Momentum

I.
 
a chegada do interlúdio nocturno dispara na direcção de
um candeeiro intermitente à luz de todas as vezes. 
 
- são instantes fotográficos
 
em que a espera medeia o que lhes cabe nas mãos, ou
nas lareiras dissipadas pelo ventre do consolo da noite
 
são muros que se inundam à primeira oportunidade de errar. 
 
existe o salto e uma lebre espreitando na esquina
o torpor felino de um nome esquecido um
pássaro atordoado numa gaiola de estrelas. 
 
a penumbra e a sombra quando chegam são remorsos de
dois corpos que saem de si e entram em si
trocando de lugar no olimpo terrestre, pintando através dos sentidos a
insígnia profana de existir. marginais
 
um velho cospe para o chão a doença antes da morte lado
a lado com eles, sulcos de uma solidão urgente. 
 
- entre quatro paredes ninguém é feliz de pé. 
 
os ossos são o que mais se gasta a seguir, a pele sucumbe à razão
de nenhuma sensibilidade dizível e o último despojar é a sorte largada
em cruz: 
 
- enquanto o solstício não se anuncia, 
chegar é a melhor forma de  partir. 


II.

quantos poemas pediste neste labirinto pombalino? 
 
agora que nada tens, arrasa-te diante da folha amarelecida rasuras os cantos
com anotações minúsculas  e riscas demasiadamente na vertical movendo a
cabeça como quem espera a aragem vinda de longínquos poentes. 
 
a pergunta esmaga-te a gramática cardíaca e tu
já só consegues prosar uma mudez insuportável.  
 
só o poema te conhece. só na poesia te reconheces.  
 
afinal quantos poemas perdeste no engolir desta espiral
necessária? 
 
o vício precisa-te. tu retribuis-lhe e o vício-versa
 
na varanda o ofício do
cansaço registava o começo
das manhãs. 

 
a demência e o amor abrem-te por fim, 
os seus caminhos nas tuas veias sujas
 
- alcatrão pó e promessas por cumprir – 
 
e tu, 
destituição de fome ou falta de agasalho
 
decides enfrentar o que te consola quando no
palco são já outros que te espiam a ti.

19.

Costumava dizer: não são os momentos, a soma ou ausência de, que nos dão as conclusões. E apenas a subsistência ao alento que nos permite esperar, esperar mais e melhor. foi assim, já perto do seu final, que aguardou pacientemente por quem lhe chegasse para descalçar os sapatos gastos, lhe despisse as meias com delicadeza e lhe beijasse os pés com irreversível  bondade. Quando isso estava prestes a aconteceu, deu por vontade própria –como sempre quis – a sua outra face, a pior, e pode então calar-se de vez. 

18.

os maiores confrontos dão-se quase por devoção nas noites de maior silêncio. as vozes são uma guerra individual e secreta com a verdade, porém, são por vezes desporto colectivo e violento de esgrima numa discussão caseira que atinge a dimensão de uma noite em branco. pelos olhos disparam-se feixes certeiros com o propósito de cegar de razões a oposição. o discurso fica ligeiramente atordoado numa fase inicial, porque por norma a escolha dos nossos delitos não coincide com o nervo que alimenta a essência da discordância. ora que surgem imprevisões durante o desgaste. os altos e baixos vão de uma parte à outra parte e sucedem-se da outra parte de volta a si. num destes instantes de erosão comum, suspendem-se por bilateral acordo naquilo que se firma: sonhámos em construir um palácio com barro, mas nos avessos dos tijolos descobrimos uma casa a precisar de cuidados intensivos. um deles abre uma janela. em seguida, o fumo que sai (se era o que havia) dissipa-se da confusão grave e aguda de oxigénios e algumas faltas de ar. 

7.

tem toda a gente debruçada sobre ela. recorte esguio sobre fundo azul, o corpo fingido de estatua e os cabelos, amarrados, em grande cúpula de olhar vidrado – somente por um segundo pestanejou através dessa cortina de gelo, embora não se tenha virado nenhuma vez para a multidão. de repente tudo fica solene. depois do arrebatamento, a euforia deu lugar aos receios múltiplos de quem vira acontecer tragédias e fracassos vezes demais. cada instante pulsava com as respirações em crescendo. e depois já nada se ouvia a não ser, a provação do som. ela - na agilidade habitual a que tinha acostumado outros tantos - severa consigo e ainda assim harmoniosa com os presentes. elegeu criteriosamente a sincronia da implosão com os braços em contacto com a vertigem. não demorou mais que pouco. e em menos de nada o que só ela sabia é que tinham sido eles os escolhidos para assistir in loco a sua irreversível despedida.

A chegada a casa

A chegada a casa. Despe-se do casaco e atira as chaves para cima do bibelô de louça chinesa barata - tilintam-lhe os passos pelo grande corredor - na casa de banho lava com a toalha os olhos manchados de contornos de negro. Toma um duche demorado e quente, sai em carne viva no que até poderia ser uma sensação falsa de rubor. Mas que no caso não é. Deita-se no sofá sem ligar o televisor, sem ligar a rádio, sem se baralhar no seu silêncio com nenhum som. Recusa jantar, acariciar o pelo postiço do bicho embalsamado que tem plantado no centro de um pé direito razoável. Mas isso não é o pior. Força-se a adormecer ali, entre o estado prostrado e o selo que se fecha posteriormente. Já nem se lembra se as feridas se lambem ou se os selos são pedaços que se colam autónomos às cartas. Deixa-se deixar, teimando entre a mudança das horas ou o filme que de outras janelas nunca ninguém vê. A não ser, a falta que lhe fazia em desfazer a falta que já é. Porque o carteiro deixou de tocar? Chega a casa, e todos os dias anota a mesma pergunta numa parede de cera. O tempo voa, é o que todos lhe dizem. Mas onde não moram asas e o canário perdeu o pio, restam de quatro paredes o abandono de uma sirene anestesiada. Morta, talvez. Azul, é a cor que se lembra. E depois, um tom esbatido. Talvez do corpo, sem mais o que despir, estátua que ainda resiste. Sem visitas.