nós somos

A grande verdade sobre todos nós é que todos
nós somos alguém que não somos:
a dolorosa vítima de ontem ou talvez,
com menos alarde e sem qualquer ênfase,
o secreto algoz do amanhã.
Somos todos nós algo que já existia
em qualquer manhã de sangue e horror
antes de nosso nascimento e sob o luar
somos todos o amor renovado apesar
dos mananciais da loucura e do ódio.
Nós somos todos porque tantas vezes
é preciso dar nomes aos aos cordeiros
e então somos todos Heitor
forte, sem os calcanhares de Aquiles
e ainda podemos ser todos Quixote
ou – e quem pode dizer o contrário? -
talvez sejamos todos Rocinante a pastar
a grama verde enquanto no céu
os abutres volteiam e a má sorte
se consuma: aquelas nuvens tão
brandas, amontoados de espuma
que, quando muito, traziam uma vaga
melancolia, mal o sabíamos,
era a neblina que nos cercava,
tripulantes caducos de um navio
que ancora num porto devastado
e ainda antes de dizermos “tarde demais”
murmuramos – como que diante
do espelho – todos nós somos
o outro e ao mesmo tempo
não somos e nesse ser ou não ser
talvez alguém minta: A grande verdade
é que todos nós somos Hamlet
embora muitos não sejam príncipes
e tantos outros sejam os assassinos
do rei – o que importa? O que talvez
defina o herdeiro do trono roubado
é uma certeza que todos nós temos: existe
algo de podre infestando os ares
como a lembrança de um pesadelo
que nos sobressalta sem nos despertar,
que nos leva a um sonambulismo
tão eloquente, a ânsia de gritar
“nós somos” porque, não fosse assim,
o que seríamos nós
além do mais negro silêncio?

Se ao menos não houvesse dúvidas

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo estiolada,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que uma brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores pétreas e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, os gregos, as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
(é aquela hora, a noite densa e terrível)
por uma suspeita que jamais se confirma.
Afinal, o que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de ventos formados durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
essa pedra abrasada encravada no peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.

O Poeta Despede-se de Algo Infinito

Hei de regressar
mas será no inverno
em alguma casa
diante da praia:
o tédio, o sal,
a pele ferida,
ferrugem que a noite
põe nas dobradiças
das portas quebradas
e no coração
que ficou – brinquedo
também esquecido,
carrossel de ferro
que ainda gira entre
risos e ruínas.

No imenso amanhã
o início da chuva
lava até os ossos,
as gaivotas somam
o branco ao branco,
sombras e memórias
(bafejo de nada)
hei de regressar
na aurora depois
das questões inúteis:
brindar com arsênico,
abrir os pulmões
ao vácuo estelar,
escavar a luz
nos subterrâneos.

2. 

No imenso amanhã
um bafejo de sal
o início da chuva
que lava até os ossos
as gaivotas somando
o branco ao branco
e eu de regresso
sombra e memória
na aurora depois
das cogitações inúteis:
beber arsênico
abrir os pulmões
ao vácuo nas nebulosas
escavar a luz
no claustro subterrâneo
abandonar o meu nome
à sorte das raízes.

DIAS BONITOS

Cartago pediu uma cerveja mais escura e amarga e eu pedi uma cerveja normal. Dei o primeiro gole e veio uma náusea branda, quase imperceptível. Quis conversar sobre as meninas que pretendia ver à noite, mas continuei calado: começava a ficar ridículo falar de miúdas e das possibilidades de me entender com elas. O sábado era sem sol, quieto, e, do alto dos telhados, vinha um rumor de pássaros que, batendo asas, alçavam vôo ou pousavam. Estávamos junto ao balcão do cinema da Rua Sebastião, o público para a sessão das quatro horas não chegava e, além de nós e das mulheres que serviam a bebida, não havia mais ninguém.

Enquanto bebíamos, por volta das cinco horas, o sol deixou de se esconder atrás das nuvens e projetou figuras no chão do hall. Ao cheiro de poeira e mármore somou-se o aroma de terra e, mais distante, o de pólvora. Pagamos as bebidas, saímos e tomamos o rumo do salão de bilhar da Rua São José. Cartago afirmava estar bêbado e andávamos devagar.

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Conheço apenas três estações e não há

Conheço apenas três estações e não há
ano que não seja coxo – três estações
apenas: a da luz
prolongada, a da luz estiolada
e a do regresso do calor.
Retornam os dias e retornam
os poemas sobre os seus ciclos.
Olá, coração estragado
como um piano deixado ao sol e à chuva,
como uma aurora boreal
sobre a feiúra dos arrabaldes.

A avenida mais imunda é o início
do que chamo de casa: uma fileira
de terrenos baldios com bichos mortos
apodrecendo entre o mato e as pedras;
torres emulando castelos de princesas
ou coqueiros de néon imitando praias
na entrada de motéis; carcaças de carros;
depósitos de materiais de construção
deixados ao léu; o entardecer
regurgitado por máquinas fumarentas – 
a luz crua, escassa, puída
que resseca narizes e gengivas
e arreganha caninos que sentem fome. 

O meu reino é uma legião
de cavalos magros, de prostitutas
de braços como gravetos e de rapazes
aos quais a noite vêm
e deposita ovos escuros em seus peitos abertos.
Olá, inverno súbito nos estertores
de uma sexta-feira. Faz frio e o metal
das placas de trânsito e dos carros estacionados
é o fio de uma espada gelada
a separar entranhas e a torturar o tédio.
Por vezes chove e um bueiro
transborda e retornam à sarjeta
lixos e ratos. Por vezes
dorme-se se com o coração acariciado
por um sussurro brando, por uma garoa,
e instala-se a suspeita
de uma manhã, de um céu 
lavado estendido sobre a infinitude 
dos subúrbios calcinados.