Um ditador que não é um ditador

Um ditador que não é ditador não pode usar bigode. Os bigodes ficam sempre mal quando vem o Carnaval, sendo preciso cofiá-los em frente da televisão, o que do ponto de vista da comunicação é dois, e não um. Três nunca seria. Um ditador também não pode fumar porque estraga os dentes, e além disso pode provocar várias doenças, nomeadamente a doença-do-charuto ou a doença-do-cachimbo, que grassa por zonas em que não há monarquias activas. Roterdão, por exemplo, seria uma terra em que tal acontecimento não sucederia.

Um ditador que não é ditador não diz não às liberdades. Fecha-as, come-as, tranca-as, fode-as, e eventualmente torna-as maiores quando os que delas precisavam têm uma larva no olho esquerdo. No direito, não, porque só há ditadores que provoquem mortes no lado esquerdo, o que tem a ver com a forma como o cérebro funciona (hemisfério esquerdo, mão direita, vice-versa).

Um ditador que não é ditador não ordena: sugere, indica, estimula, faz pensar, faz evoluir, faz caminhar. Por exemplo: se um ditador que não é ditador quer que um grande número de pessoas, pelo menos mais de duas mil, pense que ninguém pode contar os grãos de um metro quadrado de areia, sugere que se conte uma praia inteira. Se a alguém não interessar a questão, melhor. Se alguém defende que um metro quadrado de areia até pode ser eventualmente contável, a praia sempre foi o sítio de eleição para cadáveres que dão à costa. Pensando bem, “dar à costa” é uma expressão demasiado abusiva, uma vez que quem já está morto não pode dar coisíssima nenhuma. Há expressões infelizes. O que nos leva à seguinte questão (aqui faço um parágrafo ridículo, mas que me permite manter o ritmo do texto).

Um ditador que não é ditador pode morrer. Os ditadores mesmo ditadores não morrem. Também não caem da cadeira. Também não morrem de doença prolongada. Também não morrem de velhice. São fuzilados, incinerados, decapitados, empalados, desmembrados, envenenados ou asfixiados. Entretanto ocorreu-me que não sei de nenhum ditador que tenha sido crucificado: são ditadores, não são mártires, e há uma espécie de acordo tácito acerca de como uma morte excruciante deve ocorrer entre os ditadores, a crucificação seria demasiado simbólica para seres desta natureza. Aliás, no caso dos ditadores mesmo ditadores, nem a história os absolveu ou há-de absolver, no sentido em que a história ainda vive no século passado, e aceita a pena de morte. Alguém devia ter uma conversa com ela, explicando-lhe que isto da morte já é uma coisa demasiado batida, já se fez muitas vezes, já está feita, já chega. Se alguém tem o poder de acabar com este desagradável hábito é a história, uma vez que ela é uma construção inteiramente humana, e não sendo capaz de alterar a realidade pode deixar pistas para um mundo pós-nuclear em que extra-terrestres descobririam nos nossos anais que éramos imortais. Só temos todos de morrer entretanto e não deixar vestígio disso, mas isso faz-se, é fazível, é exequível.

            Um ditador que não é ditador tem um ideal, mas não uma utopia. As utopias são irrealizáveis, como por exemplo a de um certo indivíduo que decidiu escrever em latim quando dominava perfeitamente o inglês (que palerma!). Escreveu ele que seria possível que mulheres e homens tivessem os mesmos direitos. Que absurdo. Paspalho utópico. Ou aquele outro – lembras-te da minha última carta, meu amor? – que ousou falar em parábolas: “amem-se uns aos outros”. Um ditador que não é ditador não tem utopias. Tem i-d-e-a-i-s. Ideais são ideias muito vincadas que todos devem partilhar, mesmo que não queiram, porque são os que um determinado conjunto de indivíduos estipulou como correctos e revolucionários. Um ditador que não é ditador também sabe que os ideais facilmente se tornam em ideias, e que as ideias são mais fáceis de manter do que os ideais. No fundo, é como um cheque ou uma mala cheia de dinheiro. Eu prefiro a mala. Mas sou notoriamente conhecido pela minha pouca motivação para o idealismo. Estou a brincar. Não sou notoriamente conhecido por nada. Até porque me irritam os pleonasmos.

