Oshiri-san

as tuas coxas nipónicas
convidam ao teu
tori afunilado de bambu

as tuas coxas nipónicas
sugam todo o
vinho doce das vindimas da
minha casa

oshiri-san
o meu mês de outubro foi
muito pouco apropriado
para um rapaz de dezanove anos

ainda nem tinha fermentado o
pó desta terra europeia e sem samurais
e já me queria homem cosmopolita
fluente em kanji
contanto que levasse
bolinhos de bacalhau na lancheira
para o nosso piquenique a dois

agora vejo claramente

o teu funil encharcado 
em todo o seu atrevimento
não era um dorama mexicano -
mas também sempre foi verdade que
o teu abismo e o meu não abismo eram como
dois origamis de tremoços
duas gueixas ao sol

Porto Ainda 

Tenho levado repetidas vezes amores à nossa cidade, 
Todos acabaram por se perder, ao contrário do que de ti 
Ainda uso em sonhos, lá fui feliz com elas, dias de Sol, 
A cidade contigo aparece-me sempre cinzenta, 
Mesmo assim preferia ter recebido das tuas mãos 
O prazer que trocamos em crepúsculos dourados, 
Estranhamente não encontro mais as nossas ruas, 
Não sei mais se é a cidade que não é a mesma ou eu, 
E tu apenas a recordação ridícula de um pedaço de caminho, 
Fundo como o vento, devias estar com o que já passou, 
Estranho-me quando penso que as espelhei no rio, 
Uma a uma, ainda com os seus sabores na boca, 
Como comparando-as com o que mais amei 
Daquela cidade, a vontade do teu desejo triste. 
 

17.12.2018 

Turku

Abrir mundos

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Espelho.
Espectro.

Duas palavras abrem vários mundos. Cada um de nós, leitores, poderia relacionar “espelho” e “espectro” de diferentes maneiras. Ao ler este breve poema de Luis Marcelino Gómez, eu vejo um homem cansado, olheirento, talvez meio despido, contemplando um espelho. Gasto por tremendos trabalhos, esse corpo assoma, fura o escuro, arrasta consigo muitas carapaças. Vejo, no fundo, um espectro, uma criatura que perdeu parte da energia ou do idealismo, que viveu sonhos, tantos deles convertidos em desilusões, e que agora está ali, resistindo a uma furiosa vontade de deixar de ser quem é. Espectro, coisa pesada, remete-me para uma certa ideia de regresso ao passado, de reviver a juventude, de voltar a ser aquele que tudo fazia sem medo. O jovem que não era fantasma. Uma sombra de nós mesmos, eis o que acabamos por ser a certa altura. Uma vida enrugada cobrindo um montão de existências antigas. Estas poderiam ser chaves para uma aula de escrita criativa.

Espectro.
Espelho.

A partir daqui, pedimos aos estudantes que inventem um mundo. Poesia, arte. Muito passa pelo que não está escrito.

- 50 Andorinhas -

   

           PRIMEIRAS 10 ANDORINHAS

                                I

Amar exige esquecer-me, exige

o mais profundo desejo de dissolução.

                               II

Não esqueças a água, o poder da água, o

poder do esquecimento. A cura.

                              III

Louva, entre o fogo dos dias, Deus, a pos-

sibilidade do mundo longe do olhar.

                              IV

Pondera, na escura solidão da dor, os

“nãos” a dizer àquele que amas.

                              V

Deseja, deseja sempre. Deseja sobretudo

nunca desejar o desejo. O corpo nu.

                              VI

Lento são os teus pensamentos em dias de

nevoeiro. Sonha, procura aquilo que és!

                              VII

O corpo arrastado da árvore que morreu

é hoje esse sorriso entre mãos.

                              VIII

O som dos dias misturados em suor

é a tentativa de ir além do corpo.

                              IX

Sôfrego homem de pele vermelha não

desistas da luta inútil. A vida.

                              X

Pedra, calçada ou virgem abandonada na

montanha, pede a liquidez do suor.

 

            MAIS 24 ANDORINHAS

                              XI

Espalha o teu cabelo curto nas margens da

cadeira onde sentaram os reis e recolhe.

                             XII

Secura do Ser, da vida, dos dentes secos,

esponjas entre mãos. As tuas doces mãos.

                           XIII

Amor, se eu pudesse dizer amor. Esquece tudo

aquilo que sonhaste. Voa além da dor.

