Aceitação é a espada que corta a resistência

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Esquartejado por uma dor lancinante provocada pela esposa, um peso no espírito pouco explicável em termos racionais, uma aflição por vezes miudinha, outras vezes avassaladora, comparável a uma impiedosa faca estracinhando carne, vísceras, tendões, ossos, até chegar à alma, Túlio rebolava para o trabalho esquecido das razões pelas quais tanto se aborrecia com relatórios e subserviências do mais variado calibre, tendo mera consciência de que se não comparecesse no escritório, não teria como subsistir, nem como alimentar o inocente bebé que noite sim, noite sim lhe roubava horas de sono com um ruidoso choro que chegava a dar a sensação de rachar o tecto. Cumpria com sacrifício as tarefas que lhe eram impostas no serviço, não perdia de vista o relógio e a passagem dos segundos e dos minutos, ardia numa delirante febre que despontava ciúmes e tremores na perna, o pânico consumia-lhe a atenção, sentia-se tentado a pedir a demissão, a pregar um soco em alguém, ignorava diálogos, interacções, repisava as mentiras da mulher, acontecimentos e diálogos mil vezes na sua mente remastigados, disseste isto, fizeste aquilo, mentiste aqui, traíste acolá, meditava sobre o que lhe sucedera, sobre o que lhe poderia ainda ocorrer se não se desligasse de tão inconsequente pessoa como aquela com quem, num momento de clara perturbação, se casara. O bicho encolhia-se em posição fetal no comboio, apertando o dilacerado peito, rogando a uma força maior que aquele mal-estar se extinguisse, que lhe surgisse algo ou alguém que lhe enchesse outra vez o coração de luz, que o resgatasse daquele purgatório sem fim. Abria a porta de casa com aparente tranquilidade, fazendo cara de Buda, ainda influenciado pelas palavras apascentadoras do monge da rádio que lhe ensinava a respirar, abancava a jantar como se ali não estivesse, negligenciando o bebé, que atirava comida para o chão e esfregava as porcas mãos nas paredes, e a mulher, suave mulher, que mantinha o sorriso e um falso optismo que nada acrescentavam ou retiravam à infelicidade que entre o casal se intrometera, fingia mastigar, acenava que sim, que o dia correra bem ou assim assim ou igual aos outros, que tudo regressava ao seu lugar, que perdoava por não haver outro remédio para quem amava a não ser perdoar, mas a cada novo dia aparecia mais mirrado e enrugado e pronto para se entregar a uma morte rápida, indolor, trazida talvez por um frasco de comprimidos e uma corda à volta do pescoço.

Túlio lera algures, provavelmente numa revista abandonada na clínica do dentista que quinzenalmente visitava para chumbar um dente, que um coração partido demorava cerca de três meses a sarar. Essa tão científica previsão fora lida poucos dias após o choque ou, como lhe chamava, o dia em que fora transportado da realidade para um submundo de lágrimas e infindos prantos. Esperara ardemente pela passagem dos malfadados noventa dias, esses noventa dias multiplicaram-se por dois e depois por outros dois, o coração sangrava, Túlio esvaía-se em sangue, as acções da esposa ardiam-lhe na imaginação. Encontrando-o pálido, um conhecido citou-lhe um sábio antigo: não há mal que dure cem anos. Meio ano, oito meses, soava a eternidade. Sofria ainda como um condenado, sem saber para onde se virar, com quem falar ou que fazer para se livrar daquele peso morto que era a enxurrada de memórias e de destruição. Que queres fazer hoje?, perguntava-lhe a estremosa esposa, depois dos seus erros ainda mais estremosa. Túlio, acobardado, calava a verdade dentro de si entranhada, temendo exteriorizar o nojo que por ela sentia, evitando comentários insultuosos, que não a queria mais à frente, que vomitava pensando nela, que olhar-lhe para a cara era o suficiente para que o dia lhe saísse mais azedo. Quero-te daqui para fora, disse-lhe uma vez, talvez pouco convincentemente, uma vez que ela não o levou a sério e ainda gozou com o seu efeminado tom de voz. Raspa-te para longe, berrou-lhe noutra ocasião, mas ela, rainha da miséria, gargalhou, e com a gargalhada enterrou-o numa lama depressiva feita de culpa e de silêncio e de repressão e de raiva.