            Uma coisa em que um ditador que não é ditador é muito bom é em pensar, de uma forma geral, muito melhor do que os outros. Por isso é que se pode dar ao luxo de matar uns quantos, porque estão a pensar mal. Convenhamos que quem pensa mal pode prejudicar os ideais, e por isso mais vale um fuzilamento provisório, algo reversível após a morte. A opção por fuzilamentos definitivos é típica dos ditadores efectivos, e não dos que não são ditadores. Um fuzilamento definitivo é típico de uma ditadura; um fuzilamento provisório é típico de uma não-ditadura. Se virmos bem, dói muito menos morrer provisoriamente do que definitivamente. Que o digam as encarnações todas de Vishnu, que provavelmente nunca se poderão ter conhecido do ponto de vista teológico, não pelo menos na nossa concepção de tempo, que continua a ser demasiado humana. Uma nova ideia para mudar na história.

            Um ditador que não é ditador também tem um amor geral pelo “povo”. Aqui contrasta flagrantemente com um ditador de facto, que tem um amor geral pelo “povo”. A diferença está em que enquanto um ama o povo na sua generalidade e não sua particularidade, o outro também. Apenas uma coisa partilham, o ditador e o não ditador, é que quando alguém prova que não é do povo, mesmo que seja, é porque está contra o povo, e pode ser desmembrado ou electrocutado. Por exemplo: o “povo” gosta de batatas. Mesmo que nunca ninguém tenha conhecido alguém chamado Povo (e só uma pessoa tomada individualmente é que têm esta estúpida tendência para a identidade de gosto, e mesmo isso é discutível), sabemos que o “povo” gosta de batatas. Fulano de tal é do povo. Talvez porque comesse batatas, porque não havia outra coisa para comer. Entretanto, descobre que adora inhames, e tenta convencer os outros que as batatas são uma merda, mesmo que de facto as batatas sejam melhores. Não pode. Já não é do povo. Pode-se fuzilar, limitar ou eventualmente sodomizar, em casos extremos. Um não ditador fará tudo isso provisoriamente, claro está.

Uma última palavra acerca dos círculos. Cuidado com eles. Eles nunca saem do mesmo lugar. Isso, quer um ditador, quer um não ditador, sabem bem.    

Três diplomas

Havia um homem muito grande, de seu nome L, que tinha uma letra em vez de nome. Isso causava-lhe muita impressão, apesar de não se chamar Luís nem coisa que o valha.

Certo dia, decidiu que seria bom apresentar-se a alguém. Ainda hoje não sabemos porquê, mas há algo em todos nós que se quer apresentar sem distrações, ou com variadas, consoante a época do ano. No Natal, por exemplo, fica bem um copo de vinho à lareira.

L quis candidatar-se.

Como em qualquer candidatura, é preciso saber ao que se vai, ainda que tal pormenor seja supérfluo, ou mesmo desnecessário. No caso de L veio a comprovar-se que era desnecessário.

O anúncio do jornal dizia: precisa-se de alguém cuja função não pode ser especificada num jornal comum, mas quando muito num anexo do diário da república, querido livro cujas entradas começam sempre assim: “querido diário, escrevo-te para te dizer que hoje me apaixonei...”. Toda a gente sabe que o diário da república está repleto de paixões bastante correspondidas. Entretanto percebi que em vez de entradas podia ter escrito entranhas. Mas agora já está demasiado longe, a palavra, para ser corrigida. Antigamente não, a gente rasurava e depois editava. Agora não.

L continuava a querer candidatar-se.

Ninguém lhe exigia outra coisa senão ser L, porque sempre souberam quem ele era, porque tinha barba e bigode e não dizia erros como “haviam três homens” ou “a gente vamos à praia”, mesmo que em ambas as situações o mais grave ser o facto real de apenas um homem constar na situação reportada, e não quatro, e ninguém ter ido à praia naquele dia por estar bastante frio e ainda mais chuva. Coloca-se a hipótese de talvez, eventualmente, por acaso, alguém ter ido à praia, mas L nunca iria com a sua “gente” naquele dia, porque estava naquilo a que os seus chamavam de “comício”(?).

