Três tempos sobre uma praça vazia

Três tempos sobre uma praça vazia
Pedro Braga Falcão

Quem confundiu os três tempos

com uma praça vazia deixou desperta

a cidade de um cinzel ou de um escultor

que esculpiu letra a letra uma esfinge

mas ela desta feita não devorava homens

sorvia almas a três tempos como se

a humanidade adormecesse sempre

prostrada e quem confundiu a praça

despida de páscoa ou os ramos caídos

nunca se preparou para o sorriso da estátua

nunca se preparou para uma rota no deserto

e nunca viu uma planta a três tempos

uma roseira ou um acanto ou um papiro

que nunca puderam rasgar a secura

da tua voz que declamava areia e pronunciava

enigmas de praças agora sim silenciosas

como pequenas sombras sem graça ou escuras

como sempre fingiram os planaltos quando

quando os profetas lhes reclamavam a altura

a três templos três tabernáculos tu nunca

tu nunca confundiste a noite com os teus joelhos

mesmo que eles nunca repousassem sobre lajes

três tempos    reclamavas     a tua língua vermelha

descansava na boca a imaginação do céu

e de lá vinham sussurrantes os últimos planetas

e eu decorava os seus nomes ou melhor

decorava o último dos três     o que num lamento

morreu da minha infância agora agora

que vejo a praça vazia não espero vestes

vestes brancas ou anjos ou esfinges agora

prostrado sou eu que pergunto que animal

que animal tem três valsas e nunca se despede

nem quando a terra o cobre com o esquecimento

que eternidade tem essa alma que vive

mesmo que a escuridão da praça vazia

o convide ao pó e à sombra mesmo que

ainda que todo o silêncio seja provisório

mas já tu me preparas a esfinge     a afias

a embotas     a tornas macia     manejável

já tu de dia lhe chamas uma história     a aninhas

a acalantas com pequenos gestos de acanto

e logo no deserto as raízes procuram não a água

mas três tempos de praças vazias sem que nunca

nunca se tivesse perguntado o que faremos

de todo este espaço quando apenas os nossos filhos

os nossos tristes filhos andarem por cá o que será

dessa escada que construíste em madeira

e que nunca levou a lado nenhum    apenas sabia

o que será de nós    os mortos    quando confundirmos

a praça vazia com a solidão do tempo

nem que fosse em valsas de mil tempos

e nunca me apercebesse de ti no deserto

o que será de nós quando a areia chover

e a água nos cobrir de tempo o que será

da esfinge quando dela restar apenas o enredo

o que será dos que confundem a lentidão

com os três templos arrependidos os três

os três tabernáculos o que será de mim que pergunto

a mais humana das perguntas    se és tu

e vejo estarrecido uma esfinge degolada

a mil tempos    isto é   todos os romances escritos

de todas as praças vazias.

 

 

Do teu Quarto em Atenas (dois anos depois)

Do teu Quarto em Atenas (dois anos depois)

(…) Por isso te digo o seguinte: tu escreves fundo. Demasiado fundo, pouco fundo, à superfície e por dentro. Escreves por todo o lado. Mas mais do que tudo, o teu quarto não está vazio de gente. Pode ser pequeno, pode não haver espaço para todos os livros, filmes e gesso que lá guardas, mas ele está profusamente habitado e é acanhado porque tem muita gente lá dentro. (…)

