A banalização da escrita

Cassandra Jordão entrevista Lídia D.

Resolvi procurar os conselhos de Lídia D. porque entendo que a minha ligação contractual à Enfermaria 6 apresenta algumas deficiências espirituais. Estas deficiências espirituais manifestam-se sobretudo ao nível de me serem confiadas tarefas assaz mecânicas (como por exemplo, ter de juntar os versos de poetas que nos enviam poemas mal formatados através de horas de pressão continuada de uma combinação das teclas de caps lock e enter) que, no entanto, não são mecânicas o suficiente para que o cansaço me tire a vontade de espiolhar as páginas do Facebook dos autores nacionais. Juntámo-nos para falar do fenómeno que Lídia D. apelida de banalização da escrita.

 

O que é banalização da escrita?

Olhe, você conhece aquela marca de cerveja, a BrewDog? Aquilo é um bando de gente que sabia muito de cerveja e dormia no sofá em casa dos pais, que agora vendem muito mas ainda não têm um departamento de marketing porque se divertem a escandalizar as pessoas de uma maneira mais ou menos terrorista. Fazem umas quantas declarações bombásticas para vender mais umas cervejas, no fundo não oferecem nada que você não possa beber noutro lado, mas no fim é tudo sobre a cerveja. A primeira parte da minha descrição da BrewDog existe no mesmo espectro de fenómenos que levam à banalização da escrita. A BrewDog é um fenómeno mediático de gosto discutível, que gera muito barulho numa tentativa de chamar a atenção sobre si própria. A segunda parte é a descrição de uma arte, porque é a descrição de uma paixão, você é bom numa coisa e só existe aquilo, e toda a sua vida está construída ao redor dessa coisa, e tudo o resto é uma impaciência chata que você atura com tristeza até chegar ao momento de se ver sozinho com o seu trabalho, o que não significa que você seja o Dostoievsky naquilo que faz. As pessoas bebem a BrewDog em parte porque intuem esse lado mais profundo do ofício de fazer cerveja, que os brewers  da BrewDog são de facto brewers e não apenas figurantes de brewers a quem a cerveja importa bem menos do que a publicidade. Você pode amar escrever e ser um autor menor e ser bom na sua menoridade. A crítica nacional aprecia mal ou não sabe apreciar esse intervalo dos autores menores e eu acho que isto tem banalizado uma série de discursos em tornos do acto de ler e escrever, expressos em críticas formulaicas que banalizam escritores e leitores. O Borges tem um poema sobre autores menores, em que diz que a meta para um escritor é o esquecimento, e aquele que é menor é o que chega antes disso. Digamos que um Rilke e um Celan, para mim, não se confundem com um Zweig, mas que sinto uma certa felicidade de saber que tenho umas quantas páginas de Zweig à minha espera num lugar qualquer e não sinto que tenha perdido o meu tempo ou tenha sido enganada ao lê-lo. A banalização da escrita é você ler o jornal e ficar com a impressão de que um país de dez milhões produz um facto literário da dimensão do Guerra e Paz de duas em duas semanas, é a confusão da crítica literária com um discurso normativo em torno dessa arte complexa que é a literatura, a confusão da tarefa do crítico com a da criação do cânone, e a outra confusão a cheirar a caruncho que se esconde atrás dessas, que é a noção do génio iluminado que só pode ser reconhecido por dois ou três críticos mais avisados, coisas que normalmente são descritas na ordem do segredo bombástico que explode na mão. Se alguma coisa me vai explodir na mão eu prefiro que não me avisem, porque ao fim de três explosões falhadas o que eu estou é desapontada, para não dizer irritada, tenho comprado e lido muita merda porque mirones míopes no Público, na Ler e no Jornal de Letras usam despudoradamente a palavra génio e tendem a avistar um Celan em Telheiras a cada duas semanas. Não há nada de errado em querer escrever sobre um escritor menor ou um livro apenas competente sobretudo porque um Dostoievsky aparece uma vez numa lua azul, com muita sorte há um numa geração inteira de milhões de pessoas. O crítico nacional tem de esvaziar a mente para a página de semana a semana e às vezes mais do que uma vez por semana. É difícil que isto não se torne da ordem da masturbação. A vida pode ser um lugar aborrecido, um acontecimento digno de ser recordado pode não acontecer durante semanas. Para qualquer pessoa ter uma ideia de jeito que valha a pena atirar para o papel pode levar semanas, meses até, imprimi-la pode exigir muito mais do que isso. Muitos críticos contornam esta dificuldade de não lhes chegar nem uma frase de belo efeito nem um Dostoievsky todas as semanas afectando uma postura de autoridade, não raramente referindo-se a uma suposta coisa que não importa a um leitor mediano um cu, a maestria do autor. O que é a maestria do autor? Maestria vem do latim, magister, professor, cuja raiz talvez se confunda com a que dá origem à palavra mago, mas muitos dos mestres que por aí são anunciados tendem a não passar de discípulos, e os melhores mestres podem bem regredir para a triste condição de discípulos sem talento, como se aprende no doloroso exercício de ler o Lawrence Durrell de O Quarteto de Alexandria e o de O Quinteto de Avinhão (o génio no triste pastiche de si