Espremido pelo sofrimento, desesperado por encontrar alívio, Túlio submeteu-se à meditação, a idas diárias à missa, à leitura regular de passagens da Bíblia, adquiriu crucifixo, alterou hábitos alimentares, dedicou-se à prática de exercício, mudou de café para algo mais calmante, como chá de ervas, comprou caderninho que em pouco tempo ficou abastecido de afirmações positivas e de intenções para o futuro, e a sua personalidade não tardou a evidenciar progressos. Sorria mais, surgia mais amigável e tranquilo em termos de aparência, preocupava-se quase nada com a labuta, adquiria roupagem supimpa, ceava em restaurantes da moda, tratava de si, no fundo, como mandavam os manuais de auto-ajuda e os líderes espirituais com que se ia cruzando, nomeadamente os jovens fumadores de haxixe que em bares e cafés lhe viravam as cartas do tarot e lhe mostravam o caminho dos astros. Mas sempre chegava a altura de se deitar na cama. Tropeçava nas pernas da mulher, enfrentava-lhe a carantonha antes de dormir, e aí todos os esforços de superação emocional e mental caíam por terra. Aos poucos, instalou-se na mente de Túlio a convicção de que, de modo a curar-se do mal de amor, teria de apagar a mulher, não somente afastar-se, pedir o divórcio, apagá-la, matá-la. Gizou um plano. Gizou uns dez planos. Em nenhuma altura ganhou astúcia e determinação para os pôr em prática. Envenená-la trar-lhe-ia problemas com a polícia. Esmurrá-la até lhe desencaixar o cérebro do crânio idem. Esquartejá-la e enterrar os pedaços em diferentes regiões do país também não dava a impressão de ser ideia bem estruturada, que tivesse possibilidades de o livrar de buscas e de interrogatórios policiais. Assim, e visto que a desesperança e os desejos de vingança comandam o animal por educar, Túlio aproveitou o apetite sexual, em certa noite pela esposa evidenciado, para se esgueirar para debaixo dos lençóis e, por intermédio de duas barras de dinamite, rebentar com ela, com o prédio e com essa inútil coisa, a vida.  

 

Kanye West & Make Myself Great Again

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A grande polémica política americana da semana passada relacionou-se com o regresso de Kanye West ao Twitter e com o reafirmar do seu apoio ao presidente Donald Trump e à causa Make America Great Again. De início, o estrangeiro recém-chegado à América assusta-se com o aparente apocalipse que se abateu sobre o país: parece que se está a viver o pior dos tempos, com políticos impiedosos a quererem impor medidas que põem em causa os direitos dos cidadãos em áreas tão vitais como a saúde, ou com um presidente egoísta ansioso por deportar tudo o que não seja americano. Mas como um ataque de pânico, o susto inicial passa e, acostumado ao clima e às gentes, o estrangeiro já não se arrepia com a CNN ou com qualquer outra fábrica de telenovelas. Todo o acontecimento, inclusive uma ameaça de guerra nuclear, é convertido em espectáculo e circo. Seja como for, a América acordou em crise por Kanye West, fulcral para a manutenção do seu casamento com Kim Kardashian, figurar agora como um dos defensores de alguém tão contrário a valores tendentes para a tolerância e o cosmopolitismo. Quem estiver a par da obra e, especialmente, do percurso intelectual de West, intui que o que mais importa para si é provocar, e provocar com sentido de humor. Há uns dias, West escreveu no Twitter: “Harvey Levin of TMZ your [sic] hearing from your future president. Let’s be friends. Please never use the word erratic to describe a person who is economically and psychologically empowered.” A primeira coisa que se sente ao ler isto é vontade de rir, porque é esse um dos intuitos do rapper, fazer rir. Isso leva-nos a Trump e a algo (talvez) mais relevante. Trump é alguém que, tendo muita confiança em si mesmo e não vendo limites para a sua ambição, não leva nada a sério, nem a presidência americana, e por isso se tornou presidente. Kanye percebeu que não é preciso andar no sistema, ser um político com um discurso estruturado ou ser afiliado num partido: o fundamental numa sociedade como a americana, desprovida de ironia e de humor, é levarmo-nos mais a sério do que a presidência. Não é só a ausência de estofo intelectual que leva Trump a insultar ou a humilhar jornalistas e adversários políticos, a ameaçar a Coreia do Norte com “fogo e fúria”, é também uma vaidade desmedida que faz da sua pessoa alguém que tem conseguido tudo o que tem desejado. E este é Kanye: uma criatura tantas vezes idiota, sim, mas talentosa, que não encontra limites, que percebeu que este sistema americano, que este mundo, pode ser conquistado por via da vontade e do riso. Facilita pensar em Trump ou Kanye como gurus do optimismo e da comédia que, mais do que desejarem uma América renascida, desejam uma América vergada aos caprichos de um Eu cómico e imprevisível.

