A escrita do amor por entre quartos e corredores

1.
é sempre um retorno à memória que aqui me traz
o debater de uma imagem vibrando de afectos
soltando-se da sua rede até tomar conta do espaço
em que habitas dentro do meu peito

lá fora trovejava como as despedidas nos corações
e segurando entre mãos o teu rosto pelos teus lábios
rodava a língua – são estas ou outras
palavras perdidas que me visitam no empoado espelho
onde te refletes e nada foi nada terá sido e amarrado
pelo ouvido Ulisses se ilude e somente sofro uma recaída

neste vício da escrita – a cama revolta e olhos
fechando-se para o dia antes da partida de Abril
lembro ainda como as mãos enovelando-se
desteciam dedo a dedo a tremura
do teu corpo – por ele subia
uma onda rebatendo pelas falésias que são as gargantas
emudecidas e era o teu nome com raiz de estrela que soçobrava
todos os outros nomes que tornaram o meu rosto uma espera
e a pele uma escrita oferecida à vida e ao toque do teu corpo

e assim crava-se fundo a tua imagem
como a adaga de um terrível amor
no anonimato antropófago dos lençóis
e escrevo tarde e a tinto a letra para encurtar
a distância entre o oeste onde o mar
murmura justo à cama ao centro da planície onde
avanças como uma vanguarda abrindo caminho ao futuro
(o meu o teu por vir) enquanto me alapo às tuas costas
seguindo as tuas pegadas que se afastam

a vida que tento numa escrita permanece
desconhecida é só mais um tijolo na muralha
de papel um nome no barro onde os dedos mergulham
misturando memória imagens o gosto
(escreve escreve) de cifrar um mundo
ligando palavras ou vidas como tu por exemplo
tu e a cicatriz na palma da mão os desgostos aluados
sob o olho e tu a ruga ao canto da boca e tu de novo
e tu (sendo agora eu a mim que falo) jazerás na fronteira
anónimo onde nunca teu nome na muralha de papel terra de pó

 


2.
recomeço (tendo-te perdido com as palavras)
sou uma pequena máscara expandida ao corpo
começando pelo osso já longe do mundo vai o mundo
e eu com ele como em brisa recomeço sempre uma
e outra vez sem que me reconheça porque sempre
alguma coisa escapa (sempre me escapou) e seguindo
procuro redimir o furto de gestos gastos gozos
persigo um mistério que pressinto sem nunca saber
as palavras para o dilucidar sei no entanto ser
minha a culpa (esse odioso sentimento religioso)
a impossibilidade de o dizer (ainda não começaste
a escrever para ti) ou escutar-te profundamente
porque também tu fazes parte dele devo aprender a
deixar à sombra de nada o que sou e me inibe
de me ligar indefeso ao desejo que demora a
sobrevir à ilha que és tu tal como eu sou sabendo
estarmos unidos por um istmo que almejo se torne
um continente terra onde te encontras antes e depois e já
nela sem o saberes estreito adensando-se com a deposição
de palavras e poemas mas escrevendo este e outros
a página permanece em plena secura

(e por que lado o mundo se inunda tornando a distância abarcável
para toda a vez para cingir ao peito o fumo e o fogo e a nova rosa
do desastre os avanços incontrolados do tempo e das atitudes do homem
mas repara como há basto mistério no estar vivo neste afogado inferno que nos aparte)

ergues a tua mão e leva-la para derriscares do meu rosto
os rastos do que vivi e desconheces esbatendo a fronteira
e enfim o teu entra na morada que sou e deixando-te percorrer-me
sei-te estratega de um lar habitando uma casa vagabundeando
o olhar por este corpo que à noite quase te sufoca
haverá um dia que nem o teu olhar se tornará para o meu
a felicidade vergar-se-á ao tempo
as mãos segurarão outras ou os artefactos do dia-a-dia
perdendo-se nos gestos fechando-te a boca

faz a promessa verdadeira a única que não se cruza
sobre o coração e dele arreda a mentira
e ainda segurando-me o rosto dizes – não permitas do entre-nós
um conhecimento entediante
bem-estar de nenhuma palavra
encontra para cada dia um desassossego
coloca o mundo em gonzos chiantes para reconhecermos a sua aproximação
e faz do ofício mal-amado a oficina que do futuro te dá uma certeza

 