próprio), eu vejo uma literatura cheia de jovens mestres de 40 anos, mas achava que os melhores mestres são os que preferem ser deixados em paz para serem alunos a vida toda, que tendem a ser atormentados amiúde pela pergunta, mas afinal o que é que eu sei? O que é a maestria? O crítico não sabe, acha que pode ser essa coisa a explodir-lhe nas mãos (se bem ordenhada), o génio. E o que é isso, você sabe? Então você tem alguém que lhe atira o conceito do raro que é para uns happy few. Como é? Você, burguês lisboeta, comedor de tremoço que bebe cerveja na esplanada em Junho, quer entrar no círculo ou não? Vai deixar o último Pessoa andar para aí trancado no quarto ou a beber bagaço em paz no Martinho da Arcada, sem você estar devidamente informado? Não, o crítico é alguém avisado e cheio de autoridade moral e agora avisou-o também. O que este tipo de discurso focado na maestria (anda o crítico a tentar aprender, ou a fingir que aprendeu, o que é ser um Dostoievsky vislumbrando um em toda a parte a cada semana?) produz é uma grande tristeza e bastante decepção num leitor mediano. E olhe que quando uso aqui a palavra mediano não imagine o universo mental de Michael Bay e a poética de um Toy. O meu leitor mediano lê Tchekov, comove-se com a poesia de Joyce, e é viciado em Tony Judt, só não vem a correr escarafunchar num caderno, sempre que um arrepio lhe passa pela espinha, que ouviu um tolle et lege. Isso acontece e é lá com ele, no silêncio mais fundo do que existe dentro dele, sozinho a tentar entender o mundo e a tentar chegar a uma visão do mundo que possa ficar na imaginação como um mapa que possa ser sempre navegável, nós gostávamos que ele partilhasse isso connosco, mas com alguns livros até é bom que ele não possa, a algumas coisas você pode chegar pelo intermédio de outros, mas não pode bem ser preparado. E você tem então de se perguntar: como pode um crítico responder a estas dificuldades? Que posição pode este pobre coitado escriba, que no fim, como você e eu tem é de ganhar o seu pecúnio para comer batatas fritas no Chiado, ocupar, num ofício em que ser um leitor é muitas vezes confundido com um exercício de auto-afirmação? E como fazê-lo sem ser apelidado de coninhas pelos restantes críticos (leia-se a crítica nacional que jaz abaixo do paralelo do Correio da Manhã)? Primeiro, há isto, há uma diferença entre pensar sobre um assunto, escrever umas linhas sobre ele, e achar-se o Super Homem por isso, o que subsequentemente lhe pode dar a ideia errada de que você tem o direito de perseguir os outros e de policiar o que eles apreciam ou não apreciam ler, e o que lhes apetece escrever ou não. O que é muito mau é profundamente fácil de criticar, se você está a ler sobre batatas na secção de crítica literária não se perturbe, não é tanto que o seu crítico de pacote ache que você é um leitor tão desavisado que confundiria um saco de amendoins com Walter Benjamim, é que ele tem uma agenda e você pode bem descobrir que o pobre marreco que assinou um verso de mau gosto não lhe caiu bem no goto quando lhe pagou o café, ou então chateou algum amigo dele. Se você leu que um livro é mau, e ninguém lhe está a explicar a relevância dessa fraqueza para a sua vida de leitor, para a cultura em que essa falta de qualidade, ou mesmo maldade, se expressa, então você perdeu o seu tempo. E depois é aceitar o facto de que por um crítico não topar com um Dostoievsky todas as semanas não significa que haja algo de errado com o crítico, ou que ele tenha de ir arranjar uma receita para comprar Viagra. O que me leva ao meu segundo argumento, o que importa a um leitor não é a maestria de um autor, mas o que um livro diz e sobretudo o que um livro lhe diz a ele, muito privadamente no contexto da narrativa da sua própria vida. Eu prefiro que o crítico que escreve no jornaleco todas as semanas me fale do primeiro argumento, e me deixe em paz para decidir por mim se um livro tem o potencial para me dizer alguma coisa do modo que acabei de descrever, o que um livro significa para mim. Um crítico muito bom consegue talvez comunicar o que um livro lhe pode dizer a si privadamente, mas isso é uma capacidade excepcional de falar de coisas que foram escritas e são profundamente únicas, e mesmo esse momento é de algum modo excepcional para o crítico, não acontece todas as semanas, o resto é um ofício mecânico, e de algum modo triste. Você é um crítico, o que significa que, se você está agarrado à normatividade bombástica do génio hoje em dia ou da monótona descoberta do oásis no deserto, você é um bocado a extensão de um departamento de marketing de uma editora, e pode muito bem não ter muitas ideias. Para valer a pena ler um pedaço de crítica, a crítica pode bem falar-nos sobretudo das ideias de um livro, e o estilo do autor é apenas uma dessas ideias, e não é a mais interessante. Se mais nenhuma ideia lhe ocorre além do estilo, vulgarmente descrito por maestria, então o livro que você leu é uma merda, ou você é um mau crítico, ou ambos. O que é que acontece aí? Você acaba a lamentar-se que Herberto Helder vá ser lido, ou que os seus amigos que escrevem não são convidados para tantos festivais quantos deviam. Nada disto tem que ver com a alegria de ler um bom livro.

