(Des)sincronia 

Que tinha vindo do lado em que as coisas (não) são de facto, em que os contornos (pouco) exatos porque a criação, daí a festa, a ordem certa, certa, cega, cega, na fila para os braços à volta do corpo da cabeça que chegara. 

Um estremecer das unhas dos pés ao cimo estendia-se. Minto, não se estendia, tremia todo um com o susto de tantos dentes a afastarem lábios. Um, outro, outro e outro, num encaixe perfeito, arestas sólidas. Diferentes em tudo do sítio de onde viera, julgo, moldados, imitados, ao contrário de no outro lado, onde tudo único porque o espaço da invenção. 

Numa euforia estridente, quase em crise, juro-te, que deste lado, do real, sim, é que o queriam, que agora sim, um como os outros. Ah, sim, com isso a meta cortada de estar só. De modo que as felicitações, os dentes de arraial na infância, os braços à roda da cabeça entorpecida. 

Conto-te isto porque fui enchendo o balão de compaixão pelo homem a ponto de não conseguir agora sozinha, porque até na compaixão há diâmetro limite. Eu sentada, as pernas moles da surpresa, e isto tudo na minha sala, acredita. Conto-te como se agora, que é o que se faz quando a teimosia da memória, quando um guizo constante do que se passou. 

De súbito, volta-se e a indignação começa a inchar na multidão que ele, estou certa, não reconhece, porque as feições em pedra inerte de quem na indiferença. Dá as costas, o pescoço na sua missão de segurar a cabeça, a esforços sisifianos, decerto porque o desânimo da repetição dos outros aos outros, do real, corcunda de exatidões a uma medida certinha. Costas dadas porque, penso, a repugnância pelos braços de quem felicita a vinda do fantástico para o real. Estou certa de que lhe pesa a certeza de neste lado não poder ser por inteiro, de no despertar todos escorregarem para a indignação um dia. 

Eu de pernas e braços obedientes de gravidade. Já não bem neste lado, já um adormecimento. Sim, eu já no outro lado, penso. Ouves-me ainda? Dizia-te que eu já não aqui, de modo que a história só isto. E eu em preces para que o homem de novo no adormecimento porque a minha compreensão possível do fantástico como o espaço em que ninguém a sós. Ouves-me? 


5 Poemas de J. Carlos Teixeira

a minha senhoria turca
chamou-me de
caseiro caseiro
porque eu gostava de ficar em casa; 
agora a minha senhoria chama-me de  
party boy, 
ela diz que saio muito, 
que vou para muito longe 

a minha senhoria turca diz-me que
o meu cabelo lambido, 
amassado, 
académico, 
já não me fica bem, 
que em vez disso  
deveria apostar no
penteado despenteado, 
diz-me para não ser como os homens turcos
que arranjam o cabelinho com  
uma escova de dentes 

ela leu-me nas borras do café 
que o meu cabelo é pura
influência
do meu pai, 
do meu tio, 
ou talvez de um amigo  
que me tenha inspirado com  
os seus caracóis envolvidos
na suavidade da risca ao lado
e de um baklava por comer

§§§ 

as casas em Berlim  
são como as outras
casas, 
como as casas que sempre conheci, 
mas não são casas onde se vive de
limpezas ao sábado 

 
nas casas em Berlim
não entram gatinhos de rua
porque não há gatinhos de rua
em Berlim  

 

§§§ 

 

os homens do meu bairro  
gostam de avistar  
as moças nos cafés
 
descem do u-bahn
linha oito
até villa neukölln
onde as sainhas
comem gelado de
tangerina  
 
em villa neukölln
eu só vejo
filhos
que nunca serão meus
filhos
que são só 
filhos
de morangos
papaia
currywurst
abacaxi

§§§ 

Um escultor barroquíssimo
na impossibilidade de conchas e flores, 
oferece em segredo uma pera
de porcelana fina e delicada
que ele mesmo pinta
com os seus pincéis gastos e perosos. 
O seu coração mostra a invulgar forma
de corrimão-pomar
onde se deixa ver a charneca de portas, 
cada uma escondendo uma pereira e um rouxinol. 
Ao fundo, Adriana, 
jovem doce e de boas leituras; 
espera o presente sentada no banquinho, 
e na perfeição das veias douradas, 
sorri-lhe de verde seda, 
amoras e rococó. 

