Porque não há nota de segunda-feira esta semana

Os dez leitores que seguem este blog terão reparado que mantemos uma rubrica chamada “Notas de segunda-feira”. O que essa rubrica é suposto ser ao certo ainda estamos a tentar descobrir, mas a ideia geral é que todas as semanas um dos editores escreve uma nota mais ou menos leviana sobre o seu fim-de-semana, ou sobre algo que o captivou recentemente. Esta semana calhava-me a mim escrever a nota semanal. Este texto serve para justificar porque não o fiz.

Eu até que estava bem lançado. Tinha duas ideias para o texto, planeava escrevê-lo no sábado, deixá-lo repousar, lê-lo no domingo, descobrir que aquilo era uma parvoíce pegada e escrever outro em nada melhor, e corrigir os muitos erros e gralhas na terça, depois de os demais editores da Enfermaria me darem na cabeça. Este é o método de escrita que apurei nos últimos tempos, e acho-o extremamente eficiente. Mas algo inesperado e totalmente fora do meu controlo tomou conta do meu fim-de-semana e arrumou o meu cuidado plano na gaveta do esquecimento. Mas já lá chegamos.

 

Tópico 1 para a nota de segunda-feira que não chegou a ser escrita: Succession (2018)

A minha primeira ideia era escrever sobre a série Succession, https://www.imdb.com/title/tt7660850/?ref_=nv_sr_1). Acabei de ver a primeira temporada esta semana, e é soberba. Criada por Jesse Armstrong, um dos argumentistas de Thick of it, uma das minhas séries preferidas dos últimos anos, tem em comum com esta o humor negro e a arte de bem praguejar. É uma espécie de King Lear moderno: o patriarca da família Roy, o poderoso CEO de uma das maiores empresas de media do mundo, um misto de Trump e Murdock e excelentemente representado por Brian Cox, celebra o seu octagésimo aniversário, e os filhos posicionam-se para o suceder. O problema é que o pai não tem a mínima vontade de se reformar. Sim, claro que é um comentário à actual situação política (i.e, Trump e acesso ao poder que dinheiro e influência compram; nas minhas notas para o texto comentei “faças o que fizeres, não uses esta expressão”), mas é também um drama profundo, extremamente bem escrito, e com actores que certamente vão ganhar prémios a torto e a direito. Fui lá ter através deste texto na The New Yorker, que é muito melhor do que o meu texto seria: https://www.newyorker.com/culture/on-television/succession-reviewed-an-irresistible-family-power-struggle-told-through-soap-and-satire

 

Tópico 2: Sweet Tooth (2009-2012), de Jeff Lemire

Sweet tooth.jpg

Jeff Lemire (n. 1976) é um escritor e desenhador de banda-desenhada canadiano e, desde que li a graphic novel[1]Essex County, no princípio deste ano, que estou apaixonado pelo seu trabalho. Essex County é uma colecção de contos em torno de uma comunidade rural no Canadá. As histórias são minimalistas e contidas, bem como o registo gráfico, interligadas de formas nem sempre óbvias. É talvez o livro mais comovente que li no último ano. Mas não era sobre esse livro que queria escrever, mas sobre a colecção Sweet Tooth, que Lemire escreveu e desenhou, e que foi publicada entre 2009 e 2012. Descrita pelo autor como “Mad Max meets Bambi” (com claras influências de The Road, de Cormack McCarthy), conta a história de um rapaz “híbrido” (a imagem da capa é elucidativa), que tenta sobreviver num mundo em que uma peste incurável e inexplicável dizimou a maior parte da humanidade, e os sobreviventes vivem atormentados pela certeza de que é apenas uma questão de tempo até que também eles contraiam a doença. Uma leitura ligeira, portanto.

