Crônicas mineiras

1.      A VIAGEM 

Como é praxe em todos os feriados prolongados, passei os dias de folga na pequena cidade de São Tiago, encravada no interior de Minas Gerais, onde Ana nasceu. Saio de casa na quinta-feira do lava-pés logo após o almoço. A profunda alma de Minas Gerais começa a me ser anunciada já algumas horas antes da minha chegada, mais precisamente a partir da parada para um lanche rápido e abastecimento num posto de estrada localizado já no fim da represa de Furnas, a poucos quilômetros da entrada de Capitólio. Do posto, tem-se uma visão ampla de um açude que se estende, silencioso, como uma pequena faixa de oceano. A intervalos, passam os carros em alta velocidade. Pedimos duas empadas e café preto, que é servido diretamente de uma garrafa térmica. Na hora de pagar, a balconista me cobra apenas as empadas. Digo que ela se esqueceu do café, ao que ela me diz que o café preto, por aqueles sítios, é uma cortesia. Agradeço e sigo viagem. O anoitecer vem quando estou em Itapecirica. A entrada e a saída da cidade são marcadas por igrejas, a da entrada mais solene, barroca, a lembrar as construções de São João Del Rey, enquanto que o templo da saída da cidade é uma casa oculta por um largo muro caiado onde estão inscritos os dez mandamentos. Sei que é a chamada hora do rush, mas o movimento de gente é mínimo. Numa esquina, um sujeito coloca, na carroceria da camionete, três cachorros. Algumas donas de casa andam à esmo. Um grupo de velhos espera, de cócoras, a culminância do crepúsculo. Um vento frio corre rente ao chão e o céu tem aquela frialdade violácea que convida ao sono e ao tédio. Com a noite alta, serpenteio por estradas sinuosas, entre massas de sombras e veículos que, no sentido oposto, cegam-me com os seus faróis de neblina. Quase chegando, é preciso desviar de um boi que, pastando, ocupa metade da pista. Finalmente em São Tiago, o frio é úmido como se houvesse acabado de chover, criando uma expectativa de orvalho. Pouco há para se fazer na semana santa, sobretudo nos últimos dias da quaresma, quando as pessoas cumprem as penitências que se impuseram como prova de fé. A maioria  das penitências consiste em ficar longe de bebidas alcóolicas. As mais singelas privam o penitente do açúcar. As mais violentas, ou tradicionais, dizem respeito à abstenção de comer carne vermelha. Sei que, na sexta-feira da paixão, é proibido o desempenho de qualquer atividade mercantil, de modo que se criou a seguinte tradição: as pequenas propriedades rurais da região doam aos pobres a produção de leite do dia. Todas essas pequenas propriedades, que doravante chamarei de roças, distam quilômetros da cidade e a elas apenas se chega por estradas de terra. A tradição ainda exige que os pobres a quem é destinado o leite caminhem até as roças antes do alvorecer da sexta-feira. Uma dessas roças pertence a uma tia de Ana e, mal chegamos após a extenuante viagem, somos convidados a irmos para lá ainda durante a noite para ajudarmos, durante a madrugada, na doação do leite. Argumentamos que o nosso cansaço é grande. Em Minas Gerais todas as relações sociais parecem orbitar em torno de negociações que, não fosse a alma barroca dos debatedores, sequer seriam necessárias, e o resultado dessa minha negociação por migalhas de sono é a promessa de que iremos para a roça na manhã do dia seguinte. Tudo parece calmo e resolvido. Estou dormindo no quarto  quando sou acordado, em plena madrugada, pelo meu cunhado, que, remexendo as gavetas, procura qualquer coisa que não pode esperar o amanhecer, e mais tarde pela mãe de Ana que, com uma alegria devota, entra gritando no quarto, confundindo sair na manhã de sexta-feira com sair às quatro da madrugada. É com um fiapo de consciência que relembro que, em Minas, os quartos de dormir gozam de uma ausência de privacidade apenas comparável a encontrada em qualquer hospedaria da ficção kafkiana. Finalmente, deixam-me dormir, ou melhor, a mim é concedido que eu durma como se eu fosse uma criança de cinco anos ignorante dos compromissos do mundo adulto.

