Depois de Bashô

1.

Cobras esventradas
na estrada ― chegou
o Verão

 

2.

A voz de Kerouac
o gato e uma bola de papel:
a casa menos vazia

 

3.

Trinta alunos a olhar
pela janela
o Outono lá fora

 

4.

O gato
tapa o focinho —
Inverno

 

5.

O prédio
em silêncio: hora de ponta
nos subúrbios

 

6.

No chão da cozinha:
a Lua — prato
donde come o gato

 

7.

Relógio:
água a pingar da
torneira

 

8.

Roupa no estendal
da cozinha —
chuva lá fora

 

9.

Na cadeira
o gato observa
cavalos a relinchar

 

10.

Cabeça entre
as mãos — teste
de Matemática

 

11.

Análise sintáctica:
sujeito nulo —
poeta

 

12.

O meu
Monte Fuji: Fraga
da Cruz

 

13.

Durante as aulas
alunos pelos corredores —
Psiiiiiiiiiiiiu!

 

14.

Da sala sete
o pinheiro do pátio
parece um bonsai

Crítica Literária: o vazio

Nota prévia

Este texto parte dos seguintes pressupostos: é função do crítico literário regular o mercado literário; o crítico literário falha nessa sua função e é uma espécie de Banco de Portugal.

 

1.

Em Portugal poucos são os verdadeiros críticos literários. A maior parte das vezes ou são poetas ou romancistas a “exercer”. O crítico literário, em Portugal, é um conceito híbrido. Claro que pedir que um crítico literário seja apenas crítico literário, é pedir muito num país tão pequeno (em todos os sentidos) como o nosso.

Não podemos esquecer, ainda, a vertente mercantil e economicista da questão, que muito poderá condicionar a imparcialidade de quem escreve. Assim, seria interessante um estudo que procurasse encontrar uma possível relação entre as críticas literárias feitas e os respectivos críticos literários que as escreveram, pois muitas vezes estes últimos estão associados a revistas e jornais que pertencem a grandes sociedades, que, por sua vez, são detentoras de parte das editoras que publicam os livros que os críticos literários “criticam”.

No entanto, também não podemos esquecer que a crítica – e nela incluída a literária – nunca foi muito bem vista no nosso país. A crítica literária – quando é a sério – nunca é vista como crítica: ou é ataque pessoal ou bajulação.

 

2.

Mas, qual o real impacto da crítica literária?

Penso que a crítica literária tem muito pouco impacto, pois poucos são aqueles que, realmente, lêem crítica literária. Ela poderá, uma ou outra vez, suscitar uma ou outra polémica, pois o visado pelo texto do crítico pode não apreciar muito aquilo que leu. É claro que isso acontece muito poucas vezes (pelo menos com o conhecimento geral do público).

Na realidade, o crítico literário tem algo que me atrevo a designar de poder-nulo, isto é, o crítico literário não tem qualquer poder sobre as reais decisões do leitor. O seu “poder” está limitado a um grupo restrito (muitas vezes composto por amigos ou conhecidos com quem se partilham afinidades), o que torna esse “poder” vazio de qualquer conteúdo. Se o “poder” do crítico literário fosse real, se tal acontecesse, os “tops” de vendas seriam compostos por livros completamente diferentes daqueles que encontramos numa qualquer livraria generalista.

Os livros mais vendidos não são aqueles que foram objecto de uma crítica literária positiva ou negativa (não podemos esquecer que uma crítica literária negativa pode gerar um aumento nas vendas de um livro), mas sim de uma campanha de marketing agressiva, com ofertas absurdas ao leitor. A crítica literária foi substituída por capas de livros vistosas, sinopses apelativas.

Actualmente, a “crítica literária” não tem qualquer valor intrínseco: antes extrínseco. Ela serve apenas para encher colunas de jornais e páginas de revistas com o pedantismo – e em certos casos com a ignorância – de alguns críticos ditos literários.

 

3.

Há, ainda, o relativo consenso em torno dos livros que são alvo de crítica literária. Parece que nenhum crítico literário quer ferir susceptibilidades. A título de exemplo – e falando do caso português –, os livros de António Lobo Antunes. Poucos são os críticos literários que “arriscam” uma crítica negativa a um livro de António Lobo Antunes. Recentemente, penso que só Pedro Mexia o fez. Alguém curioso pode verificar o que digo: basta numa livraria folhear, com alguma atenção, o livro António Lobo Antunes: A Crítica da Imprensa.