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Ao Zé Pedro Moreira

Isto dos deuses
Pedro Braga Falcão

Isto dos deuses já soou a revolução

agora vejo-os esparramados no sofá

à procura do telecomando já não há

divisão isto é tu ficas aqui no céu

tu no mar tu na terra tu com os humanos

porque desses humanos todos se esqueceram

tinham olhos no céu e ossos na terra

e que se saiba nunca souberam respirar

debaixo de água agora um dos deuses

muda de canal vê mulheres bonitas

suspira de enfado vê-las assim abertas

confunde-o antes Vénus andava sempre nua

mas ninguém a mandava despir-se

e se alguém a visse decerto morreria

ou fazia-lhe um filho não sei o que é pior

isto dos deuses já teve mais templos

coitados é difícil ver televisão entre ruínas

entra muita água não que chova acho

acho mesmo que um deus nunca chove

deve ser por isso que os templos antigamente

eram ciclos no céu sem paredes

aí sim seria confortável para um deus

fechar as portas fechar os olhos fechar os altares

e pensar que bem que estou aqui celeste

mas lá vieram uns barbudos e uma vestes

com sacerdotisas lá dentro fazer sorrisos

um a um dois a dois três a três

e quando deram por isso pronto já os deuses

tinham sido enterrados porra não enterrem

não enterrem os deuses deixem-nos lá em cima

a ver televisão ao sábado de manhã

sabe bem já são crescidos não têm filhos

se tiveram já os engoliram ou cagaram

também lhes sabe bem ficar ali no alto

a descansar o tempo todo da nossa mortalidade

é muito pouco percebem agora aonde quero chegar

cada vez que nasce um deus é preciso admitir

que morremos uma eternidade a mais

é preciso mais uma tonelada de incensos

e um mar morto de libações e para quê

quando estamos quase a morrer eles fazem pausa

e vão à casa-de-banho aliviar-se

de todo aquele néctar que enjoo

mas como não querem perder pitada

fazem pausa e estendem a mão para a sandes

para a sandes de ambrósia feita há três séculos

ainda está boa não haveria de estar é divina

dão uma dentada e lá põem no continuar

é aquele momento-chave meteoritos por toda a parte

vulcões lava terramotos o pacote total

mas já estão com sono desligam a televisão

e deixam-nos ali a representar para o vazio

já viram esta merda nós aqui

com os nossos melhores gritos melhor maquilhagem

a interpretação do século ninguém representa

melhor do que os actores no momento da morte

e pronto já ressonam demónios com deuses

com deuses destes quem precisa de idolatria

mais valia fazer um canal privado

e destruir todos os seus templos mas claro

isso está fora de questão já os destruímos

todos não foi pelo menos aqui

os que falavam grego ou troiano ou outra

língua qualquer de esqueletos

já ninguém os entende bolas deve ser difícil

lá naqueles seus canais devem ter legendas

mas legendas em quê? divago

voltando ao assunto digam-me vá

não teria sido melhor não lhes destruirmos os templos?

Pousaste em mim (vox propria)

Pousaste em mim (vox propria)