3.
se a linguagem é um dom sabes não ter nada a dizer
(escreve-se pelo silêncio e ao lado de todas as palavras)
mas como percorrer o labirinto do teu pensamento
avolumando-se sem que te percas para sempre entre letras
sons imagens palavras brotando imprevistamente
onde também tu habitas como signo de amor
revelando-me vias ou sendo o farol que me guia

o sentido é um fio de ariana a caminho e escuto
o fluxo na cadência do sangue correndo no cavername
de olhos iluminados busco o contorno ileso
do que se está a formar dentro de mim
e tantas vezes a porta aberta aos fantasmas
onde valsas entre eles tu a única mulher real

inseguro penso peso evoco emudeço
quando estás pequenas coisas duram a eternidade
por isso sustenho as lembranças
guardo-as para habitar a casa plena de tua ausência
cogito a decisão de reviver esta ou aquela cena
o dia corre lento como qualquer outro dia e tão (e)terno
passa por ti juntando-se a todas as horas
por fim sentas-te (vê onde pões os pés
há demasiada fragilidade no mundo e
na memória
) escolhe-te inesperadamente
a da janela à qual retornas e onde os dois
se conheceram intimamente pela primeira vez
selando os rostos num beijo de lenta aproximação
intumescendo todos os teus lábios e o sangue
bombeou na jugular e em todos os meus canais

acontecimento de já outrora tentada inscrição
na eternidade e que poucos lerão mas retorno
aí inevitavelmente como sempre volto
ao teu corpo mal te apresentas num vaivém mareado
surtindo um efeito doppler nos sentimentos
em que todo eu na tua aproximação sinto
a voluptuosidade de uma atracção grave
quando nem ainda carne na carne
encontrando as suas covas depressões montes
restando uma mínima distância que se agudiza
nas tuas partidas aí se esboça a dissonância
do tempo do coração e suas variantes batidas

e é verão talvez fazendo frio por tudo
o que é interior
e de nenhures ouço um grilo
junta o seu corpo ao caos
eis a dádiva de um ritmo
acompanha na passada a infância
que vai cingindo-te um nervoso nó
e os dentes gravilham impacientes
(tens tempo não tens tempo)
enquanto sobe aos lábios a melopeia
de terras morenas e azinheiras
passo a passo (de um ao outro
promessas e gestos a con(tra)dizer
como ruminando falhas
ou o que foi dito mais do que fôra devido
)

esta ruína move-se por entre corredores
e quartos arrastando os pés
enlodando-se em infatigáveis predações
Actéon viciado na vingança de Artémis
voltando não para mudar a memória
persistindo para o nosso riso e tristeza
mas para lentamente crendo ainda no tempo
pelas suas mãos e gestos levar a mulher
a amá-lo pela escrita digam-me que mais pode
fazer um homem na sua maturidade

 


4.
há o tempo que passa pelo corpo
da raiz afectuosa ao mapa das escoriações
e outro pelo pensamento sussurrando-nos
uma falsa idade tão verdadeira
quanto é a justa palavra dizendo a imprecisa emoção

por dentro dos nossos olhos nessa treva a íntima
e inacessível diáfana imagem de cada um
está na sua plena juventude
e eu tenho-te assim de duas maneiras
e tu três idades: a que eu vejo sendo
a tua natividade expandindo-se
aquela que te vês sentindo-te
e essa intermédia névoa cobrindo-te
resultado de estranha alquimia do coração
e te veste com a perdida glória
revelando que a decadência do corpo
é a frágil atractiva natureza das coisas
a beleza sem artifícios e o contínuo toque do homem

e vamos pela corrente impossibilitados de suspender
a passagem da vida que tudo atravessa
e olhando-nos o espanto pelos rostos envelhecendo
toma o meu e o teu se houver tal coisa como o amor

hoje sou mais do que aquele que outrora conheceste
não olhes pois para trás para esse caminho pisado
vão-se aluindo as casas a história
aperta-se na sua trama
não haverá nunca recomeço só o que pesa
se sente mais suportável menos desgostoso
as máscaras bem ajustadas o futuro despido

sei que haverá um instante em que todos os corpos
e tempos e imagens por fim se reconhecem
virá por um brilho de miragem como por um
sopro fremindo as superfícies nivelando água
e terra num mesmo horizonte ondeado
como as praias ao fim da tarde e o vento arruma a vista
para o violeta medeando noite e dia

a vida começa aí numa variação de ritmos e síncopes
ondulações sovando estes corpos do estômago à garganta
e o pensamento faz-se limite aéreo de uma morada
escura e selvagem atormentada pelo fundo feminil
de teus olhos e faz-se igualmente anjo de duplo traço a néon
pirilampo que me guiará após a tua morte
através da memória onde jazes num banho a ouro
sombreando o tranquilo argênteo mar

