Frutos estranhos

Filho de um tempo esquinado
Fruto esquisito da árvore
Em que me vi pendurado
A arder do sul e da sarça
Não tenho bem destrinçado
Se é mal do cú ou das calças
Mas esta vida não serve

E se este não apertado
Se me fixou na garganta
Como uma ideia não deve
Disfarçar não adianta
A queda está para breve
E volta tudo ao princípio.


De Sebastião Belfort Cerqueira, Monda, Edições sempre-em-pé, 2019



Teste

Tu estavas a ver o filme
E eu estava a fazer contas

Tu estavas a ver o filme
Como eu acho que vês filmes
E eu sempre sem posição
Com um ábaco no colo
E os cálculos todos riscados

Tu a olhar prò ecrã
E eu a olhar-te para a mão
Já a faltarem-me dedos
E a querer os teus emprestados
E a tentar parecer calmo
E copiar pelo do lado
Para que não percebesses.

Tu estavas a ver o filme
E eu perdido em matemáticas
Com esperança de que no escuro
Não reparasses em mim

Enquanto olhavas para o ecrã
E aprendia a tua cara
Como se fosse na escola
E houvesse um teste no fim.



De Sebastião Belfort Cerqueira, Monda, Edições sempre-em-pé, 2019



Autores convidados em Junho

João Moita

João Moita nasceu em Alpiarça em 1984. Publicou O Vento Soprado como Sangue [Cosmorama Edições, 2009], Miasmas [Cosmorama Edições, 2010], Fome [Enfermaria 6, 2015 (1.ª ed.) e 2017 (2.ª ed. revista e aumentada)] e Uma Pedra sobre a Boca [Guerra e Paz Editores, 2019]. Traduziu, entre outros, Antonio Gamoneda, Saint-John Perse, Arthur Rimbaud e Pierre Louÿs.

Sebastião Belfort Cerqueira

Sebastião Belfort Cerqueira nasceu em 1987, em Lisboa, e levaram-no para Azeitão. Hoje vive em Setúbal. Doutorou-se em Teoria da Literatura. Publicou os livros de poesia O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-pé, 2011), EL SEGUNDO (edição de autor, 2015) e RSO&SBC (com Ramiro S. Osório, Douda Correria, 2018). Foi organizador e apresentador do ciclo de conferências Poesia no Museu, no Museu Nacional da Música. Foi considerado uma das "vozes dissonantes da novíssima poesia portuguesa" pelo Público, em 2018. Foi estivador. É tradutor. É vendedor de bolas de berlim.
O seu livro novo chama-se Monda e continua a partir do princípio de que a poesia não tem de ser pálida e infeliz.

Dois poemas de 'El Segundo' de Sebastião Belfort Cerqueira

Setembro

 Lembra-me um setembro
Uma sexta-feira
Ainda o sol mal posto
E a maré cheia
E a casa vazia
A casa inteira
A olhar pró mar
Sem razão pra isso.

Se fosse por mim
Ia a casa abaixo.

Lembra-me um setembro
Um dia qualquer
Uma vaga larga
Com ar de mulher
E a casa branca
Mais do que o jardim
Com todos lá dentro
E cara de fim
E a perguntar-me
Se fosse por mim
Se a casa ia abaixo
E eu acho que sim.

Se fosse por mim
A casa ia abaixo
E ainda pra mais
No fim dos vendavais
Do próximo setembro.

Se fosse por mim
Ia a casa abaixo
Talvez já de noite
Com todos lá dentro.

 

 

 Primeiro Poema Sobre o Mar


Houve um
Sentado na doca
A ver a maré vazar
Que primeiro me deu a ideia
De que há coisas no mar
Que há mais gente que vê.

E diz que é bom de contar
Que muita gente aprecia
E não é só marinheiros
É a aristocracia
E os fadistas e os banqueiros
Sentados e a escutar.

Parece que é truque velho
Pra vender casas e coisas
E que ainda hoje os engana
Isto de o mar ser usado.
Mas a mim pouco me importa
Que eu quando for vou armado
E levo o balde e a cana
E acabo isto sentado

Em tudo como na doca
Na doca com o outro ao lado
A ver a tarde passar.

 

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