KRAKATOA É MAIS PERTO QUE O VESÚVIO (continuação)

você

abduzida a todo instante reluz o único jeito de abdução ao pé do único vulcão ainda ativo ao pé do sul da itália onde ainda existia a pedra filosofal a mesma de bolonha a mesma pedra rosa aquela descoberta pelo sapateiro que queria ser alquimista a pedra essa da cor de piacenza da cor dos muros de bolonha do chão todo feito de mármore toda a pedra a pedra que incandesce durante a noite feito o meu corpo que não quer dormir a não ser que


acendo uma vela apago a luz
a pedra me leva ao único vulcão possível e imaginado
a teoria em mim
ao único vulcão possível e oceânico
que existirá num futuro
em que um passado desejado jamais
terá sido escrito por medo de como nós
nos atravessaríamos
sem destruir uma cidade por inteiro

 

 

tudo se transpassou em história
um vírus que nos deixou entregues ao anjo sem guarda
quando até as cartilagens parecem desfeitas

 

  

um vulcão visto de cima
pode se parecer
muito
com uma cona
vista de frente.

A primeira parte deste poema pode ser lida aqui.

KRAKATOA É MAIS PERTO QUE O VESÚVIO (parte I)

o meu tumulto assombra-te, eu sei

algo que incandesce eletrifica
o ar suspenso entre nós 

este sempre entre os livros este
entre a voz minha que lê com a voz sua que lê
as vozes acendem assim como os corpos no escuro
os nossos corpos acesos no escuro nós
a pele do mundo 

tudo bate tudo toca
na ponta e sua secreta incandescência
o jeito de lava do mesmo vulcão e 

se houvesse de ser aqui um vulcão que nos liga esse vulcão teria a tua terra virgem meu elemento fogo a lava de dentro de um monte de terra que escorre e talvez esse seja o vulcão o que é um vulcão / o que mata um vulcão / o que tira um vulcão da

dormência / onde explodir / onde descer / o que reativa / o que ativa o vulcão e o coloca em ação na sua atividade de

vulcão

derramado por cima de uma cidade construída uma cidade telha a telha
a sua cidade invisível inundada por mim
a minha lava dentro do teu pedaço de terra busco jeitos de adormecê-los 

mas

 

não quero

 

um rosé vulcânico
a pedra de bolonha no barthes pedaço vulcânico
como o pedaço de lua que aqui pisamos
a lua em gémeos refletida o mesmo
pedaço vulcânico
é o lunário do equinócio tangerina
a mesma cor que combina com todos os tons de pele eu gosto do seu tom de pele

a pedra vulcânica a mesma de bolonha uma história da literatura

não

uma teoria literária
a universidade mais antiga do mundo uma materialidade inexistente em atos o verosímil

A segunda parte do poema pode ser lida aqui.

"Crocodilo, Dundee" e "Itália, vulcão", de Gabriela Gomes

CROCODILO, DUNDEE

já estamos demasiado velhos para fazer os mochilões
e mesmo assim andamos como crocodilos pelos
mercados de marrakech
olhando roupas de odalisca
que é o que pensamos que se vende em marrakech
e também temperos coloridos e açafrão

também costumamos pensar que se formos à índia agora
já disfarçados de outro animal
podemos ser como uma cobra ou como a vaquinha maribela
se fôssemos agora à índia
nos desapontaríamos ao perceber que o curry não existe

às vezes sonho que uso os quatro membros
como o meu meio de transporte
na maioria das vezes corro como uma chita
na savana da namíbia
mas hoje sonhei que me rastejava pelo mercado de fez
como um crocodilo gordo e pesado
procurando pedras preciosas

estamos demasiado velhos para fazer os mochilões
mas mesmo assim conseguimos matar as pessoas
com os pesos de nossos corpos


ITÁLIA, VULCÃO

andávamos por ruas tortas e parávamos sempre no mesmo lugar

a itália presente aqui
presente aí
enquanto eu
andava pela via dei poeti por entre as paredes
todas elas amarelas todas elas laranjas todas elas cor de tijolo tijolo
todos eles um pedaço de telha que é um pedaço de casa e você
alla nostra casa
chegando na sua própria cidade invisível,

você

você que precisa visitar, construir telha a telha a sua cidade
invisível e torná-la visível a itália na língua na cor da telha a itália
na língua na massa enrolada na ponta do garfo do molho no pão
(do pão no molho)
a itália
até

você

enquanto você chegava nessa itália
eu longe
caminhava nas mesmas ruas da itália entrava nas cantinas e ouvia
ciao bella arrivederci buongiorno e a língua que grita é a língua
me rasga e me rompe num início de primavera

é a língua que me queima e arde
e me faz

a língua

me faz querer servir bolonhesas dobrar tortellinis cortar na ponta
da faca com a mesma ponta do dedo cortar os pequenos pedaços
dobrar os ravioles miúdos ralar o queijo e unir no molho a
língua que fala e a língua que come a pequena cidade da pequena
(grande) nonna que fala alto que grita a língua que rasga em mim
e eu que chegava à casa da nonna e decidia como quem foge de
ti que é para cá que venho e que sem saber você por aí construía
com a mesma língua que enrola que rasga que grita a sua nova
cidade a cidade invisível mais vermelha que já vi
e talvez bolonha seja mesmo a cidade vermelha da história de
gerião e herácles
e talvez seja mesmo a cidade invisível mais vermelha que já vi

todas nós chegaremos em algum momento na itália
nem que seja pelo vulcão