As Aventuras do Senhor Lourenço (§18 o resto dos dias, Bacanal parte I)

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[a melhor forma de continuar, para mim a única, mas eu não sou um escritor profissional, quando surge “the dark country of no ideas” é ir aos originários, aqueles que apanharam a primeira linha de desenvolvimento da mente humana sapiens, gregos pré-clássicos e clássicos. Foram eles que fisgaram os nossos impulsos mais primordiais e os traduziram em discursos inteligíveis, é impossível superá-los, a não ser em insignificantes parcelas de vida. Por isso, Nietzsche ou Freud, Heidegger ou Foucault, Badiou ou Hegel... os mantêm como principal fonte de inspiração. Não julguem que me desvio um milímetro sequer do plano descritivo, introduzo apenas, a lá Eurípides, o episódio de uma noite delirante, introduzo e uso, forma de mostrar também aos leitores superiormente eruditos que tenho grelhas hermenêuticas chiques, o velho truque dramatúrgico do mais racional dos tragediógrafos gregos]

Lourenço tinha entrado em órbita, à volta de uma constelação mais do que de uma estrela: escola, Manuela e vida social de herói evanescente. O Joaquim, qual cometa, aparecia a espaços, fulgurante e mal cheiroso (fazendo odes à vacuidade triunfal da época), para testar o equilíbrio das revoluções (astronómicas). Normalmente apanhava os restos do dia e fazia um patchwork discursivo com o máximo de sentido possível. Começava sempre por uma tese, que ia escorando como podia em argumentos colhidos nos lamentos de Lourenço ou naquilo que observava, e Joaquim era um finíssimo observador, este talento não tinha sido afectado pelos muitos anos de drogado, devido, talvez, à atenção que os solitários desenvolvem. Em vez de terapia, gosto de lhe chamar “encontro entre o agir e o pensar”, no fundo Lourenço reflectia-se através do Joaquim. Ele era a Ave de Minerva que vinha iluminar os impulsos vitais que haviam preenchido a existência de Lourenço, às vezes de um só dia, outras de vários.

Certa vez, Lourenço perguntou ao Joaquim se devia alinhar com a festa do Plateau.

– Qual festa?

– Não falaram contigo?

– Não sei de nada.

– É uma festa com o pessoal da escola para comemorar um ano do meu “acto heróico”, assim lhe chamam.

– Mas porquê no Plateau, a mais prostituta de todas as discotecas.

– Prostituta?

– Sim, passa a mesma música há 30 anos, submetendo-se a clientes que definiram o gosto musical na adolescência, memorizando, às vezes mal, 3 ou 4 letras, e nunca mais saíram dessa caixinha estética. E lá vão eles ano após ano, carregados de rugas mas armados em malandrecos, múmias dançantes, as mulheres mais interessadas nos jovens libidinosos à procura de uma queca fácil, os homens nas pouquíssimas adolescentes e na cerveja ou whisky.

– Não me revejo nessa discrição.

– Pois não, há quanto tempo não vais lá?

– 5 ou 6 anos, e tu?

– Há mais de 10, mas eu não preciso de ver as coisas para saber como funcionam, sou quase um Tirésias, ou uma pítia pós-moderna.

– Deixa, Joaquim, deixa que a festa aconteça, quero é que venhas, é muito importante para mim que venhas.

– Está bem, às vezes bater no fundo permite colocar as questões certas. Sei bem do que falo, já bati em tantos fundos que só por sorte extrema não estou partido. Ou melhor, partido estou, mas não todo, ainda sou um corpo com órgãos, um cérebro que regula os fluxos caóticos da realidade, um aparelho digestivo que decompõe os nutrientes em moléculas assimiláveis. Ainda domino o universo da linguagem, embora deteste a porcaria do novo acordo, gesto arbitrário que junta o pior que há na academia e na política. Em mim ainda funciona bem a escatologia fisiológica. Tudo sem precisar de acreditar em Deus nem alternar, freneticamente, como alguns aqui na escola, entre medicina tradicional e alternativa, endireita e fisioterapeuta, chás e fármacos. Já viste, Lourenço, esta máquina ainda funciona, e tu sabes que eu sempre fui e serei um funcionalista, o que importa é que as coisas funcionem, melhor quando o fazem bem. Eu é que sou o Chaosmos do Joyce.