tu
esse instante que foi uma singularidade irrepetível
e se unindo a mim o gesto de quem se tocou tocando
de quem se escolheu a ser escolhido
para tornar outra a vida
partilhando tudo o que se queria até a rotina
o enquadramento de uma coreografia dos corpos
em que a dança procura o encontro para a grafia da pupila
por onde o mundo presta vassalagem para se arquivar em nós

e eu
ser-te-ei ainda um mistério
como quando tu me surges ao despertar
ou serei frio fogo e pálido céu de descontentamento
anúncio indício do fim
lançarás ainda a fateixa dos teus braços
ancorando este bote à deriva neste mar

e não respondendo sair-te-á ainda a fúria
pelos teus olhos fulminando-me com o silêncio
guiando e ditando-me os meandros do medo
enrolar-te-ás numa concha afundando-te noutra
dimensão como revirado olho de furacão
aspirando a que fique desaparecendo e ascenda
à ausente presença dos anjos e deus
e perdido por estes corredores e quartos
grave o amor escrito noutras páginas
quando a tua mão se apertar noutra

e após a tua partida definitiva se eu permanecer
diz-me como farás chegar a resposta a
quem te ama e não acredita noutro mundo
e tempo senão o da partilha
quanto dura um coração no escuro
de nenhum porto uma despedida
quantos dias faz
quanto mais de vida é preciso perder
no luto
e o acontecimento de tu ou eu
qual a sua palavra ou escrita quando
somente se pode fechar o espaço pelo toque

De Berlim a Lisboa

E nós ficávamos sentados nas folhas secas que murmuravam um pouco sob a respiração lenta da nossa espera e a respiração lenta da terra e a calma atmosfera de Outubro.

William Faulkner, O Som e a Fúria

 

I (Wilmsstrasse, Berlim)

partiste e as águas correram na sua lamacenta lassidão
onde os cisnes permanecem em sua suave travessia
sugerindo aos amantes o bucolismo doado pelos canais
somente quando a chuva cai e o outono se instala na cor folheada

ou nas madrugadas de geada que em cristal brilha o inverno
aos primeiros raios da manhã e ninguém por aí caminha
na despedida não houve lenços baldeados ao vento
lágrimas se furtivas caíram foram pelos olhos dela

 – quem afinal soltava as amarras para a aventura que ajudaste
a proporcionar por solene promessa à vida – todos os caminhos e o amor
ainda estão para serem feitos antes que a morte te entre valsando

despede-te das diatribes e insónias dessa morada tão hermética
salta para o carro cheio como uma carroça com mudos e ledos cães
e segue viagem junto a ela lentos como um caracol no himalaias do tempo

II (Bad Meinberg)

  longe está o tempo das epopeias
tudo se move e foge da terra
só se sente a gravidade
quando o pensamento se faz corpo
ou a lama do caminho nos incita a lentidão
essa qualidade rara do amor ordenando a casa

aqui aprendemos a passagem das horas
procurámos purgar o percorrido
persistindo a ecoar no tímpano
nestas línguas de sílex prontas a embater
e incendiar o coração na iminência
de um obstáculo até o amansar da fera

composemo-nos com o mundo
desenhámos um mapa de errância
e se neste templo os nomes se renegam
por outros juntos abrimos o horizonte
da pele à fulgurância da vida
essa epopeia escrita justo ao último suspiro

shanti shanti shanti

  

III (Steffeshausen)

a aurora irisava-se na janela suada
e o zurro de um burro fremia os citadinos
ouvidos desaprendidos do diverso

eis como se ergue uma manhã
separando as águas de um gelo adormecido
segundo o passo do homem e da terra

a noite (a)guarda demasiados silêncios
moradas a habitar pela palavra
nas desoras das vidas aldeãs enquanto

os milagres surgem onde o horizonte
se ilumina na abertura plúmbea da poalha
vê-mo-los ao longe do topo para o vale

presos pela tensão que nos corrói
essa agma no interior de cada corpo
que o amor elogia e escarnica

estar perdido é momentâneo um intervalo
na passagem das horas pelo rosto quando o voltares
verás o olhar do acontecimento de nós

  