Outro caso paradigmático é o de Pedro Chagas Freitas. No caso deste autor a questão é ainda mais complexa: nenhum dos seus livros reúne o consenso da dita intelligentsia literária, no entanto, todos os seus livros têm reedições sucessivas, encontram-se em todo o lado, e é raro (ou até impossível) encontrar uma crítica na chamada imprensa generalizada (não deixa de ser curioso que o próprio autor já disso se queixou).

Atrevo-me a dizer que falta alguma “honestidade intelectual” (expressão que abomino, mas que, neste caso, tenho de utilizar) à crítica literária portuguesa. Novamente, e a título de exemplo, o livro 2666 de Roberto Bolaño. O consenso generalizado em torno desta obra de Bolaño roçou o ridículo. Num texto publicado a 31 de Outubro de 2009 (no blogue Antologia do Esquecimento), Henrique Manuel Bento Fialho dá conta da lamentável revisão a que o livro de Bolaño foi sujeito. Não me lembro de ler a nenhum crítico literário “encartado” uma referência em relação a isso. Muito pelo contrário. E, daí, talvez se entenda o silêncio.

 

4.

A bem da verdade, actualmente, a crítica literária em Portugal não existe, porque não é praticada. Falta-lhe algo fundamental: o contraditório.

 

[ver perfil de manuel a. domingos]

Charles Bukowski, ou depois de ler a imortal literatura do mundo

1.

 O mal de grande parte da literatura é tentar ser complexa. Quando tenta não ser, falha. É pouca a literatura que consegue ser não-complexa e ser, ao mesmo tempo, literatura. É claro que uma leitura na diagonal – sendo aquilo que mais vezes acontece com a maior parte dos escritores que lemos – poderá induzir o leitor em erro, fazendo crer que a literatura não-complexa, que tem o privilégio de estar a ler, é ridícula e não é boa literatura. Um exemplo: Charles Bukowski.

Bukowski é associado à condição de marginal, de proscrito. É também associado a um estilo de vida que muitos consideram pouco aconselhável à saúde. Esse é o primeiro erro: acreditar que Bukowski é só álcool, mulheres e fornicação. Não vou dizer que o não seja. Grande parte da sua obra gira em torno destes três temas. Contudo, eles são apenas o ponto de partida para muito mais.

Charles Bukowski é, sem dúvida alguma, alguém que conhece profundamente o ser humano. O ser humano é o principal personagem da obra bukowskiana. O ser humano e a sua relação com o mundo. Disso não devemos ter a menor dúvida. O seu alter-ego, Henry Chinaski, é disso prova: «Bukowski created a literary persona named Henry Chinaski as a vessel for expressing his alternative view of the world, (…) Trough Henry Chinaski, Bukowski is able to attempt to reveal the absurdity of the world with an element of distance and without succumbing to despair.» (Daniel Bigna).

É claro que, para muitos, Chinaski não preenche os requisitos necessários para ser um verdadeiro personagem, isto é, segundo o cânone, Chinaski não possui a complexidade nem a profundidade, por exemplo, de Ahab, Meursault ou Raskolnikov.

 

2.

Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 1920, filho de pai germano-americano e mãe alemã (o avô materno de Bukowski era um ex-oficial do exército alemão). Os primeiros três anos de vida são passados na Alemanha, em contacto directo e diário com a língua alemã. É então que a família decide mudar-se para os Estados Unidos da América, escolhendo a cidade californiana de Los Angeles como destino final.

O início de vida num novo país não foi fácil para Charles Bukowski. Foi em Los Angeles que ele teve, pela primeira vez, contacto com a língua inglesa, pois até então, em sua casa, só se falava o alemão. A relação com o pai também não foi fácil: era um homem violento, arrogante. Em contrapartida, a mãe era submissa à vontade do pai, nunca se opondo a nada que ele decidisse, por mais estranho e descabido que fosse. Isso criou em Bukowski um grande e poderoso sentimento de revolta, pois a única pessoa que o deveria defender contra os ataques de fúria do pai, não o fazia. Bukowski chegou mesmo a dizer que o pai foi quem o ensinou a escrever, a ser escritor. O pai parece ser o motor de arranque de toda a escrita de Bukowski. Poderemos perguntar: sem a “ajuda” do pai, Bukowski teria sido escritor? A resposta é sim.

