The Torso - poema de Robert Duncan

THE TORSO

 

Most beautiful!      the red-flowering eucalyptus,

           The madrone, the yew

 

        Is he …

 

So thou wouldst smile, and take me in thine arms

The sight of London to my exiled eyes

Is a Elysium to a new-come soul

 

                         If he be truth

                         I Would dwell in the illusion of him

 

His hands unlocking from chambers of my male body

 

                 such an idea in man’s image

 

          rising tides that sweep me towards him

 

                         …homosexual?

 

                                    anda t the treasure of his mouth

 

                         pour forth my soul

 

                                     his soul              commingling

 

I thought a Being more than vast, His body leading

                  into Paradise,      his eyes

                                quickening a fire in me,         a trembling

 

               hieroglyph:          At the root of the neck

 

         the clavicle, for the neck is the stem of the great artery

             upward into his head that is beautiful

 

                                    At the rise of the pectoral muscles

 

the nipples, for the breasts are like sleeping fountains

       of feeling in man, waiting above the beat of his heart,

       shielding the rise and fall of his breath, to be

       awakend

 

                                    At the axis of his mid hriff

 

the navel, for in the pit of his stomach the chord from

     which first he was fed has its temple,

 

                                 At the root of the groin

 

the public hair, for the torso is the stem in which the man

      flowers forth and leads to the stamen of flesh in which

      his seed rises

 

a wave of need and desire over         taking me

 

                              cried out my name

 

              (This was long ago.      It was another life)

 

                                                and said,

                           What do you want of me?

 

 

I do not know, I said.        I have fallen in love.        He

        has brough me into heights and dephts my heart

                        would fear         without him.       His look

 

            pierces my side     .       fire eyes     .

   

          I have been waiting for you, he said:

                                        I know what you desire

 

                       you do not yet know        but through me     .

 

         And I am with you everywhere.         In your falling

 

         I have fallen from a high place.            I have raised myself

  

                          from darkness in your           rising

 

                                                     wherever you are

 

                my hand in your hand         seeking        the locks, the keys

 

I am there.            Gathering me, you gather

 

                    your Self.

 

       From my Other is not a woman but a man

 

      the King upon whose bosom let me lie.         

 

                                                                                                                          Poema de Robert Duncan        1968

Nota: “Torso”, pintura-colagem do poema de Robert Duncan - ”The Torso”, é um livro de artista. É dedicado ao poeta Ricardo Marques.

 

 

 

                                   

 

 

 

Breve ensaio sobre a chegada

1.

 A terra crestada está ali em frente
com as últimas ondas que rosnam
e insistem em seu imprevisível gesto.

Logo o porto se alarga
como goela de animal ferino

e essa pátria ainda sem palavras
abre suas fauces para nós
incrédulos

tomados pelo medo do rapto.

2.

Tanta vida gasta até essa linha
até essas pedras lisas:
Europa, vejo teu rosto limpo
e largo,
no meio da bonança
enquanto o animal ainda está adormecido

então torço com todas as forças:

oxalá a borrasca que sabemos
sempre próxima
a explosão da língua inimiga
não passe de uma ranhura
no assoalho, o estranho esgar
do vento no telhado.

3.

 Para essa terra de abandono
migramos,
carregando o que sobra
do despojo:

nosso rosto virado
rumo ao sol,
rebojo de poeira e vento
na seca

e uma flor, pelo menos,
pelo menos uma flor
aberta apesar da fome

- aquela, que nos sobrevive
e demora

4.

 Entre os trilhos para Ventimiglia
vejo um corredor de ruínas:

ferrugem, chicória e ervas daninhas
os prédios rachados
- áridos, quase cactos
pela maresia

nesse limbo entre duas terras
há uma calça estilhaçada
e um sapato solitário
deitado, como corpo violado

são as relíquias de outra guerra
onde a bomba é o carimbo
e o míssil é a fronteira imaginária

mais adiante
o tesouro saqueado:
a mala aberta
como boca desdentada

a pátria portátil jaz no trilho

logo o trem se moveu na estação,
a mala foi ficando pequena
e longínqua, debaixo do sol cortante

não foi possível ver
o que brilhava dentro dela
- um alfinete
talvez algum pente de nácar:

aquele brilho insólito
que enfrenta as dunas do deserto

- um profeta no meio da devastação.