Como o rei que se perdeu

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Para a Penélope

Como Agamémnon, que sacrificara a filha para poder guerrear os troianos, Josué sacrificara a família para atingir o sucesso num país distante, mas esse sucesso, ainda não tangível, sabia a cascalho, a cacos de vidro às voltas na língua. Sucesso real, reconhecia agora, esventrado e perdido, espreitando um irrecuperável passado estampado em fotografias e memórias enegrecidas por comportamentos dignos de chimpanzé, de um primata a enxertar as paredes com murros, a partir pratos, molduras, portas, armários, a zurrar, minuto sim, minuto sim, a vomitar ódio e caos, era o terno sorriso da menina a puxar-lhe a manga da camisa para o sofá, a mulher a enlaçá-lo na cama e a cantar no chuveiro. Este era o sucesso que durante tantos anos o acompanhara e que, aos poucos, sem saber bem como, perdera, ou fora perdendo, visto que a mulher, mesmo que alterada e também consumida pelas suas próprias falhas, ainda o seguia. Ajoelhado na igreja, com a testa colada às mãos, a benzer-se sem parança, a repetir a ladainha apreendida na catequese, o pai nosso que estais…, mergulhava no passado, nos seus erros, imbecis erros, no que poderia ter feito melhor para ter actuado como alguém compassivo. Da igreja saltou para o balcão de um bar, local onde permaneceria semanas a fio esvaziando grades de cerveja, agarrado à possibilidade de perpetuamente anestesiar a mente, aplacar a dor, esse cruel torniquete que lhe ia estrangulando a sanidade e o afastava da família que tanto adorava mas que, devido à incapacidade de esquecer, de se perdoar a si e aos outros, fugia. A terapia por via do alcoolismo cedeu passagem ao sexo pago, ao estúpido esbanjar de dinheiro nas nádegas de uma Maria Francelina ou nos peitos de uma Marília, fêmeas medonhas que não rasuravam sentimentos fortes como a amargura e o nojo. Esgotadas várias técnicas curativas, despertou Josué uma manhã abalado por um turbulento pesadelo, o de ter perdido mesmo tudo, o de já não ter sequer a mulher e a filha a seu lado, e nesse momento várias partes do seu corpo explodiram, primeiro uma perna, depois um braço e uma orelha e, finalmente, após tanto e tão tristemente bater, o coração. Josué passou a existir como pessoa destituída de cara, de altura, de peso ou de beleza, para se tornar num tempo presente que olvidara o ódio e a raiva, que sacudira a mágoa para abraçar aquilo que de mais profundo a sua existência continha,  o amor.  A filha brincava com um comboio na carpete da sala, a mulher descascava cebolas, Josué, invisível, aproximava-se delas, acariciava-as, elas sentiam a sua presença, ele amava-as, mas não era o mesmo. 

 

 

Sobre o amor

Para a Sara

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O meu marido nunca me fará isto, diz ela, a minha mulher nunca me fará aquilo, assegura ele, e no fim, não bem no fim, por não haver fim para as histórias de amor, descobrem que são ambos humanos, que os contos de fadas que lhes haviam contado sobre o casamento não se enquadravam em nada com a natureza humana, ou melhor, que os contos de fada existem mas requerem afinações, exigem a inclusão de drama e dor, e que pouco ou nada se salvará um casal que não se deixe levar pelo sentimento que os une, o amor. El pasado, livro de Alan Pauls, é muito sobre isto de duas pessoas que todos, mas mesmo todos, sabem que se amam muito, quase ao ponto da loucura, perderem anos a destruir-se com acusações, com ódios, com rancores, com ciúmes e vinganças, para depois, exaustos de tanto buscarem alimento para o buraco negro que os consome, acabarem juntos, abraçados na cama, a não desejarem mais nada do que ficar para sempre ali, com o coração de um a fazer respirar o outro. Parte do problema passa por sermos animais idiotas, capazes de ir à lua, de fabricar foguetões, mas tantas vezes inaptos para enxergar o óbvio, o que está à frente dos nossos narizes. O óbvio, por exemplo, é a certeza de que o sentido da vida, ou aquilo que achávamos ser o sentido da vida - aquele sonho grande de ascender a rei e ser adulado por uma legião de fãs - , era um escape, um medo de viver a vida real, de amar o próximo, de ser frágil. O real sentido da existência é a menina que nasceu, o filho por vir, a partilha de um jantar, um sorriso, sentir o abraço daquela mulher ao nosso lado deitada, aquela mesma mulher que nos deu origem aos sonhos e nos fez bem, sem sabermos da existência desse bem. Causamos sofrimento ao outro tantas vezes por amá-lo, por ainda não termos crescido, por não sabermos o que fazer a um sentimento mais forte do que o cérebro, por não sabermos se o sentimento que nutrimos é correspondido, por mil e uma razões que nos desviam desta necessidade vital que é aprender a amar sem mais, com fé, com a certeza de que depois daquilo não haverá mais nada na vida a não ser escuridão. Em vez de raiva pelo mal que a pessoa amada nos causou, a pessoa em sofrimento pode assumir que esse mal foi causado por outro mal, e que esse outro mal causado por outro mal, e isto até ao infinito, até perceber que no peito esventrado circulam um amor e uma bondade superiores ao osso, à carne, ao pêlo, e que não há ego, orgulho, vaidade ou ressentimento que não se consiga vencer, quando dois corpos que deviam ser um só se encontram no mundo e não sabem existir um sem o outro. 

