[meu avô tinha dois grandes medos]

meu avô tinha dois grandes medos
tomar bofetadas no saco e ser enterrado
vivo. uma vez o vi colocando meias dentro
das calças porque no dia anterior quase brigou
com outro velho no mercado

quando meu avô morreu, eu me aproximei do caixão
e beijei sua testa, é pro teu bem, eu disse
e ameacei bofetear o seu saco
ele não se mexeu

minha avó disse que quando se casaram
ele queria viajar, viajar sem parar
por isso suas roupas estavam sempre bem dobradas
e no entanto nunca saiu da sua cidade natal

depois de um tempo compreendo que o seu maior
medo não era bem esses dois, mas algo que o ocupou
toda a sua vida e que, pelo menos a morte, poderia sanar

algo como fazer as malas
e nunca partir

o despertar da primavera

Milton, Oxfordshire

perto de um escritório de uma corporação
perdido numa vila algures em inglaterra
há um pequeno cemitério onde jazem
soldados da royal air force que morreram
na primeira guerra mas foram transladados
muito mais tarde e já neste século
os seus corpos outrora ágeis
repousam agora debaixo dessas pedras
onde se lê thy will be done 

em tardes a fio
sem mais nada para fazer
do que pontapear a própria consciência
beber muito café olhar pela janela roer as unhas
isto há-de ser o que kierkegaard chamou
o desespero humano 
a função estética do tédio no entanto
é empregar muitas horas a meditar
no sentido da palavra definhar
ou esperar por d. sebastião numa manhã
de névoa e absurdo quando violentos
cavalos cortassem o nevoeiro
e a corte dos teus brilhantes amigos
me acalmasse com alguma frase
proferida na mais profunda liberdade
num assegurar de que a inteligência humana
ainda existe e está de boa saúde neste planeta 

cavalos a uma velocidade de verdadeiros aeroplanos
ou porque falo assim com o meu coração
era o que diziam os soldados de homero
antes dos duelos finais e das últimas palavras
pouco antes de tombarem
pela causa troiana ou por uma mulher
que não era a de nenhum deles nem nunca viria a ser
a guerra como a mais obtusa e esquálida e oportunista
das funções de uma imaginação melodramática 

penso nos dois que repousam no cemitério
da velha igreja em milton
ficaram muito tempo longe de casa
e pode ter sido algum gesto de caridade
nacionalista e populista na pior das hipóteses
talvez algum tory de província entusiasmado
com a possibilidade de ganhar alguns votos
lembrando aos paroquianos uma inglaterra
que se quer orgulhosamente só
de um tempo glorioso em que chegaram
a tombar aos mil
nos vastos campos da frança, da flandres 
nos alpes da suíça
e vencedora porque apoiada pelo
não menos vasto exército norte-americano

pode bem ter sido ou não esse o gesto
que os há-de ter trazido de volta aqui
de volta a casa
ou na melhor das hipóteses
um impulso decente
alguma coisa calculo
ao género de no man is left behind
mas a verdade é que eles jazem
agora em casa no solo pátrio
que os enviou para morrer longe 

ocupa-os agora o silêncio debaixo dos castanheiros
no cemitério da igreja onde de outro modo
lápides do século XIX dão conta das usuais
mortes prematuras de candidatos a byron
que nunca saíram da vila onde nasceram
mortes de parto e mortalidade infantil
mas os meus dois soldados

têm nomes bíblicos peter e simon
peter and simon, caro leitor, were left behind
voltaram a casa em meados de 2000
depois de terem caído em 1916 e 1918
um cadáver trazido de volta a casa
não se confunde com um rapagão alto e atlético
a beber sucessivas canecas de meio litro de cerveja
no pub que fica mesmo em frente ao cemitério
e está aqui há um século 

eu no entanto depois da visita diária
a paul e simon sento-me no meu posto
para esta outra missa de corpo presente
e medito nos mortos que não regressam a casa
nessa antecâmara do terror
que é a possibilidade de alguma força no mundo
reclamar de ti a pound of flesh ou mesmo
toda a tua carne contra a tua vontade
e passo o resto da tarde a ler wedekind
o despertar da primavera  