Pôs-se um cartaz na sala de professores (FESTA EM HONRA DO NOSSO HERÓI LOURENÇO, sábado, dia 23, na discoteca Plateau, Santos. Entrada €10, com direito a duas imperiais, sumos ou águas), e a lista de inscrições ganhou rapidamente volume: 88 assinaturas preencheram quase três páginas A4. Numa das margens alguém escreveu: “o coração não consegue viver dentro de limites!”.

Ouvia-se um ruído de fundo inebriante, estávamos em Maio e nesta altura nas escolas tudo converge ou para a loucura ou para a depressão. Às vezes enlouquece-se para evitar a queda anímica. A forma mais fácil de o fazer é deixar que Eros se manifeste com mais à vontade. Havia, além do mais, a vaga ideia, falsa mais poderosa, de que um Dj do Plateau era descendente de uma linhagem dionisíaca bastante influente da Europa de Leste. É para rir, claro. Mas não chega aos calcanhares dos Segredos de Fátima. Outra explicação, menos plausível, é a de que o ser humano se entusiasma de forma altruísta (que sempre foi uma sublimação dos apetites sexuais) com a grandeza dos outros.

Preparava-se, então, um bacanal. Sem Penteu e Agave, mas com ménades e o esbatimento da polarização sexual, havia uma tonalidade andrógina nascente e muito desejo de sexo no ar.

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As Aventuras do Senhor Lourenço (§17 o perigo do amor)

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Lourenço leu na Literary Hub que “The risk of passionate love is this: it makes everything outside its immediate, glowing orbit look dull and distant by comparison. What we love dims the rest of the universe, whether we love a person, a drug, or an idea.” E lembrou-se que também o velho Freud dizia que nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão irremediavelmente infelizes como depois de perdermos a pessoa amada e o seu amor.

Sabe-se que Freud leu e gostou de Schopenhauer, também conhecemos as diatribes deste filósofo solitário e mal-humorado contra o amor, que para ele não passava de uma astúcia biológica para manter a espécie viva, a paixão devendo conduzir à procriação. Mas entretanto inventaram-se métodos contraceptivos bastante eficientes, a milhas dos antigos preservativos de tripa de porco. E o sexo passou quase a ser um fim em si mesmo, com aquele valor intrínseco de que tanto gostam os filósofos metafísicos. Hoje fazemos amor pelo prazer fisiológico que isso provoca, excepto nas variações perversas ou no sexo aconselhado pelas estatísticas de medias cor-de-rosa.

Bem sei que a realidade é mais complexa, o social e as pulsões primitivas continuam a determinar uma fatia grande dos nossos comportamentos sexuais. Até a retórica consumista entrou ao barulho. Um dia destes, um amigo veio dizer-me, cheio de orgulho, que estava “acima da média na cama”. À primeira, não percebi, “na cama?”, perguntei. “Sim, respondeu-me, no número de vezes que como a Diana”. Bom, parece que isso é positivo, sinal de virilidade, de boa condição física, mas também prova de que é possível aguentar a monogamia entediante. E a Diana, será que tem a mesma ideia? Ou faz o frete de mulher disposta a satisfazer as necessidades do marido?

Lourenço queria muito discutir os perigos do amor com a Manuela, mas ela não tinha lido sequer Madame Bovary, poderia ele confiar no senso comum que desenvolvera enquanto dondoca profissional. Não cheguei a dizê-lo, mas Manuela era também rica, bela e rica, verdadeiramente rica (o mono do marido que a abandonou ganhou a medalha do gajo mais parvo da década). Uma pessoa assim não precisa de desenvolver ou articular seja o que for, pelo contrário, é melhor manter-se na suprema ignorância da lógica e da política, do comércio mundial e da mecânica quântica, das alterações climáticas e do TTIP, será muito mais feliz e ousada dessa maneira.