 

O que é a não banalização da escrita?

O curto sono de Kafka, duas horas a cada tarde depois do escritório, para pouco a pouco e com muito esforço, das oito à meia-noite a cada noite, enquanto o Hermann Kafka ronca no quarto ao lado, lhe trazer A Metamorfose, O Castelo, O Processo. É Arquíloco a confessar a canhalice de ter deixado o escudo aos trácios, Nunca ninguém tinha dito aquilo daquela maneira, o que não significa que não tivesse havido milhares de soldados antes dele que cheios de medo fugissem do campo de batalha sem sequer trazerem o escudo com eles. Bloom a masturbar-se numa praia em Dublin mais o monólogo da Molly quase no fim, coisas que ainda não tinham sido ditas daquela maneira, de repente inadiavelmente reais, disponíveis para serem pensadas mais do que por críticos por gente com espírito crítico, no fim é só aí que a tarefa do crítico é sagrada como a de um escritor, trazer ao de cima, ou inspirar, o espírito crítico dos outros, o que na melhor das hipóteses pode até ser contra ele e apesar dele, esse é o crítico que o ajuda a viver, que nem sequer é bem só crítico, é mais uma criatura da literatura. Os críticos no fundo são os verdadeiros Íons do ofício literário, o ofício deles não é específico, é ainda menos específico do que o do escritor, mas se forem mesmo bons inspirarão nos outros uma ideia, um ponto de partida, e por isso ficaremos sempre agradecidos e voltaremos a lê-los com prazer. A não banalização da escrita vem da escrita que não é banal e que não o banaliza enquanto leitor, é o que resulta de uma combinação de amor, necessidade e culpa. É você saber que vai perdoar ao Lobo Antunes aquela parvoíce do leão e da cria na entrevista sobre a Elena Ferrante porque ele é o tipo que escreveu o Fado Alexandrino. Você lembra-se como foi? Ler o Fado Alexandrino? Agora não seja estúpido, tenha esperança e lembre-se que o crítico que assina o fait divers medíocre na temporada morta de Agosto, para coscuvilhar a parvoíce que o seu Homero disse na última entrevista, não raro para enaltecimento da própria inteligência banal do crítico, pode apanhar um dia destes com um Thomas Bernhard que lhe acerte umas furiosas pauladas de indignação justa e impaciência. Nesse momento você vai lembrar-se do longo olhar de Petrónio no banquete de Trimalquião e constatar que o mundo é espetacular de maneiras que ainda nem sequer nos passaram pela cabeça. E isto é ainda uma coisa que um belo escritor fará por si. Na viagem que é ler seja o que for, esse pode bem ser o melhor momento de todos.  

Dante e coelhos: Cassandra Jordão lê a Divina Comédia

Dante, avistado aqui a relaxar no cenário da composição da Comédia.

