Pier Paolo Pasolini, "O verdadeiro fascismo e portanto o verdadeiro antifascismo"

 
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Tradução: João Coles


O que é a cultura de uma nação? É crença corrente, também de parte de pessoas cultas, que esta é a cultura dos investigadores, dos políticos, dos professores, dos literatos, dos cineastas, etc.; ou seja, que é a cultura da intelligentsia. Todavia, não é assim. Nem tão-pouco a cultura da classe dominante, que, precisamente através da luta de classes, procura impô-la pelo menos formalmente. Não é tão-pouco, enfim, a cultura da classe dominada, isto é, a cultura popular dos operários e dos camponeses. A cultura de uma nação é o conjunto de todas estas culturas de classe: é a média delas. E seria por conseguinte abstracta se não fosse reconhecível – ou, a bem dizer, visível – na vida vivida e no existencial, e se não tivesse consequentemente uma dimensão prática. Durante muitos séculos em Itália estas culturas eram distinguíveis apesar de historicamente unificadas. Hoje – quase de repente, com uma espécie de Advento – distinção e unificação históricas cederam o lugar a uma homologação que concretiza quase miraculosamente o sonho entre-classista do velho Poder. A que se deve tal homologação? Evidentemente a um novo Poder.

Escrevo “Poder” com maiúscula – coisa que Maurizio Ferrara acusa de irracionalismo em «l'Unità» (12-6-1974) – apenas porque sinceramente não sei em que consiste este novo Poder e quem o representa. Sei simplesmente que existe. Não o reconheço no Vaticano, nem nos poderosos cristãos, nem nas Forças Armadas. Já nem o reconheço na grande indústria porque esta deixou de ser constituída por um número determinado e limitado de grandes industriais: tenho para mim, pelo menos, que esta surge, pelo contrário, como um todo (industrialização total), e, além do mais, como um todo não italiano (transnacional).

Conheço, também porque as vejo e as vivo, algumas das características deste novo Poder ainda sem face: a recusa pelo antigo sanfedismo (1) e pelo antigo clericalismo, a decisão de abandonar a Igreja, a determinação (coroada como triunfo) de transformar camponeses e sub-proletários em pequenos burgueses, e sobretudo a mania, cósmica, por assim dizer, de executar até ao fim o “Progresso”: produzir e consumir.

O retrato deste novo rosto ainda em branco do novo Poder atribui-lhe traços vagamente “moderados”, devidos à tolerância e a uma ideologia hedonista auto-suficiente; mas também traços ferozes e substancialmente repressivos: a tolerância é falsa, pois nunca nenhum homem foi obrigado a ser tão normal e conformista como o consumidor. Quanto ao hedonismo, este esconde evidentemente uma decisão de pré-ordenar tudo com tal impiedade que a história jamais conheceu até hoje. Portanto, este novo Poder ainda sem representantes, que se deve a uma «mutação» da classe dominante, é na verdade – se quisermos preservar a velha terminologia – uma forma total de fascismo. Mas esse Poder também “homologou” culturalmente a Itália: trata-se, portanto, de uma homologação repressiva, apesar de ter sido alcançada através da imposição do hedonismo e da joie de vivre. A estratégia da tensão é um indício, ainda que substancialmente anacrónico, de tudo isto.

Maurizio Ferrara, no artigo citado (tal como Ferrarotti, em « Paese Sera », 14-6-1974), acusa-me de estetismo. E com isto tende a excluir-me, a circunscrever-me. Muito bem: a minha pode ser a óptica de um « artista », isto é, como pretende a boa burguesia, de um louco. Mas o facto que dois representantes do velho Poder (que agora servem, na verdade, ainda que interlocutoriamente, o Poder novo) se tenham chantageado mutuamente a propósito de financiamentos aos partidos e dos caso Montesi, pode ser também um bom motivo para enlouquecer: ou seja, desacreditar totalmente uma classe dirigente e uma sociedade diante dos olhos de um homem, a ponto de o fazer perder o sentido de oportunidade e dos limites, lançando-o num verdadeiro e autêntico estado de «anomia». Vai dito, aliás, que o ponto de vista dos loucos é de tomar em séria consideração: a menos que se queira progredir em tudo salvo no problema dos doidos e limitar-se comodamente a mantê-los à margem.

Há certos loucos que olham para a cara das pessoas e para o seu comportamento. Mas não porque sejam epígonos do positivismo lombrosiano (2) (como grosseiramente insinua Ferrara), mas porque conhecem a semiologia. Sabem que a cultura produz códigos; que os códigos produzem o comportamento; que o comportamento é uma linguagem; e que em determinado momento histórico em que a linguagem verbal é totalmente convencional e estéril (técnica) a linguagem do comportamento (físico e mímico) assume uma importância decisiva.

Voltando assim ao início do nosso discurso, parece-me que temos boas razões para afirmar que a cultura de uma nação (em concreto a Itália) é hoje exprimida sobretudo através da linguagem do comportamento, a linguagem física, mais uma determinada quantidade – completamente convencional e extremamente pobre – de linguagem verbal.

É a este nível de comunicação linguística que se manifestam: a) a mutação antropológica dos italianos; b) a sua completa homologação a um modelo único.

Portanto: decidir deixar crescer o cabelo até às costas, ou mesmo cortar o cabelo e deixar crescer o bigode (numa evocação pré-novecentista); decidir pôr uma banda na cabeça ou enfiar uma boina até aos olhos; decidir sonhar com um Ferrari ou com um Porsche; seguir com atenção os programas televisivos; conhecer os títulos de alguns best-seller; vestir-se com calças e camisolas prepotentemente na moda; ter relações obsessivas com mulheres postas de lado como meros adornos, mas, ao mesmo tempo, com a pretensão de que são «livres» etc. etc. etc.: tudo isto são actos culturais. Hoje, todos os jovens italianos cumprem estes mesmo actos, têm a mesma linguagem física, são permutáveis; uma coisa velha como o mundo, se estiver limitada a uma classe social, a uma categoria: mas o facto é que estes actos culturais e esta linguagem somática são inter-classistas. Numa praça repleta de jovens, já ninguém poderá distinguir, pelo corpo, um operário de um estudante, um fascista de um antifascista; algo que ainda era possível em 1968.

Os problemas de um intelectual pertencente à intelligentsia são diferentes dos de um partido e de um homem político, ainda que a ideologia seja a mesma. Gostaria que os meus actuais opositores de esquerda compreendessem que estou em condições de dar-me conta que, caso o Progresso sofresse detenção e tivesse uma recessão, se os Partidos de Esquerda não apoiassem o Poder vigente, a Itália simplesmente se desmantelaria; se pelo contrário, o Progresso continuasse tal como começou, seria indubitavelmente realista o chamado «compromisso histórico», o único modo para tentar corrigir esse Progresso no sentido indicado por Berlinguer na sua relação com o CC do partido comunista (cfr. «l’Unità », 4-6-1974). Todavia, como a Maurizio Ferrara não competem as «caras», a mim não compete esta manobra de prática política. Aliás, eu tenho, quando muito, o dever de exercitar sobre ela a minha crítica, quixotescamente e talvez de maneira extrema. Quais são, então, os meus problemas?