"A Tempestade" de Georg Trakl

Georg-Trakl.jpg

Tradução: J. Carlos Teixeira

A Tempestade

Vós, selvagens montanhas, das águias
Sublime luto.
Nuvens douradas
Fumegam sobre desertos de pedra.
Paciente silêncio respiram os pinheiros,
Os cordeiros negros no abismo,
Onde subitamente o azul
Estranhamente silencia,
O doce zunir do abelhão.
Ó, verde flor -
Ó, silêncio. 

Oníricos agitam sombrios espíritos
Do ribeiro bravio o coração,
Escuridão
Que desaba dos desfiladeiros.
Vozes brancas,
Errantes pelos pátios lúgubres,
Terraços despedaçados,
A violenta ira dos pais, o lamento
Das mães,
Do menino, o dourado grito de guerra,
Dos não-nascidos,
O gemido de olhos cegos. 

Ó dor, tu, flamejante visão
Da grande alma!
Estremece no negro tumulto
Dos cavalos e vagões
Um raio rosa e horrendo
No abeto ressonante.
Frio magnético
Paira em volta desta altiva cabeça,
Brilhante melancolia
De um Deus enraivecido. 

Medo, ó venenosa serpente,
Negra, morre na pedra!
Lá, caem das lágrimas
Correntes bravias,
Tempestade-compaixão,
Ecos em trovões ameaçadores
Os cumes em neve rodeiam.
Fogo
Purifica noite destroçada. 

in Der Brenner, 1914


Das Gewitter

Ihr wilden Gebirge, der Adler
Erhabene Trauer.
Goldnes Gewölk
Raucht über steinerner Öde.
Geduldige Stille odmen die Föhren,
Die schwarzen Lämmer am Abgrund
Wo plötzlich die Bläue
Seltsam verstummt,
Das sanfte Summen der Hummeln.
O grüne Blume -
O Schweigen.

Traumhaft erschüttern des Wildbachs
Dunkle Geister das Herz,
Finsternis,
Die über die Schluchten hereinbricht!
Weiße Stimmen
Irrend durch schaurige Vorhöfe,
Zerrißne Terrassen,
Der Väter gewaltiger Groll, die Klage
Der Mütter,
Des Knaben goldener Kriegsschrei
Und Ungebornes
Seufzend aus blinden Augen.

O Schmerz, du flammendes Anschaun
Der großen Seele!
Schon zuckt im schwarzen Gewühl
Der Rosse und Wagen
Ein rosenschauriger Blitz
In die tönende Fichte.
Magnetische Kühle
Umschwebt dies stolze Haupt,
Glühende Schwermut
Eines zürnenden Gottes.

Angst, du giftige Schlange,
Schwarze, stirb im Gestein!
Da stürzen der Tränen
Wilde Ströme herab,
Sturm-Erbarmen,
Hallen in drohenden Donnern
Die schneeigen Gipfel rings.
Feuer
Läutert zerrissene Nacht.

in Der Brenner, 1914

ChinELAS Cruzadas e outros poemas

ChinELAS Cruzadas

Outrora éramos bruxas

se sentadas como hoje estivéssemos.

Cruzemos as mãos

para afastarmos os barulhos mais

recônditos da noite ou talvez

para chamarmos as vozes das

perdidas loucas.

Cruzemos as mãos

e partilhemos entre os presentes as

nozes e o dom das histórias.

Que as sombras das labaredas

intermitentes naquela parede ali ao fundo

nos possam ajudar a fazer destes

homens melhores crianças

mais tementes a Deus

sobretudo ao Diabo.

 

“Um pai percorria a estrada

noturna e o barulho das correntes

era tão profundo

um som vindo de um búzio

a voz do diabo a chamá-lo

pela goela da morte.”

 

Enfiados nas t-shirts que diziam

                  CANADA

largas para poder conter toda a

saudade futura

escondiam a cabeça

na concentração do medo.

 

Hoje já não somos bruxas

apenas meras mulheres contando histórias.

Cruzemos as chinelas

para que as bruxas do além

queimadas em ignorância

nos possam auxiliar no encanto

sem que o Diabo apareça.