L queria muito aquele lugar.

Pensou: “seria melhor ter um diploma que assegure que eu afinal posso ter um diploma. Aliás, eu não digo “a gente vamos”. As duas coisas, conjugadas, farão de mim presidente de qualquer coisa, depois de cessar o cargo público a que me candidato”.

L queria mesmo muito aquele lugar. Já lhe sentia o cheiro.

Entretanto, ninguém lhe disse que estava na essência do diploma, já desde os seus famosos tempos da antiguidade, a necessidade de existir. Ou seja, mesmo que fossem cinco palavras escarafunchadas a dizer: “fulano de tal é carpinteiro” (por fulano de tal entende-se toda e qualquer pessoa, e não um nome, o que seria estranho pois naturalmente escrever-se-ia Fulano de Tal, com letras maiúsculas), essas cinco palavras precisavam mesmo de existir, num papel qualquer. A diferência é que antigamente se dobravam os diplomas, e agora penduram-se na parede. Quando existem. É difícil enrolar o vazio, que o digam os ateus ou os estudantes de yoga.

Na altura, L frequentava uma cadeira de Mecânica Geral na Grande Universidade do Mundo, cujo acrónimo era demasiado ridículo para não ser inglês. Era um curso simples, em que se ensinava os rudimentos da roda, sem qualquer tipo de perspectiva histórica, até porque “perspectiva” se deve escrever sem “c”. Grande parte dos alunos chegava a perceber o mecanismo da roda, mas infelizmente L andava ocupado com outros assuntos, nomeadamente em correr o país para se tornar visível aos olhos de um determinado indivíduo para quem agora queria trabalhar mediante concurso público, e, portanto, e por inerência, fechado ao público, porque o público, o vulgo, a multidão, a turba não conhece anexos do tal diário que começam sempre por “querido diário, escrevo-te para te dizer que hoje me apaixonei...”

Uma ideia peregrina iluminou o rosto de L. E se pudesse dizer que era especialista em mecânica geral? A ideia era sedutora. Toda a gente gosta de um bom mecanista geral no seu departamento, especialmente porque a roda já foi inventada, e em qualquer ministério que se preze de ter o nome de ministério há computadores que não precisam de um mecanista geral, mas apenas de alguém com capacidade de apresentar rapidamente uma solução para o facto de “a opinião pública” considerar que determinada roda deixou de funcionar, ou deixou de ser roda, ou passou a ser um círculo unidimensional. Ser mecanista geral era perfeito. Bem vistas as coisas, chegou a ir várias vezes ao curso de Mecânica Geral e correu bem. Sim, percebeu tudo o que o professor dissera, não os princípios matemáticos e físicos subjacentes, claro que não, percebeu aquilo que era mais importante, a roda roda, pronto, que muito mais haverá a dizer sobre isso? A pergunta fora feita a um determinado membro ilustre do partido, que anuiu: então frequentaste (nunca diria “frequentastes”) a GUM, eu também por lá andei, conheceste (nunca diria “conhecestes”) o Eng.º Teles, sim, claro que sim, grande homem, exigente, claro, Análise Algorítmica, difícil, muito difícil, fiz, sim, fiz, tu também, claro, claro, bons tempos, como é que te chamas, L?, ah, claro, já ouvi falar de ti, bom trabalho, tens trabalhado bem, tens mostrado vontade, ambição, vamos ver, vamos ver, vamos ver.

L cada vez mais queria o seu diploma, a tal ponto que passou a ter não um, mas dois.

Pensou, já que tenho um diploma, mais vale ter outro. Sou mecanista geral, mas facilmente podia ser economicista, bastava um dia ter frequentado uma cadeira de Análise Geral numa Universidade Económica, há muitas, tantas quanto estrelas no céu. No fundo, será assim tão complicado? Com estes dois diplomas o lugar é meu.

Entetanto, lembrou-se de que talvez não fosse correcto ter três diplomas: dois era suficiente. Três “dava nas vistas”. Dois não, é mais verosímil do que um. Um pode ser mentira. Toda a gente tem um só.  Ninguém mente sobre dois diplomas. Não é pensável do ponto estratégico.