Eis um, por exemplo. No artigo que suscitou esta polémica («Corriere della sera», 10-6-1974) lia-se que os reais responsáveis pelos atentados de Milão e de Brescia (3) são o governo e a polícia italiana: porque se o governo e a polícia tivessem querido, estes atentados não teriam tomado lugar. É um lugar comum. Pois bem, por esta altura vão fazer pouco de mim se disser que os responsáveis destes atentados somos também nós progressistas, antifascistas, homens de esquerda. De facto, em todos estes anos não fizemos nada:

1) para que falar de «atentados de Estado» não se tornasse num lugar comum e que ficasse por ali;

2) (e mais grave) não fizemos nada para que os fascistas não existissem. Apenas os condenámos gratificando a nossa consciência com a nossa indignação; e quanto mais forte e petulante era a indignação, mais tranquila estava a nossa consciência.

Na verdade, comportámo-nos com os fascistas (falo sobretudo dos jovens) de maneira racista: quisemos apressada e impiedosamente acreditar que eles estavam predestinados racialmente a serem fascistas e, perante esta decisão do destino deles, não havia nada a fazer. E não o escondamos: todos sabíamos, no fundo da nossa consciência, que quando um daqueles jovens tomava a decisão de tornar-se fascista, era puramente casual, não era um gesto desmotivado ou irracional: talvez tivesse bastado uma só palavra para que isso não tivesse acontecido. Mas nenhum de nós falou com eles ou a eles. Aceitámo-los imediatamente como representantes inevitáveis do mal. E talvez fossem rapazes e raparigas adolescentes nos seus dezoito anos, que não sabiam nada de nada, e atiraram-se de cabeça nesta horrenda aventura por simples desespero.

Mas não conseguíamos distingui-los dos outros (não digo dos outros extremistas: mas de todos os outros). É esta a nossa aterradora justificação.

O padre Zósima (a literatura pela literatura!) soube de imediato distinguir, entre todos aqueles que se amontoavam na sua cela, Dimitri Karamazov, o parricida. Então levantou-se da sua cadeira e foi prostrenar-se diante dele. E fê-lo (como diria mais tarde ao Karamazov mais novo) porque Dimitri estava destinado a cometer o mais terrível acto e a suportar a mais desumana dor.

Pensem (se tiverem forças) naquele rapaz ou naqueles rapazes que foram plantar bombas na praça de Brescia. Não era de nos levantarmos e de irmos prosternar-nos diante deles? Mas eram jovens de cabelos compridos, ou com bigodes à século XX, tinham bandas na cabeça ou boinas enfiadas até aos olhos, eram pálidos e presunçosos; o problema deles era vestirem-se à moda e todos da mesma maneira, ter um Porsche ou um Ferrari, ou mesmo motas para as conduzirem como pequenos arcanjos idiotas com mulheres ornamentais atrás, sim, mas modernas, e a favor do divórcio, da libertação da mulher, e em geral do progresso... Eram, enfim, jovens como todos os outros: nada os distinguia fosse como fosse. Mesmo que o tivéssemos pretendido não teríamos sido capazes de nos prosternarmos diante deles. Porque o velho fascismo, ainda que através da degeneração retórica, distinguia: enquanto que o novo fascismo – que é toda outra história – deixou de distinguir: não é humanamente retórico, é americanamente pragmático. O seu objectivo é a reorganização e a homologação brutalmente totalitária do mundo.



(1) O Sanfedismo, cujo nome deriva de “Exército da Santa Fé”, foi um movimento religioso anti-republicano nascido no final do séc. XVIII na Itália meridional quando as monarquias tradicionais foram depostas e substituídas pelas repúblicas napoleónicas. Os sanfedisti eram grupos e associações religiosas que lutavam pela defesa da Santa Fé e das monarquias tradicionais.

(2) Marco Ezechia Lombroso, também conhecido por Cesare Lombroso, um dos expoentes do positivismo, foi o fundador da antropologia da criminalidade. As suas teorias, influenciadas pela fisiognonomia, pelo darwinismo social e pela frenologia, baseavam-se no conceito de “criminoso à nascença”; teorias que defendiam que a criminalidade era hereditária e que partir da identificação de certas características anatómicas à nascença, se poderia deduzir que determinado indivíduo se tornaria num criminoso.

(3) Pasolini refere-se aos atentados de Piazza Fontana em Milão (12/12/1969) e de Piazza della Loggia em Brescia (28/05/1974), dois actos terroristas neofascistas. O primeiro é considerado o ponto de partida e o momento incandescente dos “anos de chumbo” em Itália, que culminou em vários atentados terroristas até ao início dos anos 80; o segundo, foi um atentado terrorista fascista que teve lugar no decurso de uma manifestação contra o terrorismo neofascista, onde uma bomba explodiu e provocou a morte de 8 pessoas e feriu outras 102.

Publicado originalmente no «Corriere della Sera» a 24 de Junho de 1974 com o título "O poder sem rosto”.

In Il fascismo degli antifascisti, Garzanti


Il vero fascismo e quindi il vero antifascismo

Che cos’è la cultura di una nazione? Correntemente si crede, anche da parte di persone colte, che essa sia la cultura degli scienziati, dei politici, dei professori, dei letterati, dei cineasti ecc.: cioè che essa sia la cultura dell’intelligencija. Invece non è così. E non è neanche la cultura della classe dominante, che, appunto, attraverso la lotta di classe, cerca di imporla almeno formalmente. Non è infine neanche la cultura della classe dominata, cioè la cultura popolare degli operai e dei contadini. La cultura di una nazione è l’insieme di tutte queste culture di classe: è la media di esse. E sarebbe dunque astratta se non fosse riconoscibile – o, per dir meglio, visibile – nel vissuto e nell’esistenziale, e se non avesse di conseguenza una dimensione pratica. Per molti secoli, in Italia, queste culture sono stato distinguibili anche se storicamente unificate. Oggi – quasi di colpo, in una specie di Avvento – distinzione e unificazione storica hanno ceduto il posto a una omologazione che realizza quasi miracolosamente il sogno interclassista del vecchio Potere. A cosa è dovuta tale omologazione? Evidentemente a un nuovo Potere.

Scrivo “Potere” con la P maiuscola – cosa che Maurizio Ferrarà accusa di irrazionalismo, su «l’Unità» (12-6-1974) – solo perché sinceramente non so in cosa consista questo nuovo Potere e chi lo rappresenti. So semplicemente che c’è. Non lo riconosco più né nel Vaticano, né nei Potenti democristiani, né nelle Forze Armate. Non lo riconosco più neanche nella grande industria, perché essa non è più costituita da un certo numero limitato di grandi industriali: a me, almeno, essa appare piuttosto come un tutto (industrializzazione totale), e, per di più, come tutto non italiano (transnazionale).

Conosco, anche perché le vedo e le vivo, alcune caratteristiche di questo nuovo Potere ancora senza volto: per esempio il suo rifiuto del vecchio sanfedismo e del vecchio clericalismo, la sua decisione di abbandonare la Chiesa, la sua determinazione (coronata da successo) di trasformare contadini e sottoproletari in piccoli borghesi, e soprattutto la sua smania, per così dire cosmica, di attuare fino in fondo lo “Sviluppo”: produrre e consumare.