– Meu amor, meu amor, meu amorzinho, luz da minha vida. – Disse Manuela a Lourenço, logo às 7 da manhã, depois de desligar o despertador.

– Bom dia. – Respondeu Lourenço, como quem cumpre as regras básicas de civilidade.

– Meu amor, hoje vamos almoçar ao eleven, não te esqueças.

– Pois é, tem mesmo de ser?

– Sim, claro, vá lá não custa nada, os meus pais gostam de estar connosco.

– Manuela, por que razão dás aulas, podias ir para uma empresa do teu pai...

– Adoro a escola, adoro os alunos, adoro-te a ti!

– Não há nada que te desagrade, às vezes vejo-te triste, outras muito chateada com os alunos ou os colegas.

– Tem de ser, mas no geral sou feliz.

– Mesmo quando eles não querem aprender.

– Mas eles querem sempre aprender, às vezes só não é aquilo que queres ensinar.

– Que tenho de ensinar!

– Sim, mas também que queres ensinar!

– Dá-me um beijo, faz amor comigo, Manuela.

E Manuela fez, naquele dia sem se importar de não conseguir lubrificar bem logo de manhã, das suas zonas erógenas estarem tão adormecidas que nem um príncipe encantado as conseguiria despertar, de ver com olhos menos turvos o corpo desengraçado do Lourenço, de achar que os pêlos nas costas deviam ser arrancados um a um.

Apesar deste idílio amoroso, Lourenço começava a sentir-se deprimido. Ainda era um herói nacional, os meios de comunicação seguiam os seus passos, à espera que dissesse alguma coisa, claro, mas sobretudo de fotografarem a Manuela. A intensidade esvanecia-se. Isto devia agradar-lhe, ele detestava o circo mediático, mas o esvaziar o balão da fama alimenta sempre um sentimento de perda, até naqueles que não querem ser famosos. Na altura era, aliás, um pouco o país inteiro que decaía animicamente. Vivia-se uma crise financeira grave, sem solução para lá da queda num qualquer abismo proposto pelo programa do “não pagamos!”. Mas até esta opção, na sua irracionalidade intempestiva, parecia melhor do que a asfixia lenta da realpolitik. A isto somava-se a percepção quase nítida de que em Portugal se podia começar por ser um crápula e acabar como ministro, mas também o contrário, começar como ministro e acabar em crápula. Os optimistas achavam que tudo passaria quando os conceitos e a moral deixassem de ser incertos. Os pessimistas, pelo contrário, onde se incluía Lourenço, acreditavam que essa incerteza e a falta de motivação endémica para fazer as coisas bem feitas, nunca permitiriam que Portugal fosse um sítio decente para se viver. Acrescente-se a estas razões, mas sem tanto grau de convicção, que Lourenço continuava a ser, por baixo da capa do respeito e da admiração, alguém pouco desejado na escola. A sua mediania parecia evitar-lhe a embirração dos colegas, as escolas concentram geralmente a animosidade em quem, por uma ou outra razão, se destaca. Nisto, por exemplo, o Joaquim e a Manuela estavam muito mais a jeito, devido, respectivamente, à erudição (Joaquim não acreditava na inteligência, para ele tudo se jogava na quantidade de conhecimentos que se tinha, por isso costumava dizer que “a escassez de história era um pecado capital”) e à beleza fora de normas. Mas quem julgar que a racionalidade emotiva reina na sala de professores, está muito enganado. 

As Aventuras do Senhor Lourenço (§16 entre Joaquim e Manuela)

[em terra de cegos é-se rei com um olho. Mas às vezes parece que ninguém quer reinar, falta aos portugueses uma dose maior de arrivismo, conformamo-nos facilmente com a mediania]

Joaquim foi ganhando poder sobre Lourenço, não por uma vontade de domínio exacerbada, neste capítulo Joaquim assemelhava-se ao resto do país, uma moleza de espírito, talvez tecida pela moral das virtudes que refreia as forças conquistadoras dos portugueses (não o cinismo). É verdade que temos os “chicos espertos” e os “patos bravos”, mas depois de construírem a mansão com colunas dóricas e piscina quase olímpica, depois de fazerem férias num hotel tropical e de comprarem um SUV espampanante, depois desta trilogia, acalmam-se e contentam-se com uma churrascada junto dos amigos, tudo aos berros, e camarote num dos estádios dos três grandes.