Bukowski, como um dia referiu o seu editor John Martin, nasceu com a consciência de que era um génio. Publicou pela primeira vez em 1944, com vinte e quatro anos, mas só aos trinta e cinco é que começa a publicar poesia. É a poesia que constitui grande parte da bibliografia do autor, apesar de ter publicado seis romances e várias colectâneas de contos, perfazendo, ao todo, mais de quarenta e cinco livros publicados em vida.

 

3.

Há um problema com os génios: dificilmente lhes perdoamos toda e qualquer “falha”, ou todo e qualquer “defeito”. O génio deverá ser um paladino da ordem e do socialmente aceitável. Ao génio não é permitido o desvio. Daí, talvez, o facto de a genialidade e a loucura andarem de mão dada. A fronteira, entre ambos, é muito ténue. O que é ser génio? O que é ser louco? Salvador Dali seria um génio-louco ou um louco-génio? Bukowski tinha consciência de tudo isso. De outra maneira não se entende a sua iconoclastia. A título de exemplo: a sua relação com as mulheres. Esta poderá ser justificada tendo em conta essa mesma iconoclastia, que Bukowski tanto prezava.

Sobre as mulheres muito se poderá dizer: machista, misógino, sexista. Na altura em que Charles Bukowski escreveu e publicou os primeiros romances (Correios e Factotum), os ideais da segunda onda feminista (iniciada nos anos 60) estavam a ganhar força na sociedade. Era, por assim dizer, “moda”. Ora Bukowski era tudo menos de modas, e talvez tenha visto uma oportunidade única para irritar uns quantos (ou umas quantas), fazendo justiça à fama que começava a granjear. No entanto, não é de todo errado pensar que a hostilidade em relação às mulheres é fruto da sua infância, fruto da relação de um pai obsessivo e de uma mãe passiva. E não podemos esquecer que toda a obra de Bukowski gira em torno de uma certa marginalidade dominada por homens: «I his underground society he describes a purely masculine world, in wich women are hardly more than splashes of a puddle through wich hardy fellows traipse, mostly drunk, or in wich they wallow.» (Karin Huffsky).

 

4.

Bukowski recusa a complexidade da maior parte da literatura Beat (lembremos, por exemplo, os romances de William S. Burroughs) e a metaficção do experimentalismo pós-moderno que grassou na literatura dos anos 60. Em vez disso, Bukowski opta por uma literatura livre, simples. É claro que nada disto é inocente. A pretensa simplicidade da escrita de Charles Bukowski pretende ser uma resposta àquilo que Gay Brewer designa como «collegeboy finger exercises». É claro que o autor de Mulheres sabe que expondo o seu trabalho à crítica o mesmo será comparado com aquele dos seus contemporâneos. Daí, talvez, a opinião generalizada de que a escrita de Bukowski é repetitiva, pouco “trabalhada” e muito pouco intelectual.

Mas a vida, afinal, não é repetitiva, pouco trabalhada e muito pouco intelectual?

Tentativa de progressão no entendimento de Deus

E eu fixava-me naquelas coisas que estão contidas em lugares, e não encontrava aí lugar para descansar, nem essas coisas me acolhiam de forma a que eu pudesse dizer: ‘Basta’ e ‘Está bem’, nem me deixavam voltar quando para mim estivesse bastante bem.

Santo Agostinho

 

§

 

É uma questão que trago comigo mesmo: Deus. O mesmo Deus de Abraão, Moisés, Maomé e Jesus Cristo.

 

§

 

Nem toda a minha vida fui um céptico em relação a Deus. Fui baptizado, recebi a primeira-comunhão e fui crismado. Os dois últimos acontecimentos foram da minha e inteira responsabilidade, isto é, fui eu que decidi receber a primeira-comunhão e fui eu que decidi ser crismado. Durante muito tempo acreditei no Deus que me ensinaram a acreditar: um Deus que salva os justos e condena os malfeitores, que está atento a todos os nossos passos, que era, pura e simplesmente, o polícia de tudo. Penso que nunca me foi dito que Deus é Amor, Bondade, Vida. Mas não quero afirmar. Já lá vão alguns anos e muito preconceito formado em relação à ideia de Deus. E quando digo ideia refiro-me a ideia abstracta, isto é, algo que pode ter várias representações.