 

Os meus amigos sabem do meu “interesse excessivo” por um género de videojogo genericamente denominado RPG (não me vou alargar aqui sobre a definição do género, algo fluída; direi apenas que estes jogos costumam conter uma série de elementos em comum: o jogador controla uma personagem ou um grupo de personagens, através de uma narrativa complexa, as personagens evolvem ao longo do jogo, adquirem novas capacidades e características, que alteram a forma como podem interagir com o mundo). Depois de me ouvirem discorrer durante cinco minutos sobre os méritos artísticos de jogos como The Witcher 3 ou Persona 4, eles tendem a dizer, com visível curiosidade: Não te vais pôr a falar sobre jogos de computador outra vez, pois não? O que eu tomo por sinal de interesse, e prossigo, expondo as razões porque prefiro The Witcher 3 a Fallout 4 (pace João Bosco da Silva), ou o que torna Persona 4 tão especial – o Persona 5 é excelente, e muito melhor tecnicamente, mas falha em fazer-nos sentir em casa e ligar-nos ao mundo da narrativa, como o Persona 4 faz tão bem…

Chegamos então ao ponto em que os meus planos de fim-de-semana foram deitados borda fora, como um pirata insubordinado lançado para um mar infestado de tubarões. Aconteceu-me isto:

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Não vou abusar da paciência dos leitores da Enfermaria. Direi apenas que Divinity: Original Sin 2 é um RPG excelente. Tem uma qualidade de escrita, tanto nas missões principais como nas missões secundárias, como não via desde The Witcher 3. O combate por turnos, de alta complexidade táctica à la X-Com, é fantástico, e encoraja a criatividade: por exemplo, hoje descobri que, se congelasse o solo sob o qual está um inimigo a sangrar, é possível que ele escorregue no seu próprio sangue congelado e perca a vez. É um jogo de uma audácia rara em termos do nível de agência que confia ao jogador: o jogador não gosta de uma personagem central e decide matá-la por capricho? Muito bem, o jogo permite fazê-lo, e foi concebido de maneira a que fosse possível a narrativa continuar, apesar de uma peça essencial estar em falta. Poderia continuar a discorrer sobre os méritos do jogo, mas não o vou fazer – quero antes ir limpar o sebo ao Bispo Alexandar.

 

Isto vem totalmente a despropósito, mas reli o Four Quartets este fim-de-semana. É ainda mais belo do que me lembrava.

 

Para acabar o post com uma mensagem positiva: aos dois leitores com menos de quarenta anos que lêem o blog eu digo: jovens, digam não às drogas e vão jogar Divinity: Original Sin 2. Ou ver Succession. Ou ler os livros acima mencionados. Ou simplesmente ler bons livros. Sim, isso é capaz de ser o melhor.


[1] Qual a tradução correcta de graphic novel? Romance gráfico?

Sensible Soccer

em memória de Armando Moreira

1

o jogo não corria de feição ao Milan
que tinha
até aqui
limpado todas as equipas da competição
Papin
a debater-se com um surto de infecção existencial
teve de ser substituído a meio
da segunda parte
foi este o jogo
em que Van Basten bateu
o recorde mundial
de bolas ao poste
quarenta e duas
e no final levou para casa
um dos postes como prémio
e Grobbelaar
Bruce Grobbelaar
louvado seja o seu nome
fez milagres que chegassem
para duas santificações
uma apoteose
e um Ballon d’Or

mas as coisas iam piorar

já perto do final
Whelan
até então condenado a tarefas defensivas
rouba a bola no lado esquerdo do meio campo
indromina Donadoni com uma finta de corpo
sprinta pela ala acima como um homem
perseguido por uma tribo de canibais
e tenta um cruzamento desesperado
perante a aproximação de Tassotti

a bola desenha no ar uma banana tão perfeita
que deixou a defesa a salivar
e encontra a cabeça de Ian Rush
que não quis que Whelan fosse o único
a desafiar as leis da física
lançou-se do limiar da área
sobrevoou Baresi
e só parou no fundo da baliza de Rossi
juntamente com a bola

Milan 0     –     Liverpool 1
                        I. Rush 83’

 

2

temos o mesmo nome
não era porreiro se eu fizesse a música
do vosso próximo jogo?
terá dito Captain Sensible
vocês sabem
dos The Damned
a Jon Hare da Sensible Software
então não era?
e em quanto é que isso nos ficaria?

