Selima Hill, 'Posso, por favor, ter um homem '

Tradução de Hugo Pinto Santos

Posso, por favor, ter um homem que use bombazine.
Posso, por favor, ter um homem
que saiba 100 nomes diferentes de  rosas;
que não se importe com os meus coelhos distraídos
 que vagueiam por aqui e por ali
como se fossem donos disto,
que me faça um caril cremoso com erva-cidreira fresca,

que caminhe como Belmondo em A Bout de Souffle;
que pendure todos os meus postais cuidadosamente selecionados -
mandados de cidades exóticas
às quais ele não espera ir comigo,
mas aonde iria se lhe pedisse, o que farei -
com mais niguém, na parede do seu quarto,
a começar por Ivy, o Famoso Porco Mergulhador,

de cujo retrato, em acção, comprei dez cópias;
que também fale como Belmondo, com lábios tão suaves
e tão firmemente desenhados como botões de peónia
cobertos de chocolate (chocolate fundente);
que saiba que postar-se ébrio sobre mim
como um edredão com estofo de livros da biblioteca e sacos de compras
é muito fácil: posso, por favor, ter um homem

que não esteja disposto a fazer isso.
Nem esteja disposto a dizer-me que estou bonita.
Que, quando eu saio apressada da casa de banho,
como um leitãozinho aprumado,
que não quer mais do que uma pândega
de afecto e indisciplina, sem complicações,
abra os braços como uma gamela para eu mergulhar. 

Selima Hill, Violet, Bloodaxe, 1997

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Explicar a Capivara ao Meu Professor de Espanhol

tradução de Hugo Pinto Santos

A distância entre a minha mão
e o chão enche-se com a capivara;
depois aparecem os dentes,
afiados e brilhantes como duas constatações de facto
– tudo aquilo de que ela se vai lembrar –
sobre um animal cujos plácidos olhos negros
e lento passo na pastagem ficam por dizer
nos canaviais varridos de nuvens lembro-me.

Mark Leech, Orbis n.º 132 – Primavera 2005

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Os Caçadores de Aves dos Pântanos

Tradução de Hugo Pinto Santos

Há três mil anos,
caçavam aves nos pântanos
em torno de Tebas – homens com saios enredados
e colares de faiança dispostos em camadas,
que evitavam o crocodilo castanho,
e adoravam a íbis, que perseguiam
com longos gatos riscados presos por um fio,
sob o olhar de Nut, deusa do céu.

O estranho mundo sussurado da minha mãe é assim:
ela assombra-o como os caçadores de aves dos pântanos,
vai alegremente pé ante pé pela história, sustida por deuses
que me são tão estranhos como a Senhora Nut ou Anúbis,
o oracular, mascarado de chacal.
Quando a vou buscar à estação, digo
Olá, mãe! e penso Olá, Thot,
Esta é a Pesagem do Coração.

Selima Hill, Trembling Hearts in the Bodies of Dogs: New and Selected Poems, Bloodaxe Books, 1994

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Três poemas de Paladas de Alexandria

Paladas de Alexandria
Tradução: 
Hugo Pinto Santos
A partir das traduções de Peter Jay & Tony Harrison

 

A filha do gramático,
tendo-se flexionado com um homem,
deu à luz os seus filhos — masculino,
feminino e neutro. 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Peter Jay)

*

Os nomes têm declinação, os gramáticos declinam.
Vou vender estes meus malfadados livros,
o meu Píndaro, o meu Calímaco, tudo.
Sou um ‘caso’ perdido. Foi a pobreza que me aconteceu.
Doroteu despediu-me
e diz mal de mim pelas costas.

Ajuda-me, Téon, ou a única coisa entre mim e
A pobreza será um &.

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

*

A morte é uma dívida que todos detêm,
e se durarás para lá desta noite, quem sabe.

Aprende, então, a lição, e dá-te por grato
pelo vinho e a companhia e bares abertos toda a noite.

A vida encarreira-se para a cova a largo passo,

por isso bebe e ama, e deixa aos Fados o resto.

 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

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