Vox propria (a diane bege a janis joplin o primeiro disco dos madredeus)


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O quê não te lembras do passado

isso é porque não o queres não o finges

tinhas sempre uma diane atrás de ti

castanho creme que é como se fazem as coisas

e tinhas vinil nos homens e passado

pouco tempo vivias na agulha lembras-te

ou porque não te lembras continuas lá

tudo geométrico quadrado como uma diane

atrás de ti bege como todos os esquecimentos

têm essa cor já reparaste de pôr o vinil

no teu esquecimento porque queres

porque queres não esquecer não é

o som cru das curvas à direita

em que a porta se abria o bigode do pai

que fazia sombra no asfalto da curva

e o calor que fazia num espaço frio

mosquito por mosquito barco por barco

que é bege tudo o que recordas

da diane que arrombava três vezes

a vigia dos que gravavam xabregas

em três passos jovens e de um

e de um que entretanto levaram a enterrar

não na agulha do vinil não na agulha

da droga lembras-te lembras-te

de toda a escuridão dos astros e da janis

que gritava sem ser rouca com cerveja

mais louca do que qualquer consolo

mais agulha do que qualquer cor

que fosse bege ou um destino sôfrego

pois alguém sendo jovem é heroína

e confundes droga com janis

e enterras-te no vinil do outro e pensas

porque não voltas lá aos teus pinheiros

à tua garrafa à garrafa dos outros

porque não cospes o branco da página

na esperança da literatura porque

porque não tens lembrança nas esquinas

só no quadrado da diane na curva

na curva à direita como quando pensas

este gajo este tipo esta gente

está a tentar dizer qualquer coisa dizendo

ou pondo-se dentro de uma garrafa

como aqueles barquinhos de merda

que se levantam com o sopro de um fio

ou uma mensagem para o passado

uma mensagem que o roubou agora

quando põe o mesmo disco a rodar

como todas as patranhas rodam ao luar

quando fechamos os olhos não sabemos

onde houve lua porque se fecham

na porta direita da diane bege

ser bege íntimo bege que quadrilhava

como lobos a uivar nas pétalas

demasiado lobos para se esquecerem

e é isso não é amigo eras demasiado jovem

para saberes que esquecias.

Bon fils, cher fils, beau fils

Sozinha
na plantação de arroz
vejo submersa
a minha saia de trabalho
inchada
da cobrinha
lagarta bicha
que te vi

Como podes
infante menino
medrar assim?

Não é mensurável
não importa
o tamanho
de quantas mãos
quantas mãos
apanhem
quantos grãos

Como podes
infante menino
medrar assim?

Cresces e intumesces
diante dos meus olhos
com os teus olhos cinzentos
que me fitam
quase sorrindo
se te toco
se és tocado
de mão em mão

Como podes
infante menino
não me querer só a mim?

SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA e outros poemas

 SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA

“Vira a tua atenção para os vários objetos , olha

agora para isto e agora para aquilo e reúne uma

coleção de factos diversos selecionados e escolhidos

entre aqueles de menor valor” – Leonardo da Vinci

 

“Hey now, don’t Forget that change will save you”

- R.E.M (Überlin)

a Leonardo da Vinci (500 anos)

 

Da linha do tempo do seu tronco principal

saem outras mais finas e pequenas

raízes que correm em todas as direções.

Da enorme e elaborada árvore uma entre várias

uma pequena e fina linha quase imperceptível

cai como um pingo de chuva pelo perfil de Salai.

No mar tempestuoso do seu cabelo Leonardo

Separou o silêncio do seu traço e o ardente

Desejo que lhe corroía lentamente a Mente.

Calado sob os sinos da Catedral usava o

Lápis como chicote para o coração e o corpo.

 

“Compra-me Carvão Ocre Camim Terebentina

e antes que me roubes usa em teu proveito

as moedas que daqui sobrarem. Mas antes

troca-me esta T-shirt suja por aquela amarela.”

 

Em todas as vielas de Florença ou em todas as

Cidades feitas para os desejos e sonhos impossíveis

Há um jovem que livremente dança para Terpsícore.