uma pint e não se fala mais nisso

bebeu-se a pint
apertos de mão
votos de solidariedade artística
e na mesma tarde apareceu a música
que acompanhava o ecrã de abertura
da primeira versão de Sensible Soccer
1992
uma obra prima
maculada apenas
pela inutilidade dos guarda-redes

como bom punk
Captain Sensible
vocês sabem
dos Punk Floyd
não acreditava em assinar contratos
por isso
nenhum contrato foi assinado

passados meses
toca o telefone
vocês estão a usar uma música
do Captain Sensible

vocês sabem
dos Dead Men Walking
no vosso jogo?
nós temos os direitos
para toda a música que ele fez
fará
ou pensar em fazer
e agradecíamos que nos pagassem
uma pipa de massa


a brincadeira custou £10 000

uma dura lição
comentou Hare mais tarde
recordando o episódio
depois disso tivemos de remover a música
deixou de ter significado para nós

 

3

ele guardava caixas de disquetes
cheias de repetições
passava horas
a analisar lances
frame por frame
nessa tarde mostrou-nos como era possível
marcar golos
do pontapé de saída[i]
as formas mais eficientes
de marcar de canto
e como as defender
o que vocês querem
é encher o meio campo
[ii]
não deixar espaço para construir
e usar os jogadores mais rápidos nas alas

mandamentos
que ainda hoje
faço por seguir

 

4

ao anoitecer
chegou uma mulher
jovem loira
inadequadamente elegante
no seu vestido azul
Armando
não íamos sair?


a família vivia longe
raramente estava reunida
e ele era encantador

foi assim que aquela mulher tão bela
acabou com um avental
sobre o vestido azul
e nós
jogámos
Sensible Soccer
até ao ano seguinte

 

5

os guarda-redes da versão original
eram os mais incompetentes
da história do futebol digital
um jogo que acaba 8-5
não é verdadeiramente um jogo de futebol

mas quão fiel precisa de ser uma caricatura?

tudo começou como uma piada

a ideia era transpor a leveza
da alegre carnificina de Cannon Fodder
para o belo jogo

os bonecos corriam a 50Km/h
saltavam 20m para cabecear a bola
e dando uma guinada depois do remate
era possível alterar consideravelmente
a trajectória da bola
perdemos a conta
aos joysticks
que isto nos custou

mas o número de equipas era soberbo
os planteis exactos
o detalhe táctico
nunca visto num jogo
e a imaginação da infância
complementava
a indeterminação dos pixels

comecei a ver futebol
à procura de vestígios
que legitimassem a caricatura
o amor pela imitação
antecedendo
o amor
pela coisa real
ainda hoje não estou certo
de que seja possível
amar
coisas reais
mas o meu amor por futebol
permanece inabalável

mais tarde em 92 saiu uma versão
com uma série de melhoramentos
passou a haver cartões
o árbitro aparecia no campo
mas de longe o mais importante
era os guarda-redes agora
conseguirem fazer uma defesa

foi esta a versão que jogámos naquela noite

 

6

a equipa italiana fez de tudo
para conseguir pelo menos o empate
nos minutos finais
bolas longas para um ataque reforçado
o coração como um comboio
quando o boneco
que acreditávamos possuir
o talento e força de Ruud Gullit
remata à entrada da área
mas Grobbelaar
          louvado seja
          ele e os programadores
          que consertaram os guarda-redes
garantiu a vitória
para a equipa de Liverpool

todos os presentes me aplaudiam
e era bem para lá
da minha hora de deitar

não sabia então
que tinha acabado de alcançar
demasiado cedo
o apogeu da minha carreira desportiva

nem que essa noite
em que lhe ganhei um jogo
de Sensible Soccer
seria a última vez
que o víamos


[i] o truque era mandar um balão
de um sítio exacto do meio campo
usando o círculo central como referência
só com um pouco de efeito
de maneira a que a bola
acertasse no poste da baliza
e ficasse no interior da área
se o timing fosse o correcto
o avançado que deu o pontapé de partida
chegava a tempo de ganhar o ressalto
e marcar

[ii] a superioridade do 3-5-2
é ainda hoje consensual
entre os estudiosos