No que se diferenciava era quando sobrevalorizava a força do livro, digo bem, “quando”. Ouvi-o muitas vezes dizer também, contra ele próprio, que os livros secavam a vida, criavam meninos de colégio, inibiam a imaginação, atrofiavam os músculos... Mas era a sua forma de justificar mais um ditado popular: “quem desdenha quer comprar”. Ou talvez um dos excessos instigado pela solidão. Joaquim, sendo tendencialmente boa pessoa, podia facilmente transformar-se num anjo sinistro, pronto a desbaratar tudo o que os outros construíam, mesmo o belo e o amoroso. O seu niilismo, traiçoeiro quando odiava as pessoas, alimentava uma imensa inteligência que adivinhava a força do negativo. A anti-vida que, à semelhança da anti-matéria, perpassa o pulsar de cada molécula orgânica. Cheio de cicatrizes narcísicas, projectava nos outros o mal que agora vivia em si, muitas vezes de forma tão soberana que sentia vergonha quando dava os bons-dias a Lourenço. Este, como venho demonstrando, tinha qualidades, não de herói, penso também que isso ficou claro, mas as mínimas para, se for caso disso, entrar no Céu (sem o saber, Lourenço apostava como Pascal).

No campo mais racional, Joaquim, apesar dos danos causados pelo haxixe, tinha uma cabeça disciplinada, mesmo quando punha os pés nas nuvens ou andava à cata de neologismos. Se Manuela se colocava ao seu lado, numa composição que remitia sempre para a Bela e o Monstro, sorriso de modelo feliz no momento da consagração fotográfica, inventava um enigma lógico e desafiava metade da sala de professores a procurarem a solução. Dizia que devíamos treinar para sermos Édipo, destruirmos com a espada da razão a intoxicação neoliberal. Claro que tudo isto faz pouco sentido, mas não se esqueçam dos dez anos ligados à droga. Por outro lado, Joaquim achava, baseando-se em fórmulas perfeitas da história económica, que se tinha perdido quase totalmente o sentido do profundo mistério do 25 de Abril. Mistério que indica, antes de mais, o imperativo de se amar incondicionalmente a Revolução, qualquer Revolução, até as Contra-Revoluções conservadoras. Não que acreditasse numa felicidade desregrada, já que talvez não exista a grande felicidade sem grandes e irredutíveis interditos. De qualquer forma, nas horas de maior solidão, Joaquim sentia sempre que o Universo era infinitamente rigoroso e por isso não se podia preocupar com a sua infelicidade.

Por seu lado, Lourenço continuava a sofrer de uma enorme falta de auto-estima. Por exemplo, achava que uma ponte magnífica o ligava a Manuela, mas uma ponte levadiça que no momento do encontro se levantava para deixar passar um navio cheio de contentores chineses. Por isso, certo dia, na cama, saiu-lhe: – Quando te penetro sei que não te toco.

– Vamos ficar em silêncio, meu amor. As palavras têm uma grande força, foi isso que me ensinaste, tu e o Joaquim, apesar de eu não gostar muito dele; mas há coisas maiores. Não temos de explicar tudo, aliás, como costumas dizer, isso é impossível. No nosso caso, temo que quanto mais falamos mais portas fechamos. As almas unem-se em silêncio.