                            XIV

A palavra secando em estendais divinos,

esticando o seu corpo até à incompreensão.

                              XV

Homem de sonho com palavras de sal espera

a dor lentamente. Espera. Recolhe-a. Sim.

                             XVI

O poderoso corpo em esforço seria talvez a

solitária vontade dos homens. Todos e tu.

                            XVII

Não mais provoques a dor, não mais

esperes a poderosíssima voz do outro.

                           XVIII

Fechada, a concha, não reconhece a dor.

O mar é toda uma dimensão imaginada.

                           XIX

Sossega, mente de espinhosa visão, sê

a folha branca desenhada. Condensada.

                          XX

Pelos do mar, curvas do desejo. Vê

a escuridão do teu interior em ruína.

                          XXI

 Colapso de tempo, no pequeno corpo mole,

dá-lhe desassossego do lugar. Dispersa pena.

                        XXII

Peruca de cabelo branco, cabelo branco de

peruca. Branco fio de peruca. Brancura seca.

                       XXIII

No terceiro dia o sol não tinha forças,

o grande sol não tinhas. Ó nasceu.

                        XXIV

Ponderado senhor de gravata vermelha

quem sois sobre o frio da montanha?

                         XXV

Entre o poder da calçada, a teimosa areia

procura dizer a verdade da vida.

                            XXVI

Unha pobre, de quem é o dente que

te tritura? Seca, pintada, afiada.

                           XXVII

Pena de corvo lançada ao vento da morte,

diz-me onde encontrar a perdida nuvem.

                         XXVIII

A coluna em inclinação deseja toda a

negada verticalidade. A moleza do corpo.

                        XXIX

Espelhados são os esforços dos dados,

das mãos, dos sins e dos nãos . Nega.

                        XXX

De encontro a encontro aperta o amor

que te ficou. Encaixota-o ou afoga-o.

                       XXXI

Lenta é a palavra esticada, um corpo em

dimensão de horizontalidade infinita.

                      XXXII

O rio, de onde saíste, era tudo aquilo de que

precisavam os mil peixes sobre a mesa.

                       XXXIII

Do lado de cá, tudo pode ser possível, se

fizermos de um ponto a explosão da tua alma.

                      XXXIV

Não, dizes-me Não. E eu não posso

dizer-te. A seta reenviada marca o sim.

 

               MAIS 13 ANDORINHAS

                      XXXV

Espera lentamente que a desilusão dessa-

pareça para nela renasceres, tentares.

                        XXXVI

Longo é a palavra do desespero, a única que

conhece a verdade que a razão esqueceu.

                         XXXVII

Sonha. Dá ao corpo o descanso. Recolhe sobre

ti a poderosa vontade de Deus. Acende o silencio.

                         XXXVIII

Não repintar. Repete sempre o sim, mes-

mo que todo o teu corpo sangre.

                          XXXIX

As folhas das árvores resistem ao cair e

eu, aqui neste jardim, ainda estou vazio.

                           XXXX

Nau de rochosos tijolos voa sobre os

homens e mulheres que exigem o Sim.

                     XXXXI

Esmaga a dúvida, a dor, o peso do medo,

vê sobre a ruína a possibilidade nata.

                        XXXXII

Larga o peso, esconde o rosto. Vê sob

todo o manto a desejada dissolução.

                       XXXXIII

Narciso sonhou sozinho no meio do

jardim. Engolido pelo ego nasceu.

                       XXXXIV

Carne grelhada no cume, sangra a dor

da inesperada melancolia. Dorida e cega.

                       XXXXV

Senhor, dá-lhe a fria azeitona no cérebro.

Dá-lhe a cinzenta e fria cebola dos dias.

                       XXXXVI

Da ordem escolhe o sabedor a linha reta

para o seu caminho, o desgraçado erra.

                        XXXXXVII

Se tudo o tempo engole, que me coma,

lentamente, até ao esquecimento total.

 

          ÚLTIMAS 3 ANDORINHAS

                        XXXXVIII

Seca, a memória, cai sobre o corpo e rompe

a última e frágil esperança. Regressas viva.

                        XXXXIX

O pavão do jardim não mais cantou a voz

do poeta. Morreu no relâmpago do gemido.

                        XXXXX

 E no esquecimento total reconheceremos

a dimensão da dor ambulante. Una.

31.05.18

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