uma peça banida da alemanha
no princípio do século
(uma geração antes de peter e simon
tombarem a combater os alemães) 
onde a morte e a paixão se misturam
no veneno de uma comédia de enganos
onde adolescentes que leram talvez
demasiados autores gregos questionam deus
a solidão e o comprimento das saias
que uma rapariga no virar da adolescência
pode usar e morrem tragicamente
por vergonha, desespero, opressão
uma solidão absurda e sem eco
que é o rosto do mundo quando a espaços
nos fita sem olhos e sem boca 

quando a única necessidade absoluta
a única vontade a ser cumprida
são esses momentos de falha humana
por onde entra a luz e a percepção
de que o corpo não é o momento
do seu sacrifício enquanto instrumento
ao serviço de uma vontade que não é a sua
de uma ordem que ignora e oblitera o seu significado
mas antes que um corpo é o seu nome
a mais alta nota da sua mais elevada revolta
tu perdido no teu sono
e no teu suor ao comprido intacto
perfeitamente sagrado na transcendência que é a tua:
o chiaroscuro, o teu corpo e o teu tempo
o toque dos vivos

 

Oxford, 11 de Agosto de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

do lado esquerdo da minha avó

vovó teodora me ensinou a comer bolo com pimenta. também ela me ensinou que “país não é a pátria. o país é e é onde pisamos, o que plantamos e colhemos. onde pisamos é a união dos homens em torno da glória e a glória é comum a todos os seus. tudo é país, tudo é a glória. se um de nós não conhece a glória, a glória é de ninguém”. eu era muito pequena e pensava que a glória fosse uma mulher muito bonita e forte, uma mulher enorme. vovó era uma romena que conhecia intimamente a língua russa, coisa de um tio ou primo. conheceu vovô gheorghe no navio, como jack e rose, mas não como jack e rose, esse navio chegou intacto ao porto de santos. não se sabe muito mais que isso. nossa história é um tanto perdida. gosto de pensar que, ainda no navio, minha avó olhava as estrelas e pensava nas irmãs, tios, tias e mãe que deixou para trás, pensava nos gostos de sua terra, nas texturas e no peso da neve sobre os arbustos das pequenas frutas selvagens. embarcada, andava com os pés no chão e com os dedos na murada do navio. andando assim, trombou os dedos nos dedos do vovô gheorghe, um russo bitelo, bem apessoado, de cabelos arranjados para trás e olhos azuis. “parecia um peixe-espada tímido e brilhante” diria. gosto de pensar que vovô se apaixonou na trombada de dedos, mas não quis demonstrar. ofereceu o braço para conduzir a dama de volta aos aposentos. vovó abre uma grande lata de alimentos e tira de lá um pedaço do bolo que sua mãe fez para a viagem. pouca pimenta, uma pena. anda doze metros “vi que o senhor não comeu nada o dia todo”. vovô aceita e, de novo, trombada de dedos. fazem um cumprimento de camaradas, que hoje seria lido como um gesto sóbrio e de segredos amontoados, se sentam juntos num baú de um dos passageiros mais afortunados. vovó pergunta sobre como estavam as coisas nas paragens de vovô, vovô também. vovô pergunta se vovó está só, vovó também. vovó veio com um irmão e a irmã mais velha. vovô estava só. contavam já onze dias de viagem. na manhã seguinte, comeram mais do mesmo bolo, ao ar livre, mirando as águas tão calmas quanto geladas, encorpadas de funduras e músicas estranhas, paisagem feita e perfeita para pousar a insegurança, perder os olhos e as frases. avistaram o que parecia ser uma baleia. “talvez seja apenas um punhado de espuma” “é uma baleia, estou certa disso”. vovó estava certa. era uma baleia, uma cachalote morta. cercando o cadáver, um filhote cantava o despreparo, o desconhecimento da morte. a quem seguir agora? como saber a morte sem nunca ter morrido ou matado? vovô traça paralelos com a migração humana. “nossa mãe também está morta e não sabemos o que fazer. o navio e a repressão fazem por nós. nos empurram para outro chão. e choramos uma canção de exílio e de desesperança que ninguém, além de nós e das baleias, entende.” vovó se impressiona, pensa baixinho que esse homem é incrivelmente sábio, um mago dos paralelos. pensa que a sensação é exatamente essa. nossa terra matre ficou morta, para trás, boiando entre ódio e poder. o navio corre distâncias por nós, nos abriga e nos mostra outras formas de exílio. as crianças não sentem a distância se espichando. não compreendem que jamais voltarão a ver suas casas, seus animais. o piso frio e condescendente da embarcação ajuda os mais novos na anestesia afetuosa, reparadora. os dois choram, o navio se aproxima do cadáver e o filhote se retorce num salto extraordinário! chora. encara a todos. um por um, o filhote vai marcando com seu olho desesperado, todos os enxotados, os filhotes russos, romenos e poloneses aboletados na murada. naquela noite, vovó não dormiu. fechava os olhos e via o grande olho e a profundidade do abandono. vovô, também insone, chama vovó para uma volta. vovô fuma seu último punhado de tabaco russo. vovó dá um trago e tosse. estão sentados sobre uma peça de metal. tudo no navio é marcantemente grande, desproporcional ao antigo mundo, do tamanho das incertezas e saudades. vovô diz que não consegue tirar o olho do filhote dos pensamentos. vovó concorda, sofre do mesmo caso. um trapo de estopa voa e se prende no calcanhar de vovó. vovô o apanha e quando percebe, vovó está de olhos fechados, sentindo o cheiro do fumo como se reconhecesse aquele perfume, como se a essência a trouxesse um pouquinho de casa. vovô a beija. vovó corresponde e enfia as mãos no casaco do peixe-espada brilhante. eles se beijam sem pressa alguma, sem chão nenhum, sem mar, sem baleias, sem bolo, sem pão. amanhece mais uma vez. vovó veste o casaco de vovô. os dois informam a irmã mais velha de vovó que, sim, vão se casar assim que o chão brasileiro permitir. eu poderia dizer que naquele navio começou a minha história. não digo, porque isso não é verdade. essa história é da minha avó, teodora varsan e do meu avô, gheorghe diacov. nem à minha mãe, ana diacov, essa história pertence. talvez a história seja, em parte, daquele filhote de cachalote. talvez essa seja a história da glória, imensa e nobre mulher, sentada à mesa na são bernardo do campo de mil novecentos e oitenta, comendo bolo com pimenta, do lado esquerdo da minha avó.