Sentado à secretária o velho anota para o espelho

“Hoje em amor libertei mais um pássaro!”

de “O Nardo” (2019) (Brevemente)

COROA

 

Os dragões da Somália trazem uma coroa

de três bicos sobre a cabeça:

              o corpo dissolvido de Basquiat

              a minha febre amarela

              o teu presente esgar

 

Na levitação o brilho refaz

a aura e dá ao negro Rei

novo Corpo

A PINTURA SEM TINTA

       SEGUIDO DE

UM POEMA SEM SOM

 

 A linha digital imprime o ilusório

rompimento - o raio imortal do inefável

cai sobre a faca de dois gumes que

a trespassa e reativa a presença da luz

- a teimosia da cor persiste.

 

O poema aqui existe e existe

outro poema entre este poema

e a tua ideia construída de poema.

É no vão que aqui se abriu que uma falena

bate as asas sem que a possas ouvir.

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"O quarto rosa" de Francisca Camelo: apresentação hoje!

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marilyn

gostava de ter sonhado
mas foi real
desta vez foi um veado
cabeça lustrosa
pêlo brilhante
olhos aguçados
focinho pequeno e delicado:
uma marilyn monroe
dos animais da floresta.
o veado parava
encrustrado à parede
numa loja kitsch.
segunda mão,
a etiqueta dizia,
se/gun/da/mão
digerir o significado dessas palavras
e o preço possível a pagar por isso:
olhava-me quieto
vítreo mas tão vivo
o almoço a subir-me
acidez acima
olha só que atroz
assombração
todos nós podemos
ser embalsamados um dia:
imaginei os meus olhos vítreos ali
alguém a tocar-me na íris
com a unha do indicador direito
vê se faz barulho
vê se são de vidro
tocarem-me no cabelo
pode ser falso
apesar de todo o brilho
as pestanas longas de marilyn diziam-me
tu também podes
estar um dia aqui
embalsamada a um preço caro
numa loja kitsch em segunda mão 

(talvez seja isso a
reencarnação).

sehr glück

ontem fui à barraca
da vidente
handlesen
o cartaz rodeado por aquelas
luzes baratas com que as pessoas
rodeiam o quarto, tu sabes,
before sunrise, we’re all
stardust
, capital europeia,
tudo isso a enquadrar o cenário:
agarrou-me as mãos
e desdentada, sorriu: vais ser
uma kaiser três filhos vida longa
(casar nem por isso)
sehr glück, ela disse,
mas a tua sorte é estranha

referia-se provavelmente
àquelas últimas manhãs
um quarto sem persianas
quando volto da casa de banho
e encontro um homem já vestido que me esclarece
só há um kaiser e é um jogador de futebol alemão

sentado no sofá,
(pernas abertas
mão sobre a virilha
ainda quente)
notifica-me prontamente:
precisa de alguém
para os domingos da minha
ausência. acrescenta, quando vê a fruta
no centro de mesa, i love strawberries,
e semeia sem saber
calos na minha garganta
por favor, alguém que compre
morangos a este homem
quando não estou
 

as marcas da almofada ainda na cara
(desejar esse desleixo, o hálito pesado,)
aprender novas formas de
condicionar a incerteza
sentar-me no sofá
para abandonar de seguida:

  1. o lugar fresco do fantasma

  2. a madrugada para sempre poluída

  3. o conceito de sorte

mas os morangos:
intactos.

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Vestido Azul

“There´s things I wanna talk about, but I´ll just let you live”

Lana del Rey


Não há nada mais triste que acordar com o sabor
Da tua silhueta recortada pelo Sol através daquele vestido azul,
Nunca saberei se também tu, voltaste a sonhar comigo,
As tuas mãos nas minhas, antes de qualquer poesia,
Acordar depois de termos brincado no chão da sala da casa
Onde nunca entraste e já pouco me encontro nas fotografias,
Eu debaixo de ti a assegurar-te que só amigos
E da tua boca as palavras da minha vontade,
E se te fizesse um broche, cai uma carta pesada no chão
E acordo, um catálogo qualquer, maldito carteiro,
Aquele bater no chão como quando li a tua última carta,
Só amigos, e acordo, cai-me algo que nem sabia que tinha,
Nem vi sequer o que era, as mãos nunca me pareceram
Tão vazias, sabendo que nunca mais os teus dedos longos
Entre os meus, quanto dedo no cu, nenhum teu,
Acordar sempre, até ao adormecimento último,
Com a poesia no lugar de um amor no qual só os sonhos acreditam.

Turku

10.09.2019