IV (Bagneux, Paris)

e a terra foi ficando para trás
embebida em orvalho e vapor

de esterco elevando-se em torre e o horizonte
inclinado de verdes colinas lentas vacas

suspensas nos seus olhares pestanudos e desinteressados
de toda a tecnologia e dos corpos que as olham e comem

nós corremos e passamos com as nossas curiosas
sombras até a cor se dissociar do chão e das copas

e de novo o outono afirmar a sua paleta
enterrando a sua espada cobrindo de cobre o mundo

descansámos como a lebre da nossa tartaruga
viagem onde o fabulista nasceu e nunca veio a contar

a nossa passagem ou imaginar que um e o outro nascesse
ou sequer nos juntássemos para uma ulissíada europeia

descemos quase ao longo do sena vendo as vinhas brotando-
nos a volúpia de um vinho futuro ameaçado pelas máquinas

e seus condutores sedentos da protecção das suas casas correndo
o risco de a elas não chegar porque o tempo de um dia é insuficiente

para uma vida que pode acabar a qualquer momento
assim escolhemos a calma periferia da luz e do movimento

e nessa cidade apreciámos nas restantes horas disponíveis a fonte
das imagens dos amantes as pontes suicidas dos corações alocados

onde hoje como outrora o que mais se joga é a sorte
de baralhos viciados ou a fácil momentânea vida

ficou prometido o retorno um desejo mais na lista do limbo
onde tantos já foram esquecidos menos o desse tinto na noite parisina 

 

V (Damvix)

ao largo desse rio joana ouviu
um anjo e por deus matou

quando morreu um apaixonado
enlouqueceu e abriu um novo capítulo

no livro da crueldade humana
aqui ficámos o tempo de uma passagem

o suficiente para influências mais nefastas
não nos corromperem

desconhecíamos os caminhos
seguimos as marcas das vias

apenas legíveis pela luz
e porque víamos chamámos de atalhos

vindo a noite e o silêncio
a cegueira das trevas

veio a ocultação da anterior presença
de corpos e o caminho um trilho de perdição

andámos sem rumo
nos canaviais do fim do mundo

um passo em falso
desacompanhados de anjos e

humanos e demónios que nos guiassem
e não mais se encontrariam as nossas bocas

estávamos no limbo de joana e gil
equilibrados num fio de prumo

estendido entre alucinação e bestialidade
até que chegámos onde nos aguardavam

um verde labirinto de uma veneza natural
de manhã abandonada para outras paragens

  

VI (St. Hélène, Bordeaux)

não és beatriz nem eu sou dante
e por guia esteve ausente vergílio

na nossa descida pelos labirintos
por estradas ladeadas de castelos

cruzando vilas vazias quase desertas
como esse lugar erigido por monges

hoje habitado por fugazes turistas
mijando onde calha crendo-se invisíveis

jovens empregados ensonados bocejando
e velhos pescadores que mal soltam as amarras

do barco que são passando o tempo olhando o mar
como se do rebate escutassem os mortos

ou a cantiga de uma sereia para uma última partida
e porque rolamos a sul lentamente perdemos

o ferry de outubro para a quase ilha
forçando-nos um novo desvio

outra travessia de perdição e a chegada
ao destino incumprindo o compromisso temporal

aí a meio caminho desta viagem
encontrámos a serenidade para o recobro

um paraíso para o corpo e o estupor
tivemos também o nosso pessoal inferno

com a limpeza de um jardim e de uma piscina artificial
de águas paradas como um lago tomado pelo inverno

e esquecido pelos banhistas como afinal foi esta região
passado o verão aqui fizemos breves incursões

entre oceano e floresta até à antiga cidade de Bordéus
onde renovámos laços afiançámos um retorno

e no regresso a casa para nossa surpresa
sermos recebidos com a afirmação

inesperada de uma amizade uma breve nota de
esperança para as relações entre estranhos

  

VII (Cap Breton, Bayonne, Biarritz)

napoleão fez aqui uma investida ao mar
para o domar e dá-lo à mão do homem
teve sucesso o pontão persiste ainda contra as ondas
onde tantos se passeiam e se fotografam para se preservarem
nos seus raras vezes visitados arquivos de inveja
e embora também nós tenhamos aqui passado
é mais pela escrita em todo o meu corpo que guardo
esta estadia neste cabo em suas grossas areias e pôr-de-sol
acompanhado a vinho e bem-estar que se arruinaria
em poucas horas porque mais indomável que o mar é o ego
sentado no seu trono de ideias e solitárias vontades

tivemos de buscar outro abrigo para a noite fria caindo
com chuva e desiludida como uma notícia de despedida
que te convida a partir mãos nos bolsos na direcção oposta
percorremos os fundilhos francófonos e montámos praça no país basco
invertemos a carroça rearranjámos as suas dimensões
partilhando todos o mesmo espaço como numa longínqua e inexistente
idade do ouro de acordos mudos olhares significativos carícias protetoras
no estacionamento de um parque pleno de amantes de hóquei em gelo