O experimentador de meninas

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“Não entendes”, soprava Bósforo, amaciando a pança inchada, a digerir um tacho de ensopado de vitela. “Nunca entendes”, repisava, bêbedo de refogado, travando uma ameaça de vómito. “Qual destas peruas me entende?”, zurrava, eriçado, entre murros no balcão e arremessos de cuspe para o piso alcatifado. Meio morto a seu lado, também carregando a sua dose de ensopado, Bucéfalo, amigo de infância, espécie de aguadeiro ou conselheiro ou ouvidor, palitava os dentes, enviava gordurosas beijocas para a curvilínea bartender a torcer o nariz de nojo à distância, e acenava que sim, muitas vezes que sim, lamentava a falta de reconhecimento que mentes abrilhantadas por talento artístico, como a de Bósforo, a pessoa mais inteligente e mais tudo que conhecia, obtinham da sociedade. “Vivemos num país decadente”, doutorava Bósforo, instigado pela lembrança de ter espatifado meia década a escrever à máquina um livro de novecentas páginas, uma mastodôntica história de amor baseada em “factos verídicos”, envolvendo um tio padre de aldeia, uma beata viúva, lascívia e pecado. “Para quê escrever?”, gemia, suado, Bósforo, para quê escrever se as editoras não lhe respondiam (trinta cartas devoradas pelo desprezo), se as novas gerações, sorvidas pelo narcisismo, nem punham a pata em livrarias, se até o trabalho lhe cortava a vontade de escrever. Bucéfalo, cuja apatia era razão para a existência de um contínuo fio de saliva a escorrer-lhe da beiça, tremia das pernas ao pensar na profissão do amigo, não concebia que alguém, muito menos o amigalhaço, se queixasse do melhor trabalho do mundo, o de experimentador de meninas, e por essa razão arregaçou as mangas da camisa e esmagou ao soco os amendoins à sua frente espalhados e ladrou que não se cuspia no prato daquela maneira, que o ofício de provador de meninas era o grande sonho masculino, que todos os dias pedia a deus que lhe enviasse um primo, um cunhado, alguém que o contratasse para ir para a cama com as mulheres que se candidatavam para trabalhar em bares de alterne. “Troca comigo”, propôs Bucéfalo, proprietário de um cargo de professor de literatura numa escola pública, dono de uma página de crítica literária em prestigiado jornal. Bósforo já não obtinha prazer das mulheres, perdera o gosto à coisa. Depois de mil e muitas vaginas, esquecera-se do amor. O sexo, industrializado, esvaziara-lhe a alma, carecia de contacto humano, do carinho que galdéria alguma conhecia. Assistia a telenovelas para se emocionar. Berrou que aceitava trocar, tornar-se crítico literário e professor, abandonar o mulherio. Fez-se silêncio. As prostitutas da sala aguardavam resposta. “Não posso”, abafou Bucéfalo, fazendo contas ao seguro de saúde, ao empréstimo da casa, aos anos de serviço que lhe restavam para a reforma. “Igualmente”, ripostou Bósforo, outra vez apaixonado pela Marta, pela Rita, pela Maria, pela Madalena, fêmeas por ele provadas e contratadas. Bucéfalo coçava-se, não tocava em mulheres sabia-se lá desde quando, e então perguntou: “Se te elogiar o livro no jornal, permites que experimente aquela ali, a bartender?” Bósforo retorquiu: “Se permitir que experimentes a Vanessa, uma das minhas favoritas, consentes que escreva duas crónicas por ti no jornal, para saborear a fama?” Após cavalheiresco aperto de mão, seguiu-se amazónica bebedeira que lhes varreu da memória qualquer conversa ou acordo.