Candidatou-se.

O anexo publicou o resultado: L, mecanista geral e economicista, secretário adjunto chefe do ministério das pescas.

E foram felizes para sempre.

Despeço-me com amizade,

Pedro Braga Falcão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como eleger um tipo com vontades várias e dispersas, dando-lhe uma unidade que nunca terá

Naqueles dias, havia uma grande máquina ruidosa que fazia “pum, pum, pum”. Nessa máquina habitavam estranhos seres quadrados, feitos de uma matéria que dir-se-ia papel, mas que, na realidade, consistia em coisas “digitais”

(Não que os dedos fossem necessários; não, é uma expressão feita, assim, “digital”, diz-se mesmo assim: “di – gi – tal”.)

É claro que não levou muito tempo até haver um quadrado com ar de círculo que disse: “Ena Pá! Isto era mesmo o que eu andava à procura! Uma máquina que faz ‘pum, pum, pum’, só que sem eu querer. Isto quer dizer que, sem a minha vontade, tudo pode acontecer por si”. Chamemos “indivíduo” a este sujeito. Indivisível, portanto, e irrepetível como todos nós. Ao contrário da crença comum, o mal não é todo igual, varia muito e tem vontades muito dispersas. A alguns apraz arrancar unhas, a outros ver alguém arrancar unhas. Depende muito. Não das unhas, claro – da vontade.

Entretanto, a inércia, essa estranha senhora subtil e mal-amada, com olhar de gema e sorriso de ferro, disse melancolicamente: “ah, se eu falasse”. Prostrou-se num canto e continuou, com a sua habitual bonomia, a rezar.

Nisto, um desses quadrados que tem nome, neste caso K, teve um problema. K pensou que tinha muita importância o que escrevesse, escrevinhasse, com os dedos, nessa tal coisa sem papel. Pressuposto: os (as) milhares de capas do mundo inteiro podiam fazer com que biliões de pessoas (“as” pessoas) começassem a achar que determinado indivíduo (o tal indivíduo irrepetível) era uma inversão de todos os valores do mundo – como se todos os valores do mundo se pudessem inverter sem ajudas externas. A dos (das) capas, em específico.

A inércia continuava a olhar, e pela primeira vez na vida disse: “parem! parem!”. É que lhe custava – num sentimento que não saberia dizer se era inveja ou cobiça – exortar a que os outros preguiçassem como ela. Num certo sentido, a inércia tem atributos que se assemelham a uma divindade pan-helénica.

Bom, nisto o quadrado K viu que tinha criado algo bom. Como estava ainda no primeiro dia, achou que era cedo para descansar. Viu que a poia que fizera era grande e bonita, fumegava, transbordava opinião, ruía e falava. Estava cheia não de boas intenções, mas das suas boas intenções. Só não calava. Não, em certo sentido, anunciava: dizia, o indivíduo é a encarnação de todo o mal.

Entretanto, na Transilvânia parisiense, vários quadrados nunca tinham ouvido falar assim do indivíduo. Pensavam: “é pá, ele não é assim tão mau”. Assim mesmo, por estas palavras. Por “pensavam” entende-se o seguinte: “produzir pensamento sobre”, algo que, na larguíssima maioria dos casos, os homens estão habilitados a fazer, a não ser que estejam em coma profundo (e até isso parece-me discutível). Custa admitir, aos (às) capas, mas é absolutamente comum, banalíssima até, a capacidade biológica de produzir pensamento. Homens e mulheres. Homens, mulheres e crianças. Coisas não. Animais também o farão, mas não da mesma forma. Bom, “homens” em sentido lato. É melhor falar em “humanidade”. Não se ofendam. Guardem os vossos dedos para a digitalização do mundo, que corre dentro de momentos.

(Se ainda não entenderam, isto é uma rábula sobre Donald Trump, vá, desculpem lá o eventual equívoco, sei que é difícil, mas as boas alegorias e parábolas são difíceis de acompanhar. Um dia Jesus disse “amai-vos uns aos outros” e os discípulos perguntaram-lhe, “Senhor, porque falais em parábolas?”, não necessariamente por esta ordem; ou seja, mesmo as palavras simples são parábolas, não por acaso eram a mesma palavra antes de serem duas).