[nunca Manuela se aproximara tanto do sublime. Dir-me-ão que não esteve assim tão perto. Certo. Mas experimentem dizer uma coisa com esta intensidade depois de um mini-orgasmo]

Apesar das dúvidas e hesitações, Lourenço e Manuela viviam algo grandioso e belo, tanto quanto se pode conseguir numa época de cinismo e mesquinhez. O problema maior estava em Lourenço querer a todo o custo discutir a autêntica verdade da relação. E creio que isto se alimentava das forças coscuvilheiras da escola. Além do corte e costura habitual, demasiado fastidioso e vulgar para o reproduzir aqui, tinham agora a mania de construir profecias, fazendo-o, técnica aprendida com o Professor Cabinba, num piscar de olhos. No olhar que lançavam para o futuro vislumbravam um quadro negro, sobretudo quando Lourenço deixasse de ser herói e Manuela visse finalmente o aventesma por quem se apaixonara. Seria ela capaz de fabricar uma indulgência à altura da situação? Ninguém acreditava nisso. Embora nas épocas de simplicidade mitológica tenham acontecido milagres que uniram heterogéneos aparentemente inconciliáveis. E quem sabe se eles não conseguiriam ficar fora das regras da vida social e amorosa (o amor acontece quase sempre em respeito pela luta de classes e repartição desigual das riquezas), sem outros desejos além de vestir e despir a tanga?

Mas o futuro, como a eternidade, só pode estar vazio, ou melhor, é feito de forma e intensidades sem conteúdos.

[“o que não podemos atingir de uma só vez devemos obtê-lo coxeando.” A escrita ensina-nos isso mesmo]

As Aventuras do Senhor Lourenço (§15 manusear a esperança com cuidado)

[hoje gostava de fazer um capítulo subtil e feliz, até porque dormi bem, não tenho dívidas e ontem convivi com pessoas amáveis. Mas, como sabem, aquilo que escreve não liga muito ao Eu]

Ninguém sabe quando pode surgir uma coisa magnífica. Além disso, Lourenço tem mais vocação para cartografar as fissuras ou fracturas da sociedade do que para apostar na excelência de obras ou gestos nascentes. Tanto mais que isso exige um optimismo quase ingénuo, enquanto Lourenço é sobretudo um pessimista, satisfeito com o nevoeiro estacionado sobre a vida.

Na altura, eu e o Joaquim mantínhamos uma distância calculada em relação ao herói do momento. Mas percebíamos bem que ele se esgotava, a intensidade histriónica com que era solicitado pelo exterior sugava-lhe a vida, já de si frágil, Lourenço tinha naturalmente pouco recursos vitais. Talvez por isso se tenha ligado ao Joaquim, vendo nele uma tábua de salvação, como quando um cego pede ajuda a outro cego para atravessar uma estrada. Enquanto a mim me manteve à distância, cheguei mesmo a sentir algum desconforto com esse abandono, mas depois percebi. Menos compreensiva foi a Manuela, fez várias queixinhas sobre o estranho magnetismo do Joaquim, “o velho gordo e malcheiroso”. Avaliação apressada, não porque Joaquim não fosse gordo ou cheirasse mal, mas era muito mais do que isso, e tinha, sem que ninguém percebesse bem porquê, uns dentes fantásticos, de actor de cinema. Claro que os “dentes de marfim” não compensavam a degradação corporal e a halitose, mas faziam um interessante contraponto com o estrabismo, se nos distraíssemos parecia que a sua cara tinha sido enxertada por um cirurgião plástico inconsistente: medíocre nos olhos, excelente nos dentes.

Joaquim acreditava na transparência, cada indivíduo devia revelar-se incondicionalmente, mas na verdade ele era o exemplo perfeito do espectáculo da solidão e do secretismo. É a partir disto que explico a sua atracção pelo bom vinho de Vila Nova de Foz Côa, essencial para combater os pruridos burgueses da identidade, e a militância trotskista. Continuava a acreditar nela, sem a praticar. Mas salvo um ou outro fim-de-semana de bebedeira alegre, tinha-se enrolado em si mesmo à medida que envelhecia e os “amanhãs que cantam” não se realizavam. “Uma vida inútil”, costumava dizer. Sentia-se arruinado, e já só acreditava em ideias individuais e na maldição da suprema arte da inconveniência. Apesar deste desencanto, Joaquim tinha vontades que podiam pegar fogo. Um incêndio de baixa intensidade capaz de capturar certas pessoas para o seu círculo de fogo. Um dia, há bastante tempo, aproximou-se de Lourenço, achou interessante vê-lo a ler um livro sobre a sobre-moralização do futebol. Diz-se que o título era: Há mais Ética no Futebol do que na Assembleia da República, de um obscuro, mas perfumado, jornalista desportivo. Lourenço não se lembra de tal livro, aliás se procurarem no Google verão que nada existe de parecido com isso. Mas Joaquim já era na época um pragmatista, para ele só havia efeitos, não coisas, muito menos verdade. Este foi o legado de 10 anos a consumir haxixe, única forma que encontrou para, ao mesmo tempo, ser severamente materialista dialéctico e um hedonista céptico.

