Essi

 

 

inspirado no poema "Lisa" de Roberto Bolaño, 

 

 

Mal acabamos de foder, disse-me que tinha estado com outro 
Havia dois dias, um gajo que conheço, já o tínhamos feito antes, 
Só te digo porque não quero que haja dúvidas, 
Não éramos namorados, mas tínhamos fodido 
Nas últimas semanas, saído juntos e quase feito amor, 
Naquela noite saí da cama e fui deitar-me no sofá do outro lado 
Do quarto, ela perguntou se eu queria que se fosse embora 
E eu disse que não, às tantas ela atravessa a escuridão 
E deita-se ao meu lado envolvendo-me num abraço, 
Como se me amasse, não percebi que dúvidas ela queria esclarecer, 
Eu virado para a parede, entre o desejo e o ódio,  
Sem saber por qual me deixar dominar, apenas com uma certeza, 
Que nada magoa mais que a honestidade crua do que amamos.  

 

Turku 

 

08.08.2019 

João Bosco da Silva, Um Tropeço nos Dias Quentes

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João Bosco da Silva

Um Tropeço nos Dias Quentes

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Julho de 2019, 108 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

10€


As geadas tornaram-se numa memória quente, enquanto o copo aquece,
Longe, perdido, onde só o cabelo e as unhas crescem, sem caixa e pena
E flores secas, velas, por favor, missas, até o nome se tornar um tropeço nos dias quentes.


João Bosco da Silva

João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia. 

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas:  Revista Inútil n.2, Meditações Sobre O Fim, HARIEMUJ,  Voo Rasante, Mariposa Azual, Caderno 3, Enfermaria 6, Flanzine 8 - Lol&Pop, Flan de Tal, Bukakke, Copus Dei, Persona, do lado esquerdo.

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La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 


26.05.2019 


Primavera Fria - Haikus


Como o amor 
as nuvens —
certeza de precipitação. 

Que sabem as flores 
do vento 
de tempestade? 

Enquanto se espera 
pelo verão 
secam as flores. 

Num canto escuro 
secam as batatas —
batateiras em flor. 

Cheira a madeira 
ferro e terra —
meu esperma imberbe. 

Vazio o regador 
espera 
os dias secos. 

Cresce apenas o silêncio 
e o vazio dos pipos —
aldeia. 

O verde cheiro 
da infância —
chove. 

Torre de Dona Chama, Abril 2019

Fallout

Não é de ti que tenho saudades, mas das ruas escuras das aldeias
Quase desertas e do cheiro a cona nas casas abandonadas,
Os dedos fatigados pela cerveja empurrada na solidão dos tascos,
A entrar na inocência sem lhe tocar, porque está tudo perdido
Antes da evidência das portas dos carros a trancar verdades submissas,
Têm passado anos sobre mim e só tenho ganho o cansaço
Que cada nome me planta nas têmporas geadas pelas manhãs perdidas,
Que segredos te poderia contar, se não fôssemos só carne e fome,
E sonhos contrariados de joelhos, hóstias e penitência,
A primavera é o cheiro que fica no mento imberbe e sedento,
Quando os joelhos se juntam em direcção a um tecto quase ruína,
Não é de ti que tenho saudades, mas das palmas abertas
Revelando ao luar o caminho até ao oblívio azedo dos dias quentes,
O pecado emprestado à festa da terra, o granito que rasga melhor
Que qualquer beijo, com ou sem vontade, a pele que cede, sempre.

Turku

08/04/2019