primeira pressão

todorov enfim admite que se lê a teoria 
           e que não se lêem os livros 
           e que isso não é nada bom

o pólen se desprende no ar brilhante
          flutua suave ao vento

giacomo, de cama, ouviu la strega
resguardou-se e recebeu a visita
que o ergueu pela primeira vez em muitas

          magicam operari
               maritare mundum
 
segredos
          alguns nos livros, outros
na vida, certamente não no explicar
não no expor, nada disso

               como arrancar a borboleta
da crisálida ou extinguir na flor a força
de uma essência por pressão

          cícero, o advogado cicerone
de turistas no estoicismo,
no estilo, espremendo grego, retirando
               a pequena abstração a fórceps, essentia
               a umbrosa sombra de sombra

folhear esta floresta                encadernar sua vida com a garganta 

smith & wesson .22

velha smith & wesson .22 ela engasga
agarra o dedo no gatilho a cada tiro
o coice fuma, faísca no metal,
olhos se contraem ao som ardido e o tiro
 explode na parede, sopra a cal; 

revolução de 32, a colher
que mexe o chá
num maremoto 

e veio a mim esse revólver
envolvido com seis balas num lençol,
relíquia de um distante
tio-avô 

e veio a mim
           segredo de encerrar a violência
má ferrugem perto do esmaltado           

todos guardam souvenires
rotulados na memória de aventura
ou outra arte tão
                      espúria
e sem dizer conveniente
a noites e fogueiras e conversa
que requentam feitos duros
            agora que o sol lhes parece ―
york a ricardo ― demasiado luminoso. 

crítica do juízo

é como descer a ladeira,
“descer a ladeira”, você diria;
e tem razão,
e todos os nossos dias já contados,
          grão a grão,
degraus na escadaria.

 e você, tão delicado, tão afeito ao certo
          ou necessário
requer algum dénouement,
velha honra em velho código
― guerreiro ou cavalheiro ―
mesura no gesto de lenço
ou o toque na aba do chapéu
           (capricho no desuso): 

jardins com etiqueta de botânica;
doses breves,
           mas intensas,
de café após o almoço
e ao fim da tarde.
           “ o acaso agora é regra,
não surpresa ou exceção;
           tudo é cor demais, a toda parte,
e a esquecida arte da grisaille?”

 ordem do requinte, o seu cinzento,
ou o prever de dobras num panejamento;
           havia planos para o cosmos e a cidade.
tentaram tudo e fracassaram
docemente: a rédea morre antes do cavalo,
e o resto, você diz, é natureza.

o gato de schrödinger

vivo ou morto ― como num pôster daqueles procurados no velho oeste ― o gato é imaginariamente preso ao experimento de lógica talvez mortal e radiativo, contra o dito paradoxo de estar vivo & morto ao mesmo tempo. schrödinger observa de dentro da jaula de seu pensamento o gato dentro de sua jaula de teste, escolhe se está vivo ou morto; schrödinger ignora as sete vidas, se aborrece com esses tolos que argumentam o notável disparate. enquanto schrödinger inventa seu gato estúpido e impotente, a caixa se fecha, escura como a morte, e em copenhagen souberam nessa morte dois pontos fosfóreos sempre acesos. 

der himmel über berlin

para ulf stolterfoht 

“alguns vieram em auxílio do céu”
disse ulf através da sra. waldrop
através de mim. caem os muros
diante desse telefone-sem-fio 

ou haviam caído antes por obra
de tradução, política e marretas,
e eis o céu novamente. em auxílio
dele eis a teologia que fabrica 

nuvens brancas sem as manchas
que lhe punham canaletto e cuyp.
do céu como paraíso em heaven 
vem o sopro da teologia tomista. 

rupturas aparentes, não no muro,
mas na parede de escolástica, ou ―
permitida a licença poética ― nas
palavras hermeticamente fechadas 

dos livros da lei, tão pouco prática.
anjos alçam o céu, que ne nous tombe 
pas sur la tête, que não suma sob co2.
alguém engasga em socorro do céu.