Escrever, após o horror

Escrever, após o horror, 
talvez mantenha um homem vivo – 
mas qual o poema das noites brancas 
entrevistas pelas cortinas da sala? 
Diante da janela, o perfil de uma palmeira 
em pétrea imobilidade, uma criança chora, 
descerro a cortina, pressinto o luar 
para lá do prédio defronte, no gramado 
a relva judiada, a persistência dos grilos, 
a sutil, a misteriosa incorporação 
de tudo a um cristal já trincado. 
 
Tenho a ternura. Mantenho-a. 
Sou o mesmo das garapas na praça. 
O mesmo que não recusa esmolas. 
O mesmo das buscas dos gatos da avó 
pelos telhados da casa eterna, 
pisando com cuidado, sentindo ranger 
a telha fria sobre os meus pés 
no instante em que alguém lá embaixo morre. 
O mesmo que temia a porta fechada 
no fundo de um corredor catacumba 
(a mãe alquebrada e eu Pietá 
de um poema desesperado, caminhando por entre 
miasmas de cigarros e culpas irremíveis). 
O mesmo dos poemas que floresciam 
ainda quando não havia um tema, 
ainda quando sequer existiam poemas. 
O mesmo. Mas até quando 
ou ainda no esquife serei o de agora? 
 
 Carrego a ternura como um vaso de flores 
trazido dos lugares da infância 
(a terra apodrecida, as raízes mal cheirosas). 
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas 
mas não importa – tenho-a aqui, 
sinto-a embotando os meus olhos com a visão 
de uma centena de negros acorrentados, 
zune-me aos ouvidos como um festim 
de vidas destroçadas; demônio 
dos silêncios pacientes e furiosos; 
aneurisma que me sangra o nariz e os versos; 
gangrena que me amputa a mão esquerda 
(também sou gauche, mas sem anjos tortos 
a me anunciar um fado diferente daquele 
que cai sobre tantos irmãos destros): 
 
pesa-me, enfim, como se fosse cansaço o poema revela-se cascalho 
do caminho íngreme, os passos somam-se 
aos ecos da tarde, prolongados cantos de pássaros 
roucos, há terrenos baldios 
e mesmo casas desabitadas, à espera 
de um homem e seu método. 
 
Pálido poema das noites brancas 
apenas entrevistas por rendas rasgadas: 
és tão lívido, faltam-te riquezas 
mas o que sei? Há quem fale do sol: 
a mim, parece mais a moeda de centavos 
esquecidas nos bolsos de alguma calça: 
paga-me uma garapa nas tardes de sábado 
ou é a esmola que oferto a um esfomeado 
com a ridícula certeza de ser bom.

 