L’identikit di questo volto ancora bianco del nuovo Potere attribuisce vagamente ad esso dei tratti “moderati”, dovuti alla tolleranza e a una ideologia edonistica perfettamente autosufficiente; ma anche dei tratti feroci e sostanzialmente repressivi: la tolleranza è infatti falsa, perché in realtà nessun uomo ha mai dovuto essere tanto normale e conformista come il consumatore; e quanto all’edonismo, esso nasconde evidentemente una decisione a preordinare tutto con una spietatezza che la storia non ha mai conosciuto. Dunque questo nuovo Potere non ancora rappresentato da nessuno e dovuto a una «mutazione» della classe dominante, è in realtà – se proprio vogliamo conservare la vecchia terminologia – una forma “totale” di fascismo. Ma questo Potere ha anche “omologato” culturalmente l’Italia: si tratta dunque di un’omologazione repressiva, pur se ottenuta attraverso l’imposizione dell’edonismo e della joie de vivre. La strategia della tensione è una spia, anche se sostanzialmente anacronistica, di tutto questo.

Maurizio Ferrara, nell’articolo citato (come del resto Ferrarotti, in « Paese Sera », 14-6-1974) mi accusa di estetismo. E tende con questo a escludermi, a recludermi. Va bene: la mia può essere l’ottica di un « artista », cioè, come vuole la buona borghesia, di un matto. Ma il fatto per esempio che due rappresentanti del vecchio Potere (che servono però ora, in realtà, benché interlocutoriamente, il Potere nuovo) si siano ricattati a vicenda a proposito dei finanziamenti ai Partiti e del caso Montesi, può essere anche una buona ragione per fare impazzire: cioè screditare talmente una classe dirigente e una società davanti agli occhi di un uomo, da fargli perdere il senso dell’opportunità e dei limiti, gettandolo in un vero e proprio stato di «anomia». Va detto inoltre che l’ottica dei pazzi è da prendersi in seria considerazione: a meno che non si voglia essere progrediti in tutto fuorché sul problema dei pazzi, limitandosi comodamente a rimuoverli.

Ci sono certi pazzi che guardano le facce della gente e il suo comportamento. Ma non perché epigoni del positivismo lombrosiano (come rozzamente insinua Ferrara), ma perché conoscono la semiologia. Sanno che la cultura produce dei codici; che i codici producono il comportamento; che il comportamento è un linguaggio; e che in un momento storico in cui il linguaggio verbale è tutto convenzionale e sterilizzato (tecnicizzato) il linguaggio del comportamento (fisico e mimico) assume una decisiva importanza.

Per tornare così all’inizio del nostro discorso, mi sembra che ci siano delle buone ragioni per sostenere che la cultura di una nazione (nella fattispecie l’Italia) è oggi espressa soprattutto attraverso il linguaggio del comportamento, o linguaggio fisico, più un certo quantitativo – completamente convenzionalizzato e estremamente povero – di linguaggio verbale.

È a un tale livello di comunicazione linguistica che si manifestano: a) la mutazione antropologica degli italiani; b) la loro completa omologazione a un unico modello.

Dunque: decidere di farsi crescere i capelli fin sulle spalle, oppure tagliarsi i capelli e farsi crescere i baffi (in una citazione protonovecentesca); decidere di mettersi una benda in testa oppure di calcarsi una scopoletta sugli occhi; decidere se sognare una Ferrari o una Porsche; seguire attentamente i programmi televisivi; conoscere i titoli di qualche best-seller; vestirsi con pantaloni e magliette prepotentemente alla moda; avere rapporti ossessivi con ragazze tenute accanto esornativamente, ma, nel tempo stesso, con la pretesa che siano «libere» ecc. ecc. ecc.: tutti questi sono atti culturali.

Ora, tutti gli Italiani giovani compiono questi identici atti, hanno questo stesso linguaggio fisico, sono interscambiabili; cosa vecchia come il mondo, se limitata a una classe sociale, a una categoria: ma il fatto è che questi atti culturali e questo linguaggio somatico sono interclassisti. In una piazza piena di giovani, nessuno potrà più distinguere, dal suo corpo, un operaio da uno studente, un fascista da un antifascista; cosa che era ancora possibile nel 1968.

I problemi di un intellettuale appartenente all’intelligencija sono diversi da quelli di un partito e di un uomo politico, anche se magari l’ideologia è la stessa. Vorrei che i miei attuali contraddittori di sinistra comprendessero che io sono in grado di rendermi conto che, nel caso che lo Sviluppo subisse un arresto e si avesse una recessione, se i Partiti di Sinistra non appoggiassero il Potere vigente, l’Italia semplicemente si sfascerebbe; se invece lo Sviluppo continuasse così com’è cominciato, sarebbe indubbiamente realistico il cosiddetto «compromesso storico», unico modo per cercare di correggere quello Sviluppo, nel senso indicato da Berlinguer nel suo rapporto al CC del partito comunista (cfr. «l’Unità », 4-6-1974). Tuttavia, come a Maurizio Ferrara non competono le «facce», a me non compete questa manovra di pratica politica. Anzi, io ho, se mai, il dovere di esercitare su essa la mia critica, donchisciottescamente e magari anche estremisticamente. Quali sono dunque i miei problemi?

Eccone per esempio uno. Nell’articolo che ha suscitato questa polemica («Corriere della sera», 10-6-1974) dicevo che i responsabili reali delle stragi di Milano e di Brescia sono il governo e la polizia italiana: perché se governo e polizia avessero voluto, tali stragi non ci sarebbero state. È un luogo comune. Ebbene, a questo punto mi farò definitivamente ridere dietro dicendo che responsabili di queste stragi siamo anche noi progressisti, antifascisti, uomini di sinistra. Infatti in tutti questi anni non abbiamo fatto nulla:

1) perché parlare di « Strage di Stato » non divenisse un luogo comune, e tutto si fermasse lì;

2) (e più grave) non abbiamo fatto nulla perché i fascisti non ci fossero. Li abbiamo solo condannati gratificando la nostra coscienza con la nostra indignazione; e più forte e petulante era l’indignazione più tranquilla era la coscienza.

In realtà ci siamo comportati coi fascisti (parlo soprattutto di quelli giovani) razzisticamente: abbiamo cioè frettolosamente e spietatamente voluto credere che essi fossero predestinati razzisticamente a essere fascisti, e di fronte a questa decisione del loro destino non ci fosse niente da fare. E non nascondiamocelo: tutti sapevamo, nella nostra vera coscienza, che quando uno di quei giovani decideva di essere fascista, ciò era puramente casuale, non era che un gesto, immotivato e irrazionale: sarebbe bastata forse una sola parola perché ciò non accadesse. Ma nessuno di noi ha mai parlato con loro o a loro. Li abbiamo subito accettati come rappresentanti inevitabili del Male. E magari erano degli adolescenti e delle adolescenti diciottenni, che non sapevano nulla di nulla, e si sono gettati a capofitto nell’orrenda avventura per semplice disperazione.

Ma non potevamo distinguerli dagli altri (non dico dagli altri estremisti: ma da tutti gli altri). È questa la nostra spaventosa giustificazione.