[desculpem-me este niilismo mas o escritor deve admitir abertamente as suas preocupações mais obscuras, tanto mais que é nos romances que se aprende o verdadeiro significado da vida. E portanto não se deve saltar estes monólogos adramáticos]

Começou a frequentar o Lourenço na sala de professores (e professoras), e rapidamente houve uma comunhão franca e alegre (embora sempre frugal em Lourenço). Joaquim sabia que Lourenço não dava para muito, mas tinha um mínimo mental e alguma cultura filosófica. Não, Joaquim não era de filosofia, mas de história, um carrancudo professor de história. Lia, porém, sobretudo livros de filosofia, sempre à procura de uma redenção metafísica para a “porcaria da realidade”, que nunca mais avançava em direcção à grande e definitiva Revolução. Além disso, suportava qualquer tipo de desordem, menos a das ideias, e Lourenço podia não ser prolífico, mas era bastante coerente.

– Lourenço, aquele malandro do Kant, a pôr o sublime no religioso, hem?!

– Pois é, devia ter permanecido no campo da arte.

– Qual quê, a religião é mais revolucionária! Olha o Estado Islâmico.

– Mas não conduz à alienação?

– Só quando é mal orientada, só quando é mal orientada. Olha para Jesus, olha para a Teologia da Libertação, olha para Feuerbach, olha para aquele bispo de Setúbal. E não me entendas mal, já sabes que só falo do que pode ser, nunca do que devia ser.

– São excepções. – Lembrou-se de dizer Lourenço, em cima do toque de entrada.

– Excepções paradigmáticas, paradigmáticas.

Joaquim tinha uma enorme vantagem sobre os seus vários inimigos: desde que deixara o haxixe, o estrabismo intensificara-se (normalmente a droga cega ou desdenta, aqui Joaquim teve sorte). A ambivalência inequívoca do olhar desbaratava os seus contendores. Como se pode atacar alguém que parece olhar para dois campos da realidade? É impossível marcar o alvo. Invariavelmente, todos acabavam por desistir, os argumentos pareciam não atingir Joaquim, que, apesar dos 90 quilos, era uma figura evanescente. Vencia, pois, as discussões, mas perdia as pessoas. De todas as contendas emergia uma raiva que armadilhava mais uma ligação.

Estranhamente, isso nunca aconteceu com Lourenço. Uma namorada de adolescência, também estrábica, ensinou-o a concentrar-se apenas num olho, o “olho da amizade”, como lhe chamava. Joaquim, por seu lado, fosse pelo tal livro sobre futebol e moral ou por não ter mais ninguém, engraçou com Lourenço. Não conversavam muito, e até uma certa altura fizeram-no apenas na escola. Mas sentiam verdadeiro prazer quanto trocavam umas palavras sobre os alunos, a actualidade ou a história da filosofia. Agora que Lourenço era solicitado de todos os lados, quase não se viam, mais havia um capital de amizade que se mantinha, à espera de aparecer quando fosse necessário.

Um dia encontraram-se e discorreram sobre o tempo. A páginas tantas, Lourenço perguntou:

– A esperança é o maior dos bens ou a pior das maldições?

– Depende.

– Do quê?

– Da perspectiva.

– Isso quer dizer alguma coisa?

– Pouco, mas é a expressão que se usa nestes casos.

– Joaquim, devo ter esperança? – Perguntou Lourenço, quase em surdina para não ser ouvido pela “malta”.

– Depende.

– Do quê?

– De onde quiseres derramar a esperança.

– Numa vida normal, numa vidinha.