Então, esta humanidade, que tem a capacidade de pensar, começou, precisamente, a pensar sobre o indivíduo. Olhou bem para ele, e viu que era extremamente tonto. Olhou para si e pensou, e pá, eu sou bem tonta. Ficou feliz, porque a identificação é um processo bastante bonito de apropriação do mundo. É assim que crescemos, que porra. É lindíssimo.

O quadrado K olhou para esta parte da humanidade e pensou que ela estava a pensar cada vez pior. Convocou todos os (as) capas e decidiu que estava na altura de começar a digitar mais com os dedos. Bombardear com ideias verdadeiras a humanidade que pensa mal. O indivíduo, insistiam, é um idiota. Um tonto. Um estúpido. Um verme. Um cabrão. Um preconceituoso. Um fascista. Um homem que representa uma época que não deve mais existir.

Nisto, a humanidade, metade dela, extremamente digitada porque conhecia perfeitamente a máquina que fazia “pum, pum, pum” ou conhecia alguém que lia bastante a máquina que fazia “pum, pum, pum”, começou a pensar: ó diacho, estão-me a chamar idiota? Tonto? Estúpido? Verme? Cabrão? Preconceituoso? Fascista? Sou de uma época que já não deve existir? Ai é?... Ai é?... (nunca, nunca subestimem o poder do “ai é!”, decorrente da identificação)

Reparem no espanto, na estupefacção com que a humanidade, metade dela, saboreia as últimas palavras, “uma época que já não deve mais existir”. É revoltante, eu próprio sinto-me revoltado, com este perigoso insulto ontológico. Dizerem-te que não tens época é quase como forçarem-te a suicidar. Com a agravante metafísica.

Claro que o quadrado K, e os (as) capas, continuavam a digitar furiosamente, construindo uma idealização do mal puro, abstracto, filosófico, imaterial. Ou simplesmente digitando indiscriminadamente contra. Ou “partilhando conteúdo” (que coisa horrível de se fazer, que nojo).

A outra humanidade, que desconhecia conceitos pouco tangíveis como o da imaterialidade, nada entendia, e começava cada vez mais a convencer a outra humanidade de que ela própria existia, caramba, era presente, estava ali. Tinha época.

Nunca tinha ouvido falar assim do indivíduo, pensava até que era bem sucedido e rico, o que é uma coisa que grande parte da humanidade, mesmo a outra – percentualmente, se querem números científicos, representa cerca de 91,27% do total das humanidades do mundo, sei porque uma cegonha mo disse – considera até bastante positiva.

A inércia, entretanto, lacrimejava e olhava com piedade para os dedos furiosos, furibundos e cansados dos (das) capas. Desistira de tentar fazer o que quer que seja, e sentiu-se bem com isso. Estava, digamos assim, na sua natureza. E ainda nem era terça-feira.

K, que nunca foi “o” K, mas simplesmente um mero e insignificante K, como o indivíduo, estava estupefacto com a humanidade. Achava-a mal. Como podia ela gostar de uma idealização do mal puro, abstracto, filosófico, imaterial? Tal como ele o construiu? De uma época que já não existe?

As épocas gostam muito de aparecer. Sacanas.

Retaliando cada vez mais, os (as) capas digitaram e regurgitaram as suas amadas verdades e meias-verdades, porque não há que olhar a meios para atingir fins. (A inércia não, para o bem ou para o mal, nunca intervém em assuntos de estado, a não ser que seja preciso, necessário. Não achou, portanto, que fosse necessário).

Entretanto, o indivíduo, que até conhecia algumas coisas de digitação, nunca teve tantas oportunidades para digitar ele também, uma vez que os dígitos dos outros lhe permitiam uma profusão de digitamentos que nunca esperou.

Uma ideia foi crescendo dentro dele: “Oh lá! A humanidade não é tão estúpida como eu pensava. Há muita gente que pensa como eu”.

