O corpo feminino 

 Ele disse, não quero uma dessas coisas cá em casa. Dá uma falsa noção de beleza a uma menina, já para não falar de anatomia. Se uma mulher fosse feita assim cairia de borco. Ela disse, se não a deixarmos ter uma como todas as meninas, ela vai-se sentir isolada. Vai-se tornar num problema. Vai ansiar por uma e vai querer ser uma. A repressão gera sublimação, sabes bem isso. Ele disse, não são só as mamas de plástico pontiagudas, são as roupas. As roupas e aquele estúpido boneco masculino, como é que ele se chama, aquele com a roupa interior colada. Ela disse, é melhor despachar isto enquanto ela é pequena. Ele disse, está bem, mas não me deixes ver. Veio a sibilar pelas escadas abaixo, atirada como uma seta. Completamente nua. O cabelo tinha sido cortado, a cabeça virada de trás para a frente, faltavam-lhe alguns dedos dos pés, e estava toda tatuada com arabescos de tinta roxa. Atingiu o vaso das azáleas, tremeu por um momento, como um anjo remendado e caiu. Ele disse, acho que estamos safos, o perigo já passou. 

Margaret Atwood
Tradução de Maria Sousa  

 

As Aventuras do Senhor Lourenço (§22 Lourenço no Correio da Manhã)

(cont.)

[não tenham pena do que vai acontecer ao Lourenço, o trágico, ainda que banal, continua a ser um poderoso antídoto contra as formas de anestesias gerais, o universal bocejo de indiferença em que vivemos]

O trágico enfeitiça, mesmo os sacrificados. Creio que Édipo não trocaria a sua biografia por uma entediante vidinha de heleno bem comportado.

[já o escritor desta história, fiel aos factos, revisitáveis na memória do mundo guardada no Google, tem um receio de morte de não passar de pequeno escritor de novelas, enfeitadas com falsas intensidades e peripécias de cordel, adornos de feira, preenchidas por personagens que dificilmente cumprem o plano de parecerem vivas e autónomas, peças fraquinhas de um relógio acebolado]

Referi algumas vezes que Lourenço tinha qualidades, sem que a avaliação fosse influenciada pela nossa amizade. Objectivamente, ele possuía bons traços de personalidade. Destaco a recusa em lamentar-se, evitando assim “ancilosar-se no seu modo de ser.”

Regressemos à história. Numa manhã de finais de Maio, à ida para a escola, Lourenço passa os olhos pelo Correio da Manhã exposto no quiosque da estação de metro, lendo: “LOURENÇO MENTIU!” Primeiro, pensou num qualquer jogador de futebol ou numa estrela de reality show. Durante umas centenas de metros foi tecendo um puzzle simples com esse título do tablóide mais bem sucedido de Portugal. Chegou mesmo a pensar numa leitura nietzschiana, a contra-pêlo, da indignação (no mundo da comunicação social, indignar continua a ser lucrativo). Só quando se sentou numa carruagem de metro meio vazia explodiu no seu cérebro a possibilidade do “Lourenço” ser ele. O “posso ser eu” encheu o seu corpo de adrenalina, tanta que o coração ameaçou parar antes de se pôr ao trabalho, bombeando um fluxo inabitual de sangue para repor o equilíbrio vital, mas fê-lo atabalhoadamente, excedendo-se bastante, obrigando uma grande parte do sangue a viajar até às extremidades do sistema circulatório, junto à pele, para se arrefecer. Pouca sorte, ficou vermelho como um tomate maduro sem ganhos fisiológicos, o dia quente e húmido, prova da primeira onde de calor do ano, não refez a harmonia térmica.

Na próxima estação, Lourenço saltou do lugar e esticou o passo para chegar o mais depressa possível a um quiosque de jornais. Ia em contra-corrente, como quase sempre na sua vida, chocando e pedindo desculpas. Sempre gentil, apesar da ansiedade. 5 minutos depois comprou um Correio da Manhã, abriu-o e foi à procura da notícia. Estava logo na página 3, uma fotografia enorme de si e um título, “Fomos bem enganados!”, definiam a trama geral da folha, preenchida por texto, muito texto para um tablóide.

Segundo o jornal de faca e alguidar, especializado em desgraças sexuais, vitais e políticas, mistura de estilo vertiginoso e libidinoso, Lourenço atirou-se sobre o terrorista porque tropeçou enquanto fugia do local em pânico. Aliás, segundo uma “fonte idónea”, pertencente ao grupo do Lourenço durante a caminhada pelas linhas do metro, o suposto herói “tremia como varas verdes”, foi necessário animá-lo constantemente. Depois, quando chegaram à estação, ele foi o primeiro a querer fugir dali, mas a aflição tolheu-lhe os movimentos e acabou por se atrasar. Apesar disso, continuava a fonte, lá conseguiu, e uma vez na plataforma foi o “ver se te avias”. Felizmente, “tropeçou em alguém ou em si mesmo e foi aterrar, para bem de todos, em cima do bombista.”

