[a norte]

a norte

as noites dormem-se

entre mantos pesados

cada grande viga de madeira

um anjo diferente de vigia

os sons quentes

abafados na perpendicularidade

das esquinas

ao pé da criança

a idade é pele sangrada

rasparam já os peixes da tarde

vértebra por vértebra

mas nem o fulgor inebriado dos arrepios

alivia

a fúria de mil braços

Paul Klee - Angel Applicant, 1939.jpg

Paul Klee - “Angel Applicant”, 1939.

[pisamos hoje eiras de milho podre]

pisamos hoje eiras de milho podre
lugares onde a fome derrete gorda e crispada nas soleiras
o frio e a aridez dos Homens
cada vez mais líder
em terras e montanhas rugosas de renúncia e conflito


a devastação mora em nós sem adeus possível,
abrem-se de novo as antigas feridas cíclicas
à sombra de cada muro
milhares de crianças com mães no colo
o negrume da esperança que talvez a morte
as ensine a esperar

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“O cavalo de Turim” - Béla Tarr (pormenor)

[em cada novo esboço]

em cada novo esboço

um promontório.

saltamos lado a lado

o mesmo estirador comprido

os mesmos postais do Pompidou

gastos os vazios de Chillida

lápis e catálogos e revistas

que ignoram os nossos olhos baços

em cada novo desenho

um matrimónio.

a minha vida nua

os beijos da tua

como crepitar de fogueiras

raros poemas ameríndios e promessas

o verbo já encarnado

chegaste.

contigo trouxeste a simetria

de dois pelicanos sobre o peito

a alegria de duas ou três

camisas de seda floridas

raras golas amarelas

que ano após ano

me deixam sempre a dúvida:

- o verão não morre em setembro?

Eduardo Chilida - Homenagem a Braque, 1990..jpg

Eduardo Chillida - “Homenagem a Braque”, 1990.