Charles Bukowski, "um poema é uma cidade"

um poema é uma cidade repleta de ruas e esgotos
repleta de santos, heróis, pedintes, loucos,
repleta de banalidade e bebida,
repleta de chuva e trovoada e períodos de
seca, um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade a perguntar porquê a um relógio,
um poema é uma cidade sob chamas,
um poema é uma cidade armada
são barbearias repletas de bêbedos cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus cavalga nu
pelas ruas abaixo qual Lady Godiva,
onde cães ladram â noite e perseguem
a bandeira; um poema é uma cidade de poetas,
muito parecidos uns com os outros
invejosos e rancorosos…
um poema é esta cidade agora,
a 50 milhas de nenhures.
9:09 da manhã,
o gosto a licor e a cigarros,
nem polícia, nem amantes pelas ruas,
este poema, esta cidade,fechando as suas portas,
barricada, quase vazia,
de luto e sem lágrimas, envelhecendo sem dó,
as montanhas rochosas,
o oceano como uma chama de lavanda,
uma lua destituída da sua grandiosidade,
a musiquinha de janelas partidas…

um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo…

e agora meto isto debaixo de vidro
para escrutínio do louco editor,
a noite é alhures
e senhoras acinzentadas fazem fila,
um cão segue outro até ao estuário,
as trompetes anunciam as forcas
enquanto homens pequenos tresvariam sobre coisas
que não conseguem fazer

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Carta a Violante de Cysneiros

“Folhas mortas e flores vivas

   Pó da terra e diamantes”

          - Antero de Quental

 

Ribeira Grande 11 de Janeiro de 2019.
A caridade entre nós querida Violante
é a mais branca pérola perdida algures
no meio do Atlântico. Se a vires entre
as mãos de um marinheiro finge que
nunca a viste. Não te quero em maus
lençóis. Quero-te bem. Fala-me dos
teus pequenos poemas e daquilo que
te preocupa. Eu deste lado sou uma
mulher de cabelos embebidos em whis
ky. Prefiro embebedar-me a submeter
-me a esse frio covil de homens. Es
crevo-te ansiosa para que me enten
das deste lado do espelho. Que posso
eu dizer-te da nossa pequena ilha? O
ulisses ainda não regressou, passa
pouco por cá e a Eleonor teima
em dizer que nada disto é poesia.
(E tem muita razão neste caso).
Acrescentaram-se casas estradas
pontes e mudaram três vezes a
placa do Gaspar que saiu do seu
jardim. O Raúl Milhafre manda visi
tas e continua a ler apenas o Antero
que para ele chega o que entendo.
Mas para meu espanto disse-me ele
no outro dia que muito apreciou o
poema da Barbie da Lourenço. Teve
espírito aberto para a novidade e
gostou da jovialidade da Lourenço.
Manda notícias pequena querida!
Como está a Rosalina a Natividade
e a Dorvalina? A essas três mortas
manda-lhes flores se as houver por aí.
Aqui tirando as hortênsias azuis e
brancas tudo murcha! É do marasmo!
Mas para não te apoquentar mais fica
descansada pequena: Nada mudou.
Agora elas pintam as unhas e os lábios
são de vermelho intenso mas o esterco
é o mesmo. Olha a filha do Padre José
já não é puta. Ganhou as eleições e é
vê-la na procissão do Senhor toda
emproada. Casou com o baboso do
Pedro Rui e os dois governam a cidade
com a sua pequena empresa de Cortes
& Enchidos
. Metem ao bolso o dinheiro
da festa e ainda os subsídios do governo.
O professor De Mello já saiu do armário
além de paneleiro agora virou surfista
coisa que sempre foi entre as palmeiras
de Sant’Ana e as naves de S. Sebastião.
Da tua e sempre Sagrada Barbara Stron
ger. Ps -manda cumprimentos ao Silveira.

Barbara Stronger

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Morte da tragédia e outros (ir)racionalismos

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Friedrich Nietzsche não se cansou de criticar o Iluminismo grego, cujo paradigma foi Sócrates (que é muito mais do que uma singularidade, neste nome está a grande personagem filosófica de Platão e a realidade nascente, pós-homérica, da Grécia Clássica). O seu racionalismo optimista tiranizou o mundo através da lógica e da moral (a superestrutura verdade=bem). O trágico, naturalmente inverosímil e desenhado para o culto do sofrimento, foi combatido a golpe de silogismos. Em O Nascimento da Tragédia, 1872, Nietzsche, intempestivo, mas um heterodoxo lúcido, rebela-se contra um Ocidente nascido e criado a partir desse Iluminismo. Nele a filosofia também demanda a felicidade, a vontade de verdade, de tudo conhecer, é a esperança da Realidade incarnar na realidade (ou vice-versa). Mais tarde, no Crepúsculo dos Ídolos, 1888, regressa ao tema em “O Problema de Sócrates”, assegurando que este inventou a tirania racional contra o predomínio dos instintos, elevando a racionalidade até ao absurdo, uma racionalidade a qualquer preço, irrealista, fria, oportunista. Pelo contrário, Nietzsche pede-nos para não recuarmos diante da imaginação, por mais aterradora que seja.