– Todos podem ter esperança numa vidinha, os nossos políticos trabalham com afinco para que isso seja possível.

– E nós, temos que fazer alguma coisa?

– Não, é só mantermo-nos nos eixos, na linha mediana que conduz do nascimento à morte. Se esperares outra coisa...

– O quê?

– Manteres-te no heroísmo, por exemplo.

– Sim, o que devo fazer?

– Gerires bem a esperança, elevá-la e baixá-la consoante as circunstâncias.

– Não percebo.

– No fundo, a esperança, quando se quer alguma coisa além da mediania, deve ser manuseada com muito cuidado. Foi isso que nos ensinaram os gregos. Não ter mais esperança que barriga quando vamos ao restaurante e estamos tesos. Esperar que o coração aguente, apesar dos sinais de querer transformar-se numa pedra. Baixar e subir, respectivamente. No teu caso concreto, as coisas ainda são mais difíceis já que quase nada depende de ti. Lourenço, sabes que sou teu amigo, a sério, mas tenho de te dizer que tudo isto está para lá das tuas forças, tu és uma marioneta nas mãos da turba deprimida e dos jornalistas sem escrúpulos. Devias pôr a Manuela na linha da frente, pouca coisa a perturba, gosta de aparecer, é suficientemente limitada para não deprimir, e, sobretudo, é gira que se farta.

– E eu?

– Tu ficas na retaguarda, a manusear a esperança com cuidado.

As Aventuras do Senhor Lourenço (§14 aventuras amorosas)

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Manuela atirou-se-lhe ao pescoço e proferiu em tom de máxima: – Estou perdidamente apaixonada por ti, meu amor.

– És totalmente incapaz disso. – Respondeu Lourenço, numa altivez, quase desdém, que ninguém lhe conhecia. Tanto que Manuela começou a chorar copiosamente.

– Não chores, meu amor, não chores. Digo a verdade, tu estás acima do amor, tu foste feita para ser amada, não para amar. São os outros que têm de rastejar atrás de ti – é isso que faz o amor, põe-nos de rastos –, não tu atrás deles. Tu sabes que eu não te mereço, sou tão vulgar, quando este circo passar vais sentir nojo de mim, tenho a certeza.

– Qual quê, não percebes nada, eu amo-te de verdade!

– É uma encenação, Manuela, encenas o amor como se faz nas telenovelas...

– Estás parvo?!

– ... Talvez, desculpa, mas não acredito que estejas assim tão apaixonada por mim, eu não sou homem de provocar isso nas mulheres. Olha bem para mim e terás a certeza.

– Mas eu amo-te, sinto-o, o que queres que faça, que deixe de te amar porque tu desconfias disso?

– Ok, está bem... abraça-me.

E foi assim, sem tirar nem pôr. Lourenço a elaborar um discurso sobre o amor (quem sabe se influenciado pelos Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes), Manuela com o desejo incontrolável de se fundir nele, Tristan und Isolde sem Wagner, de se atirar a ele como alguém se atira da janela porque quer esmagar-se no alcatrão.

Para justificar o seu estilo relacional, Lourenço usava uma frase de O Homem Sem Qualidades: “tudo o que pensamos se resume a simpatia ou antipatia.” Assim, sendo ele essencialmente o mesmo, uma cascata de simpatia tinha alterado radicalmente a maneira como era considerado na escola e no mundo. Estava em ponto-de-rebuçado, podia ter comido todas, ou quase todas, as colegas, não fossem elas em geral pouco apetitosas; colocado todos os colegas debaixo da sua perspectiva. Talvez mesmo pervertido as mais fervorosamente crentes na Transcendência, de Deus, do PCP ou de um cacique de sala-de-professores; tinha agora a força de anular, com um gesto apenas, qualquer grande narrativa de verdade e felicidade, concentrava em si todo o campo épico, trata-se da velha identificação hipnótica entre o chefe ou herói e as massas. A sua paixão pela Manuela exigia, aliás, que multiplicasse as aventuras amorosas. “Trai a tua paixão se não queres que ela te desbarate.”, costumava dizer-me. Mas ficou quieto, ou quase, numa noite de jantar comemorativo, organizado pela escola em sua honra, foi levado para o carro pela Directora, mulher que no século passado era bela e que tinha recomeçado a ir ao ginásio.