 

§

 

Talvez tenha tido azar com as catequistas: foram à antiga: todas caldeirões de azeite a ferver e pecados em todo o lado. A ideia de pecado sempre me fez alguma confusão. Quase tudo era pecado: comer chocolate era pecado, levantar a saia às meninas era pecado, comparar o tamanho das pilas era pecado. A própria ideia de que nos apetecia pecar era pecado. Só mais tarde me apercebi que o maior pecado de todos (aquele que realmente importa) era negar a mim mesmo tudo aquilo que me dá prazer. No entanto, a ideia de pecado ainda perdura em mim. É algo que ainda me persegue e da qual tenho tido alguma dificuldade em me libertar. É claro que com a ideia de pecado surge um sentimento: a culpa. Não me posso esquecer que foram anos e anos de profunda e contínua negação de mim mesmo. É claro que não ouso afirmar que tudo isso está resolvido. Muito pelo contrário: quanto mais avanço, mais se adensa a inquietação.

 

§

 

A ideia de um Deus absurdo, vingador, vaidoso, existiu durante algum tempo em mim. Absurdo:  quando pede a Abraão que sacrifique o seu único filho, como prova da sua lealdade. Vingador: quando destrói Sodoma e Gomorra, que mais não são do que lugares de pura Liberdade, onde a anulação do Eu não existe. Vaidoso: quando se apresenta a Moisés dizendo: “Eu Sou Aquele que É”.

 

§

 

Mas, voltemos ao essencial: a ideia de Deus. A ideia de Deus, para além de abstracta, não é fácil. Caso fosse fácil não existira esse conceito (ou será ideia?) que tem o nome de . A Fé é a resposta a todas as questões que possam ser levantadas. Só quem tem verdadeira Fé pode apreender e compreender a ideia que é Deus. É claro que não há conceito (ou será ideia?) mais complexo do que a ideia (ou será conceito?) de Fé. Não conheci, até hoje, ninguém que conseguisse explicar convenientemente o que é isso da Fé. É quase tão difícil de explicar como de traduzir a palavra “saudade”. Ou se tem ou não se tem: Fé. Mas, nasce connosco ou é algo que cresce connosco? Há quem perca a Fé e há quem ganhe Fé e ainda há aqueles que sempre tiveram Fé. Em nome da Fé foram feitas coisas magníficas e, também, foram feitas coisas horríveis. Afinal, o que é a Fé?

 

§

 

Entendo, compreendo e considero justificável a necessidade dum centro que tudo ordene. Em alguns casos esse centro é Deus. Noutros: a Natureza, o Homem, a História, a Ciência. Contudo é impossível viver sem um centro que tudo ordene. Pode até ser um ideal, uma vontade, um desejo ou outra coisa ainda mais primitiva. Mas ele está lá presente, centro.

 

§

 

Haverá quem alegue que Deus já não é, nos dias de hoje, necessário. Lembro-me, nitidamente, que a primeira explicação que alguma vez ouvi para a trovoada foi Deus está zangado. Curioso: nunca ouvi explicar um dia de sol, nunca ouvi ninguém dizer: hoje está um lindo dia de sol, porque Deus está contente. Cresci com a noção de que Deus estava sempre zangado. Ou só se manifestava quando estava zangado.

 

§

 

Essa ideia de um Deus zangado, irado, perdurou durante muito tempo. Até ao dia em que desapareceu. E, junto com ela, a própria ideia de Deus.

 

§

 

Mas como justifico eu esse desaparecimento? Terei perdido a Fé? Mas, o que sei eu da Fé? E se perdi a Fé, terá sido a Fé em Deus, no Homem, ou em mim próprio? Muitas vezes procurei respostas. Ainda hoje as procuro. Porquê? Não consigo explicar. Sei, apenas, que existe em mim um impulso que me orienta nesse sentido. Será Deus? Ou será apenas a necessidade de encontrar um centro que tudo ordene? Ou será a necessidade de encontrar respostas para as dúvidas, inquietação?

Bach, ou o silêncio

 

Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus.