Blow Up

Pedro sofreu o acidente que o deixou coxo em Dezembro, e a sua esposa, se me recordo bem, teve machucados ainda mais horríveis. Portanto, o natal foi pouco comemorado: após uma ceia breve e saudações à meia-noite, todos foram dormir. Eu estava sem sono e pensei em pegar o carro e dar uma volta pela cidade, talvez ir até o Radio City, mas logo desisti.
Na tarde seguinte liguei para um amigo e combinamos de nos encontrar no salão de bilhar. Assim que iniciamos a disputa, começou a chover. Junto ao balcão, o homem que administrava o lugar jogava um estranho jogo de cartas com outro sujeito. Às vezes esse outro sujeito gritava. Perto deles, comendo de um prato que recendia a gordura antiga, estava sentada uma adolescente – rosto claro ungido pelo suor e pelo calor que se emanava da chapa de grelhar hambúrgueres, os seios salientes (talvez engordurados também) sob o fino tecido da blusa, cabelos à altura do pescoço. À medida que a chuva ficava mais forte, a madeira dos tacos tornava-se pegajosa e não conseguimos nos divertir. Antes do crepúsculo eu já tinha voltado para casa . Quando a noite se insinuou e parou de chover, veio, dos fundos do quintal, um cheiro de bananeiras molhadas.
Nos dias que se seguiram, eu e Cartago voltamos a perambular pela cidade velha. As lojas – após a alegria natalina – estavam todas fechadas. A prefeitura ainda não tinha dado início aos trabalhos de limpeza, e as ruas jaziam atulhadas de papel picado e jornais de propaganda. Chovia forte quase todas as tardes, mas depois vinha o sol, e ascendia um mormaço doente e preguiçoso. A impressão que se tinha era de que a água estava estagnada há não sei quantas semanas e por isso apodrecera.
Na última tarde do ano também vagamos pelo centro: primeiro uma caminhada pelas ruas quietas e ensolaradas (aqui e ali explodiam bombas, e ao mormaço fundia-se o cheiro de pólvora), depois algumas partidas no salão de bilhar e por fim uma visita ao shopping, que tinha todas as lojas fechadas e, na praça de alimentação, as cadeiras empilhadas. Era a última sessão de cinema do ano e havia poucas pessoas na sala de exibição. Sentámo-nos e, enquanto esperávamos o filme, vimos chegar um grupo formado por uma mulher e duas raparigas de quinze ou dezesseis anos. As meninas não pareciam ser irmãs ou primas – o tom da pele, a cor dos cabelos, os ossos do rosto, as sombras ao redor dos olhos, os gestos: nada indicava parentesco e o único aspecto que tinham em comum era uma magreza desengonçada (era como se o silêncio e a melancolia – uma tristeza apenas adivinhada, apenas imaginada – tornassem o ar mais espesso ou rarefeito; como se as duas meninas, ou melhor, como se os seus dois corpos magros ainda não estivessem acostumados a variações na densidade das horas).
Quando saímos do cinema e ganhamos a rua, o crepúsculo ia pela metade. Tinha sido uma tarde sem chuvas e um sopro quente varria os papéis e as copas das árvores. Bombas ainda explodiam aqui e ali (agora com mais frequência). Do alto dos postes descia uma luz que, misturada à poeira do entardecer, assumia um tom alaranjando, enquanto o céu poente oscilava entre matizes pálidos e de um azul muito escuro. Por quase uma quadra, a mulher e as meninas caminharam diante de nós, e durante todo o tempo tivemos a impressão (agora também em relação à mulher) de magreza destroçada, aniquilada. Era como olhar para o retrato de alguém – um retrato tirado durante um momento de introspecção – e adivinhar uma morte triste, talvez por suicídio.

FALÉSIAS

Lembra-me uma estátua de Afrodite
afogada – ruína intocada
de um cemitério que permaneceu
submerso enquanto o vento
soprava falésias e do areal apagava
os nossos passos; como se,
devido a um acidente climático,
um mar secasse e revelasse o que jaz:
a ossada de um navio naufragado
e também você, devolvida a mim
como os mortos de Pompéia.

Está próxima. Escuto-a a respirar
mas chego a temer o impulso
de acariciá-la como se o seu abrir de olhos
fosse transformá-la numa destas criaturas
que um deus desfez em sal para a purgação
de uma sede malsã. Vejo-a. Escuto-a
e pesa a suspeita – mármore
sobre o peito – de também estar submerso.
Ouço-a e depois o vento sobre a erva rasteira
pelas alamedas do condomínio.
No outro lado da parede, irrompe
um choro de criança. É o térreo.
A escada aos andares de cima
está sobre o teto e cada passo
ressoa como que vindo da madrugada absoluta.
A insônia é uma encruzilhada de rios
que lentamente secam: o ontem
ainda preso à pele, mas não como cicatriz,
não como gota de orvalho – na superfície
da epiderme como algo banal (outra nódoa
de gordura no casado puído)
enquanto velo o seu torso a se encher
e a se esvaziar: seguidamente, inesgotavelmente,
como se a mim fosse dado contemplar, grão
após grão, como se forma o infindo areal
em que nos achamos.