[Mas quem tem uma morte própria,]
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Mas quem tem uma morte própria,
indivisa,
que a guarde
como à própria vida.
Sokurov - “Faust”, (detail), 2011.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Mas quem tem uma morte própria,
indivisa,
que a guarde
como à própria vida.
Sokurov - “Faust”, (detail), 2011.
“Einziger, ewiger, allgegenwärtiger,
unsichtbarer und unvorstellbarer Gott”
- Schoenberg
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Mutatis mutandis, eis outro homem,
não esperava encontra-lo por aqui, até
há muitas razões para simpatizar com ele:
certo humor desconcertante,
a bagagem psicanalítica e toda a cinefilia,
mais as ganas de fundir high e low
culture, num momento em que, a bem dizer,
essas diferenças já pouco significam,
e muito graças a ele;
aqui está,
não refugiado na floresta,
mas gravado e difundido
na internet:
todo um outro universo,
o mundo mudou, e claro que sabemos mais
do que se sabia outrora; mesmo assim,
«o que acontece primeiro como tragédia
repete-se depois como farsa», disse alguém,
e ele pegou na frase e fez dela título
para um dos seus muitos, muitos, muitos
livros.
Farsa tristonha:
na hora de se comprometer politicamente
cedeu ao humor; proferiu o conselho intolerável:
fez birra de enfant terrible,
disse que votaria num monstro.
Risos.
Aqueles que os deuses querem
perder…
E poderemos invocar, outra vez,
Ignorância? Ele conhecia o seu presente
e, dolorosamente, o passado.
Mas cedeu à piada, ao jogo
do desconcerto; a melhor arma
fez-se veneno, tentação
na roleta vertiginosa, volúpia
da cegueira.
Vítor Teves - “Inferno” (um poema de Pedro Eiras), 2012-2020. [Mutatis mutandis, eis outro homem].
Caem, à vez, como o metrónomo
da chuva a entupir os bueiros.
Outros, nem isso. Por um erro de cálculo,
lapsos da física, a mão que tremia.
Resultado: fracturas, escoriações,
um gatafunho nos pulsos, fechando,
o alarme da vergonha a meio do sono:
«nem à morte soubeste chegar a tempo».
É noite, a vida pesa, só um lençol preto sufoca
os adiados suicídios.
Os corpos resignam-se aos dias
para serem enterrados ainda vivos.
Nicolas Poussin - “Inverno”, 1660-1664.
Caem co’a calma os suicidas
dos telhados.
Leves, lúcidos,
ponderadas as razões
do severo
declive,
caem, tímidos,
pedindo desculpa
pelo
corredor de vento
nas janelas.
Pacientes, recapitulam
os argumentos
da morte:
as letras miúdas no seguro de vida,
uma palavra traída,
esta dor sem conserto
num corpo descontinuado.
Morte em câmara lenta,
suspensa em fio de teia:
eles pensam
este fastio de respirar,
o currículo do sangue,
a vida em déjà vu;
ou, como diz o outro:
«jejuo porque nunca encontrei nada
que gostasse de comer»,
assim ou parecido.
Calcularam
o aprumo do prédio, a velocidade
da aceleração. São
inteligentes,
lúcidos,
e calcaram com as melhores teses
o verdete da esperança.
Quase lhes desejava mais fé,
idiotia, mudez,
ignorância.
Gustave Doré - A floresta das Hárpias - Suicidas, Canto XII.
Livros, filmes, ideias.