Dante, avistado aqui a relaxar no cenário da composição da Comédia.

Após muita insistência da nossa assistente estagiária (no último mês entendemos por bem promover Cassandra Jordão de estagiária a assistente estagiária, após tensas negociações em que a jornalista ameaçou trocar o estágio que lhe oferecemos por um estágio no Correio da Manhã – acordámos pagar-lhe uma módica soma mensal destinada a “ajudas de custo”, um pecúlio que a referida estagiária gastará provavelmente em tatuagens, uma vez que aos 27 anos de idade mantém residência em casa dos pais), resolvemos conceder-lhe uma coluna mensal. Trata-se de um espaço dedicado à crítica literária, em que grandes clássicos e obras menores serão alvo da caneta implacável da nossa jornalista de serviço. Aqui fica a primeira escolha, a Divina Comédia de Dante Alighieri.

            NB: A escolha do título para esta primeira coluna é da exclusiva responsabilidade da sua autora. Após acesa discussão com o departamento editorial da Enfermaria 6, a autora justifica a sua opção no espírito Warholiano de praticar a sua arte, a arte do crítico, justamente na intercepção entre arte e quotidiano.

 

Dante Alighieri

Classificação: 3 (três) *** (estrelas)

 

A Divina Comédia de Dante Alighieri é uma obra que, 696 anos após a sua publicação, se continua a ler simultaneamente como uma pedrada num charco e um murro no estômago. Perde apenas por não ser um segredo muito bem guardado. Algumas limitações têm no entanto de ser apontadas ao génio florentino, e sendo que nenhum dos críticos meus antepassados, e quiçá contemporâneos, parece ter apreciado as devidas limitações da obra, é minha tarefa aqui considerar este clássico intemporal a partir de uma perspectiva que me coloca numa posição muito particular, a do crítico que sabe estar a escrever para leitores que leem livros e crítica apenas com um interesse em obter conselhos de escrita criativa.

Deste ponto de vista, a primeira falha (na lógica de vocabulário autoritário, perdão, autorizado, de que disponho enquanto crítica, o termo não é outro) a apontar é a de que se trata de uma obra demasiado longa, que teria ganhado bastante com uma mão editorial mais pesada. Uma pessoa podia perguntar-se se era mesmo necessário incluir o Purgatório. É certo que toda uma secção de cenas imortais na história da literatura do Ocidente desapareceria, mas a leitura seria muito mais rápida, a obra ganharia ritmo sem aquela longa pausa no meio, e resultaria bem menos maçuda.

Outra nota negativa é que o adjectivo abunda, e nem sempre é necessário. Por outro lado, perguntamo-nos se seria preciso nomear tanto contemporâneo, para nada dizer da opção de gosto duvidoso do autor florentino em colocar gente bastante respeitável (cardeais, papas, governantes, poetas) em círculos menos respeitáveis da geografia do poema. Que Nicolau III, que à data da composição do texto já se encontrava morto, pudesse ser encontrado no círculo dos condenados por venderem favores divinos, tudo certo, agora dar um cameo a Bonifácio VIII no Inferno no ano de 1300 (o papa só morre em 1303) é um imperdoável erro de cronologia, que claramente só pode ser interpretado não através do ângulo da proverbial animosidade de Dante contra o papa, uma explicação que críticos anteriores entenderam como legítima, mas inevitavelmente como indício de um trabalho de pesquisa pouco minucioso da parte do génio de Florença.

Outro apontamento menos positivo acerca da nossa experiência de leitura deste clássico vai para a tradução. Não tendo lido o original, temos no entanto de apontar o facto de que encontrámos várias vírgulas fora do lugar. Ora, toda a gente sabe que o mais importante num texto é o ritmo, e o ritmo que se quer hoje em dia é o da rápida batida techno. Estamos em crer que esta tradução teria muito a ganhar com mais vírgulas. A obra imortal de Dante de facto peca por demasiado longa, e lenta em certas partes. O leitor tem o direito de se perguntar: era mesmo necessário dar a Ugolino della Gherardesca aquele discurso tão longo que, como tantos outros (longos) encontros do poeta nos diferentes círculos só atrapalham o enredo principal (chegar ao Paraíso, encontrar a miúda) e quebram o ritmo da narrativa?