E. M. Cioran

§

Durante uma aula, e enquanto os alunos faziam uns exercícios, coloquei as Variações Goldberg. Foi o silêncio total.

§

 Deixei de acreditar na existência de Deus. No entanto, sempre que ouço Bach essa minha não-crença desvanece. Quanto a mim é impossível um homem ter escrito música tão bela sem uma ligação directa a Deus. Se Deus existir, Ele está na música de Bach.

§

 Por exemplo as Suites para Violoncelo. É nas pausas, nos silêncios, que mais vezes ouvimos o violoncelo respirar, recuperar o fôlego. Diz-nos algo que está para lá das palavras (que Bach me perdoe o cliché). Há uma Voz que nos diz que não devemos ter medo, que tudo irá correr bem. Essa Voz só pode ser concebida através da música. É aí que reside toda a grandeza de Bach: nessa Voz que só a música pode criar, pois de outra maneira ela seria ruído, estrondo.

§

Ao ouvir Bach todo o Homem hesita entre a crença em Deus e a não-crença em Deus. Ou nos Deuses, se preferirem. Ou no Divino. Esta é a principal característica da música de Bach: o contacto directo com algo que transcende o Homem, que lhe é superior, que o confronta com a sua pequenez, com a sua inequívoca mortalidade. Os Concertos de Brandenburgo não são o melhor exemplo para exemplificar esta minha posição. Foram, no entanto, a primeira obra de Bach que ouvi. Até os ouvir julgava que todo o Barroco era um amontoado de exageros, superficialidades, devaneios que não levavam a lugar nenhum. O que só prova a minha ignorância. Ora os Concertos de Brandenburgo foram uma revelação, uma manifestação de um Poder que, até então, acreditava não existir. Com essa primeira audição instalou-se em mim a dúvida, a inquietação.

 §

 Bach está para a música como Newton e Einstein estão para a Física. Sinceramente, não sei se já vi isto escrito em algum lugar. É provável que sim. Não consigo conceber as descobertas de Newton ou Einstein sem inspiração Divina – seja lá o que isso for. Com a música de Bach é a mesma coisa. Ninguém fica indiferente, por exemplo, a qualquer uma das suas cantatas. É humanamente impossível. Nessa impossibilidade reside o Divino em Bach. Talvez seja uma mera suposição. Mas há algo que nos ultrapassa quando ouvimos Bach, que não é explicável, que simplesmente é. E tudo aquilo que é ultrapassa-nos, projecta-nos para um outro patamar, onde Homem e Divino se encontram, tocam, são. E a música de Bach tem a capacidade de ser.

§

 Não é estranho afirmar que a música de Bach tem uma forte componente teológica. Arrisco-me a chamá-la de teomúsica. Toda ela foi escrita para o Homem comunicar com o Divino, para estar mais próximo dele. Pensemos num exemplo: A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244. Baseada nos capítulos 26 e 27 do evangelho de São Mateus, ela procura retratar os últimos dias da vida de Cristo, o seu sofrimento. Mas Bach (em todo o seu génio) vai mais além. Ele procura colocar o Homem em contacto directo com o Divino, transformando a sua música no veículo que permite esse contacto. Ela é, em certa medida, a única linguagem que Divino e Homem entendem e conseguem utilizar. Sem ela só haveria ruído.

§

 Uma coisa é certa: não sou conhecedor profundo da música de Bach. Apenas gosto de ouvir. Reflectir, talvez, sobre ela. Pensemos no Concerto de Brandenburgo n.º 3, no último andamento, o Allegro. Já aqui disse que toda a música de Bach se inclina para aquilo que designo por teomúsica, isto é, uma música que procura o Divino. Ora o Allegro do referido Concerto n.3 é, do meu ponto de vista, um exemplo que retrata bem essa procura do Divino. Este Concerto foi escrito para três secções de cordas – três violinos, três violetas e três violoncelos – não esquecendo a base de cravo, que é reforçada por um contrabaixo. No último andamento, o Allegro, a simbiose entre todos eles é, simplesmente, perfeita. Num crescendo os violinos abrem o caminho às violetas, que por sua vez combinam com o discreto cravo. Todo o andamento funciona como uma espécie de mantra, onde princípio e fim se confundem, são o mesmo.