Padre Zosima (letteratura per letteratura!) ha subito saputo distinguere, tra tutti quelli che si erano ammassati nella sua cella, Dmitrj Karamazov, il parricida. Allora si è alzato dalla sua seggioletta ed è andato a prosternarsi davanti a lui. E l’ha fatto (come avrebbe detto più tardi al Karamazov più giovane) perché Dmitrj era destinato a fare la cosa più orribile e a sopportare il più disumano dolore.

Pensate (se ne avete la forza) a quel ragazzo o a quei ragazzi che sono andati a mettere le bombe nella piazza dì Brescia. Non c’era da alzarsi e da andare a prosternarsi davanti a loro? Ma erano giovani con capelli lunghi, oppure con baffetti tipo primo Novecento, avevano in testa bende oppure scopolette calate sugli occhi, erano pallidi e presuntuosi, il loro problema era vestirsi alla moda tutti allo stesso modo, avere Porsche o Ferrari, oppure motociclette da guidare come piccoli idioti arcangeli con dietro le ragazze ornamentali, si, ma moderne, e a favore del divorzio, della liberazione della donna, e in generale dello sviluppo… Erano insomma giovani come tutti gli altri: niente li distingueva in alcun modo. Anche se avessimo voluto non avremmo potuto andare a prosternarci davanti a loro. Perché il vecchio fascismo, sia pure attraverso la degenerazione retorica, distingueva: mentre il nuovo fascismo – che è tutt’altra cosa – non distingue più: non è umanisticamente retorico, è americanamente pragmatico. Il suo fine è la riorganizzazione e I’omologazione brutalmente totalitaria del mondo.


Publicado originalmente no «Corriere della Sera» a 24 de Junho de 1974 com o título "O poder sem rosto”.

In Il fascismo degli antifascisti, Garzanti

Pier Paolo Pasolini, "O ódio racial"

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Tradução: João Coles

Em “Os cães do Sinai” (De Donato editores) Fortini faz, no corpo do seu discurso, pessoal e pouco límpido, sobre a guerra entre Israel e os árabes, uma observação: no futuro o racismo aumentará de intensidade e de frequência em vez de diminuir: e isto por causa da pressão de um poder, que sendo menos visível e pessoal, não será menos esmagador: pelo contrário, será de tal maneira esmagador a despedaçar e pulverizar a colectividade que constitui o tecido conectivo do processo de produção e consumo; tal pulverização da sociedade em tantas formas diferentes, igualmente oprimidas, fará precisamente aumentar o racismo, pois todas as pequenas partes separadas, nas quais será despedaçado o mundo esmagado, odiar-se-ão racialmente entre elas.

É um ódio racial difícil de imaginar.

É, em geral, difícil, mesmo agora, que vigora com tanto furor, e nós acabámos de sobreviver a isso, imaginar o que é o ódio racial. Este é, na verdade, constituído por muitos ódios raciais, diferentes e por vezes também contraditórios.

Há um primeiro nível histórico – onde permanece o popular – no qual o ódio racial é mágico: e, como tal, sobrevive em cada um de nós (que, nos nossos estratos profundos, permanecemos pré-históricos e populares). Este tipo de ódio racial é o único suficientemente verosímil de imaginar, e é também, de certa maneira, justificável, dado que precede a fase da razão.

As nossas “antipatias” por certos tipos de pessoas, o desconforto violento que nos dão certos “corpos”, são arquétipos de um determinado ódio racial, que experimentamos, seja mesmo de maneira defeituosa ou embrionária, e que portanto recai sob o domínio da nossa experiência.

Todo o restante quadro do ódio racial faz parte de um fundo social, que uma pessoa dotada do uso da razão tem dificuldade em acreditar que verdadeiramente exista. Neste momento histórico, parece-me que o ódio racial seja o ódio que experimenta um burguês perante um camponês: ou seja, o ódio que experimenta um homem integrado num tipo de civilização moderna e citadina contra um homem que representa um tipo precedente de civilização, que ainda ameaça a presença da actual: demonstrando fisicamente que o retrocesso é sempre possível (socialmente). Eis porque se odeia racialmente os negros, enquanto pobres, e os pobres, enquanto, inevitavelmente, diferentes de pele, sendo adidos aos velhos trabalhos que comportam necessariamente o ar livre e o sol (o efeito do sol na pele parece ter um valor decisivo no ódio racial de quem vive em casas civis, e, se trabalhar no campo, fá-lo enquanto patrão, ou industrialmente).

Negros, europeus do sul, bandidos sardos, árabes, andaluzes, etc.: têm todos em comum a culpa de ter os rostos queimados pelo sol do campo, pelo sol dos tempos antigos.

Porém, para voltarmos a Fortini, e à sua observação sobre a pulverização da sociedade graças ao poder e à multiplicação dos racismos, talvez, nos nossos dias – e precisamente nestes últimos dias – alguma coisa tenha caído antecipadamente no círculo da nossa experiência directa.

Verificou-se, efectivamente, em certos estratos que se consideravam muito bem estabilizados da sociedade, uma pulverização devida ao movimento subversivo dos estudantes: tratam-se de estratos muito peculiares: isto é, os estratos das elites intelectuais (como sabemos, extremamente sensíveis e vulneráveis).

A pressão exercida por um poder até àquele momento não só inexistente mas até mesmo inimaginável, o dos jovens, pulverizou estes estratos: e disto nasceu, de entre os vários fragmentos de tal pulverização, uma espécie de ódio racial recíproco.

Nasceu, enfim, uma divisão terrorista entre “justos” e “réprobos”: que não é apenas moral, e portanto perdeu todos os rituais e fair-play. Não, perante o “réprobo”, o justo sente uma antipatia física de tal maneira forte que, mesmo conhecendo-o há anos (e, até ao outro dia, pertenciam ao mesmo genérico círculo social com ideias políticas análogas), quase que sente uma espécie de repugnância; não lhe aperta a mão; evita-o; fica-lhe ao largo; começa a preparar-lhe uma espécie de clima de linchagem.

Viu-se isto, por exemplo, recentemente, no mundo literário (o pobre e decadente mundo literário italiano), pela ocasião dos Prémios: a pressão estudantil, derivada de um certo fascismo de esquerda, exerceu uma forte pressão (social e de consciência) sobre as elites culturais italianas, pulverizando-as e lançando-as no caos.

Cada pessoa encontrou-se (como que por acaso, ainda muito longe de um exaustivo exame de consciência) num fragmento à deriva deste caos: e experimentou um ódio inaudito, uma espécie de nojo físico, pelos seus adversários. Enfim, a pressão de um tipo de poder novo, sem importância decisiva, para já, para o “sistema”, mas assaz importante, pelo contrário, para as consciências, alargou o quadro do ódio racial para tipos de ódio racial novos.

A grande surpresa nisto tudo é que o poder “esmagador” não é o poder constituído. Creio, contudo, que o poder dos estudantes – tal como se instituiu mal-grado estes – se enquadre na problemática do poder tout court.

Os sociólogos até hoje haviam previsto para o futuro (nem podiam fazer outra coisa) somente dificuldades técnicas: vemos pelo contrário, através dos jovens, que as dificuldades do futuro não são de maneira alguma dificuldades técnicas, mas políticas.