Voltando à tradução. Com o rigor que nos é característico, googlámos excertos do texto original de Dante, e, comparando um excerto encontrado ao calhas na Wikipedia com um excerto da tradução, descobrimos três vírgulas fora do lugar. Isto permite-nos afirmar com a segurança que a autoridade da crítica nos confere que a tradução do consagrado poeta australiano, Clive James, há décadas estudante de Dante, é de péssima qualidade.

Má nota também para o princípio da obra: para leitores menos atentos, Dante começa pelo meio, e nós preferíamos saber o que se passa logo desde o princípio. O pseudo-golpe de angst existencial de Dante não é suficiente para convencer o leitor. Afirmar que se encontrava no meio do caminho da vida na verdade diz-nos muito pouco acerca da vida deste irrequieto autor florentino até ao momento de começar a escrever a épica, e tivemos de emparelhar a leitura da Comédia com a leitura da Vita Nuova, obra de juventude, povoada de alusões a outros poetas amigos de Dante – note-se que são até mencionados uns quantos que tornam depois a aparecer mais tarde na Comédia e é bastante difícil entender de onde eles vieram e como é que Dante estava relacionado com eles sem ter lido a Vita Nuova, para nada dizer do que acontece ao nosso entendimento da parte mais hot da Comédia, o romance com Beatriz, sem ter lido este outro livrinho. Para uma obra já tão longa, esperar ainda que o leitor tenha de ler a obra anterior para perceber melhor o que se está a passar é simplesmente um mau golpe de marketing. Nos tempos que correm, a Wikipedia pode bem matar estes dois coelhos de uma cajadada só. É uma nota que gostaria de deixar à consideração dos departamentos de marketing das editoras que se dedicam a publicar Dante.

Por outro lado, tanta repetição de personagens de obra para obra é ilustrativa das limitações da inexistência de um equivalente da revista Caras ou Lux na Florença de finais do séc. XIII/ princípios do séc. XIV, não deixando aos poetas muito mais escolha do que ocuparem-se de matéria que de outro modo, perguntamo-nos nós, poderia ter povoado a cultura pop da época e não a grande poesia. E não nos alongaremos aqui sobre a paixão de Dante pela relação entre poesia e crónica social ter levado à inclusão de personagens com nomes de duvidoso gosto poético: Barbarrossa; Bonagiunta; Buonconte; Buonanotte. Para mencionar apenas personagens na letra B.

Falando de Dante e matar coelhos de uma cajadada só, outro aspecto em que a obra perde pontos é justamente na questão do romance com Beatriz. À parte alguns encontros fugazes em Florença, este romance como linha do enredo resulta pouco convincente. Beatriz é uma mulher que Dante vê ao longe não mais do que uma mão cheia de vezes, se tanto, para mais casada com outra pessoa. O próprio Dante, tanto quanto apurámos, era, também ele, casado com outra pessoa.

Desta forma, é obrigação do crítico, tanto quanto do avisado leitor, perguntar-se se a obsessão do autor deve ser entendida como mais uma peça do enquadramento filosófico de inspiração tomista que, quer Dante levar-nos a crer, é o da Comédia, do amor enquanto máxima aventura espiritual, ou, para leitores mais avisados, os mesmos que, estamos em crer, apreciariam uma Comédia mais curta, um stalker a atirar para o creepy.

Com um texto que gera tantas dúvidas, três estrelas parece-nos uma nota adequada. Não mais, Musa. Não mais. 

Entrevista a um jovem autor de panfletos dissentores

O autor usa óculos de massa e uma camisa vermelha ao xadrez, calças de ganga e All Stars pretos rasgados. Combinámos o nosso encontro à entrada de uma livraria independente. O autor tem na mão a carteira, uma caneta e um bloco de notas. Informa-nos de que o seu romance acaba de ser recusado por mais uma portentosa micro-editora, após ter sido aceite. Diz-nos ainda que não pretende ser identificado, de modo a estar preparado para a remota eventualidade de o seu manuscrito ser aceite outra vez por qualquer outra badalada editora. Confessamos que esperávamos que este estranho caso de um manuscrito aceite primeiro e recusado depois nos permitisse uma digressão até ao mundo dos livros proibidos, muito censurados antes de publicação e recebidos com escândalo. A postura curvada do nosso Flaubert, o trejeito nervoso com que ele puxava os óculos para cima com o indicador quando estes lhe escorregavam pelo nariz, não prometiam nada de menos sensacional. 

Pode contar-nos qual o conteúdo do seu manuscrito que acaba de ser recusado?