 

Eu sentada no sofá

cansada de tanta beleza da tarde

comia pipocas doces

enquanto fixava calada os cascos do Diabo

que davam colo à voz que

cantava.

 

                                                                  10.07.19

SEM EDUCAÇÃO

 

“Não há ninguém, aqui, para me atender?!!!

Queria um Happy Meal e um Mc Flurry! Não me diga que não tem!

Já está? Que lenta! Vá despache-se!! Tenho pressa!”

E olhando para o moço do lado: “Que imbecil! E olha que Gorda!”

 

Lambido o Mc Flurry era a

altura de passear o Bolinha.

“Não percebo essa gente, não são como eu, que recolho a quente

o cocó do meu Chihuahua.

Essa gente não tem educação!”

A MENINA JÁ NÃO CHORA*

 

“Os meninos mijam de pé, enquanto

         os cisnes dançam no lago.”

                  - Barbara Stronger

 

a Francisca Camelo

 

Não há outra mulher

de limada unha

cerrado punho

fina força que no

seu arrepio de

língua faça

frente à besta.

 

É na onda da língua

adocicada de sereia que tanto

enamora quem a respeita

como des_ventra quem

a pisa.

  *Natália Correia

CLEOPATRA E MATA HARI

 

“sólidos quando perdidos se viram”

                           - Luiza Neto Jorge

 

Nunca houve solidez em vida. Nem

no tempo da pedra dos faraós nem

agora. A juventude está perdida

pelo menos desde a Idade da Pedra.

 

Tudo é paradoxo e quem não sabe

isso não conhece nada da vida. Um

cavalo é feliz de palas assim é aquele

que se fecha numa bolha ou se fecha

em altos muros e castelos de cartas.

 

De manhã sou cobra de tarde Ave e

à noite mera Mulher. Quem de vós é

estável como um charco sem chuva?

O CONCURSO DE APOIO ÀS ARTES

 

Abriu ontem o concurso para bolsas de Apoio

às Artes. Uma excelente notícia para todos

os artistas. Siga por favor os seguintes passos

Preencher formulário de vinte e cinco páginas

Entregar portfólio alargado e curriculum vitae

Identificar sítio pessoal e artístico assim como

Facebook Instagram Twitter Tinder e Grindr

Apresentar dez textos com Deleuze lá no meio

e acrescentar carta de recomendação do crítico

da moda com respetivo número de broches.

No final depois de apresentar todo o material

em cinco minutos sorrir muito e limpar à mão

o pó do casaco e sapatos do soberbo avaliador.

 

Apresentada toda a papelada e decorrido todo

o processo de seleção a bolsa de apoio à artes

foi direitinha para o pintor impressionista de

figos e hortênsias – o primo direito do Senhor

Presidente da Câmara Municipal! Ide-vos foder!

 

  

FAKE NEW(S) 748.3

 

Neste recolher obrigatório todo o

mau poeta será amordaçado por

cada palavra repetida nos seus

poemas e terá de dar ao Ministro

do Interior e obras públicas o Cu!

 

Quer goste quer não goste!

 

Perdão! Queria dizer o Bom poeta.

Aquele que vende a preço de ouro

e duro osso a sólida eternidade.

 

Quer goste quer não goste

terá de dar o cu ao Ministro!

 

O mau poeta (dizem eles-  o que não

pertence ao Estado) é livre de dar o cu

se quiser e quando quiser desde que

fale apenas do efémero e da verdade.

  

GOYA_-_El_aquelarre_(Museo_Lázaro_Galdiano,_Madrid,_1797-98).jpg

Goya - El aquelarre [Bruxas Sabá], 1798

Tonturas

são aquelas tonturas
de um desejo inconsequente
fulcros de confiança
na montra de um oculista
que caminha num raio de luz
borboletas de medo
pacifistas
voltejam
no estômago inquieto
de um rapaz de oito anos

poema da minha infância
a colheita de um ano estéril
escolhido por um pintassilgo
árvore de galhos cheios
que roubou as promessas
de jasmins brotados
num dia funesto

quem refresca o meu copo
sozinho
no bar do aeroporto
ó pintassilgo
onde a noite se cruza
nas linhas de rabiscos ilegíveis
potencial sangrento
que escorre
para fora do caderno preto