Não é por isso, contudo, que se deve remeter imediatamente Nietzsche para um irracionalismo insolúvel. A sua obra testemunha bem a vontade de ser ainda mais claro (um claro-obscuro) do que a razão Iluminista. O que ele não faz é deixar-se iludir pela auto-suficiência e pelo autocontentamento das racionalidades científica e filosófica, ou censurar o ilogismo intrínseco, orgânico, da vida e o carácter interesseiro das nossas práticas cognitivas (critica várias vezes a máxima de Espinosa “Não rir, não lamentar, nem amaldiçoar, mas compreender” – Non ridere, neque lugere, neque detestari, sed intelligere –, apelida esta visão de “charlatanismo matemático”, visto que o ser humano, numa posição reinvestida há pouco por António Damásio, não conhece sem emoções e sem o corpo). Nietzsche não repudia, pois, a razão, quer antes aprofundá-la até a tornar plenamente crítica (sabendo que só o sobre-homem o conseguirá), superando o criticismo kantiano. Claro que neste processo se insinuam vários perigos (de tanto questionar o alcance da razão podemos acabar rendidos a uma espontaneidade estéril ou a aceitar emotivismos exacerbados, violentos ou pusilânimes), mas julgo que neste autor, ao contrário do que se pensa, há uma boa convivência entre o racional e o emocional, a mente e o corpo, foi isso que lhe permitiu ser um magnífico leitor do seu tempo (antecipando os nacionalismos mortíferos, o domínio da cultura pop, o poder do não-consciente, os movimentos fascistas...). O que Nietzsche recusa à racionalidade é o monopólio da significação, já que para compreender são necessárias as emoções e o contributo fisiológico do corpo (a que ele chama, em Assim Falou Zaratustra, “grande razão” – “Der Leib ist eine grosse Vernunft”). Isto permite-lhe atender à mudança, ao flexível, à novidade e à resiliência.

Curiosamente, André Malraux apelida elogiosamente Nietzsche de “o maior irracionalista do seu tempo”. Num diálogo com o realizador Jean Vilar em 1971, refere que Nietzsche não se deixa colonizar por ideologias, que nem o nazismo o conseguiu: “a grandeza de Nietzsche é a sua potência irracional, a extensão do seu pensamento.” Martin Heidegger, em Caminhos de Floresta, “A Palavra de Nietzsche ‘Deus Morreu’”, usa Nietzsche para expressar uma das suas teses mais glosadas: a razão, tão venerada, é afinal a “mais obstinada opositora do pensar”. Portanto, em vez de, como eu, valorizarem o racionalismo, o outro racionalismo nietzscheano, Malraux e Heidegger, podia também citar Georges Bataille ou Pierre Klossowski, realçam a importância do seu irracionalismo, único e revolucionário.

É talvez também aqui que, mudando-se o que tem de se mudar, encontro João Barrento e o seu magnífico A espiral vertiginosa – ensaios sobre a cultura contemporânea (Cotovia, 2001). Regressando ao eterno tema da morte da tragédia, Barrento segue Nietzsche na denúncia da perda irreparável para a vida humana decorrente da quebra do compromisso estético com a tragédia. Os gregos sabiam bem que as tragédias eram somente performativas, não havia aqui qualquer ingenuidade. E sabiam também que a potência da ficção, a superioridade da imaginação, ontem como hoje, se insinua profundamente nas linhas da vida. Ainda agora, depois de séculos de vacinas lógicas, choramos sob os efeitos de um filme lamechas. Os gregos foram os primeiros espectadores estéticos, e isso perdura, o Ocidente é o berço da ficção, esta alimenta uma parcela importante do mundo (numa situação diversa, como é que o Game of Thrones poderia ter tanto sucesso?).

É por isso que Barrento tem esta brilhante oração fúnebre, que podia ter sido escrita por Nietzsche: “No mundo de paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como a beleza e a alegria, o canto e o êxtase –, é matéria-prima da vida ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça... e mais longa. Ficámos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficámos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder com um lamento (como terá feito nas origens a natureza, antes de perder a fala), fica em silêncio.” (A espiral vertiginosa – ensaios sobre a cultura contemporânea)

A Bacana: Poemas Reunidos I

Autores:
Ágnes Souza
Alice Vieira
Ana Bessa Carvalho
André Edson
Bruno Nascimento de Abreu
Bruno M. Silva
Carla Diacov
Chrischa Venus Oswald
Francisca Camelo
Ismar Tirelli Neto
J Carlos Teixeira
José Pedro Moreira
Jussara Santos
Laís Araruna de Aquino
Luís Quintais
Luiza Nilo Nunes