Tratava-se de uma odisseia soft porn, ao género de Fifty Shades of Grey. Alguns dos capítulos tinham sido anteriormente publicados em fascículos nas revistas para jovens autores deste país, o que me pareceu um início promissor. A minha ambição era que as pessoas entendessem que esta não era apenas uma obra de soft porn mas uma metáfora para a falta de espaço e massa crítica que abunda no meio literário português e para a estagnação cultural que os anos da crise instauraram entre nós. Uma pedrada no charco. Uma espécie de Christian Grey encontra Anna Karenina, algo de verdadeiramente eclético e radical. Eu não tenho críticos, menina, tenho detratores. Numa das primeiras recensões aos meus contos, um vate popular no subterrâneo que ganha a vida a fazer recensões negativas a autores da craveira de um José Luís Peixoto e a manuais de informática (com um tal sentimento poético que por vezes estes dois tipos de obras se confundem na minha imaginação), acusou-me de ter juntado assuntos muito díspares, tendo criado um Frankenstein de um romance, uma coisa de verdadeira alta voltagem. A que mais pode um jovem romancista aspirar? Paguei-lhe duas cervejas no Bairro Alto e ele prometeu que me voltava a ligar. Mas agora que o romance não vai ser publicado, como é que voltaremos a ter assunto de conversa? Acha que lhe posso ligar e pedir uma recensão sobre a não publicação da minha fábula febril, da minha poética de uma cultura pop para a Lisboa destes tempos?   

Sinceramente, acho melhor não. Tentou propor o seu livro a outras editoras?

A menina está a brincar comigo? (O autor gesticula, faz um gesto em que une os dedos das duas mãos em redor do polegar, como se isto fosse uma pizzaria em Roma ou se estivéssemos numa coffee shop em Nova Jérsia.) Eu lambi selos e paguei portes para versões impressas do meu manuscrito que viajaram até à Relógio d’Água, Assírio, Cotovia, Quetzal, tudo o que foi morada de editora que apanhei nas listas telefónicas, tal como as fui encontrando por ordem alfabética, pimba, sacava logo do manuscrito, selo, portes de envio, cartas de recomendação a acompanhar o romance. Eu não sou tímido. Toda a gente já sabia que o meu romance estava por aí. Esperei editores quinquagenários em estações de comboio desertas com o manuscrito metido na gabardina, mandei mensagens sugestivas (às duas da manhã) a críticos piolhosos que pudessem assinar seis linhas sobre as minhas colaborações em revistas, sentei-me em longas conferências onde dormitei em salas sobreaquecidas só para apertar as mãos a críticos e perguntar-lhes quando é que uma recensão a qualquer dos meus textos ia sair. Um desespero muito trabalhoso. Até que um dia recebo um email a dizer que o meu manuscrito tinha sido aceite. Só era preciso aceitar as alterações do editor. Concordei com tudo. Beijei-lhe as mãos. O cachucho no dedo mindinho. Aturei os comentários ignorantes daquele energúmeno incapaz de alinhar três adjectivos de modo coerente e que nunca poderia entender a pujança da minha prosa. Agora resta deslocar-me com uma catana dentro da mochila. Ainda haveremos de tornar a falar. Só pararei de me fazer acompanhar da catana quando o manuscrito for aceite para publicação. Andará para aí um visionário com quem ainda não me cruzei. Ele só precisará de ler três páginas da minha obra.  

O seu editor evocou alguma razão em particular para optar pela não publicação do livro após ter aceite o manuscrito?

Não. Fui apenas informado de que se tratava de uma decisão superior do editor. Não querendo caluniar ninguém, devo dizer que tenho boas razões para suspeitar que a isto não terá sido alheio uma recensão menos positiva a que vários dos meus panfletos foram alvo por um crítico que mantém boas relações com o meu editor. Perdão, ex-editor. Os meus panfletos visavam o abuso de citações de autores neo-realistas italianos por parte de um crítico que está, como qualquer génio num país com cada vez menos espaço, condenado a exercer o seu espírito de dissidência num dos jornais mais burgueses de Portugal. Sobre a obra deste crítico, tenho apenas a acrescentar que ele gosta de raparigas mais novas. Acho que isto diz tudo sobre o livro que ele escreveu sobre a relação entre o cinema de Bergman e a filosofia de Kiekergaard. No fundo não se devem juntar assuntos tão díspares. E é preciso ter opiniões de tal modo que nunca venhamos a desagradar aos nossos amigos, e sobretudo não aos amigos dos nossos amigos. Reconheço agora que o meu livro, que se lixe, que toda a minha postura intelectual é demasiado ambiciosa para este país.  