quando não mais suportávamos o desconforto brotando entre osso e ferro
amanhecemos com o mesmo mar que banha Cap Breton fora a fúria
que quase nos levou perder a esperança conquistada em St. Hélène
e de uma quase insónia o dia fez-se mole e arrastou-se tornando-nos na cova
onde o moribundo espera a morte adiada pelo médico acabando em Bayonne
por içarmos a âncora e passarmos a fronteira ofuscando-nos com a opulência
de Biarritz suscitando em nós o desejo obscuro da riqueza que ninguém escapa
o qual pode nada mais ser que a possibilidade de viver ligeiramente livre e à tona
da água com uma casa onde dormir e receber amigos e permitir-mo-nos um pouco do luxo
do lazer e da cultura que também nos alimentam no seu modo de inutilidade económica

mas repara como poucos podem percorrer meia europa por própria vontade
e ver esta velha com um só rosto dividido e desfigurado por plásticas
parte constante novidade e renovação parte conservadorismo e tradição
talvez tenha sido esse o sentimento que nos convidou a esquecer
a nossa temporária condição enquanto comíamos churrasco numa duna 

 

VIII (Muskiz, Bilbao)

recolheu-nos a pobreza
a névoa a lama
um verde esmorecido
um mar em novelos de areia
o frio a contrariedade
como se a descida pelo litoral
aliasse o literal e o metafórico
para o justo sentido da queda

quando queríamos ficar partíamos
quando para partir ficávamos
e a tristeza ajustava-se a toda a paisagem
e corpos desde o céu ao mole dos passos
até os esgotos corriam envergonhados
para pluviosos ribeiros a um ritmo pastoso
tudo se arrastava pelas serras num aparecer
e desaparecer do mundo sem perder a sua presença

a cidade reticulada no vale com a gigante aranha
não tinha qualquer brilho nem nos deslumbrou
o museu que a recolocou no mapa dos arquitectos
só a tensão se acumulava electricamente como a cúpula
de redoma nublada antes da tempestade seca cobrindo-nos
uma pele voltaica e o trovão prestes a ribombar na garganta
pensámos ser este o fim da viagem e de todas as surpresas
já que nem a casa laranja e rústica incendiava o dia ou a noite

o sufoco enodava-se em torno do porquê
termos principiado a necessitada mudança que tardava
como se a pergunta pedisse qualquer resposta
mas tanto acontece que o óbvio tem de ser demonstrado
e o amor do outro reconhecido até ao justo sentido
da queda e em caindo façamos aí amor
e como duas crianças aprendamos
a pôr-nos de pé e novamente caminhar

 

IX (Camino de la Ermita, Granón, La Rioja) 

descer ainda continuamente e mais fundo
como testando limites de varas secas entre mãos
e é uma beleza pobre e deixada que se define
de searas e montes arados expostos a gralhas
e caminheiros de bastão e concha com basta felicidade
percorrendo terras para chegar a um deserto
mais interior atolado de inutilidades
onde estão tão sós como chegaram
e partirão um dia nessa viagem sem retorno
que um a um cabe fazer sem nada nem ninguém

acolhe-nos a ermida pelo caminho
com frio frugalidade e vento fustigando
e dois cães sedentos de atenção e amor
como tu e eu mais abertamente ou em secreto
silenciado orgulho (talvez esta chamada e anseio
sejam a chave da história humana em todos os seus modos
mesmo no apelo do carpinteiro pelo abandono do pai)
chegámos também nós ao oásis e tratámo-nos como reis
banhámo-nos como nos achámos merecidos em águas quentes
e demos graças aos nossos corpos mergulhados em volúpia 

 

 

X (Valladolid, Burgos)

o tempo deixou aqui a sua pátina
uma terra infértil onde caminham
corvos gralhas debicando altivos
os restos da revolução do arado
exumando restos de ossos palha cascas
de sementes ou carochas necrófagas pelo lixo
de plástico de sacos garrafas latas as armas
da nossa arrogância e ódio à natureza

do céu uma morrinha incansável livrando Burgos
aos seus e a nós esfomeados e com o dever
para com as nossas sombras igualmente necessitadas
de pisar o chão ou dar à terra com que criar nova vida
tal como em Château-Thierry subimos para junto das águias
e do alto sobrevoámos pelo miradouro a vista até sermos
tomados pela vertigem do feio que o tempo dirá de outro modo
não havendo mais que a vontade sustivesse