Houve, então, um enorme polegar que lhe respondeu afirmativamente; parece que toda aquela parte abominada pelos (pelas) capas se erguia num só gesto viril, fálico, impetuoso, fácil. “Gosto”. Seria esta a forma verbal que resumiria uma época.

Ficou muito feliz com o sucedido e continuou o seu nobre caminho, com vigor e felicidade renovados (ou “renovadas”, vamos lá a concordâncias politicamente correctas).

Escusado será dizer que os (as) capas digitaram ainda mais, em intensa e epopeica retaliação.

Por cada digitalizador surgiam, porém, inexoravelmente, pelo período variável de um instante a uma vida inteira, dois que não queriam digitalizar, mas iriam agora, com certeza, votar. Diziam nesse momento: “Ai é?”. Não vos disse? Não subestimem o poder do “ai é?”. Qualquer criança sabe disso.

K continuava sem acreditar na existência carnal de metade do mundo. Sabia que ela existia, mas apenas como conceito. Essa metade do mundo, porém, sabia bem da existência carnal de K, porque se achava incapaz de imaterialidades. Ele, aliás, gritava-a, com os seus amigos, na máquina que fazia “pum, pum, pum.” Nesse ambíguo equívoco, e num certo sentido, essa época nunca poderia deixar de ser essa época ou outra que era a mesma.

(Volto a lembrar que isto é uma alegoria, ou parábola. Como a de “amai-vos uns aos outros.”)

Bom, um belo dia, a 9 de Novembro de 1638, nada aconteceu porque não conheço bem a história de 1638.

Hoje, porém, todos sabem o que aconteceu.

K ficou imensamente perturbado. Achou que a sua digitação era um anátema-karma contra aqueles que existindo deviam deixar de existir.

A partir desse dia, o indivíduo não cresceu mais, porque já era adulto, e tornou-se presidente de algo grande, mas passível de ser nada. Os (as) capas continuaram a fazer dele um exemplo pleno do mal radical, do mal absoluto, do mal encarnado. E não é que se veio a tornar isso mesmo (esta profecia depende do momento em que leem estas linhas; se, por exemplo, um camião acabou de vos atropelar ou estão a morrer de fome numa crise ambiental à escala global, altura em que, aliás, vos desaconselho vivamente a que continuem a ler estas linhas – recomendo, se ainda não leram, um dos grandes mitos da humanidade, “Crime e Castigo” de Dostoievsky, porque tenho um fundo profundamente sarcástico e humano ao mesmo tempo, perdoem-me...)? Claro que os políticos lhe iam apertando a mão ou fazendo a guerra. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Muitos outros indivíduos foram nascendo e morrendo, como em todas as épocas do mundo.

No fim, já sabem, veio um meteorito e destruiu tudo.

Entretanto, não se esqueçam: “quem toma o homem por uma só, bela e pura natureza é tão estúpido como aquele que pensa que todos são como ele”.

Não demos, portanto, muito importância a quem diz que vai construir muros e tem a sinceridade (sim, sinceridade) de dizer aquilo que metade da humanidade agora, por breves momentos, pensou. Sublinhemos muito, muito, muito quem destruiu muros, amou quando pôde quem pôde e deixou uma época um pouquinho, infimamente melhor para quem se seguiu. Guardem para o fim das vossas digitações um pequeníssimo apontamento sobre o que julgam ser o mal encarnado. Um apontamento breve e sugestivo, subtilmente relacionado com o que se está a dizer, cria mais ideias do que três milhões de discursos e crónicas localizadas. A sugestão é um processo muito interessante. O indivíduo que o diga. É claro que, com estas prudentes sentenças, acabei de encontrar uma solução para o mundo.

E sim, isto é uma parábola.

Com os melhores cumprimentos, e aguardando resposta,

Pedro Braga Falcão

Sobre o prémio Nobel da Literatura

Estava a comer um pão com queijo quando soube que Bob Dylan tinha vencido o prémio Nobel da literatura. Não tinha manteiga.

Os prémios com manteiga sabem sempre melhor. Tornam o pão menos seco, mas não fazem bem ao colesterol.

O pior é quando a dieta que nos impuseram é à base de opiniões. Muitas opiniões. É que eu engordo facilmente.