Durante muitos anos fomos encantados pela sereia da técnica, seja como problema actual, seja como grande incógnita do futuro (problemas técnicos de dormir, de comer, de habitação, de ocupar os tempos livres, de usar os veículos, de fazer filhos, de envelhecer, etc. etc.), e acreditámos estupidamente que estes problemas técnicos se deviam resolver no âmbito da técnica.

A nova geração de jovens na casa dos vinte – que, nas nações “avançadas”, vive pela primeira vez, inteiramente, deste lado da bacia hidrográfica; vive, isto é, no nosso futuro – como primeiro acto quis demonstrar-nos que as soluções dos problemas técnicos são, também no futuro, políticas.

Os bons administradores que, atormentados no momento pelas oposições, se desafogavam felizes pensando no futuro como um campo puro de especialistas, ficaram a ver navios. E igualmente os intelectuais, que não esperavam que o seu pequeno poder fosse posto em causa tão cedo, e com tanta e inaudita má-educação e violência (eles, que imaginavam ser os novos jovens de vinte anos como tantos bons alunos, os melhores da turma, integrados, afáveis, eficientes, como deve ser). Mas não é por acaso que o primeiro aspecto com que os jovens se apresentam seja o aspecto do poder; que nasce de uma consciência agressiva dos próprios direitos.

E com isto pretendo dizer poder político, além de cultural, de consciência e de opinião: se não tivesse sido político, garantidamente a sua capacidade de “pressão” não teria sido tão violenta ao ponto de desencadear entre os seus pobres pais mais vulneráveis – os intelectuais – este furioso e feroz ódio recíproco de animais enjaulados.

“Tempo” n. 34 a. XXX, 20 de Agosto 1968

in Il caos, Garzanti


L'odio razziale

Nei "Cani del Sinai" (De Donato editore) Fortini fa, nel corpo del suo discorso, personale e non molto limpido, sulla guerra tra Israele e gli arabi, una osservazione: nel futuro il razzismo aumenterà di intensità e di frequenza, anziché diminuire: e ciò a causa della pressione di un potere, che essendo meno visibile e personale, non sarà però meno schiacciante: anzi, sarà così schiacciante, da frantumare e polverizzare la collettività che fa da tessuto connettivo al processo di produzione e consumo; tale polverizzazione della società in tante forme diverse, ugualmente oppresse, farà appunto moltiplicare il razzismo, perché tutte le piccole parti separate, in cui si frantumerà il mondo schiacciato, si odieranno razzialmente fra loro.

É un odio razziale difficile da immaginare.

É, in generale, difficile, anche adesso che vige con tanto furore, e noi ne siamo appena sopravvissuti, immaginare che cosa sia l'odio razziale. Esso è, in realtà, costituito da molti odi razziali, differenti e qualche volta anche contraddittori.

C'è un primo livello storico - che è rimasto quello popolare - in cui l'odio razziale è magico: e, come tale, sopravvive in ognuno di noi (che, nei nostri strati profondi, rimaniamo preistorici e popolari). Questo tipo di odio razziale è l'unico che sia abbastanza possibile immaginare, e che sia anche, in qualche modo, giustificabile, dato che precede la fase della ragione.

Le nostre "antipatie" per certi tipi di persone, il fastidio violento che ci danno certi "corpi", sono archetipi di un tale odio razziale, che proviamo, in modo sia pure monco o embrionale, e che cade quindi sotto il dominio della nostra esperienza.

Tutto il restante quadro dell'odio razziale fa parte di un fondo sociale, che una persona dotata dell'uso della ragione stenta a credere realmente esistente. In questo momento storico, mi sembra che l'odio razziale sia l'odio che prova un borghese verso un contadino: ossia l'odio che prova un uomo integrato in un tipo di civiltà moderna e cittadina, contro un uomo che rappresenta un tipo precedente di civiltà, che ancora minaccia la presenza dell'attuale: dimostrando fisicamente che un regresso è sempre possibile (socialmente). Ecco perché si odiano razzialmente i negri, in quanto poveri, e i poveri, in quanto, inevitabilmente, diversi di pelle, essendo addetti ad antichi lavori che comportano necessariamente l'aria aperta e il sole (l'effetto del sole sulla pelle sembra avere un valore decisivo nell'odio razziale di chi vive in case civili, e, se lavora la campagna, lo fa da padrone, o industrialmente).

Negri, sudeuropei, banditi sardi, arabi, andalusi, ecc...: hanno tutti in comune la colpa di avere i visi bruciati dal sole contadino, dal sole delle epoche antiche.

Ma, per tornare a Fortini, e alla sua osservazione sulla polverizzazione della società dovuta al potere e alla moltiplicazione dei razzismi, forse, nei nostri giorni - e proprio in questi ultimi giorni - qualcosa è anticipatamente caduto nel cerchio della nostra esperienza diretta.

Si è verificata, infatti, in certi strati che si ritenevano molto ben stabilizzati della società, una polverizzazione dovuta al movimento sovversivo degli studenti: si tratta di strati molto particolari: gli strati cioè delle élites intellettuali (si sa, estremamente sensibili e vulnerabili).

La pressione esercitata da un potere fino a quel punto non solo inesistente ma addirittura inimmaginabile, quello dei giovani, ha polverizzato questi strati: e ne è nata, nei vari frammenti di tale polverizzazione, una sorta di odio razziale reciproco.

É nata insomma una divisione terroristica tra "giusti" e "reprobi": che non è soltanto moralistica, e ha quindi perduto ogni rito e fair- play. No, verso il "reprobo", il giusto sente un'antipatia fisica così forte, che, benché magari suo conoscente da anni (e, fino al giorno prima, appartenente a una stessa generica cerchia sociale con analoghe idee politiche), sente quasi una sorta di repugnanza; non gli stringe la mano; lo evita; gli gira al largo; gli prepara intorno una specie di clima da linciaggio.

Lo si è visto, per esempio, recentemente, nel mondo letterario (il povero, squallido mondo letterario italiano), in occasione dei Premi: la pressione studentesca, mutuata da un certo fascismo di sinistra, ha esercitato una forte pressione (sociale e di coscienza) sulle élites culturali italiane, polverizzandole e gettandole nel caos.

Ciascuno si è trovato (come per caso, ben lontano ancora da un esauriente esame di coscienza) in una parcella alla deriva di questo caos: e ha provato un odio inaudito, una specie di schifo fisico, per i suoi avversari. Insomma la pressione di un tipo di potere nuovo, senza decisiva importanza, ancora, per il "sistema", ma assai importante, invece, per le coscienze, ha allargato il quadro dell'odio razziale verso i tipi di odio razziale nuovo.

La grande sorpresa, in tutto questo, è che il potere "schiacciante" non sia il potere costituito. Tuttavia io credo che il potere degli studenti - così come si è istituito malgrado loro - rientri nella problematica del potere tout court.

I sociologi avevano fino a oggi previsto per il futuro (né potevano far altro) soltanto delle difficoltà tecniche: vediamo invece, attraverso i giovani, che le difficoltà del futuro non sono affatto difficoltà tecniche, ma politiche.

