[a norte]

a norte

as noites dormem-se

entre mantos pesados

cada grande viga de madeira

um anjo diferente de vigia

os sons quentes

abafados na perpendicularidade

das esquinas

ao pé da criança

a idade é pele sangrada

rasparam já os peixes da tarde

vértebra por vértebra

mas nem o fulgor inebriado dos arrepios

alivia

a fúria de mil braços

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Paul Klee - “Angel Applicant”, 1939.

[pisamos hoje eiras de milho podre]

pisamos hoje eiras de milho podre
lugares onde a fome derrete gorda e crispada nas soleiras
o frio e a aridez dos Homens
cada vez mais líder
em terras e montanhas rugosas de renúncia e conflito


a devastação mora em nós sem adeus possível,
abrem-se de novo as antigas feridas cíclicas
à sombra de cada muro
milhares de crianças com mães no colo
o negrume da esperança que talvez a morte
as ensine a esperar

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“O cavalo de Turim” - Béla Tarr (pormenor)

[em cada novo esboço]

em cada novo esboço

um promontório.

saltamos lado a lado

o mesmo estirador comprido

os mesmos postais do Pompidou

gastos os vazios de Chillida

lápis e catálogos e revistas

que ignoram os nossos olhos baços

em cada novo desenho

um matrimónio.

a minha vida nua

os beijos da tua

como crepitar de fogueiras

raros poemas ameríndios e promessas

o verbo já encarnado

chegaste.

contigo trouxeste a simetria

de dois pelicanos sobre o peito

a alegria de duas ou três

camisas de seda floridas

raras golas amarelas

que ano após ano

me deixam sempre a dúvida:

- o verão não morre em setembro?

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Eduardo Chillida - “Homenagem a Braque”, 1990.

Autores convidados em Janeiro

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Carlos Bessa

Vive e trabalha nos Açores. Tem publicados os seguintes livros de poesia: Lenços de Papel, 1987; Artesanato: 3ª geração, 1988, Legenda, Edições Atlas, 1995; Termómetro. Diário, Black Sun Editores, 1998; Olhos de Morder Lembrar e Partir, Black Sun Editores, 2000; Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina, & etc, 2000; Em Trânsito, & etc, 2003; Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, 2004; Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007; Pai, do lado esquerdo, 2017.

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Fernando Machado Silva

Lisboa, 1979. actor/assistente de encenação, investigador de Performance Philosophy, ex-membro do CFCUL - Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Publicou "Primeira viagem" (Orfeu, 2012), "Passageiros Clandestinos" (Companhia das Ilhas, 2012), "O coração estendido pela cidade" (Gato Bravo, 2017), "Para um outro dia Lázaro" (Enfermaria 6, 2018), "Um espelho para reproduzir as mutações da vida" (antologia 2004-2017) (Companhia das Ilhas, 2018) e um ensaio/capítulo no primeiro volume em torno da Performance em Portugal, "Intensified Bodies from the Performing Arts in Portugal" (Peter Lang, Bern, 2017). Participa em revistas de Poesia e de Filosofia. Vive actualmente em Bad Meinberg, Alemanha, onde estuda e pratica Yoga Integral, segundo a tradição de Sri Swami Sivananda.

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Ricardo Leitão

Nasce no Porto no verão de 1991. É arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (2015) tendo frequentado, ao abrigo do Programa Erasmus, a École Nationale Supérieure D’Architecture De Paris-Belleville (França) e a Faculty of Architecture Chiang Mai University (Tailândia). Co-fundador do atelier de arquitectura atmo, é assistente convidado na Porto Academy desde 2018, tendo organizado o programa Visiting Barragán na Cidade do México (México) em 2019. Colabora desde 2017 com a Biblioteca da FAUP onde investiga e procura uma nova ordem para o repositório de revistas e periódicos do acervo da Faculdade de Arquitectura.