No outro dia, só para dar um exemplo, estava a andar na rua e caiu-me uma opinião. Olhei para o chão. Estava muito sozinha, ali no solo, coitada, quase que alguém a pisava. Mas depois pensei: pobrezinha, vou pegar em ti e pôr-te na minha boca outra vez.

Era de noite, e num beco escuro alguém me olhava de soslaio. Olhei outra vez. Era impressão minha, não era ninguém.

Depois, ouvi uma voz. Falava americano. “Pedro, és tu?” Nem queria acreditar, era o Bob Dylan, mas a coisa pareceu-me artificial, porque não disse “Pedro, is that you?”. Mesmo assim fiquei bastante perplexo, pois tendo passado toda a adolescência a pensar noutra coisa qualquer, nunca soube reconhecer ícones. Se a Madona passasse por mim não saberia quem era. Essa que está viva, claro, não o fóssil.

Bom, nem queria acreditar.

“Pedro, és tu?”

Eu perguntei – que outra coisa poderia fazer? – “mas quem és tu?”

Ele respondeu: “então nos últimos parágrafos já tinhas admitido que eu era eu”.

“Eu?”

Fiquei confuso, mas depois pensei: bom, não me conheço assim tão bem, pode ser que algo de estranho se tenha passado.

“És tu, Bob?”

O silêncio respondeu-me torto. O silêncio responde sempre torto. Entretanto, já tinha comido todo o pão que tinha para comer, nem tinha fermento nem nada.

Sobejamente confuso, olhei para a chávena de café e pensei: “caramba, era capaz de jurar que nunca tinha falado em chávenas de café”.

Pus uma pitada de opinião e segui em frente.

Entretanto, um sujeito muito estranho começou a olhar para mim, porque o verbo começar implica que ele já lá estava.

E pensei: oh lá, aqui há gente que conhece muito bem as coisas. Mas olhem para mim, todo sujo de opiniões, estava a andar e tropecei numa. Estatelei-me...

Outros poderiam pensar que um prémio é só um prémio. Aparentemente este é “o” prémio. Aparentemente é do caralho.

“O” prémio.

Com que então há prémios. Boa, adoro prémios. Gosto de pôr manteiga nos prémios, para o pão não ficar tão seco. Aí sim emito uma opinião forte, vigorosa, viril: adoro pão com queijo.

“Pedro, és tu?”

Desculpe, meu querido poeta, não o conheço, mas estou certo de que “o” prémio vai ser muito importante para si e para os seus, e especialmente para quem não o recebeu, e mais ainda para os que acham que “o” prémio devia ou não devia ser seu.

“Olhe, desculpe, mas deixou cair esta opinião.”

Olhei para trás. Uma velhota começou a aparecer, o que é confuso, porque não se pode começar a fazer uma coisa que é surgir. Tinha razão, olhei; de facto, tinha deixado cair uma opinião.

Aparentemente – pensei – é muito importante sublinhar em voz alta aquilo que pensamos. Simular nas nossas vidas os noticiários e as/os magazines culturais do mundo. Só assim poderemos verdadeiramente apreciar um/uma  bom/a sandes de queijo.

Bom. Nisto ficou tarde. À tarde, quando posso, gosto sempre de ouvir um pouco de música.

Ia a meio de uma música de que gosto muito, quando apanhei um susto imenso. Era o prémio Nobel de 1575. Era zarolho. Disse, “meu amigo, dás-me um pouco de pão?”

Disse-lhe, sim, claro que sim, conheço-te de retratos, estás envelhecido, companheiro, mas toma, claro, toma lá, gostas de pão com queijo? Isto era tudo bastante inverosímil, uma vez que anteriormente já tinha ficado definido que o narrador comera o pão todo, até ao fim, porque nunca se come o pão todo até ao princípio.

Ele disse-me: “é assim que tratas um Nobel?”

Pedi-lhe desculpa, mas em 1575 ainda era uma criança, não sabia bem que existiam prémios, achava que as pessoas simplesmente faziam – quando lhes deixavam – a poesia que podiam fazer.

“És tremendamente ingénuo”, bradou uma voz dos céus. Ou dos seus? Já não sei.