Per molti anni siamo stati incantati dalla sirena della tecnica, sia come problema attuale, sia come grande incognita del futuro (problemi tecnici del dormire, del mangiare, dell'abitare, dell'occupare il tempo libero, dell'usare i motori, del fare figli, del divenir vecchi ecc. ecc.), e abbiamo stupidamente creduto che tali problemi tecnici si dovessero risolvere sul piano della tecnica.

La nuova generazione di ventenni - che, nelle nazioni "avanzate", vive per la prima volta, interamente, al di qua dello spartiacque; vive, cioè, nel nostro futuro - come primo atto ha voluto dimostrarci che le soluzioni dei problemi tecnici, anche nel futuro, sono politiche.

I bravi amministratori, che, tormentati, per il momento, dalle opposizioni, si sfogavano felici a pensare al futuro come un puro campo di esperti, sono rimasti con un palmo di naso. E così gli intellettuali, che non si aspettavano che il lor piccolo potere sarebbe stato messo in discussione così presto, e con tanta inaudita maleducazione e violenza (essi, che si immaginavano i nuovi ventenni come tanti primi della classe, integrati, affabili, efficienti, perbene). Ma non è un caso che il primo aspetto con cui i giovani si presentano, sia l'aspetto del potere; nascente da una coscienza aggressiva dei propri diritti.

E intendo dire proprio potere politico, oltre che culturale, di coscienza e d'opinione: se non fosse stato politico certamente la sua capacità di "pressione" non sarebbe stata così violenta da scatenare tra i loro poveri padri più vulnerabili - gli intellettuali - questo furente, feroce odio reciproco di bestie in gabbia.

Tempo n. 34 a. XXX, 20 agosto 1968

in Il caos, Garzanti

Pier Paolo Pasolini, "Os jovens infelizes"


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Tradução: João Coles


Um dos temas mais misteriosos do teatro trágico grego é a predestinação dos filhos em pagar pela culpa dos pais. Não importa se os filhos são bons, inocentes, pios: se os pais pecaram, têm de ser punidos. É o coro – um coro democrático – que se declara portador de tal verdade: e enuncia-a sem introduzi-la ou ilustrá-la, como lhe parece natural. Confesso que este tema do teatro grego sempre o aceitei como algo alheio ao meu saber, que aconteceu «algures» e «noutro tempo». Não sem alguma ingenuidade escolástica, sempre considerei este tema como absurdo e, por sua vez, ingénuo, «antropologicamente» ingénuo.

Mas mais tarde chegou o momento da minha vida em que tive de admitir pertencer, sem escapatória, à geração dos pais. Sem escapatória porque os filhos não só nasceram, não só cresceram, mas alcançaram a idade da razão e o seu destino, portanto, começa a ser inelutavelmente aquele que deve ser, tornando-se adultos.

Observei com tempo nos últimos anos estes filhos. Ao fim e ao cabo, o meu juízo, por muito que me pareça também injusto e impiedoso, é de condenação. Procurei muito compreender, fingir não compreender, contar com as excepções, esperar por alguma mudança, considerar historicamente, isto é além dos juízos subjectivos de mal e de bem, a realidade deles. Mas foi inútil. O meu sentimento é de condenação. Os sentimentos não mudam. São eles que são históricos. É isso que experienciamos, que é real (apesar de toda a insinceridade que possamos ter com nós próprios). Afinal – ou seja hoje, dias primeiros de 75 – o meu sentimento é, repito, de condenação. Mas posto que, talvez, condenação é a palavra errada (ditada, talvez, da referência inicial ao contexto linguístico do teatro grego), tenho de a especificar: mais do que uma condenação, o meu sentimento é, de facto, uma «cessação de amor»: cessação de amor que, com efeito, não dá lugar ao «ódio» mas à «condenação».

Eu tenho algo de geral, de imenso, de obscuro a reprovar aos filhos. Algo que fica aquém do verbal: que se manifestem irracionalmente, no existir, no «experienciar sentimentos». Agora, posto que eu – pai ideal – pai histórico – condeno os filhos, é natural que, por consequência, aceite de algum modo a ideia do seu castigo.

Pela primeira vez na minha vida consigo assim libertar da minha consciência, através de um mecanismo íntimo e pessoal, aquela terrível, abstracta fatalidade do coro ateniense que reitera ser natural o «castigo». Acontece que o coro, dotado de tanta imémore e profunda sabedoria, acrescentava que aquilo de que os filhos eram castigados era a «culpa dos pais».

Pois bem, não hesito nem um momento em admiti-lo; isto é, em aceitar pessoalmente tal culpa. Se eu condeno os filhos (por causa de uma cessação de amor para com eles) e portanto lhes pressuponho um castigo, não tenho dúvidas de que tudo isto acontece por minha culpa. Enquanto pai. Enquanto um dos pais. Um dos pais que não se tomaram como responsáveis, primeiro, do fascismo, depois de um regime clérico-fascista, falsamente democrático, e que, por fim, aceitaram a nova forma de poder, o poder dos consumos, a derradeira das ruínas, a ruína das ruínas.

A culpa dos pais que os filhos têm de pagar é, portanto, o «fascismo», seja nas suas formas arcaicas, seja nas suas formas inteiramente novas – novas sem equivalentes possíveis no passado? É difícil para mim admitir que a «culpa» seja esta. Talvez por razões privadas e subjectivas. Eu, pessoalmente, sempre fui antifascista, e não aceitei nunca o novo poder de que realmente falava Marx, profeticamente, no Manifesto, acreditando que falava do capitalismo do seu tempo. Quer parecer-me que há algo de conformista e demasiado lógico – ou seja, de não-histórico – ao identificar nisto a culpa.

Já ouço à minha volta o «escândalo dos pedantes» – seguido da sua chantagem – ao que estou para dizer. Já consigo ouvir os argumentos deles: é retrógrado, reaccionário, inimigo do povo que é incapaz de compreender os elementos mais dramáticos de novidade que existem nos filhos, incapaz de compreender que estes são, ainda assim, vida. Pois bem, penso eu, desde que também eu tenha direito à vida – pois, mesmo sendo pai, não é por isso que deixo de ser filho. Além do mais, para mim a vida pode manifestar-se egregiamente, por exemplo, na coragem de desvelar aos novos filhos o que realmente sinto para com eles. A vida consiste antes de mais no impertérrito exercício da razão: incerto nos partidos tomados, e muito menos no partido tomado pela vida, que é um qualquerismo [1] puro. É melhor ser inimigo do povo do que inimigo da realidade.

Os filhos que nos rodeiam, especialmente os mais jovens, os adolescentes, são quase todos eles monstros. O seu aspecto físico é quase aterrador, e quando não é aterrador é incomodamente infeliz. Pelames horríveis, cabeleiras caricaturais, carnaduras pálidas, olhos apagados. São máscaras de uma certa iniciação bárbara. Ou então são máscaras de uma integração diligente e inconsciente, que não faz ter dó.

Depois de terem erguido contra os pais barreiras destinadas a relegar os pais ao gueto, os filhos encontraram-se eles mesmos enclausurados no gueto oposto. No melhor dos casos, estão agarrados aos arames farpados desse gueto, olhando para nós, todavia homens, como mendigos desesperados, que pedem qualquer coisa apenas com o olhar, porque não têm coragem nem talvez a capacidade de falar. Estes nem nos melhores nem nos piores casos (são milhões) têm expressão alguma: só a ambiguidade feita carne. Os seus olhos em fuga, o seu pensamento perpetuamente alhures, têm demasiado respeito ou demasiado desprezo juntos, demasiada paciência ou demasiada impaciência.