Mafalda Sofia Gomes
Matheus Guménin Barreto
Miguel Abalen
Otávio Campos
Paulo Pais
Sergio Maciel
Stephanie Borges
Tatiana Faia

Prefácio:
Luca Argel

Coordenação editorial:
Bruno M. Silva
Francisca Camelo
J. Carlos Teixeira
Mafalda Sofia Gomes

Preço: 7,5 euros (com portes incluídos para Portugal)

Para adquirir mandar email para abacana123@gmail.com

A Visão de Gubaidulina*

(Poema para 2 vozes, 2 línguas e Vários sons)

 

 “Tudo recomeça: ele passa outra

          vez pelo lugar de origem”

                       Manuel Gusmão

 

                                               I

Vater. Os olhos ensanguentados /flecha no céu/
Vergib. timbram as mãos /sujas /pregadas na dor.
Ihnen. Secos /os lábios entreabertos /roubam o
Denn. denso e espesso ar. O /Coração perfurado/
Sie. evoca aquele que o ama./Uma criança brinca./
Wissen. Nos olhos /onde se espelha o trovão/ a
Nicht. proclamada palavra /o seu perdão/ flutua
Was. entre o seu corpo e o condensado tempo.
Sie. O seu sangue vai escorrendo pela madeira
Tun. espessa /em lágrimas /entre/a dura multidão.

                                         II

Weib. Pálida mulher de azul cobalto não chores.
Siebe. Esquece esses olhos de coral /triste visão/
Das. e recolhe pela manhã esse meu duro corpo.
Ist. Retira esses teus belos olhos sobre os meus
Dein. pés e fixa-os no homem alto ao teu ombro!
Sohn. Mãe /novo filho implora o teu beijo /doce/
Siehe. Irmão/ imaculado/ novo ninho te espera
Das. – um que não conhece o frio ou a amargura.
Ist. Nas horas incertas dissipar-se-ão os nevoeiros
Deine. e na dor fixa o seu coração ditará o fim da
Mutter. tua angústia/A mão pousará sobre a tua./

 

                                         III

Wahrlich. Escurece. O céu espesso/ negro de cinzas/
Ich. traz acorrentadas compaixões e pesadas feridas.
Sage. Rostos mergulhados no medo / perdas e secas
Dir. aflições. /O acordeão de lágrimas irradia a dor./
Heute. Poderoso /ser divino/ salva-me do meu medo
Wirst. e com a tua mão guia-me pela fria escuridão.
Du. Atormentada fina cegueira /aceito./ Percorres 
Mit. /feito luz branca/agarrado à minha mão. Somos
Mir. – tu e eu /Falas arrancadas às portas douradas.
Im. Neste entardecer/ainda hoje/ atravessaremos o
Paradiese. corpo/linho de violinos/ e sem pesada dor
Sein. teremos sobre a nossa rosa/ o olho/ o ser imóvel.

                                           IV


Mein. Focado / o Sol / Brilhante. / Vi a águia /vermelha
Gott. como os peixes do rio radiante. / O rio / O abis
Mein. mo ali./ Ofusco / O sol Leve/ O mundo gira/
Gott.  Embate Bruto / o Sol. / Renome./ Sai da minha
Warum. mente  frescura/ mentes! /A criança brinca./
Hast. O corpo divino de homem recorda a água/ Essa
Du… da frescura eterna./ Perco sangue!/ Perdendo o
Mich…sangue/O coral./ Lançamento de elmo e émulo.
Verlassen O corpo em abandono terá fim/ Será o fim!

 

                                            V

Mich. Lábios entreabertos /secos/ onde a agonia ainda
Dürstet. não voou. /Intervalo interno/ eterno/ Convexo.


                                             VI

Es. Sacrificados olhos /em angústia/ a sua missão foi
Ist. completa. Cobre-se a cova de Adão e tu /amada
Vollbracht. mulher /floresces para o núcleo da flor.


                                           VII

Vater. Pomba/ trazida no vento/ de cândidas penas/
Ich. recolhe serenamente esta minha cansada alma.
Befehle. Puro/ este meu corpo/ que adormece entre
Meinen. farpas de madeira castanha/ espera ladrões/
Geist. futuros soldados e mulheres revestidas a límpidas
In. lágrimas de pranto. Este é o manto que o meu puro
Deine. sangue ampara./Abandonados os que choram!/
Hände. E eclipsaram-se os céus e o Templo ruiu. Assim...

                                                                                                                   01/08/09

                                                                                                                   11/04/19

Dali - Cristo de São João da Cruz, 1951..png

Salvador Dali - “Dali - Cristo de São João da Cruz”, 1951. (Pormenor)

*”A Visão de Gubaidulina” teve a sua primeira versão em 2009. Seguiram-se outras 4 ao longo dos anos. Esta é a 5ª versão, a versão de 2019. A sua reescrita continuará a ser feita sempre que o autor assim o desejar.