sete setas enquanto você fala


1

o sino da paróquia São João Batista

assusta as moscas na banana

as moscas deixam a banana sem

deixar a atmosfera da fruta

o sino cala as moscas voltam

politicamente magoadas




2

o gato um mamão as patas

o motor dos gatos os gatos suas patas

minha boca incha

golpeio o mamão com a cabeça de

um

dos gatos

volto a contar os gatos suas vidas suas patas



3

aquele pombo no teto da paróquia

São João Batista manca pela

secular linguagem em ser desacreditado aquele pombo no teto



4

pesa no sono a

cabeça da

barata pesa o sono

junto da agonia são tantos os joelhos da

barata

pesam as asas e eu não posso me cansar

pesam a volta o limite minha cabeça doem

meus joelhos



5

passa um menino que vem

da

cerimônia de sua primeira comunhão na

paróquia São João Batista

passa um lobinho branco com vinho e

pactos até

as orelhas



6

penso se a aranha quase

invisível sabe a liberdade porque se sabe

não parece saber tudo e perde uma das

pernas apesar de saber pouco e nem se afasta e

nem morre apesar da perna

a menos penso quase

invisível apesar de você se uma

perna a mais faz menos barulho nos tacos do

corredor



7

os sinos calam

lenta

a mosca volta


décima primeira festa do chopp de são bernardo do campo

       Não, o tempo não chegou de completa justiça.

                                                                                                 O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

                                 O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Carlos Drummond de Andrade


escrevo sentada numa cadeira dura

escrevo para não estar aqui

os gatos desfiam meu vestido

tenho pimenta e sal nos olhos

a mesa

onde o computador

alguns livros remédios meu dedal da sorte

e

uma caneca da décima primeira

festa do chopp de são bernardo com

uma régua canetas e um pincel

tenho aqui duas gavetas pequenas

na primeira guardo receitas médicas

mais remédios umas moedas grampos de

cabelo e um calendário

russo que carolina me deu

na segunda gaveta guardo nada

tenho gelo e agulhas nos olhos

escrevo para não estar no tempo do meu país

não fui à festa do choop porque

no mesmo ano

numa maternidade bem próxima dali

alguém resolveu que

para a minha vez no mundo

mamãe seria um corte

escrevo sentada numa cadeira assombrada

assombrada pela

décima primeira festa do choop no país das marionetes


Enfermaria 6: nova vida

Em Junho, a Enfermaria resolveu alterar o seu formato de submissões abertas. Tomámos esta decisão, numa reunião impecavelmente louca, porque nos pareceu que fazia mais sentido ter um núcleo restricto de colaboradores regulares e alguns autores convidados todos os meses, de modo a trazer alguma diversidade aos conteúdos do blogue e, ao mesmo tempo, sem contradições graves, tentar manter uma linha editorial coerente.

A todos os autores que colaboraram com a Enfermaria até aqui, a nossa gratidão, e serão sempre parte da Enfermaria.

A lista de autores que escreverão na Enfermaria é a seguinte:

 

Convidados em Setembro

Colaboradores regulares

Leituras desta semana

Caderno 5: leituras desta semana

Temos vindo a publicar na nossa página do Facebook e na página do Caderno 5 leituras de textos que integram o Caderno 5. Estes foram as leituras partilhadas esta semana.