O jovem autor afasta-se de cabeça baixa. Pára a meio, retira da mochila um exemplar de um dos volumes da poesia de Jorge de Sena. Tenta ler enquanto anda. Uma chuva miudinha começa a cair. Ele tropeça na calçada e bate com o queixo no chão. O livro rodopia e aterra numa poça. Mais um génio sufocado. Podíamos ajudá-lo a levantar-se, dar-lhe um beijo na testa, ajudá-lo a apanhar os fragmentos dos óculos, mas ele podia pensar em enviar-nos o manuscrito e não convém incomodar os editores que sempre gostaram de nós.

Breves questões a um crítico

Encontrei-me com Alberto (o pudor e a humildade inibem-no de revelar o seu nome real), um dos mais prestigiados críticos literários da sua geração, numa reputada e careira confeitaria situada no Rossio. Enquanto aguardava pela minha chegada, este enfermo de uma horrível mania da pontualidade degustou dois “sublimes” pastéis de nata pintalgados de canela, um café “sem princípio” e telefonou à mãe, viúva que reside sozinha num apartamento parisiense a transbordar de gatos. Quando aportei, ainda dentro dos trinta minutos académicos, repousava em cima da mesa do pensador um montinho de obras poéticas dadas à estampa por talentos lusitanos para mim desconhecidos. “São bons?”, perguntei-lhe, ao que me respondeu que não sabia, pois não tinha por hábito ler livros sobre os quais escrevia. Os livros estavam ali à espera de um garçon escrevinhador de versos, que trocava bolos por poemas.

 

Num lendário bate-boca travado com o chamado “Poeta Desconhecido”, Alberto afirmou-se recentemente como o supra-Gaspar Simões. O que quis dizer com isso?

 

Em 1912, Fernando Pessoa anunciou a vinda do supra-Camões. Presumo que o novo Camões fosse o próprio Pessoa. Dada a minha natureza chalaceira, não demorei a apossar-me deste supra que, a juntar a Gaspar Simões, símbolo da crítica literária, me conferiria o transcendente título de crítico-mor da pátria. Quem, para além de mim, o melhor dos melhores, o crème de la crème, poderia assumir esse papel? Além disso, é notória a influência que o meu método de trabalho tem exercido sobre outros críticos.

 

Como descreveria o seu método de trabalho?

Há uns anos, ainda jovem de barba rala, lia qualquer coisa, devorava literalmente tudo. Era confuso, não distinguia os bons dos maus livros, até que uma depressão nervosa me fez entender que não havia homem mais importante no meu mundo do que eu. Reduzi as leituras até chegar a um número redondo, o zero. A leitura perturba o discernimento, a capacidade analítica. Passamos pelos dias sem dar pelo sol ou pela chuva, zonzos de tanto papel varado. Pagam-me para escrever uma vez por semana, abandonar a leitura foi um grito de sobrevivência. Chegara ao precipício da existência, ou eu ou os livros, ou a saúde ou o vício do entretenimento. Optei pela sanidade mental, livrei-me dos livros, de todos. Acredita que não tenho um único livro em casa? Nem um livro de receitas, nem uma lista telefónica. O meu método de trabalho é, pois, intuitivo, baseia-se na crença no poder da adjectivação e das frases floreadas.

 

Como avalia livros que não leu?

Confio no que ouço e no que sinto, conheço críticos e escritores, frequentamos as mesmas festas. E medito sobre o que vejo. O aspecto do livro é fundamental: a cor da capa, a fonte escolhida, a fotografia do autor. Em suma, o bom crítico depende do bom gosto. 

 

Poderia aprofundar sobre o “poder da adjectivação”?

Com o adjectivo, meu companheiro de longa data, evito horas de reflexão. O que demoraria um dia a escrever sai em dez minutos. Um “brilhante” resume um livro. A um poeta estreante ofereço o clássico “fulgurante” ou o mais composto “pedrada no charco”. Descubro expressões invulgares. Veja bem que fui eu quem esgalhou a seguinte frase: “Manuel, poeta lúcido cujo maior talento é deslindar, de modo vibrátil e voluptuosamente feérico, as angústias do mapa rememorativo.” Como se traduz uma frase destas? De modo nenhum. Nem eu sei o que pretendi dizer. Inspiro-me, despejo estes lirismos. Se me confrontarem, se me acusarem de não fazer sentido, retruco que para um asno só a palha é literária. Há uma outra questão, já abordada por seguidores meus, relacionada com a limitação de caracteres de um artigo de jornal. Como poderei reflectir sobre um livro se não me dão espaço para o fazer? Sou apologista do ensaio longo. Como não me dão espaço para esse ensaio, protesto com uma retórica absolutamente acrítica.