Olhei à volta, e obviamente não tinha sido o zarolho. Entretanto atirara-se com uma voracidade épica ao meu pão com queijo, que vi desaparecer com alguma pena, mas com o sentimento de dever cumprido.

“Roberto, sois vós?”

Ainda o ouvi sussurrar estas palavras. Mas, entretanto, estava na hora de sair de casa, e nunca se deve ficar em casa quando é hora de sair de casa.

Um abraço,

Pedro Braga Falcão

Àqueles românticos que fizeram templos

Àqueles românticos que fizeram templos
e depois os foram transformando em pedra,
com o olhar, nunca com os olhos,
diz-me, diz-me assim, mansa,
passa a mão sobre mim e fala-me,
assim, muito baixinho:
arruinaste-me.


Numa folha. Num espaço.
Suspira baixinho, respira sem me olhares,
faz como se não estivesses aqui.

Sabes, as mulheres vivem
apesar das nossas melhores intenções.

Como nós, passam o tempo
a ser como feixes
e entrelaçam-se em nós.

Na ruína de uma folha,
como os românticos,
diz-lhes, diz-lhes assim:
não há lua.
Ouve-as estranhar, e repete:
não há lua.

Nada nos excita mais do que o impossível.

Depois, senta-te, se souberes pintar
desenha um poema só de palavras.

E espera que ela diga:
este manuscrito está cheio de ruínas,
está tão morto, tão destruído,
tão fantástico como extinto.

Não lhe dês vida. Deixa-o morrer,
não por respeito, como se faz aos velhos,
estava a sofrer tanto, coitado,
foi pelo melhor, não, não lhe desejes a morte,
a não ser que seja por música.

Aí sim, deixa-o viver.

e depois os foram transformando em pedra,

com o olhar, nunca com os olhos,

diz-me, diz-me assim, mansa,

passa a mão sobre mim e fala-me,

assim, muito baixinho:

arruinaste-me.

Numa folha. Num espaç

o.

Suspira baixinho, respira sem me olhares,

faz como se não estivesses aqui.

Sabes, as mulheres vivem

apesar das nossas melhores intenções.

Como nós, passam o tempo

a ser como feixes

e entrelaç

am

-se em nó

s.

Na ruína de uma folha,

como os românticos,

diz-lhes, diz-lhes assim:

não há lua.

Ouve-as estranhar, e repete:

não há lua.

Nada nos excita mais do que o impossível.

Depois, senta-te, se souberes pintar

desenha um poema só de palavras.

E espera que ela diga:

este manuscrito está cheio de ruínas,

está tão morto, tão destruído,

tão fantástico como extinto.

Não lhe dês vida. Deixa-o morrer,

não por respeito, como se faz aos velhos,

estava a sofrer tanto, coitado,

foi pelo melhor, não, não lhe desejes a morte,

a não ser que seja por música.

Aí sim, deixa-o viver.

Àqueles românticos que fizeram templos

e depois os foram transformando em pedra,

com o olhar, nunca com os olhos,

diz-me, diz-me assim, mansa,

passa a mão sobre mim e fala-me,

assim, muito baixinho:

arruinaste-me.

Numa folha. Num espaç

o.

Suspira baixinho, respira sem me olhares,

faz como se não estivesses aqui.

Sabes, as mulheres vivem

apesar das nossas melhores intenções.

Como nós, passam o tempo

a ser como feixes

e entrelaç

am

-se em nó

s.

Na ruína de uma folha,

como os românticos,

diz-lhes, diz-lhes assim:

não há lua.

Ouve-as estranhar, e repete:

não há lua.

Nada nos excita mais do que o impossível.

Depois, senta-te, se souberes pintar

desenha um poema só de palavras.

E espera que ela diga:

este manuscrito está cheio de ruínas,

está tão morto, tão destruído,

tão fantástico como extinto.

Não lhe dês vida. Deixa-o morrer,

não por respeito, como se faz aos velhos,

estava a sofrer tanto, coitado,

foi pelo melhor, não, não lhe desejes a morte,

a não ser que seja por música.

Aí sim, deixa-o viver.