Em hiperventilação, Lourenço procurou no passado factos que desmentissem aquele, ou aquela, merdas. Fê-lo uma e outra vez, mudando de perspectiva e esforçando-se por invocar detalhes redentores. Mas não conseguiu encontrar provas irrefutáveis contra a fonte. Nem as imagens do circuito vídeo interno, que só captaram o mergulho final sobre o bombista, seriam de grande ajuda. Talvez o jornal tivesse razão, como poderia ele, em consciência e liberdade, ser um herói; ele que hesitava por tudo e por nada, ele que nunca teve coragem além da necessária para fazer uns exames académicos, apanhar transportes públicos e ir sozinho à feira do livro; ele que aliava niilismo e conforto; ele que enquanto jogou futebol quis sempre ir à baliza?

Dois poemas

INSTRUÇÕES DE EMBARQUE

 

Encenar sem cuidado lágrimas falsas, alarmes de crocodilo, mãos espalmadas e patas no precipício (histórias de pescador dormir).

 

Falar com voz engasgada em nome de, em vão, das coisas enferrujadas, das cartas de gaveta, maracujá-passa, das malas vazias, esteiras cortadas, e do nome sem dono.

 

Disparar roleta-russa: embargar o nome do poeta ao contrário, em cor etérea, cantar violino no telhado esverdeado ao largo azul da zona desconforto que estoura o silêncio com passagens estreitas sem contorno.

 

Agarrar as sombras de um navio em Dakar.

Seguir os passos do avião e abraçar sua sombra que aporta no meio do Não.

Empurrar ao rio qualquer sorte de ocaso e cravar no ar frases

 

sem A, sem Z, sem V, sem T, sem C.

 

 

Amarrar no pé da consciência três dias e deixá-los passar fome.  Esvaziá-los das coisas sonho bom. Estragar os vinte, apodrecer os trinta e matar os quarenta.

 

E depois perder (sim, perder)

as contas: prontas

a paciência: sem licença

a cabeça: onde esteja

 

Mas por favor não,

ouse deixar nada

acompanhado pelo abraço-audácio

que nenhuma mão sabe dar.

 

 

 

PAUSA HEROICA

 

Comentam as estrelas

das cinzas das borboletas

o gene

e

a

p

o

e

i

r

a

as velhas novembram

 

* 

 as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas  
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à 
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos  
desde dezembro anterior  
nos janeiros da apanha  
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores  
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais      
espantalhos siderados
em pássaros moveres.  

 

 

na lavoura os pais
à semeia das mães
joeiram os filhos de  
envolta com o grânulo
cereal lábios de sangue
escorrido entre as pernas
ânforas de vinho nunca  
antes bebido traçado às
escuras em cochos curtidos
contendo o mênstruo doce
dos áceres no interior líquido  
o estame amputado cerca
ao bojo regaço das mães  
enquanto elas ausentes     
amamentam os filhos por  
abortar nos embriões da
terra o útero a céu aberto  
os filhos enjeitados à feiura    
à magreza triste dos cães   
rente ao bordo das cantareiras  
donde se vislumbram defronte  
os cancros tumores brotando  
ao dependuro das árvores
das tardes doentes mais as  
velhas nos janelos a espreitar
cá para fora com os rostos
caiados de morte e uns olhos  
póstumos a anteverem o fim. 

 

 

no tronco das árvores
os sobreiros madeiros
de buxo lenhados por
velhos sem rastro de
corpo esquisso dedos   
em clave a restolharem  
no húmus na caruma  
da tarde espiralam os     
laços em enredos nós
que se lhes apertam
como gravatas ao  
pomo das maçãs.  

Chuva, Papel e Outras Fronteiras

“a escrita seria, ouça, silenciosa,
como os passos claros da neve, o frio aroma dos sentidos.”

António Franco Alexandre

Enquanto leio um livro velho, com cheiros de décadas impregnados no
Papel, a chuva cai lá fora e nos versos cinzentos das páginas amarelecidas,
Então ouço uma motosserra distante, rasgando a carne de um eucalipto,
O serrim torna-se numa polpa húmida aos pés do meu pai abrigado
Dentro do baixo da casa, quando a corrente pára o vento traz as vozes
Dos vizinhos espanhóis, o poema termina e no ar que a página empurra
Surge antes do primeiro verso aquele casaco de bombazina castanho
Que cheirava a outono, atrás da porta do quarto onde dormia,
Então também nos olhos cai a chuva e nas mãos que sentem no papel fino
A vida toda, com ou sem palavras, a motosserra continua até o cepo cair,
Vencido como os olhos que sentem o que não veem e aceitam
A derrota do tempo como a chuva que nunca mais cessará.

Turku 17-04-2016