 

Que conselhos daria a críticos emergentes?

À semelhança de qualquer artista, o crítico depende das suas capacidades criativas, do tão desvalorizado talento, que é uma energia inata. Nascemos ou não dotados deste dom – porque é um dom avaliar convenientemente um livro sem o conhecer. Seguir o coração parece boa recomendação.

 

O crítico, exausto, recusou-se a responder a mais perguntas. Despediu-se com um intenso beijo na face e esfumou-se na tarde chuvosa. 

Os melhores de 2015

Um poeta escreve

Um poeta escreve

País de jograis e de génios nem a chicote domáveis, Portugal pauta-se por uma fecundidade criativa que desacredita a feitura das habituais listas dos melhores do ano. Ciente da abundância criativa lusitana, a massa crítica que coloniza os nossos (leia-se chegados ao coração) escassos mas valiosíssimos suplementos culturais tende, e bem, a suprimir análises que incluam reflexão. A ausência de fontes credíveis impossibilita-me de descobrir quem tem barrado (um político sinistro, um perverso legislador?) o acesso dos mais reputados críticos nacionais a algo por cá tão pouco massificado como o pensamento, faculdade humana nefasta para indivíduos inexperientes ou inabilitados para agir desprovidos de psicopatia. Quem foram, então, os mais grandiosos prosadores e versejadores deste Portugal mais nascido para sentir do que para raciocinar? 

Da vasta produção poética de José Não-Bebas-Tudo (nome de guerra), que infelizmente não desaguou em mais do que meia-dúzia de versos impressos, sobressai o poema “Complexidade do amor”, dado à estampa pelo guardanapo do café que quis o acaso que fosse eu, atenta às minúcias artísticas, a encontrar. Neste poema, que evito reproduzir para instar o leitor a percorrer os cafés do Chiado em busca de semelhante guardanapo, José, apenas José, quebra as regras da poesia. Soprou-me um anjo que se projecta para 2016 o lançamento em livro de uma recolha dos mais belos guardanapos deste delinquente literário que, a viver à conta da reforma da avó, comprova que Portugal não respeita os seus artistas. 

Do céu caiu uma estrela, o revolucionário Manuel Gandulo, pois claro. Marginal por vocação, desliza pelos balcões do Cais do Sodré numa obsessão pelo vómito da sociedade que o torna personagem central da sua arte. Quem o vê passar durante o dia, encostado às paredes para não tombar de bêbedo, não consegue imaginar que o esfarrapado, malcheiroso e cambaleante barbudo com tiques de arrogante (não me toque, não me toque que sou poeta, brada a cada esquina) representa na verdade o que a poesia tem de melhor: a capacidade de transpor para a arte a bestialidade da vida. Se este piolho andante nunca escreveu, foi por disso não ter necessitado: a sua pose transcende o papel e a caneta. 

Criado em berço de ouro, o jovem António Mais-Subterrâneo-Não-Se-Arranjava não se rendeu a um determinismo que o empurrava para uma carreira na advocacia ou como representante da República no Parlamento. Os sete anos monasticamente cumpridos na Faculdade de Direito foram-lhe essenciais para compreender que a sua missão no planeta diferia da missão que os pais diziam ser a sua. Lidos os primeiros poemas, meteu na cabeça que seria poeta laureado e sisudo. Num afã de ser outro, fez o possível e o impossível para conquistar um lugar ao Sol. Perseguiu, ameaçou e espancou os mais nomeados críticos da praça. Não desistiu até ter revista, editora e livros próprios. Em 2015 consagrou-se como artista de excelência com um livro banalíssimo que, depois de coagida por sms nocturna, direi que me parece promissor se lido de trás para a frente e de olhos fechados. 

Quem quer saber do que de melhor se publica no estrangeiro quando o que é nacional supera o resto? Das subtilezas da intuição e do sentimento sabemos nós, povo fundador de uma ruralidade divina, homens-trovão, descendentes de Neptuno, filhos de Viriato, heróis de uma Expansão futura.