§§§ 

Temple Run

Karma Lee vale
vinte e cinco mil tostões
e afoga-se nos templos mexicanos
enquanto foge pelo
muro de trunfo; 
imagino que goste de chá chinês
arroz xau xau
bling bling
la la land


Donald Trump: o terrorista ambiental

Fui aprendendo que os impulsos ideológicos recuperam sectarismos arcaicos, obrigatoriamente simplificadores do pensamento crítico. Por exemplo, sou filiado num partido ambientalista e animalista, o PAN, que defende igualdades pós-antropocêntricas (entre todos os seres sencientes) e, estatutariamente, uma democracia participativa (em vez da tradicional representativa), há dois anos até entrei na campanha eleitoral. Bom, mas quando chegou a hora da verdade o que decidiu tudo resumiu-se a uma vontade de poder egoísta absolutamente elementar, ideias, princípios, estatutos... foi tudo passado a rolo compressor pelos mais arrivistas. Aceder ao poder deixou de ser um meio e passou a um fim em si mesmo, o poder pelo poder, e, claro, os privilégios, sociais e económicos, associados. Por isso, fui adormecendo as parcelas políticas que me compõem, transladei a sua energia para outros territórios, que considero muito mais férteis, uma vírgula tornou-se mais importante do que um Decreto-Lei ou um daqueles combates retóricos, cheios de bazófia e gesticulações primárias, desenhados para a auto-glorificação, que preenchem os debates na Assembleia da República. Resisti, pois, a escrever, e por vezes até a pensar dentro do mundo da política, a sua irracionalidade intrínseca parece incompatível com análises e interpretações justas.

Por outro lado, apesar de me considerar um conservador vanguardista (um dia escreverei sobre este aparente paradoxo, que recuperei de Peter Sloterdijk), interiorizei há muito as enormes virtualidades da democracia (já escrevi sobre isso aqui). As mais avançadas, orbitando em torno do Ocidente alargado, têm mecanismos de checks and balances capazes de mitigar os assaltos ao poder de cariz totalitário. Além disso, os actos eleitorais e, em muitos casos, a limitação de mandatos, impendem que um indivíduo se mantenha ad aeternum no poder (embora em Portugal tenha havido o quase perpétuo Alberto João Jardim). Claro que há linhas subterrâneas de influências que favorecem certos grupos sociais, reservando-lhe o domínio de uma parte significativa da economia e da opinião vinculativa. Noutros termos, reconheço que até nas democracias avançadas há demasiadas diferenças que se transformam em desigualdades, não sejamos ingénuos. Todavia, mesmo depois de ler Michel Foucault, Gilles Deleuze, Byung-Chul Han ou Slavoj Zizek, não creio que os princípios básicos do “governo do povo, pelo povo e para o povo” estejam total e irremediavelmente capturados por grupos-de-interesse que apenas deixariam viver um simulacro de democracia, tomando-a nós, qual personagens platónicas agrilhoadas no fundo da caverna, por uma democracia autêntica. Claro que existem zonas opacas, claro que os capitais cultural, económico e social, para usar a terminologia quase revogada de Bourdieu, favorecem injustamente uma pequena parte da população. Mas, sem querer retomar Winston Churchill ou Leibniz, creio que ela é o melhor dos regimes políticos possíveis.

Portanto, até hoje deixei Donald Trump (esse cómico involuntário) ou Vladimir Putin em paz, quase não escrevi ou sequer pensei sobre deles. “É jogo político e pouco mais”, disse. Confio na dita sociedade civil, nos indivíduos, nos grupos de pressão estritamente altruístas, como a Quercus em Portugal. Mas subitamente o presidente dos Estados Unidos – representante da democracia moderna mais antiga, chefe supremo da maior máquina de guerra de que há memória e do país que mais poluiu a Terra – decide rasurar o compromisso ambiental que o seu antecessor estabelecera há bem pouco no Acordo de Paris (2015). Num discurso simplório, escrito por vinte ou trinta cabeças semi-ocas, veio dizer-nos, a nós e às gerações futuras, a nós e aos restantes seres vivos, a nós e ao planeta, que por razões económicas (silogismo com uma única premissa) retirava a América, é assim, tomando a parte pelo todo, que gosta de nomear os U.S.A, do mais importante, e vital, acordo sobre alterações climáticas que se conseguiu até hoje. E não se obteve, antes fosse, porque subitamente o mundo se desfez da mesquinhez nacionalista do deve e haver, houve acordo porque não restam dúvidas a nenhum ser com uma sanidade mental média de que caminhamos para um desastre ambiental severo e global. Sabe-se que ninguém tem nada a ganhar com o aquecimento global, sabe-se, aliás, que temos muito a perder, excepto uns cépticos desmiolados, cheios de elucubrações funestas, espalhados por todo o planeta mas que medram bem na terra do senhor Trump, principalmente nos terrenos do provincianismo megalómano. Se nos chateia muito o grau elevado de esquecimento das promessas eleitorais, Trump, neste caso, é irrepreensível, cumpre aquilo que prometeu (normalmente em pacotes de poções obscurantistas), e, em boa verdade, os que olham para o céu e não vêem (o método do olhar) os famigerados gases de efeito de estufa votaram nele e agora foram recompensados. Talvez tenham alguma razão, uma explicação que meta à bulha Deus e o Diabo é, para eles, muito mais interessante e verosímil do que estudos cheios de números e de previsões catastróficas. Tanto mais que o capitalismo mais básico precisa do optimismo como pão para a boca, e não é fácil manter a esperança se nos dizem que vamos começar a assar ou a morrer afogados.

