Fernando Machado Silva lê quatro poemas do seu livro 'Para um outro dia Lázaro'

Pedro Braga Falcão, Os Poemas Fingidos

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Pedro Braga Falcão
Os Poemas Fingidos

Poesia

Enfermaria 6, Lisboa,
fevereiro de 2018, 168 pp.
Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha  

12€

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Nunca souberam mais nada:
inventar que o dia continua.
Decerto solenes procissões, enredos,
preces e votos, e bairros ermos
fizeram para consagrar à ilusão
a luz que ela nunca teve.
Para quê? Para que um dia
pudessem fingir que o sol não importa.


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Pedro Braga Falcão

Pedro Braga Falcão é um poeta nascido de pais açorianos no final do século passado. Talvez por isso ensine línguas clássicas e história das religiões, e insista em traduzir poesia com mais de dois milénios. Como a infância e a juventude foram passadas numa aldeia que ninguém conhece, teve tempo para se tornar também músico. Como seria de esperar, é violetista e especializou-se em música antiga. Por vezes tenta manter-se no seu século ou, em alternativa, no sítio em que vive. A literatura que escreve e publica têm-no ajudado nesse sentido, sem grande sucesso.

Dois poemas de INCÊNDIOS, o novo livro de João Miguel Henriques

João Miguel Henriques, Incêndios
não edições, dezembro 2016
Encomendas: nao.edicoes@gmail.com

As feridas, com a nossa idade

saram lentas as feridas com a nossa idade
os golpes todos fecham só a custo
e devagar cresce a crosta sobre a carne
e como tarda a cair com a nossa idade
os meses que demora, são esperas longas
e a pele com a nossa idade após a crosta
já não é pele como dantes renovada
mas cicatriz dos nossos anos, da nossa idade
marcação de ferida lenta e pena funda
de funda ferida que a idade já não cura


Canção de infância

já noite dentro vimos então um sapo
um vulto escuro e lento
destacado contra o murete caiado
à luz mortiça de uma lua nova

só dias mais tarde, semanas
lembrados do sapo gordo e nocturno
nos veio à cabeça a tal cançoneta de infância

e o batráquio animal, de boca torta
pareceu-nos já outra coisa

o tempo

aquele olhar
a existência

tudo comeu
nem ofereceu


Lançamento do livro terá lugar no dia 20 de Dezembro pelas 21:00, no Bar A Barraca, Lisboa. Ver mais informação aqui.


"On Chesil Beach", um livro sem acontecimentos

On Chesil Beach, de Ian McEwan, não é, ao contrário do que se diz na capa, um livro de cortar a respiração. A bem dizer, pouca literatura corta a respiração. O processo a partir do qual se obtém prazer da literatura está ligado a algo que se poderia apelidar de cansaço. A literatura cansa e derruba o animal, a frase deliciosa convence, sossega o estômago, e desta maneira se vai de livro em livro, a lutar contra a selvajaria de estar vivo,  a preparar o olho vencido para o dia seguinte. Um dia, num concerto de Carlos do Carmo a que por acaso assisti, reparei que o artista detestava as palmas do público e exigia silêncio. Retirar prazer da literatura tem um pouco que ver com a irritação contra as palmas manifestada por Carlos do Carmo. Não há palmas nem paragens de respiração na literatura. O êxtase é silencioso e comedido. O que encontramos nesta novela é intensidade psicológica, cenas, momentos, pedaços de vida descritos a partir do que se sentiu. Estados de alma, sensações, como o nojo sentido pela rapariga ao ser assaltada pelo linguarudo beijo do marido. Longas e belas são as linhas que nos contam que aquele beijo e aquela língua são tão bem-vindas na boca da mulher como uma martelada nos dentes. É disto que este livro a lembrar Stefan Zweig trata, portanto, de sentimentos, de delírios. A história é simples e só um grande escritor conseguiria mantê-la durante duzentas páginas. Um jovem casal recém-casado, e aparentemente muito apaixonado, parte em lua de mel. Ele quer perder a virgindade, ela nem suporta a palavra sexo, a língua e a mão dele pousadas na sua perna nauseiam. Duzentas páginas de avanços e recuos mentais. Houve uma vez alguém que resumiu uma obra de Hemingway como a história de um velho que sai de manhã para pescar e regressa com um balde vazio. Pois bem, esta é a história de um casal que se casa e separa no mesmo dia por a noiva repudiar qualquer contacto físico. Uma história que sugere que o casamento pode ser uma experiência a dois, que pode excluir o sexo mas incluir amor. 

"Perhaps I should be psychoanalyzed. Perhaps what I really need to do is kill my mother and marry my father."

Atlas do corpo e da imaginação

ATLAS DO CORPO E DA IMAGINAÇÃO
Gonçalo M. Tavares; imagens: Os Espacialistas
Caminho, 2013: Alfragide.

Há uma paixão pelo grande. Se exceptuarmos Jerusalém, caso à parte, pelo Prémio Saramago, os livros de Gonçalo M. Tavares [GMT] que a crítica escolheu canonizar foram dois volumes pesados e descaradamente ambiciosos: um épico e um atlas. A sua produção de menor fôlego, salvo, porventura, o projecto O Bairro (mas mesmo este só enquanto colectivo), tem sido relegada para segundo plano.[1] Não que não se reconheça ali o talento do autor, que é admitido; simplesmente, perante um escritor tão efervescente, e que já ingressou no panteão literário, é vertiginosa a tentação de isolar «as grandes obras» – expressão levada à letra – que é dever de todo o cidadão da república das letras conhecer. O novíssimo Atlas apresentava-se como um candidato assaz bem-posicionado para integrar tal grupo, tendo a vantagem de se oferecer como uma súmula do pensamento e temas do autor. De facto, é previsível que, doravante, nenhum trabalho académico sobre GMT deixe de o citar (o Atlas é a tese que todos queriam ter escrito).