ou nos pedisse a paciência seguimos o embalo
de uma pressa que nos tomava conta e com subtileza
ditava as novas regras do jogo estendendo-se por esse território
que é o corpo cansado pelas expectativas goradas
nos percursos tortuosos percorridos lentamente
perfazendo uma lonjura interminável ainda hoje palmilhada
e iniciada antes desta viagem impondo os nossos
encontros e desencontros os mesmo outros silêncios

como os de nenhuma resposta e esperar a chegada do sol
uma chave uma hora enfim permitindo que nos dispamos
destas roupas e espinhos e encontremos por momentos
nessa casa de catálogo uma bonança quando tantos quilómetros
ainda nos separam do destino e esta ansiedade dobra o mundo
mal nos deixa respirar ou imergir por inteiro nessa estranha luz
envolvendo Valladolid ou o parque junto ao rio onde nos saiu a multa
por ocuparmos demasiado espaço no pouco tempo que ficámos

 

XI (Bragança, Porto)

 ficava suspensa e'spelhada
a planura de chuva e língua
onde nós não quiséramos medrar
havia um projecto a cumprir
traçando entre realidade
e desejo um território
fomos nómadas pelas estradas
do granito órfão entregue ao
esquecimento só retornando
lentamente à língua usada
quando só a voz no pensamento
ou para refregar o coração

tu denodavas o desânimo
ártico e pelos passos sob o
sol vi o teu corpo enlevar-se
e o sorriso ostracizado
abrir-se doando as pérolas
assisti um novo nascimento
esperança fora da mortalha
onde este amor se acercou
como testemunha amparando
a mão moribunda ou prestes a
abandonar-se a seu lado em
exaustão decidida mas nunca

lancei a toalha ao chão senão
para me desnudar a teus olhos
eis dois lázaros solevantados
sacudindo os trapos mórbidos
da tristeza e do fastio para
conquistar a invicta ao chegar
buscámos valhacouto no monte
cativo um menor paraíso
tornado aos poucos um inferno
roubando-nos a privacidade
suspendendo a intimidade
pedida pelos corpos sedentos

primeiro e depois com o comum
mal-entendido que prevalece
sendo o oposto um acaso
porém entre tormentas vogámos
pelas colinas de casas baixas
palacetes e ruelas onde
estava o lar de uma outra
vida que teremos noutro mundo
entre o rio e eléctricos
bebemos ao que virá e passou
preparámos a ceia sabendo
próxima a última etapa

 

  

XII (Lisboa, Sesimbra)

tanto foi o desejo e a espera para chegar
a esse lugar que em nós foi a idade do ouro
e o romance que nos enlevou nos nossos primeiros dias
nesta cidade e depois a vila e casa e aqui chegados
o frio e o cinzento que fundam a solidão do inverno
acobardaram o sol que nos ardia e a memória ainda vibrante
esse vírus que nos consome sempre um pouco mais os restos
de uma sacralidade que nem o cínico escapa de procurar proteger

estávamos ambos desgastados desta dupla viagem
foi afinal meia europa cruzada para oeste por terras
montes planícies e rios e várzeas e pântanos e terrenos
florestas e campos silvestres entre o lado da montanha
e o lado do mar e tantas variações de cores vidas línguas
chuva vária grossa miúda pontuada vaporosa
sol abrasivo ou oculto apanhado nos olhos que se fechavam
ou no dorso onde as mãos aconchegavam as vértebras

céu aberto ou nubladamente coberto ou rasgado por milagres
enquanto por dentro tudo se aprofundava e se fazia mais longínquo
vinte e poucos dias dobrados no tempo duro vertiginoso de uma queda
tendo também nós as nossas paragens em lugares diferentes
numa outra europa noutras cidades do mundo
continentes da nossa mais interna geografia
espaços que eram o sentido da proximidade gravítica do outro
ou cavando uma distância que a mão tocando a do outro não encurtava

outras vezes ainda esbatendo o corpo num território como só a dança
de estrelas ou buracos negros com suas poeirentas extremidades
seus limites estelares aliados num abraço numa nova entidade no imenso
universo poderia dar uma imagem que ainda falha a sua representação
mas aqui conheci a breve loucura amámo-nos e odiámo-nos com a subtil brutalidade
das palavras pedras imateriais provando a real porosidade da pele
fomos estranhos e estrangeiros a familiares e amigos mais presentes
quando aqui não estávamos e nos cobravam a ausência em gramas de saudade