Assim, Trump obrigou-me a retomar um activismo político – sem folclore, a única arruada em que participei pôs-me uma semana de cama –, devo-o à Terra e às futuras gerações, mas também aos mais carenciados que hoje vivem em países sem recursos para mitigarem as alterações climáticas. Designei Trump como um terrorista ambiental, e como tal deve ser combatido. O mal que ele pode provocar leva-me a pensar que abatê-lo pode ser um direito de legítima defesa, se não fisicamente pelo menos retirando-lhe, através de artimanhas se for necessário, o poder que tem. Conheço a minha insignificância, mas milhões, milhares de milhões de insignificantes poderão fazer qualquer coisa. E eu quero juntar-me a eles, formando um vasto espírito de repúdio, de nojo, de combate. Abaixo o Trump, abaixo de qualquer maneira, abaixo que ele é um terrorista ambiental, o pior terrorista que a história do planeta já conheceu. Ele é o perigo de todos os perigos. Contra os tambores tresloucados, marchar!

apartamento

se perguntarem o que sobrou digo que
já levaram portas as janelas o escândalo
levaram até o cesto de pão, a inocência, o jarro de alfazemas secas  
no hall de entrada, ficaram as raízes  
deste apartamento sem vergonha  
et touts les temps qui reste: entra, é um convite; 
perdoa há muito não limparem
os pés ao entrar, talvez me tenha eu esquecido de pedir
ou começado a gostar desta coisa de ser suja, não sei, 
mas estas paredes (rabiscos adolescentes
antigamente sentados em manifestações mais políticas) 
são os turcos com lutas de cães em alexanderplatz
são pokhara, um hotel laranja decadente e um inglês
que não voltaria a ver, são tudo isso mais as peixeiras, estátuas de vénus
passeando na foz velha a celulite majestosamente texturada
e a areia-carvão naquela praia açoriana que mais tarde repudiaria; 
estas paredes são os amantes e todas as tragédias gregas,  
pratos marcados a giz desenhando rotas de colisão indiscreta, tudo isso
o que fui e o que não quero voltar a ser à custa de não poder. 
sobrará no fim a medida exacta do que divide
as paredes que aqui vês, solidamente entregues  
ao hábito de nem os ossos deixar no prato. entra, é um convite, 
mas à saída leva-te contigo: 
aqui só eu não sou de passagem.

Revoada de trinta-réis

O cheiro das goiabas invadia a casa, de assalto, como enxame de vespas. Era um cheiro doce de arder as narinas e dar água na boca. Sara havia arrumado tudo com esmero redobrado. Varrera a casa com vassoura de alecrim, passara pedra na chapa do fogão Venax nº 2, ariara a chaleira onde mais tarde aqueceria a água pro mate, juntara, ao redor da casa, gravetos para o fogo, e do paiol trouxera palhas, algumas das quais amaciara, passando por várias vezes as costas da faca. Quanto mais macias melhores são para a feitura dos cigarros. Flores do campo, brancas, amarelas e azuis, sobre a tosca mesa da sala. Ranhuras disfarçadas pela surrada, porém limpinha, toalha xadrez. Agora era sentar no alpendre, na cadeira de balanço de encosto alto e imponente e esperar. Faria crochê contornando uns panos de copa duplamente alvejados com Quiboa, e esperaria. Alaor não tardaria a chegar, suado, cansado, poeira nos vincos do rosto e do pescoço, cabelos ensebados sob o chapéu de palha. Traria pra ela algumas pitangas das grandes ou algumas guabirobas, um ovinho colorido de passarinho, que não chocou… Ele sempre tinha um carinho nas mãos calejadas. Era só esperar. Não tardaria a casa teria vida. Lampião aceso, fumaça na chaminé, conversas e cheiro de comida que ela prepararia com amor. Depois, era lavar a louça, passar a lixa nos garrões dele e com a pontinha do canivete de cortar fumo desencardiria-lhe as unhas. Deitariam, e na cama-de-vento, conversariam um pouco mais sobre o dia que passou e o próximo que viria. O cheiro das goiabas parece agora está no colchão de palhas, no travesseiro de penas e nos lençóis. No alpendre, sentada na cadeira de balanço de encosto alto e imponente, Sara esperou por três noites e dois dias até ser visitada pelo delegado. Da cozinha, o cheiro das goiabas podres infestava a casa, de assalto, como enxame de vespas… Ao longe, ao movimento dos homens que traziam o corpo na padiola improvisada por galhos de guamirim, revoada de trinta-réis.