Ficou já claro que preferimos a obra breve de GMT, a mais fiel ao seu amor pelo fragmento. O Atlas tem sido descrito precisamente como uma colecção de fragmentos grandes, uma enciclopédia que versa sobre uma mão-cheia de tópicos, avançando poucas conclusões, apesar da síntese final de quase duas dezenas de páginas, incompreensível, porém, senão em diálogo com a obra, bem longe, portanto, de uma lista de teses (podemos compará-la, de alguma forma, com o diagrama que fecha o Uma Viagem à Índia: ambos os suplementos funcionam como pegadas — não por acaso o do épico se subintitulava um itinerário). O Atlas não é um ensaio; tal palavra só se lhe adequa se estivermos não tanto a procurar categorizá-lo – os livros de GMT já há muito se percebeu serem impossíveis de arrumar nas gavetas clássicas – mas a descrever o seu método: tal como um actor tenta acertar com a personagem, experimentando modos diversos de lhe dar corpo (e esta ideia de dar corpo é o movimento central da obra), assim GMT com os seus objectos, numa abordagem vindicada na Parte I. A resultante lassidão[2] do pensamento exposto, com ângulos mortos, não afecta a coerência geral do raciocínio – percebem-se com clareza as linhas de força da mundivisão do autor – ainda que, num certo sentido, lhe diminua a força, prejuízo que a forma pseudo-fragmentária do texto contrabalança, em parte, pelas virtudes inerentes a tal estilo.

Há, como, de resto, já era visível nos romances de GMT, um enorme esforço de tudo tornar carne, em interacção com os planos do tempo e do espaço. Essa tentativa é, dependendo dos casos, mais, ou menos, bem conseguida, mas nunca vã. A noção da incapacidade final em concretizar tal programa é o que está na base de algumas das principais aporias do livro. Porque, porém, como sublinhámos, o Atlas não é um tratado, isso é só marginalmente problemático. Nada do caminho feito se perde. Dois autores, como divindades tutelares, acompanham-nos ao longo de toda a obra: Wittgenstein e Bachelard. Muitos outros são citados em abundância, como Barthes ou Arendt, também do campo da literatura, nomeadamente Clarice Lispector, Vergílio Ferreira e Robert Musil. Ressente-se, porém, uma ausência: Espinosa, o qual só é mencionado a certo ponto, e via Deleuze. Trata-se de uma omissão difícil de explicar: o filósofo serviria impecavelmente o projecto do autor.

O Atlas é atravessado por mil notas (o número redondo é o sinal mais explícito de um rigoroso trabalho de edição). Estas, quando não servem meramente para dar a indicação bibliográfica de um passo citado (há-os a mais, a nossa ver: algumas secções são canibalísticas em demasia), são usadas frequentemente para convocar obras literárias, apresentando a ficção como uma modalidade do pensamento (cf. Platão). Tais cruzamentos são do mais interessante que o Atlas oferece. O rodapé constitui um elemento que, como uma caixa de ressonância, amplifica o texto principal, encetando com este um diálogo próprio. O corpo de texto estabelece ainda uma relação privilegiada com as fotografias que o emolduram, da autoria d’Os Espacialistas. Estas afirmam a singularidade do livro, mais: constituem, em si mesmas, um conjunto passível de leitura autónoma. Tem-se exagerado esta dimensão, contudo: é rara a página em que a imagem não se liga ao texto, ainda que de maneira muito oblíqua, um pouco como as entradas na Biblioteca podiam surgir a partir de uma palavra apenas na obra do escritor. Um exemplo: a capa. Um homem segurando um círculo branco gigante: Atlas, o titã, carregando o mundo e dando o seu nome ao livro. As imagens, por sua vez, relacionam-se não só com o texto mas também com as legendas que GMT elaborou para elas e que, tantas vezes, corrigem o nosso olhar. Por fim, importa sublinhar a ligação entre o Atlas e a tese de doutoramento que lhe deu origem: apesar do facto ser referido em todas as recensões e entrevistas com o autor, falta ainda confrontar a dissertação com o livro publicado, exercício que proporcionará uma janela preciosa para o modus scribendi de GMT. Todas estas ligações, que combatem a fixação de um sentido para a obra pela multiplicação das possibilidades de relação entre as suas partes, não espantam num texto que é uma apologia insistente do emparelhamento exogâmico (se a metáfora não é violenta demais) de todas as realidades do mundo umas com as outras.

O livro, informa-nos a nota final, é dedicado a Bernardo Sassetti. «Gostávamos muito dele; faz muita falta». De uma simplicidade escandalosa, é dos mais intensos elogios fúnebres que conhecemos: na sua brevidade, diz tudo. Nada se lhe poderia juntar sem perda. Talvez seja o fragmento (podemos pensá-lo assim, macabro exemplo do estilo do autor na frase mais pessoal da obra, na concentração de discurso que alcança com palavras tão chãs) mais perturbador de todo o livro: um fragmento para outro fragmento.

 

João Diogo Loureiro

 

[1] Lembramo-nos de ouvir uma vez o escritor, há já uns anos, lamentar que tão poucas pessoas pegassem no seu A Perna Esquerda de Paris e…, confessando ser um livro pelo qual tinha um grande carinho. Sintomaticamente, é um dos nossos favoritos.

[2] O termo ‘lassidão’ não pretende ter aqui qualquer carga negativa; serve como simples substantivo para a qualidade do que é solto. É significativo que várias palavras para exprimir esta folga na articulação das coisas – frouxidão, liquidez – tenham um sentido pejorativo, traindo uma censura enterrada de tudo o que não é compacto e definido.