Aprenderam alguma coisa a mais do que os seus coetâneos de há dez ou vinte anos atrás, mas não o suficiente. A integração não é um problema moral, a revolta codificou-se. No pior do casos, criminosos puros e duros. Quantos são estes criminosos? Na verdade, podiam ser quase todos. Não há um grupo de rapazes que se encontre pela rua que não pudesse ser um grupo de criminosos. Esses não têm luz alguma nos olhos: os traços são traços contrafeitos de autómatos, sem que nada de pessoal os caracterize vindo de dentro.

A estereotipia faz deles traiçoeiros. O silêncio deles pode preceder a um trépido pedido de ajuda (que ajuda?) ou pode preceder a uma facada. Eles não são donos dos próprios actos, quer dizer dos seus músculos. Não conhecem bem qual a distância entre causa e efeito. Regrediram – sob o aspecto exterior de uma maior educação escolástica e de uma melhor condição de vida – a uma rudez primitiva. Se por um lado falam melhor, ou seja assimilaram o degradante italiano médio – por outro lado, são quase afásicos: falam velhos dialectos incompreensíveis, ou calam-se mesmo, lançando de quando em vez gritos guturais e interjeições todas elas de carácter obsceno.

Não sabem sorrir nem rir. Sabem apenas rir com desdém ou casquinar. Nesta enorme massa (típica, sobretudo, uma vez mais!, do inerme Centro-Sul) existem elites nobres, às quais pertencem naturalmente os filhos dos meus leitores. Mas estes meus leitores não quererão afirmar que os seus filhos são rapazes felizes (desinibidos ou independentes, como acreditam e repetem certos jornalistas imbecis, comportando-se como enviados fascistas num lager). A falsa tolerância também tornou significativas, no seio da massa dos homens, as mulheres. Elas são geralmente, pessoalmente, melhores: vivem com efeito um momento de tensão, de libertação, de conquista (ainda que de modo ilusório). Mas no quadro geral a sua função termina ao ser regressiva. Uma liberdade «oferecida», com efeito, não pode vencer nelas, naturalmente, os hábitos seculares à codificação.

Claro: os grupos de jovens cultos (de resto muito mais numerosos que em tempos) são adoráveis porque dão dó. Estes, por causa de circunstâncias que para as grandes massas são até agora apenas negativas, e atrozmente negativas, são mais avançados, subtis, informados do que os grupos análogos de dez ou vinte anos atrás. Mas o que podem fazer da sua fineza e da sua cultura?

Portanto, os filhos que vemos à nossa volta são filhos «castigados»: «castigados», enquanto isso, pela sua infelicidade, e mais tarde, no futuro, quem sabe de quê, de quais hecatombes (este é o nosso sentimento, insuprimível). Mas são filhos «castigados» pelas nossas culpas, isto é, pela culpa dos pais. É justo? Era esta, na verdade, para um leitor moderno, a pergunta, sem resposta, do motivo dominante do teatro grego.

Pois bem, sim, é justo. O leitor moderno viveu uma experiência que lhe torna finalmente, e tragicamente, compreensível a afirmação - que parecia tão cegamente irracional e cruel – do coro democrático da antiga Atenas: ou seja, que os filhos têm de pagar pelos pecados dos pais. Efectivamente, os filhos que não se libertam da culpa dos pais são infelizes: e não há sinal mais decisivo e imperdoável de culpa do que a infelicidade. Seria demasiado fácil e, num sentido histórico e político, imoral, que os filhos se justificassem – naquilo há neles de feio, repelente, desumano – pelo facto de que os pais erraram. A herança paterna negativa pode dar-lhes uma justificação pela metade, mas da outra metade são eles os responsáveis. Não há filhos inocentes. Tiestes é culpado, mas também o são seus filhos. E é justo que sejam castigados também por aquela metade de culpa alheia da qual não foram capazes de se libertar.

Permanece sempre, todavia, o problema de qual é na verdade a tal «culpa» dos pais. É isto que substancialmente, ao fim e ao cabo, importa aqui. E tanto importa na medida em que, tendo provocado nos filhos uma condição tão atroz e um consequente castigo tão atroz, deve tratar-se de uma culpa gravíssima. Talvez a culpa mais grave cometida pelos pais em toda a história da humanidade. E estes pais somos nós. Coisa que nos parece incrível.

Como já aludi entretanto, devemos libertar-nos da ideia de que tal culpa se identifique com o fascismos velho ou novo, isto é, com o efectivo poder capitalista. Os filhos que hoje são tão cruelmente castigados pelo seu modo de ser (e no futuro, claro, por qualquer coisa mais objectiva e terrível), são também filhos de antifascistas e de comunistas. Portanto, fascistas e antifascistas, patrões e revolucionários, têm uma culpa em comum. Todos nós, de facto, até hoje, com um racismo inconsciente, quando falámos especificamente de pais e filhos, pensámos sempre de falar dos pais e dos filhos burgueses.

A história era a sua história. O povo, de acordo connosco, tinha uma história à parte, arcaica, na qual os filhos, simplesmente, como ensina a antropologia das velhas culturas, reencarnavam e repetiam os pais. Hoje mudou tudo: quando falamos de pais e filhos, se por pais continuamos a presumir os pais burgueses, por filhos presumimos que sejam tanto os filhos burgueses como os filhos proletários. O quadro apocalíptico que esbocei acima, dos filhos, engloba burguesia e povo.

As duas histórias, portanto, uniram-se: e é a primeira vez que isto acontece na história do homem, Tal unificação sucedeu sob o signo e por vontade da civilização do consumo: do «progresso». Não se pode dizer que em geral os antifascistas, e particularmente os comunistas, se tenham deveras oposto a uma unificação do género, cujo carácter é totalitário – pela primeira vez verdadeiramente totalitário – apesar de o seu carácter repressivo não ser arcaicamente policial (e quando muito recorre a uma falsa permissividade).

A culpa dos pais, portanto, não é apenas a violência do poder, o fascismo. Mas também: primeiramente, a remoção da consciência, por parte de nós antifascistas, do velho fascismo, termo-nos comodamente libertado da nossa profunda intimidade (Pannella) com ele (ter considerado os fascistas «os nossos irmãos parvos», como diz uma frase de Sforza relembrada por Fortini); segundo, e sobretudo, a aceitação – tão culpada quanto inconsciente – da violência degradante e dos verdadeiros, imensos genocídios do novo fascismo.

Porquê tal cumplicidade com o velho fascismo e porquê tal aceitação do novo fascismo? Porque há – e eis-nos no ponto da questão – uma ideia condutora sincera ou desonestamente comum a todos: ou seja, a ideia de que o mal maior do mundo seja a pobreza e que por isso a cultura das classes pobres deva ser substituída pela cultura da classe dominante.

Noutras palavras, a nossa culpa enquanto pais consistiria no seguinte: em acreditar que a história não é nem possa ser outra senão a história burguesa.

