Germe
/aos sete encontrei
um
besouro enorme e morto
no quintal
da casa da
infância
o reflexo verde do
sol daquela tarde
está
para essa lembrança como
estão as palavras
mãe motor e fermento no
resultado
da busca pelo
sinônimo da palavra culpa
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
aos sete encontrei
um
besouro enorme e morto
no quintal
da casa da
infância
o reflexo verde do
sol daquela tarde
está
para essa lembrança como
estão as palavras
mãe motor e fermento no
resultado
da busca pelo
sinônimo da palavra culpa
1
Agora trancado em casa
De mãos
Bem lavadas Você
Poderá tocar os contornos
Da apatia no teu rosto
2
Para vestir corretamente a
Máscara Você
Deverá permanecer em estado
De pluma
Lembra-te urgente
De teu estado
De pluma atrás Você
Das outras máscaras Você
Um espelho salpicado
3
Pensas
Quem?
Pensa quem ninguém irá estercar a larga
Jardineira das prerrogativas Você
Isso Você aquilo
Diriam
Isso é
Tudo pensa
Diriam?
Quem? Uma
Maldade de pássaros desinfetados?
Vo Cê
4
Talvez a febre talvez o
Silêncio seja a granja suscetível talvez
O latido na rua seja
Um grito de prazer talvez
Você
A honestidade de um raio de
Sol acelerando a poeira
Na
Folha do
Antúrio talvez a
Véspera seja a pena a
Poeira a
Debilidade é ganhar
Votos
A véspera é
A pena
5
Agora Você trancado em
Casa
De mãos bem lavadas
Você
Tu
Umas plumas
De ti
Tocando convívio
Com outras de
Ti
6
A sombra da mobília entrega
Maquetes
Das garantias da cidade
Você
Esteja você à cintilação das tuas
Fianças
7
A sorte assim
Passada feito
Filme que passa à tela
Da morte
Você
Uma ereção à sorte alguma
Suave neurose nenhuma
Febre à sorte
40 graus medidos
A
Mesma
Sorte
8
Apaziguamento então passa
A ser
Nuvem drástica nuvem
Presencial extremada apaixonada
Distante carecida de
Reformas carecida
De
Higiene Você se
Entrega
9
Pensa
Ainda pensas
Sobre as
Prerrogativas nas jardineiras pensa
Quem um sorriso de
Vergonha um gesto anônimo
Uma semente ocasional as tintas do
Que pensas
Você
10
Suceder então
De mãos bem lavadas como
Um
Paciente trancado da cura dos outros sucede aos
Pulmões rebuscados
Sucede
Que
Ainda a jardineira esteja talvez
Você a
Ereção talvez a véspera
Seja talvez
Suceder
1
o sino da paróquia São João Batista
assusta as moscas na banana
as moscas deixam a banana sem
deixar a atmosfera da fruta
o sino cala as moscas voltam
politicamente magoadas
2
o gato um mamão as patas
o motor dos gatos os gatos suas patas
minha boca incha
golpeio o mamão com a cabeça de
um
dos gatos
volto a contar os gatos suas vidas suas patas
3
aquele pombo no teto da paróquia
São João Batista manca pela
secular linguagem em ser desacreditado aquele pombo no teto
4
pesa no sono a
cabeça da
barata pesa o sono
junto da agonia são tantos os joelhos da
barata
pesam as asas e eu não posso me cansar
pesam a volta o limite minha cabeça doem
meus joelhos
5
passa um menino que vem
da
cerimônia de sua primeira comunhão na
paróquia São João Batista
passa um lobinho branco com vinho e
pactos até
as orelhas
6
penso se a aranha quase
invisível sabe a liberdade porque se sabe
não parece saber tudo e perde uma das
pernas apesar de saber pouco e nem se afasta e
nem morre apesar da perna
a menos penso quase
invisível apesar de você se uma
perna a mais faz menos barulho nos tacos do
corredor
7
os sinos calam
lenta
a mosca volta
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Carlos Drummond de Andrade
escrevo sentada numa cadeira dura
escrevo para não estar aqui
os gatos desfiam meu vestido
tenho pimenta e sal nos olhos
a mesa
onde o computador
alguns livros remédios meu dedal da sorte
e
uma caneca da décima primeira
festa do chopp de são bernardo com
uma régua canetas e um pincel
tenho aqui duas gavetas pequenas
na primeira guardo receitas médicas
mais remédios umas moedas grampos de
cabelo e um calendário
russo que carolina me deu
na segunda gaveta guardo nada
tenho gelo e agulhas nos olhos
escrevo para não estar no tempo do meu país
não fui à festa do choop porque
no mesmo ano
numa maternidade bem próxima dali
alguém resolveu que
para a minha vez no mundo
mamãe seria um corte
escrevo sentada numa cadeira assombrada
assombrada pela
décima primeira festa do choop no país das marionetes
Livros, filmes, ideias.