tudo ou quase se eclipsou e fez-se silêncio nas nossas bocas e cegaram-se os olhos
ao choro pela exaustão da fala e da escuta deprimida pela desilusão
tornando-nos ainda mais impacientes aos gestos amorosos às solicitações e apelos
para arredar o estupor ensombrecendo-nos experimentámos caminhar para escapar
ao isolamento de uma estância balnear empobrecida e irrecuperável e só acolhendo
as ondas ao longo das dunas da Lagoa de Albufeira ou do Meco e um castelo que aguarda
o nosso casamento para quando todos em melhores dias a par dos nossos sonhos
porque por aqui tudo se perdeu e nos ocámos com a frustração desfigurando-nos

e exaustos pela aventura corrida ao gosto do vento sem plano e guia
perdidos ao tempo e durações embatendo contra a realidade e o carro noutro
fomos tomados por um turbilhão de sentimentos e caímos desamparados
cada vez mais dentro e ninguém viu ou vê ainda nem um ao outro até já estarmos
cada um próximo do ponto sem retorno mas que nos resta senão uma louca
crença de que o amor e com ele o futuro nos dará com que rir
quando tudo relembrarmos um ao outro coincidindo finalmente os mapas
e as vias dos encontros e desencontros desta vadiagem marcados nos nossos rostos

nunca é tarde afinal para uma decisão e o tempo sabemo-lo é volúvel e dúctil
a temer só temos o que é interno isolando-se até ser intransponível e calado
não é o momento que vale a pena antes a provocação em cada agora
para o acontecimento de um e do outro e do que nos une e vai para além de nós
ainda aqui estamos e ainda tentamos para lá de todas as distâncias que nunca faltarão
e os lugares que nos prendem de si não escapam só pela imaginação mudam
eu e tu e tu somos nódulos de linhas cruzadas ligando uns e outros e tempos e espaços
até ao adeus o silêncio ou de tal forma enrodilhados que só resta esperar o beijo da aranha

O Corpo Inglorioso

A inovação de uma noite: de uma alegoria política ao prazer do terror.

Para muitos críticos do cinema a primeira longa-metragem, no circuito comercial, de George Romero, Night of the Living Dead, abre o género do terror a uma nova época, da sua modernidade, ou mesmo da sua pós-modernidade.[1] Tendo sido inicialmente pensada pelo realizador como uma alegoria, centrada exclusivamente nos Estados Unidos da América, Romero procurava traçar o diorama ou o quadro geral de um mal endémico, apresentando um “paralelismo entre aquilo em que o homem se está a tornar e a ideia de que as pessoas operam segundo vários níveis de insanidade apenas visíveis a si mesmo”.[2] Contudo, o filme rapidamente foi-se modificando aquando e durante a sua gravação; e é hoje entendido pelo seu criador como um divertimento, mantendo embora a transgressão, reconhecida ainda pelo mesmo, inscritos, de imediato, na história do cinema. Mas o que introduziu Romero, o que transformou ele?

Até à data da sua projecção, no circuito americano de drive-in – motivado, acima de tudo, pela descrença da distribuidora no filme, mais do que pela qualidade inerente ao mesmo –, o género de terror cinematográfico volteava em torno da estrutura já clássica estabelecida pelas novelas e romances góticos e de horror. As características principais, celebradas pela indústria de Hollywood, concernem, maioritariamente, o seguinte:

1)               a presença de um Outro (normalmente um monstro) que corrompe a ordem natural e/ou da normalidade;

2)               a edificação da figura de um herói por acidente (é a desestabilização da normalidade que conduz ao surgimento da heroicidade, ou instala o sentimento de heroicidade da e na personagem);

3)               a criação de um conjunto ou equipa unidos em prol de um sentido; o contributo de uma força (a ciência, o exército, o governo, a razão) em defesa do herói para derrotar a força desequilibrante; e, duas das suas linhas mais afirmadas,

4)               o elogio do amor (o herói e a princesa) e da família (salvar os seus membros, vingar a morte de outros, honrar a memória de alguém, etc.).

Todas essas características são corrompidas por Romero, principalmente com a reabilitação do zombie. Todavia, antes de abordarmos a figura, vejamos rapidamente outros aspectos da película que a inscreveram nos arquivos cinematográficos.