In Lettere luterane

1 NT: o “qualunquismo” vem associado ao movimento político Fronte dell'uomo qualunque (Frente do homem qualquer, ad litteram), que nasceu por sua vez da revista homónima publicada em Dezembro de 1944 por Guglielmo Giannini. O “qualunquismo” caracteriza-se por uma desconfiança perante as instituições, os partidos políticos, a classe política e a política em geral, que é considerada um obstáculo à autonomia e à livre escolha do indivíduo. No debate político, o termo “qualunquista” é geralmente utilizado de modo pejorativo. É uma atitude condenada por indivíduos politicamente activos na sociedade, como Pasolini, que sublinham os riscos da renúncia em participar num sistema democrático.

Pier Paolo Pasolini, "Versos do testamento"


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Tradução de João Coles


Versos do testamento

Solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter boas pernas
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
uma constipação, uma gripe ou dor de garganta; não se deve temer
ladrões ou assassinos; se calhar caminhar
durante toda a tarde ou talvez toda a noite
é preciso sabê-lo fazer sem se dar conta; sentar-se não tem lugar;
uma espécie de inverno; com o vento que sopra sobre a relva molhada,
e as pedras entre o lixo húmidas e enlameadas;
não há qualquer conforto, isso sem sombra de dúvidas,
a não ser o de ter pela frente todo o dia e toda a noite
sem deveres ou limites de qualquer natureza.
O sexo é um pretexto. Por muitos que sejam os encontros
- e mesmo no inverno, nas ruas abandonadas ao vento,
entre as pilhas de lixo encostadas aos prédios distantes,
que são muitos – não são senão momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que unge de sémen e desaparece,
mais frio e mortal é o dilecto deserto em volta;
é esse que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente, ou a turva prepotência
de quem se vai embora; ele leva atrás de si uma juventude
enormemente jovem; e nisto é desumano,
pois não deixa rasto, ou melhor, deixa só um rasto
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um rapaz nos seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
E o mundo assim chega com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que se transmuda. Todas as coisas permanecem intactas,
e tu poderás percorrer meia cidade que não voltarás a encontrá-lo;
o acto foi cumprido, a sua repetição é um rito. Portanto,
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
aguarda a sua vez: aumenta, de facto, o número de desaparecimentos -
ir-se embora é fugir – e o seguinte paira sobre o presente
como um dever, um sacrifício a cumprir pela vontade de morte.
Envelhecendo, porém, o cansaço faz-se sentir,
particularmente no momento imediato após a hora de jantar,
e para ti nada mudou: e então por um triz não gritas nem choras;
e isto seria enorme se não fosse apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, pois significaria
que o teu desejo de solidão não mais poderia satisfazer-se
e então o que te espera, se o que não é considerado solidão
é a verdadeira solidão, aquela que não consegues aceitar?
Não há jantar ou almoço ou satisfação do mundo,
que valha um passeio sem fim pelas ruas pobres
onde precisamos de ser desgraçados e fortes, irmãos dos cães.

In Trasumanar e organizzar (1971)


Versi del testamento

Solitudine: bisogna essere molto forti
per amare la solitudine; bisogna avere buone gambe
e una resistenza fuori dal comune; non si deve rischiare
raffreddore, influenza e mal di gola; non si devono temere
rapinatori o assassini; se tocca camminare
per tutto il pomeriggio o magari per tutta la sera
bisogna saperlo fare senza accorgersene; da sedersi non c’è;
specie d’inverno; col vento che tira sull’erba bagnata,
e coi pietroni tra l’immondizia umidi e fangosi;
non c’è proprio nessun conforto, su ciò non c’è dubbio,
oltre a quello di avere davanti tutto un giorno e una notte
senza doveri o limiti di qualsiasi genere.
Il sesso è un pretesto. Per quanti siano gli incontri
- e anche d’inverno, per le strade abbandonate al vento,
tra le distese d’immondizia contro i palazzi lontani,
essi sono molti – non sono che momenti della solitudine;
più caldo e vivo è il corpo gentile
che unge di seme e se ne va,
più freddo e mortale è intorno il diletto deserto;
è esso che riempie di gioia, come un vento miracoloso,
non il sorriso innocente, o la torbida prepotenza
di chi poi se ne va; egli si porta dietro una giovinezza
enormemente giovane; e in questo è disumano,
perché non lascia tracce, o meglio, lascia solo una traccia
che è sempre la stessa in tutte le stagioni.
Un ragazzo ai suoi primi amori
altro non è che la fecondità del mondo.
E’ il mondo così arriva con lui; appare e scompare,
come una forma che muta. Restano intatte tutte le cose,
e tu potrai percorrere mezza città, non lo ritroverai più;
l’atto è compiuto, la sua ripetizione è un rito. Dunque
la solitudine è ancora più grande se una folla intera
attende il suo turno: cresce infatti il numero delle sparizioni –
l’andarsene è fuggire – e il seguente incombe sul presente
come un dovere, un sacrificio da compiere alla voglia di morte.
Invecchiando, però, la stanchezza comincia a farsi sentire,
specie nel momento in cui è appena passata l’ora di cena,
e per te non è mutato niente: allora per un soffio non urli o piangi;
e ciò sarebbe enorme se non fosse appunto solo stanchezza,
e forse un po’ di fame. Enorme, perché vorrebbe dire
che il tuo desiderio di solitudine non potrebbe essere più soddisfatto
e allora cosa ti aspetta, se ciò che non è considerato solitudine
è la solitudine vera, quella che non puoi accettare?
Non c’é cena o pranzo o soddisfazione del mondo,
che valga una camminata senza fine per le strade povere
dove bisogna essere disgraziati e forti, fratelli dei cani.

In Trasumanar e organizzar (1971)

Comizi d'Amore de Pier Paolo Pasolini

1965 foi o ano da estreia do documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini. A ideia de Pasolini era bastante simples: ir com um microfone, pela Itália fora, a perguntar às pessoas, de todos os quadrantes sociais, com mais ou menos educação, jovens e velhas, como viam elas a sexualidade, o casamento, a homossexualidade, as diferenças entre gerações no que à sexualidade se refere. Porquê ver esta documentário de Pasolini em 2018? Porque nos faz pensar no que mudou e no que se mantém actual e porque é uma espécie de fresco da humanidade. Há uma primeira cena em que Pasolini pergunta a um grupo de crianças de onde chegam os bebés que contém das sequências mais hilariantes que alguma vez vi num documentário. Há um pai de família e um jovem que se pegam sobre o significado social do casamento e as prioridades que este involve. Moravia e Musatti fazem o papel de comentadores (espécie de consciências socráticas, de resto) para as conclusões a que Pasolini tenta chegar. Há um longo monólogo de Moravia, acerca do debate, então vigente em Itália, de a homossexualidade ser ou não uma aberração, a que Moravia responde com qualquer coisa como: o medo do desconhecido, a ignorância, a nossa própria infelicidade levam-nos a julgar que podemos tentar oprimir os outros, reduzindo-os aos nossos julgamentos mais limitados e essa é a aberração. Filmado em 1965, disponível por completo no YouTube (ver abaixo), Comizi d’Amore continua a ser um documentário um pouco desconhecido na filmografia de Pasolini, mas uma das alegrias do género. Há espaço para rir, chorar, e muita candura pelo meio. Fica a nota. Boa semana.