De «Cenas de uma vida conjugal»

Aos ouvidos a reza, a partilha deste
momento com mãos atadas sobre a barriga.
A tua reflexão nocturna, decorando
aqueles que querem morrer neste dia.

Não são mais do que holofotes queimados os
vultos de nenhures que te fazem companhia.
Há dias com gosto, levadas de prazer
que se desfazem sobre o nó do corpo.

Desatento passeio pelos teus ombros,
medito nos claros limites do riso,
não acalmo a besta que agora
me cruza as mãos em despedida.

Tu, eles, nós: pronomes do acaso,
apodrecem com malícia no quintal.
O cesto vazio da minha vida para
onde te trago: já disseste tudo,
o nosso contrato quebrado.

De «Cenas de uma vida conjugal»

A noite num punhado de fábulas, 
amarelecida de prazer, curtida 
de fulgor e música decepada. 
Estamos soltos – e retomo a 
cabeça em minúsculo chocalho 
contra o tempo dos outros – 
com o som final em torno da garganta 
e o estremecimento ridículo do pé. 
A película quente da terra nos dentes, 
vou amanhecendo no andar. Obedecer 
aos gorgolejos sincopados do coração: 
estou longe da tua voz, finalmente.

 

de «Cenas de uma vida conjugal»

Andamos até ao centro do ruído,
ao círculo em que tudo se comove.
Não sei falar de outra coisa:
esta casa, vozes espantadas,
risos que bafejam mais vida sobre a
corrente daninha que nos amarra os pés.

Sentada no colo de ti mesma,
num canto remexendo cabelos,
nunca soubeste de tal encontro.
A conversa entretida com seu arrombo,
puxando varizes, convertendo noções,
eu a morder o menos possível numa
hora discreta para que chegues.

Mas a hora não avança nem resolve
e eu pensei que estávamos juntos.
Os meus sinais são teus papéis ilegíveis
deixados sobre a mesa, ardendo
fundos num prato sujo. A persiana
faz subir a luz: equação mirabolante.

de «Cenas de uma vida conjugal»

Primavera. Mas quem disse?
É esta a luz que de quando em
quando enterra o bico do lápis,
o erro inteiro que se desprende,
espuma escadeando em sala perdida.

O entardecer, entre outras coisas:
tomando calmamente o fim do mundo
num copo de cerveja morna.
A conversa sempre difícil,
palavras que olhadas cegam.

Nem no fim da madrugada, sentados na
praça escura de pombos adormecidos,
encontramos fim nalgum sentido.
Tão tristes que então somos,
há um ardor mas falta-nos a garganta.

Olhos devassados pelo vento, o riso de
tão farto descola-se-nos dos dedos,
e vencidos retomamos todos os
obstáculos imbecis da noite:
temos muito que fazer.

Solitude

Hoje é a grande noite do Joe, com uma leitura pública
o seu trabalho será finalmente reconhecido.
Tem vinte e três anos e várias vezes já se lembraram
do seu nome para uma residência artística.

Lizzie, a melhor do curso de escrita criativa,
também vai lá estar com a nova namorada,
o seu cabelo negro lampeja para toda a gente, parece um
corvo desaustinado quando entra em clubes literários.

Até Bonnie, a gigante americana, foi convidada,
eacabava de se vestir no seu quarto
quando se lembrou, sem omitir um sorriso,
que ainda ontem à noite lhe ocorrera o suicídio,
numa mão um copo de barbitúricos,
na outra um livro manuseado.

As luzes do dormitório apagam-se, uma a uma
desaparecem as paredes  de  contraplacado
pejadas de recortes  da  Norton Anthology of Poetry 
e de frases que dissecam a morte da filosofia. 
Os amigos vão juntos até Hampstead ver o Joe, 
onde dizem que tudo realmente acontece. 

Colocam gravatas uns nos outros, em casa juntam
todo o álcool que conseguem, sentem o peso
de cada uma das frases antes de partirem no comboio
Da janela ainda vejo estes poetas a mijarem com vontade
sobre as roseiras, um fumo místico levanta-se 
logo onde começa a propriedade privada.

Dou uma volta completa à cozinha comum,
largo um esgar indisposto para o lado,
inspecciono a carpete onde esmagaram beatas,
invoco os meus colegas para os detestar um a um.

É então que os olhos brilham e subo à mesa
onde se projeta a minha glória infinita. 
Digo as palavras que só eu imagino ouvir: 

«nesta noite tão especial, não consigo dizer
como vos estou agradecido por se terem
esquecido aqui de todas as bebidas.»

De Doze Passos Atrás, Artefacto, 2013.