Pousaste em mim. Não te reconheci a letra

navegavas há muito sem que te fingisse

e as velas tinham já desfeito o navio

porque pousaste em mim navegava

ou pensava que andar à deriva é o mesmo

desfizeste-me o rumo antes que viesse

uma tempestade mesmo que pequena

mesmo que imensa mesmo que pousasse

como todas as tempestades repousam em ti

lentas como relâmpagos ou imensas

como a lentidão de uma pétala

ou curtas como o fim de uma estrela

ainda hoje não sei porque pousaste

ou porque não pousaram todas as ruas

todas as rugas do teu rosto ainda hoje

não sei porque morri antes de ti antes que

viesse o sol ou outra estrela anã

desaparecer de mim e me desse um descanso

em que repousasses em mim com prazer

como quando pousas a mão direita

sobre mim e sinto na pele o calor

de uma estrela extinta ou a estrada

em que estava quando ousaste deixar

que a minha mão se desse à tua

com a lentidão de um desejo com pena

com pena tua de te veres sozinha

de repente sem que eu te perguntasse

quando se extingue uma estrela porque me amas

e todos os dias variavas dentro de mim

uma pergunta cabisbaixa antiga remota

porque esperas porque não me tomas

porque não resulta este espaço de sombras

numa escuridão digna de infinito

e de tudo aquilo que os cientistas ainda

ainda não sabem o que é mas repousaste

repousaste na sombra de todas as árvores

mesmo que a sombra nelas não se abrigasse

de toda a chuva que caía de um céu

sem nuvens como todos os relâmpagos

que caem sem que haja luz ou vento

ou sequer os teus lábios que os empurram

com o desastre de todas as estrelas

e as desfazem como o pó delas mesmas

como se o palco as pudesse pousar

sobre os teus lábios que navegam

sem âncora que os possam aportar

nos meus já te disse preciso de tempo

preciso de muitas mais tempestades mesmo

mesmo que surjam muitas depois de ti

muitas depois de mim muito depois de

muito depois de me teres dado a mão

e me teres suplicado nada te peço

a não ser que me libertes e abras a janela

e me digas meu amor vai para a janela

e vê que lá nada pousa ou melhor fica

fica um pouco e logo se abala sabes

sempre disseste abalar como se de facto

o verbo existisse assim tão comovido

que as persianas se fechassem e o porto

se contornasse com sombras de estrela

se é que a escuridão tem estrelas

que apenas não as deixa cair naquilo

que ninguém sabe o que é e à falta de melhor

o vão chamando deus ah como quando

como quando quase te vens e gritas de repente

meu deus e os corpos depois repousam

demasiado rápido porque toda a lentidão

tem estrelas ou não fosse tudo isso inexplicável

eles dizem ainda mas eu digo ainda mais

agora tenho a certeza desta página

deste verso desta linha de ti que agora

me tentas ler com a experiência de um leitor

que repousa os olhos sobre o infinito e descobre

que nenhuma letra interessa senão a tua.


Vox propria (a diane bege a janis joplin o primeiro disco dos madredeus)


Vox propria (a diane bege)
Pedro Braga Falcão
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O quê não te lembras do passado

isso é porque não o queres não o finges

tinhas sempre uma diane atrás de ti

castanho creme que é como se fazem as coisas

e tinhas vinil nos homens e passado

pouco tempo vivias na agulha lembras-te

ou porque não te lembras continuas lá

tudo geométrico quadrado como uma diane

atrás de ti bege como todos os esquecimentos

têm essa cor já reparaste de pôr o vinil

no teu esquecimento porque queres

porque queres não esquecer não é

o som cru das curvas à direita

em que a porta se abria o bigode do pai

que fazia sombra no asfalto da curva

e o calor que fazia num espaço frio

mosquito por mosquito barco por barco

que é bege tudo o que recordas

da diane que arrombava três vezes

a vigia dos que gravavam xabregas

em três passos jovens e de um

e de um que entretanto levaram a enterrar

não na agulha do vinil não na agulha

da droga lembras-te lembras-te

de toda a escuridão dos astros e da janis

que gritava sem ser rouca com cerveja

mais louca do que qualquer consolo

mais agulha do que qualquer cor

que fosse bege ou um destino sôfrego

pois alguém sendo jovem é heroína

e confundes droga com janis

e enterras-te no vinil do outro e pensas

porque não voltas lá aos teus pinheiros

à tua garrafa à garrafa dos outros

porque não cospes o branco da página

na esperança da literatura porque

porque não tens lembrança nas esquinas

só no quadrado da diane na curva

na curva à direita como quando pensas

este gajo este tipo esta gente

está a tentar dizer qualquer coisa dizendo

ou pondo-se dentro de uma garrafa

como aqueles barquinhos de merda

que se levantam com o sopro de um fio

ou uma mensagem para o passado

uma mensagem que o roubou agora

quando põe o mesmo disco a rodar

como todas as patranhas rodam ao luar

quando fechamos os olhos não sabemos

onde houve lua porque se fecham

na porta direita da diane bege

ser bege íntimo bege que quadrilhava

como lobos a uivar nas pétalas

demasiado lobos para se esquecerem

e é isso não é amigo eras demasiado jovem

para saberes que esquecias.