acaban en desgracia.

 

Yo pienso que a estas horas amanece en la Ciénaga,
que todo está indeciso, que no cesa el combate,
y busco en las noticias un poco de esperanza
que no venga de Miami.

 

Oh Cuba en el veloz amanecer del trópico,
cuando el sol no calienta y está el aire claro:
que tu tierra dé tanques y que tu cielo roto
sea gris de las alas de tus aeroplanos.

 

Contigo están las gentes de la caña de azúcar,
el hombre del tranvía, los de los restaurantes,
y todos cuantos hoy buscamos en el mundo
un poco de esperanza que no venga de Miami.

John Wieners: "Um poema para o velho"


 Deus te ame
            Dana, meu amante
perdido na horda
desta noite de sexta
500 homens estão indo de lá
pra cá entre o bar &
o banheiro.
Retire este desejo
do homem que eu amo.
Que abriu pra mim
            a selvageria
do mar. 

Faça que as vontades
dele sejam satisfeitas
na rua California
Dê-lhe a genero-
sidade que permita
paz entre os quadris. 

Não o abandone
às traças.
Faça dele um leão
para que todos que o vejam
idolatrem o seu
peito forte como eu fiz
descendo com a boca
pelas costas dele levando os
nossos corações até alturas
aonde hoje eu nunca mais
            escalo. 

Que o cabelo loiro
possa arder na sua
nuca, que nenhuma dor
desfigure o seu rosto
em desespero, a alma dele
      está tão dependente. 

Em vez de heroína,
forneça estes
cem homens como amantes
dele & o eleve
com o enorme pacote
do desejo alheio. 

Subtraia dele
a fome e os famintos
que se alimentam à noite.
Os carentes & os recém-
descobertos cujo peso o puxaria para baixo.
Aprume esse homem c/ orgulho e
apertando o amor que eu pus
            nos seus olhos. 

Derrame esse amor sobre os 500
Deixe-os estupefatos,
de joelhos, que
se curvem diante dele,
este humano burro
que virou
            meu amante
que me pegou
aos 18 anos & enfiou amor
para os meus bolsos
jamais estarem vazios,
apreciados como são
tocando na pele de dentro
            da perna dele. 

Eu ocupo esse espaço
enquanto os boys à minha volta
engasgam de desejo e
dão carona para nós até
em casa nas mãos
            de estranhos

 


A Poem for the Old Man

God love you
          Dana my lover
lost in the horde
on this Friday night,
500 men are moving up
& down from the bath
room to the bar.
Remove this desire
from the man I love.
Who has opened
            the savagery
of the sea to me. 

See to it that
his wants are filled
on California street
Bestow on him lar-
gesse that allows him
peace in his loins. 

Leave him not
to the moths.
Make him out a lion
so that all who see him
hero worship his
thick chest as I did
moving my mouth
over his back bringing
our hearts to heights
I never hike over
anymore.

Let blond hair burn
on the back of his
neck, let no ache
screw his face
up in pain, his soul
is so hooked. 

Not heroin.
Rather fix these
hundred men as his
lovers & lift him
with the enormous bale
of their desire. 

Strip from him
hunger and the hungry
ones who eat in the night.
The needy & the new
found ones who would weigh him down.
Weight him w/pride and
pushing the love I put
in his eyes. 

Overflow the 500 with it
Strike them dumb,
on their knees, let them
bow down before it,
this dumb human
who has become
my beloved
who picked me up
at 18 & put love
so that my pockets
will never be empty,
cherished as they are
against the inside flesh
of his leg. 

I occupy that space
as the boys around me
choke out desire and
drive us both back
home into the hands
of strangers.

(1958)