[chega de desculpas]

chega de desculpas
Gugu
estamos
para lá
de redenção

diz Séneca
grande é o homem
que trata
o que é de barro
como se fosse de prata
e não menos grande
é aquele
que trata
o que é de prata
como se fosse de barro
mas nós
que somos de barro
que felicidade
podemos achar na prata
a consolação dos derrotados?

debatemo-nos toda a noite
Gugu
certame aceso
aguardas
as labaredas da verdade
mas só
quando a manhã chega
é que vês
que as ferramentas
que usas
para medir as coisas
estão descalibradas
as palavras
estão tortas
as metáforas
instrumentos
de opressão
agora é claro para nós
Gugu
que as palavras
assentam
em assimetrias
estão a um ângulo da verdade
mas é difícil de ver
de que lado
o ângulo agudo
e por isso embelezamos
para não mentir descaradamente
mentimos discretamente

estabelecemos relações
entre objectos
a distâncias indeterminadas
das nossas mãos
e julgamo-nos sábios
e ficamos contentes
o nosso prémiozinho
de consolação
medalha de prata
funil na cabeça

3. (3/3 poemas de Ana C. Joaquim)

ela atravessa ruas cheias de carros.
ela ouve o ruído das buzinas e dos motores. é
a um só tempo
iluminada e obscurecida pelos faróis que se erguem
subitamente
sobre a sua incapacidade de olhá-los.
ela não espera.
ela caminha na sua direção.
ela que desconhece o nome que tem.
ela que não tem um nome próprio.
ela se levanta.
ela lava o seu rosto.
ela se senta.
volta a se levantar. 

você que tem um nome.
você a quem ela se dirige.
ela abre o livro
(sim, ela abre o livro quando se senta).
é o seu nome que ela lê no livro.
ela volta a se levantar.
ela que nem mesmo tem um nome
ela volta a se levantar:
chegará com você quando você chegar.
chegará desprovida de nome.
chegará sem o entendimento das coisas
(as coisas que possuem um nome).
olhará para as suas mãos.
olhará para os seus olhos.
você que tem mãos.
você que tem olhos.
você que tem um nome que ela não pode compreender.
você que tem um nome que ela chegou mesmo a pronunciar
(foi assim não foi? enquanto ela caminhava…?
ou terá sido quando ela se sentou?).
ela volta a se levantar.
atravessa ruas cheias de carros. ouve.
é.
caminha na sua direção.