A história da criação de Night of the Living Dead está, toda ela, envolta numa bruma de acasos que proporcionaram o seu consequente elogio. Os indícios da sua originalidade e do seu reconhecimento como filme de arte, ao invés de estritamente comercial, deveram-se tão-somente ao reduzido orçamento. Esse aspecto, em tudo fundamental, conduziu, quer o realizador quer toda a equipa da Image Ten, a um trabalho artesanal e a escolhas de produção que fizeram as delícias dos críticos, dos amadores e dos espectadores:

a) selecção da película em preto e branco e com algum grão – o que, nos anos sessenta, foi entendido como uma decisão de uma séria intenção do criador em dotar o filme com uma aparência documental, de naturalidade, de real projectado na tela;

b) uma filmagem sequencial acompanhada por um crescendo de texto – de modo a obterem mais dinheiro os seus criadores tinham de prosseguir com os seus contratos de realização de anúncios televisivos estabelecidos entre a Image Ten e o sector industrial de Pittsburgh, pelo que a realização foi intermitente, obrigando assim a ser gravado tal como surge ao espectador; bem como, à medida do tempo disponível, mais texto foi sendo acrescentado, razão pela qual diálogos e monólogos aumentam e intensificam no desenrolar da acção;

c) a selecção dos locais e do elenco – tudo filmado na região, com pessoas da cidade de Pittsburgh, especialmente o pelotão de caça aos zombies e os próprios monstros, alguns jornalistas (é de relevar que o texto do locutor das notícias foi escrito pelo próprio, finalizando com o seu nome próprio como terminava as suas emissões noticiosas, bem como certas imagens foram mesmo captadas por um canal televisivo local, cedidas a George Romero e inseridas na película), polícias, membros da equipa de rodagem e de produção a integrarem o elenco;

d) a escolha do “herói” – puro acaso, para Romero, já que nenhuma vez o texto refere qualquer etnia e o casting ter decorrido com critérios de “cegueira”, um blind casting, ou seja, Duane Jones (Ben) foi seleccionado pela sua qualidade representativa e por ser amigo da equipa da Image Ten.

Mas nem tudo foi motivado pelo orçamento. Certas opções de realização foram meditadas e premeditadas, especialmente a destruição da estrutura hollywodesca do género do terror. Tendo trabalhado de perto com Alfred Hitchcock,[3] desgostando do seu método de realização fechado a qualquer improvisação da parte dos actores, Romero permite no seu plateau o surgimento do acaso permeado pela liberdade de acção de toda a equipa, actores e cameramen – não só a rodagem principiava minutos depois dos actores se porem em movimento, a estabelecer relações, a executarem acções por sua própria decisão, igualmente Romero recorre a um processo cubista, no seu entender, de captação de cenas e de edição de imagens (mais desenvolvido nas suas criações posteriores, quer as sequelas quer nas suas outras obras) – o que lhe possibilitou, para além da cor e do grão da imagem, alcançar essa mesma sugestão de «naturalidade», de real ou aparência documental, ou seja, perturbar a ficção dos filmes de terror. Porém, mais relevantes são os próprios vírus que infectaram o género afastando-o do passado. De facto, a questão colocada por Ben Hervey, na sua profunda análise a Night of the Living Dead, é de enorme importância: se a película se inscreve na tradição gótica novelística e fílmica, pela recuperação da temática de uma “iluminada luta de um presente face a um passado barbárico”[4], o que é, pois, o passado? Os redivivos ou a estrutura política, económica e social dos Estados Unidos da América criticada por George Romero (e, conjuntamente a esta macro-estrutura, a micro alicerçada em Hollywood)?

Read More

poema de domingo

na hora do tinir do bronze estávamos sentados
num banco do cemitério aconchegados ao seu silêncio

trazido pelo canto dos pássaros
o sol tisnando as nossas faces de domingo

acompanhando a badalada um vento vogou nas copas
e folhas flores e pétalas caíram sobre nós o canto e os mortos

dir-se-ia um anjo fosse eu outro sacudindo dos seus ombros
a poeira do tempo alojada no seu corpo de mármore

[Ver Perfil de Fernando Machado Silva]

o muro não sustenta o rosto

choraste as últimas lágrimas enquanto a noite vinha
soubesses a diferença na pesagem do sal
e discernirias se de felicidade ou tristeza
no seio deste cenário tão permissivo

vê tens o lençol verde e ondulado diante dos teus olhos
e nele andorinhas predam nuvens negras de insectos
patos e cisnes deslizam sereníssimos escondendo
de quem os olha as incansáveis patas membranosas

o frio e a pouca vida que resta sob estas águas escuras
mas atrás de ti escutas o chiar do metal do comboio
como um prenúncio sombrio no ranger dos gonzos do tempo

pouco interessa o significado dessas lágrimas
os muros interiores difíceis de se quebrar ruem
quando o seu rosto se encosta ao teu na noite já instalada