Giacomo Leopardi, «À lua»

Tradução de Érico Nogueira


Ó graciosa lua, eu já relembro 
que, há um ano agora, sobre esta montanha 
eu vinha, todo angústia, contemplar-te: 
e então pendias sobre esta floresta 
bem como agora, e toda a alumiavas. 
Mas nebuloso e trêmulo do pranto 
que me embaçava a íris, aos meus olhos 
teu vulto aparecia, que penosa 
era-me a vida e é, não muda o estilo, 
minha dileta lua. E a mim me agrada 
esta lembrança, e calcular a idade 
da minha dor. Oh, como bem ocorre, 
no tempo juvenil, pois inda é longo 
da vida e breve é da memória o curso, 
que nos lembremos das passadas coisas, 
conquanto, triste, a lida continue. 
 
 
Giacomo Leopardi

Os centauros

Viol e Forey são dois reformados que passam a tarde a conversar com uma réplica de um cérebro humano nas mãos. Vão-no dissecando, à medida que conversam sobre cavalos. Têm ambos uma inusitada paixão por estes animais. Nunca montaram, nem pretendem montar (agora já é tarde para todos os triunfos e coragens), nunca tiveram qualquer relação de óbvia proximidade com este ou até com outros animais, mas há algo neles que os leva a pensar insistentemente na figura equina e a discutir, através de uma imensa rede de coincidências declaradas, a razão daquela consanguinidade mental.

O processo repete-se diariamente (ora na casa de Viol, ora na casa de Forey) e a conversa, ainda que parta sempre de ângulos tão digressivos como experimentais, não ilude o destino, nem alivia a incessante constatação do resultado: por volta das cinco da tarde, sempre com a réplica do cérebro na mão, os dois amigos atingem o hipocampo. O hipocampo é o quartel-general da memória, essa delicada zona cerebral que lembra, pelos seus contornos curvos e vagamente sensuais, um cavalo-marinho, um hippocampus. A partir daqui a coisa complica-se. Os dois amigos sofrem subitamente um surto de estranheza galopante, a conversa seca e instala-se um tédio confuso semelhante à bruma da Irlanda. Despedem-se então cordialmente e regressam à sua vida normal.

de «Cenas de uma vida conjugal»

Ceder ao peso do amor, lembrar ocasiões,
a conversa num feixe e o caso ainda
indestrutível de certas cores.
A crença: tão miserável se
agora puxar pela cabeça.

Regressa-se à casa de partida:
raro conseguir sair deste lugar sem
a transfiguração, a ida ao caixote
que pobre se impinge.

O amor ultrapassado:
por respiração entendo jogo viciado
e quando saio não reconheço
o ponto assente,
o até agora perdido.

Sexta Conjugação, 2

Foste e nessa vertigem de seres
vestiste as palavras com a incerteza
de quem nunca sorriu de vento.
Sim, bem sabias que cedo ou tarde
os monstros te encontrariam o rasto,
deixadas as pedras, tomado o fio,
para que te encontrassem à espera.
A vítima cabal de quase tudo,
e igualmente inocente de toda a glória:
labirinto sem imagem ou espelho.
Eras e nessa tortura de seres
a ti própria te devias respeito -
em comunhão com os que te amaram.
Agora já não inspiras. Renasces.
Tens mesmo carne e mesmo sangue.
És e nessa existência de seres
já não feres nem fazes sinuosas
linhas com que te não teces.
E a palavra salvação, assim dita,
despreocupada em toda a essência,
faz sentido agora na tua boca,
pronunciada ao acaso das sílabas.