– Deixa-me chupar-te, por favor, quero engolir a tua seiva. – Disse ela de rompante, como se todas as convenções do namoro tivessem desaparecido sob a vertigem alcoólica. 

[Nunca bebam álcool se quiserem evitar um engate piroso. Troquem a poesia pela lógica, o whisky pela água, uma feijoada por um prato com arroz. Usem terminologia biológica ou psicanalítica, jamais as metáforas histriónicas da literatura ou a vulgaridade anarrativa dos filmes pornográficos. O álcool armadilha os fragmentos do discurso amoroso]

Anabela, era assim que se chamava a Directora, abriu-lhe as calças e pôs o sexo murcho de Lourenço na boca. As banhas laterais empurravam com força o volante e o seio direito pousou na perna do Lourenço, enquanto a sua mão, também direita, pegava na base do pénis e boca e língua tentavam reanimar o pequeno verme.

Cerca de vinte minutos depois deu-se a conclusão espasmódica. Foi o seio direito que conseguiu a proeza, mais do que a felação em si mesma ou as frases elegíacas e porcas, à vez, que Anabela enviou a Lourenço, embaraçado. Ela continuava atormentada com a morte do marido, a quem enganou alegremente. Não pela morte em si, ele morrera há muito para ela. Mas porque quando decidiu passar ao inorgânico o fez na cama, junto a ela, dizendo estas palavras: “Tu és uma puta, Anabela, és uma puta sem remissão, como o meu amor por ti.” Não que o marido se importasse com as escapadelas da mulher, foi pura vingança, quis fazê-la sofrer pelo menos tanto como ele sofrera por amá-la acima das suas forças, tanto que teve de morrer.

Uma marca de chocolate, um placebo médico contra o reumatismo, uma editora especializada em livros de auto-ajuda, um produtor de vinho de mesa ou, entre muitos outros, um estofador industrial quiseram contratar Lourenço. Disse-lhe várias vezes que devia arranjar um agente que tratasse disso, enchendo-o de dinheiro. Mas Lourenço era um mole que gostava do imperativo categórico kantiano, um moralista falido e meio banana. Recusou tudo, continuou nas aulas a mandar calar adolescentes ranhosos a quem nem o seu acto heróico impunha respeito. Manteve uma vidinha insuflada provisoriamente de excentricidades. “Os balões cheios esvaziam-se”, dizia-lhe o colega Joaquim, lobo-do-mar da escola, antigo revolucionário capaz de prometer a junção do Céu com a Terra.

– Continua a soprar, Lourenço, não deixes que isso perda gás, olha o que me aconteceu. – Disse Joaquim.

– Está muito cheio, não consigo pôr mais ar dentro, não tenho pulmões para isso. – Respondeu Lourenço.

– Mas continua, vê se continuas, não queiras ficar como eu, um diabético amargurado a quem os miúdos chamam “velho halitose”.

– Não chamam nada, tu és uma referência. – Disse Lourenço, sentindo pena do Joaquim.

– Claro que chamam, vejo pior mas continuo a ouvir bem. E depois, é mesmo assim, Cronos já não come os filhos, são os filhos que o comem a ele. E tu aproveita, come aí as gajas todas, ou então casa com a Manuela, aos 50 ainda será boa, mesmo boa.

[Joaquim era o mais inteligente dos professores, chegava à verdade, seja lá isso o que for, duas vezes mais rapidamente do que os seus colegas. Mas isso sempre o prejudicou mais do que beneficiou. Numa escola, o ecossistema dos professores e funcionários é pequeno, está envelhecido e fixou-se há pelo menos 10 anos, por isso as paixões e os ódios são mais profundos, têm a enorme importância de não se lhe poder escapar]

Lourenço indeciso, a querer voltar à transparência, uma existência de baixa intensidade, contemplativo por preguiça, cansado da vida. 

(cont.)