Anatomias

Demora muito tempo a encontrar o corpo de um poema.
O difícil é a curva perfeita da anca,
ali onde as palavras se tornam repletas de sons admiráveis
e o destino se aproxima rapidamente
por entre pausas, respirações e uma vírgula final,
ao interior de tudo.

Eu era da sua família.
Partilhávamos apelido, cor de cabelo e gosto por orangina.
Acompanhámos, sempre, o florir dos jacarandás
como se isso significasse vida nova.
Demos as mãos muitas vezes na escola.
Vi-o crescer, lentamente, como eu


-     se bem que eu dei um pulo aos dez anos -
e a continuar a gostar de ver desportos motorizados ao domingo de manhã.
Tão parecidos, em muita coisa,
até ao momento em que cada um ganhou identidade.

Ele segue o rumo das palavras que lhe vou dando,
eu esqueço-me tantas vezes de o retomar.
Cada um por si, até ao momento
do reencontro.
- Estavas por aí nessa gaveta e agora precisas de ser terminado.
A curva perfeita ainda está por desenhar
e os sons, sons, sílabas sonoras, sentidas, salientes,
os sons estão quase lá.

Bato na mesa e deixo inundar a sala
como a da vizinha do outro lado da rua depois da chegada dos bombeiros
para resolver um pequeno incêndio de cozinha.
Inundado de palavras
basta pescá-las, uma a uma,
e colocá-las no cesto certo.

Depois,
já não partilhamos os mesmos gostos, nem apelidos, nem destino.
És outro. Livre.

Paralelo 80

Na latitude a que nos gela a imaginação, 
algures depois do paralelo 80,
o branco invade e sobrepõe-se.

Ouvi dizer que, por esses lados,
algumas cidades acomodam deuses.
Vivem com nomes normais
em lugares iguais a tantos outros.
Sentados à entrada das casas
ou nas conversas de café,
jogam cartas como todos os outros
e bebem cerveja quente.
Até mesmo os traços dos rostos
São semelhantes aos nossos.

Só as vozes são mais suaves,
sussurram como o vento polar.
E podem fazer-nos sentir o brilho do gelo. 
Durante o equinócio
Suspiram o regresso a casa
e têm a impressão de, por uma vez,
se fundirem com a paisagem.
O branco dos deuses igual ao branco do ártico.

Por esses dias
há um silêncio que se aproxima em ondas
e que invade discretamente tudo.
Gentes e animais,
cumes e praias.
Não há destinos
nem percursos.
Não há rumos que levem a lugar algum
nem estradas para percorrer.
Tudo se transforma em igrejas
e a respiração torna-se prece.
As vozes são liturgias
e os gestos rituais novos.

Os homens não caminham,
os animais repousam,
o branco inunda.
E os deuses sonham com lagos
e montanhas verdes.
E acreditam ter voltado a folhear os livros sagrados.
E sentem o quente dos tronos que já ocuparam.
E saboreiam manjares divinos
em longas mesas pontuadas pelo mais rico néctar.
E ouvem os bailes.
E acariciam as feras mais dedicadas.

Ainda que encontrem uma solução temporária,
e gradualmente a inspiração se vá perdendo,
estes momentos não deixam de ser milagres.
Os milagres são precisamente isto
- regressos perfeitos.
A possibilidade de voltar às origens
torna-os mais profundos,
mais humanos.
São também vítimas de raiva,
desespero,
preocupação e obsessão.
Profundamente humanos, estes deuses,
quando termina o breve equinócio.

Dizem-me que as cidades são feitas de homens
mas o que as justifica é o ruído.
No silêncio nada é cidade
No branco tudo é horizonte.
No silêncio não há diferença.
É tudo igual a si mesmo.

Sobra a aurora boreal para colorir.

PARALELO 80

Na latitude a que nos gela a imaginação,  
algures depois do paralelo 80, 
o branco invade e sobrepõe-se. 
 
Ouvi dizer que, por esses lados, 
algumas cidades acomodam deuses. 
Vivem com nomes normais
em lugares iguais a tantos outros. 
Sentados à entrada das casas
ou nas conversas de café, 
jogam cartas como todos os outros
e bebem cerveja quente. 
Até mesmo os traços dos rostos
São semelhantes aos nossos. 
 
Só as vozes são mais suaves, 
sussurram como o vento polar. 
E podem fazer-nos sentir o brilho do gelo.  
Durante o equinócio
Suspiram o regresso a casa
e têm a impressão de, por uma vez, 
se fundirem com a paisagem. 
O branco dos deuses igual ao branco do ártico. 
 
Por esses dias
há um silêncio que se aproxima em ondas
e que invade discretamente tudo. 
Gentes e animais, 
cumes e praias. 
Não há destinos
nem percursos. 
Não há rumos que levem a lugar algum
nem estradas para percorrer. 
Tudo se transforma em igrejas
e a respiração torna-se prece. 
As vozes são liturgias
e os gestos rituais novos. 
 
Os homens não caminham, 
os animais repousam, 
o branco inunda. 
E os deuses sonham com lagos
e montanhas verdes. 
E acreditam ter voltado a folhear os livros sagrados. 
E sentem o quente dos tronos que já ocuparam. 
E saboreiam manjares divinos
em longas mesas pontuadas pelo mais rico néctar. 
E ouvem os bailes. 
E acariciam as feras mais dedicadas. 
 
Ainda que encontrem uma solução temporária, 
e gradualmente a inspiração se vá perdendo, 
estes momentos não deixam de ser milagres. 
Os milagres são precisamente isto
- regressos perfeitos. 
A possibilidade de voltar às origens
torna-os mais profundos, 
mais humanos. 
São também vítimas de raiva, 
desespero, 
preocupação e obsessão. 
Profundamente humanos, estes deuses, 
quando termina o breve equinócio. 
 
Dizem-me que as cidades são feitas de homens
mas o que as justifica é o ruído. 
No silêncio nada é cidade
No branco tudo é horizonte. 
No silêncio não há diferença. 
É tudo igual a si mesmo. 
Sobra a aurora boreal para colorir.

Haroldo de Campos

As sereias eretas sobre a cauda bicurva jubilam, dizia Haroldo,
a caminho da sua Itaca
sem odisseu por companheiro,
nem Penelope tecendo sonhos.
Ah grande poeta
para quê tanto mar?
E tanto sal para nos queimar.
E as ondas que nos afastam.
Pórtico.
Entrada.
Acesso.
Abertura.
Por onde ir?
Para te encontrar, ó velho barbudo.
Entre os seus milênios
Fiquei afogando
Os meus poemas.

 

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