Adam Zagajewski, "Vocês são os meus irmãos mudos" 

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Vocês são os meus irmãos mudos, 
os mortos. 
Jamais vos esquecerei. 

Em velhas cartas encontro traços da vossa escrita, 
que trepam até ao topo da página
como um caracol a subir o muro de um hospital psiquiátrico. 

Os vossos telefones e moradas acampam continuamente
nos meus cadernos, esperam, dormitam. 

Ontem estive em Paris, vi centenas de turistas
cansados e gelados. Pensei, são como
vocês, não podem encontrar um lugar, circulam inquietos. 

E todavia, pareceria que isto é tão fácil, viver. 
Basta um punhado de terra, um navio, um ninho, uma prisão, 
um pequeno fôlego, algumas gotas de sangue e saudade. 

Vocês são os meus mestres, 
os mortos. 
Não se esqueçam de mim. 

Adam Zagajewski, "Tenta louvar o mundo mutilado"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

 

Tenta louvar o mundo mutilado.
Recorda os longos dias de Junho
e os morangos silvestres, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que cobrem metodicamente
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens de louvar o mundo mutilado.
Observaste os iates elegantes e os navios;
um tinha uma longa viagem pela frente,
ao outro esperava-o apenas o nada salgado.
Viste os refugiados que caminhavam para lugar nenhum,
ouviste os carrascos que cantavam com alegria.
Deves louvar o mundo mutilado.
Recorda os momentos em que estiveram juntos
no quarto branco, as cortinas movendo-se.
Volta em pensamento ao concerto, quando a música eclodiu.
No Outono colheste bolotas no parque
e as folhas rodopiavam sobre as cicatrizes da terra.
Louva o mundo mutilado
e a pena cinzenta, perdida pelo tordo,
e a luz delicada, que erra e desaparece
regressa.


Sobre o autor

Adam Zagajewski (1945) é um poeta, ensaísta e tradutor polaco. Nasceu em Lviv, actual Ucrânia, tendo mais tarde estudado em Gliwice e Cracóvia. Viveu em França e foi professor nos EUA e na Polónia, trabalhando actualmente na Universidade de Chicago, onde lecciona um curso sobre Czesław Miłosz. A sua poesia, marcada por imagens límpidas e um tom discursivo e íntimo, partilha de muitas das obsessões da restante literatura polaca moderna (o holocausto, uma relação peculiar com o Cristianismo, a cultura europeia), mas também tópicos pessoais (a relação com os pais, a memória, a música). Está traduzido em várias línguas e venceu, entre outros prémios, o Neustadt em 2004 e o Princesa das Asturias em 2017.